Tô bêbado e com sono e lacrimejei escondido de mim mesmo quando cheguei lá pelo final desse post q ñ acabava nunca

Novembro 7, 2009 por brunobandido

(isso sempre acontece) Quando falamos família II

“Nosso amor é como um jogo de dados/ Nada abolirá nosso caso”
(algum ditado chinês, ou um verso de um poeta da França, ou uma música do Júlio Barroso)

Eu não tenho paciência pra jogar qualquer coisa que seja. Nem jogos de romances, nem jogos coa vida, nem tipo nenhum de jogo. Lembro quando meu irmão me convidava pra jogar xadrez e, porra, eu não tenho a calma necessária nem pra jogar sinuca, como vou ter pra jogar isso daí. Por isso que não jogo, nunca tive a manha de estudar tacadas. Nunca fui bom em estudar porcaria nenhuma. Quando eu era criança, minha mãe fazia eu me trancar no quarto e ficar estudando nos dias antes das provas. “Se tu estudasse todos os dias um pouquinho, não precisarias fazer isso”, ela dizia.

Só que eu simplesmente não conseguia, lia aquelas merdas em quinze minutos, não aprendia porra nenhuma, e não dava pra ler de novo. Daí eu saía do quarto e falava que tinha acabado, ela não acreditava e mandava eu voltar. Ficava as tardes inteiras enrolando, abria o caderno e tentava desenhar as coisas que eu via nos gibis ou inventar personagens, mas eu também não sabia desenhar, foi assim que eu comecei a escrever poemas. Poemas horríveis, porque eu nem nunca tinha lido poesia na minha vida. Mas eu escrevia várias, um bocado delas, não sei como isso me surgiu, só sei que de uma hora pra outra eu peguei uma folha em branco, botei em cima do conteúdo de Geografia e comecei a mandar uns versos que me vinham na cabeça. É claro que eu não guardei, teria vergonha de ler tudo aquilo, mas era só o que eu podia fazer dentro daquele quarto.

Às vezes eu escuto um bando de escritores e poetas, das mais variadas estirpes, dizendo que começaram a escrever só pra pegar umas menininhas. Eu acho mó bacana, queria dizer isso também, mas acontece que lá da onde eu venho, quase nenhuma guria dá bola (ou buceta) se tu escreve bem ou não. Eu até escrevia algumas coisas sobre umas garotas, mas não foi pra isso, nem por isso, que eu comecei a escrever. Foi só porque eu não conseguia fazer mais porra nenhuma mesmo. Não jogava jogos de tabuleiro, ou baralho, era um centroavante paradão no futebol e um jogador de taco regular, nem o melhor nem o pior, só mais um. Não sabia estudar, não sabia cantar as garotinhas, não sabia fazer porra nenhuma, então eu sentava e escrevia.

Não que eu soubesse escrever, mas isso era um negócio que só eu que fazia. Quando o assunto era papel e caneta não existia nenhum coleguinha minigalã que driblava o time todo, fazia o gol e, de sobra, mandava um beijinho pras meninas. Porra, quando eu fazia um gol, a minha reação normal era só pegar a bola na rede e tocar ela pra bem longe se o meu time estivesse ganhando, ou levá-la pro meio campo se a gente tivesse perdendo. Mas jamais comemorava, ou mandava beijinhos e piscava o olho, nunca levantava os braços, ajoelhava no campo, fazia comemorações ensaiadas ou abraçava o cara que fazia a assistência. Se ele corresse em direção pra alguma batida de mãos, eu só fazia um sinal de positivo e seguia a passos largos pra trás da linha do meio com uma cara séria, forçando ao máximo pra não rir nem dar qualquer sinal de alegria. Muito de vez em quando, eu fazia um golaço e aí não conseguia conter um riso, eu odiava quando deixava escapar um pontinho de satisfação pelos cantos da boca, ficava até um pouco envergonhado com isso.

Foi dessa maneira que eu cresci.  Optando por ficar sozinho o máximo do meu tempo, bancando o durão pros outros não encherem meu saco, escrevendo ou vendo Chapolim Colorado, Cinema em Casa e Sessão da Tarde, tudo na colada. Só tive um passatempo preferido, que envolvia mais pessoas, quando cresci um pouco e conheci três coisas – vinho de garrafão, rock’n roll e foda. Aliás, o melhor dia daquela época foi quando essa tríade se uniu e eu perdi a virgindade bêbado de vinho e escutando Love Me Two Times. E foi só durante essa música mesmo, porque afinal eu vivia apenas com milhares de rápidas punhetas, mas eu segui o conselho do rocker e fui pra segunda direto e a amei duas vezes e quando acabou de tocar Break on Through, passou toda a Road House Blues e começou Light My Fire, puta que o pariu, eu já tava surpreso pra caralho com a minha performance e estabeleci como meta ir, pelo menos, até o final daquele solo de sete minutos do filho da puta Manzarek, Nunca um solo de órgão me pareceu tão longo e desnecessário quanto aquela noite. E olha que é um bocado fácil um solo de órgão manter essas duas características. Porra, isso é um puta acontecimento na vida de um garoto deslocado do interior.

