(isso sempre acontece) Quando falamos família II
“Nosso amor é como um jogo de dados/ Nada abolirá nosso caso”
(algum ditado chinês, ou um verso de um poeta da França, ou uma música do Júlio Barroso)
Eu não tenho paciência pra jogar qualquer coisa que seja. Nem jogos de romances, nem jogos coa vida, nem tipo nenhum de jogo. Lembro quando meu irmão me convidava pra jogar xadrez e, porra, eu não tenho a calma necessária nem pra jogar sinuca, como vou ter pra jogar isso daí. Por isso que não jogo, nunca tive a manha de estudar tacadas. Nunca fui bom em estudar porcaria nenhuma. Quando eu era criança, minha mãe fazia eu me trancar no quarto e ficar estudando nos dias antes das provas. “Se tu estudasse todos os dias um pouquinho, não precisarias fazer isso”, ela dizia.
Só que eu simplesmente não conseguia, lia aquelas merdas em quinze minutos, não aprendia porra nenhuma, e não dava pra ler de novo. Daí eu saía do quarto e falava que tinha acabado, ela não acreditava e mandava eu voltar. Ficava as tardes inteiras enrolando, abria o caderno e tentava desenhar as coisas que eu via nos gibis ou inventar personagens, mas eu também não sabia desenhar, foi assim que eu comecei a escrever poemas. Poemas horríveis, porque eu nem nunca tinha lido poesia na minha vida. Mas eu escrevia várias, um bocado delas, não sei como isso me surgiu, só sei que de uma hora pra outra eu peguei uma folha em branco, botei em cima do conteúdo de Geografia e comecei a mandar uns versos que me vinham na cabeça. É claro que eu não guardei, teria vergonha de ler tudo aquilo, mas era só o que eu podia fazer dentro daquele quarto.
Às vezes eu escuto um bando de escritores e poetas, das mais variadas estirpes, dizendo que começaram a escrever só pra pegar umas menininhas. Eu acho mó bacana, queria dizer isso também, mas acontece que lá da onde eu venho, quase nenhuma guria dá bola (ou buceta) se tu escreve bem ou não. Eu até escrevia algumas coisas sobre umas garotas, mas não foi pra isso, nem por isso, que eu comecei a escrever. Foi só porque eu não conseguia fazer mais porra nenhuma mesmo. Não jogava jogos de tabuleiro, ou baralho, era um centroavante paradão no futebol e um jogador de taco regular, nem o melhor nem o pior, só mais um. Não sabia estudar, não sabia cantar as garotinhas, não sabia fazer porra nenhuma, então eu sentava e escrevia.
Não que eu soubesse escrever, mas isso era um negócio que só eu que fazia. Quando o assunto era papel e caneta não existia nenhum coleguinha minigalã que driblava o time todo, fazia o gol e, de sobra, mandava um beijinho pras meninas. Porra, quando eu fazia um gol, a minha reação normal era só pegar a bola na rede e tocar ela pra bem longe se o meu time estivesse ganhando, ou levá-la pro meio campo se a gente tivesse perdendo. Mas jamais comemorava, ou mandava beijinhos e piscava o olho, nunca levantava os braços, ajoelhava no campo, fazia comemorações ensaiadas ou abraçava o cara que fazia a assistência. Se ele corresse em direção pra alguma batida de mãos, eu só fazia um sinal de positivo e seguia a passos largos pra trás da linha do meio com uma cara séria, forçando ao máximo pra não rir nem dar qualquer sinal de alegria. Muito de vez em quando, eu fazia um golaço e aí não conseguia conter um riso, eu odiava quando deixava escapar um pontinho de satisfação pelos cantos da boca, ficava até um pouco envergonhado com isso.
Foi dessa maneira que eu cresci. Optando por ficar sozinho o máximo do meu tempo, bancando o durão pros outros não encherem meu saco, escrevendo ou vendo Chapolim Colorado, Cinema em Casa e Sessão da Tarde, tudo na colada. Só tive um passatempo preferido, que envolvia mais pessoas, quando cresci um pouco e conheci três coisas – vinho de garrafão, rock’n roll e foda. Aliás, o melhor dia daquela época foi quando essa tríade se uniu e eu perdi a virgindade bêbado de vinho e escutando Love Me Two Times. E foi só durante essa música mesmo, porque afinal eu vivia apenas com milhares de rápidas punhetas, mas eu segui o conselho do rocker e fui pra segunda direto e a amei duas vezes e quando acabou de tocar Break on Through, passou toda a Road House Blues e começou Light My Fire, puta que o pariu, eu já tava surpreso pra caralho com a minha performance e estabeleci como meta ir, pelo menos, até o final daquele solo de sete minutos do filho da puta Manzarek, Nunca um solo de órgão me pareceu tão longo e desnecessário quanto aquela noite. E olha que é um bocado fácil um solo de órgão manter essas duas características. Porra, isso é um puta acontecimento na vida de um garoto deslocado do interior.
Ano passado, eu tava num bar de lá e a mesma garota da ocasião passou por mim de porre e falou que ainda tinha aquela coletânea do The Doors. Pode crer, as coisas não mudaram muito pra gente, seguimos respeitando essa tríade santificada. Não que minha vida seja um ritual dionisíaco ou qualquer coisa que o valha, ela tá longe disso, mas cês sabem como é, coisa assim acontece.
Nunca quis passar pelo inferno que meu pai passa todos os dias, trabalhando pesado num negócio difícil. Ele sempre me disse “Estuda, meu filho, estuda pra não viver nesse fardo. Pra ter feriado, férias, décimo terceiro…” Eu não sabia o que era décimo terceiro, nem o que ele queria dizer com fardo, porque ele não era um milico nem nada do tipo. Mas sabia que ele devia ter razão, porque se tem uma coisa que não lhe falta é razão. Porra, meus heróis não morreram de overdose o caralho nenhum, eu não tenho uma orda de heróis, o meu herói é meu pai que tá trampando até hoje com dignidade e esforço. O meu herói é o meu único herói. O meu herói não quebra guitarras nem tenta ensinar pras pessoas que todo mundo pode ser livre, o meu herói é tudo o que eu não quero ser, mas com um puta caráter musculoso que eu vou sempre correr atrás.
O problema é que eu me culpava por saber que ele tava certo e não conseguir levar aquilo a sério, mesmo assim. Eu nunca quis a porra de um décimo terceiro. Acontece que eu também nunca desejei ser médico, professor, astronauta, bombeiro, padre, jornalista, lixeiro, ou garota do fantástico. Claro que eu fui pegando umas referências diferentes dos outros por causa disso e fiquei ainda mais deslocado. Mas eu já era a merda de uma criança que não conseguia estudar e começava a escrever nas folhas do fim do caderno e, então, meus pais brigavam comigo porque em seguida tinham que me comprar um novo. Isso que ainda faltava muito tempo para acabar o ano letivo, tudo porque eu arranquei um bocado de folhas pra fazer bobagens e não tinha mais espaço para o conteúdo de gramática. Bem, esse era o papel deles, eu não tô reclamando de nada do que meus pais fizeram. Eu não reclamo nem de mim mesmo, isso que eu tenho que aturar lady Covardia tirando sarro dentro da minha cabeça todo o santo momento. Mas um dia eu ainda acabo com ela, falta pouco preu acabar com ela.
Lá no início desse texto, citei um monte de pequenas frustrações, se é que vocês ainda se lembram, se é que vocês chegaram até aqui. Coisas como não ter a manha pra jogar sinuca (sei lá, mas eu nunca falo bilhar) e não saber desenhar. Se eu soubesse, não estaria escrevendo aqui, estaria fazendo apostas com um taco na mão ou criando uns quadrinhos. Mas eu também falei da bebida e do rock’n roll e da literatura maldita. Isso pode foder com um monte de gente, mas eu tô começando a achar que foi apenas o meu caminho natural, só me auxiliou a ser um fodido mais catedrático, algo como me mostrar uma razão pra ser assim e fazer com que eu me agarre nela com os dentes. Então, porra, que me foder que nada, essas coisas salvaram a porcaria da minha vida.
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Reaproveitando o post, agora, depois que eu acordei. Se alguém já assistiu a esse dvd (Jack Kerouac – O Rei dos Beats) me diz aí se ele é bacana. Faz tempo que tô considerando se vale a pena gastar meu escasso dinheiro nele.