Ano passado, eu tava num bar de lá e a mesma garota da ocasião passou por mim de porre e falou que ainda tinha aquela coletânea do The Doors. Pode crer, as coisas não mudaram muito pra gente, seguimos respeitando essa tríade santificada. Não que minha vida seja um ritual dionisíaco ou qualquer coisa que o valha, ela tá longe disso, mas cês sabem como é, coisa assim acontece.

Nunca quis passar pelo inferno que meu pai passa todos os dias, trabalhando pesado num negócio difícil. Ele sempre me disse “Estuda, meu filho, estuda pra não viver nesse fardo. Pra ter feriado, férias, décimo terceiro…” Eu não sabia o que era décimo terceiro, nem o que ele queria dizer com fardo, porque ele não era um milico nem nada do tipo. Mas sabia que ele devia ter razão, porque se tem uma coisa que não lhe falta é razão. Porra, meus heróis não morreram de overdose o caralho nenhum, eu não tenho uma orda de heróis, o meu herói é meu pai que tá trampando até hoje com dignidade e esforço. O meu herói é o meu único herói. O meu herói não quebra guitarras nem tenta ensinar pras pessoas que todo mundo pode ser livre, o meu herói é tudo o que eu não quero ser, mas com um puta caráter musculoso que eu vou sempre correr atrás.

O problema é que eu me culpava por saber que ele tava certo e não conseguir levar aquilo a sério, mesmo assim. Eu nunca quis a porra de um décimo terceiro. Acontece que eu também nunca desejei ser médico, professor, astronauta, bombeiro, padre, jornalista, lixeiro, ou garota do fantástico. Claro que eu fui pegando umas referências diferentes dos outros por causa disso e fiquei ainda mais deslocado. Mas eu já era a merda de uma criança que não conseguia estudar e começava a escrever nas folhas do fim do caderno e, então, meus pais brigavam comigo porque em seguida tinham que me comprar um novo. Isso que ainda faltava muito tempo para acabar o ano letivo, tudo porque eu arranquei um bocado de folhas pra fazer bobagens e não tinha mais espaço para o conteúdo de gramática. Bem, esse era o papel deles, eu não tô reclamando de nada do que meus pais fizeram. Eu não reclamo nem de mim mesmo, isso que eu tenho que aturar lady Covardia tirando sarro dentro da minha cabeça todo o santo momento. Mas um dia eu ainda acabo com ela, falta pouco preu acabar com ela.

Lá no início desse texto, citei um monte de pequenas frustrações, se é que vocês ainda se lembram, se é que vocês chegaram até aqui. Coisas como não ter a manha pra jogar sinuca (sei lá, mas eu nunca falo bilhar) e não saber desenhar. Se eu soubesse, não estaria escrevendo aqui, estaria fazendo apostas com um taco na mão ou criando uns quadrinhos. Mas eu também falei da bebida e do rock’n roll e da literatura maldita. Isso pode foder com um monte de gente, mas eu tô começando a achar que foi apenas o meu caminho natural, só me auxiliou a ser um fodido mais catedrático, algo como me mostrar uma razão pra ser assim e fazer com que eu me agarre nela com os dentes. Então, porra, que me foder que nada, essas coisas salvaram a porcaria da minha vida.

 

____________________________________

Reaproveitando o post, agora, depois que eu acordei. Se alguém já assistiu a esse dvd (Jack Kerouac – O Rei dos Beats) me diz aí se ele é bacana. Faz tempo que tô considerando se vale a pena gastar meu escasso dinheiro nele.

Eu tenho que parar um pouco de escrever por aqui

Novembro 6, 2009 por brunobandido

Porra, cheguei meio bêbado às seis e pouco e fiz um café e liguei a tv e fiquei assistindo, é que se eu dormisse eu não ia acordar pra ir pro campus agora. Eu tenho ficado bêbado mais fácil desde a semana passada, tem épocas que são assim, eu tomo pouca coisa mas fico bêbado, isso é bom porque eu economizo umas moedas e não preciso foder tanto o fígado com aqueles quatro martelinhos baratos de canha que eu tomo só quando eu quero me embebedar e tô sem muita grana. Parece ridículo, pode até ser, mas eu não esquento muito com isso.

E agora, ainda na tentativa de não pegar no sono, eu fiquei lendo esses meus últimos posts. Puta merda, eu tenho escrito numa frequencia meio que absurda nessa porra de blog, daí fica um monte merda, ainda mais do que o de costume. Vou parar um pouco, prometo. Diminuir o ritmo, tirar o pé do acelerador, mas só por aqui, é claro. Ontem me veio a ideia de um filme que ia ficar muito bom, puta que pariu, eu deveria entender de cinema, daí eu vendia meu baixo e meu cubo de baixo, que é bem bom, e comprava um câmera digital. Fazia uns curtas metragens só pra treinar e depois, ano que vem, antes de me mandar pra qualquer outro lugar que não seja essa cidade, eu me empenhava em gravar essa ideia de longa. E convencia o Julio Reny a fazer uma ponta e interpretar um dono de funerária meio mafioso que tá no meio da história, ele já foi ator, fez teatro e uns filmes meia boca do Giba Assis Brasil, daí ele sempre diz que isso é passado, mas eu iria ver se ele topava mesmo assim. Esse papel seria foda com ele de ator, pode crer que seria.  Parece ridículo, pode até ser, mas eu não esquento muito com isso.

___________________________________________________

 

Mais uma na onda de entrevista com atrizes pornográficas. Essa é da Mônica Santhiago, eu já tinha a visto em algum filme da butchman , mas o que eu não sabia é que ela era de Porto Alegre. Aí parece que ela foi numa locadora de vídeos especializados aqui na cidade, o dono a reconheceu e resolveu gravar uma entrevista. Esses tempos eu achei essa entrevista na web, agora eu me lembrei dela e fui assistir, porra, não sei se é porque eu tô bêbado, mas o final é engraçado pra caralho.

Tem vezes que a noite é assim

Novembro 5, 2009 por brunobandido

A garota é fã incondicional de Chico Buarque, eu mudo de assunto. Mas ela consegue achar um papo cabeça pra qualquer coisa que eu falo. Acho que se eu dissesse que eu tava com uma puta coceira no saco ela ia fazer uma ligação disso com algum baiano hippie da década de 70 que escreveu músicas maravilhosas vivendo com seus amigos, também hippies e baianos, num sítio. Até penso em testar, mas acho melhor não, ainda quero alguma coisa com a mina.  Daí eu desisto e ela segue citando.

- Falando em teatro, eu gosto muito do Michel Melamed, ele é um…

- Eu sei, do CEP 2000 ou algo assim.

- Isso! Ele se dá uns choques num espetáculo de acordo com a reação…

- Tô ligado.

- Tá mesmo?

- Sim, Regurgitofagia e tudo o mais.

- Nossa, não sabia que mais alguém conhecia essas coisas nesse fim de mundo.

- Bem, isso aqui é Porto Alegre, não é o sertão nem nada do tipo.

(Nada contra o sertão)

- É, mas é que… Quer dizer, que legal que tu gosta do Melamed.

Na verdade ninguém falou em gostar, mas tudo bem, eu já gostei de coisas muito piores pra conseguir uma garota. É que é foda né? Ah, cês devem me entender. Se eu fosse um cara bonito eu podia muito bem cagar pro lance, mas como sou o contrário disso que chamam de beleza, tenho que apelar presse tipo de estratégia de vez em quando. Tem dias que eu não tenho saco pra manter o teatrinho de um sujeito agradável, mas quando a coisa bate na necessidade, ou a fã do Melamed tem uma bela de uma bunda e já tá um pouco bêbada, a gente faz uma forcinha e tenta alguma coisa. Eu digo “tenta”, porque às vezes eu ainda banco o conhecedor de bossa nova e mesmo assim me fodo e não consigo porra nenhuma, são nesses dias que eu penso em foder coa vida de um caminhoneiro. Sacam? Pegar um BR e me jogar na frente de um carga pesada qualquer. Sério, já gostei de Paulo Coelho, de Ezra Pound, fui fã incondicional de qualquer artista que qualquer garota perguntou se eu conheço e eu disse que sim, mesmo sem nunca ter visto a obra do cara. É foda, precisa de um pouco de conhecimento e de muita paciência pra conseguir manter essas conversas, pelo menos uma foda meia boca eu deveria merecer depois disso tudo.

Mas perto de Pounds, Buarques, Velosos e Coelhos, Michel Melamed é barbada. Dele eu até tenho um livro. Sigo falando sobre coisas como “Jáinda” e fritar frigideira e em como ele une a beleza com o dadaísmo na “história de uma borboleta que se apaixonou por um soco”. Ela só diz “Genial, genial”, na verdade, se eu for analisar a conversa, parece que é ela que tá fingindo conhecer o trabalho do cara. Isso quer dizer que eu tô indo bem, bem demais pra dizer a verdade, se cada vez mais eu tenho menos saco pra esse tipo de situação, uma coisa tenho que confessar, cada vez mais eu tô melhor nisso tudo.

(É que é isso que eu acabo aprendendo em colégios ou faculdades, saber analisar, resenhar, interpretar as coisas sem nunca tê-las lido. Eu sou foda nisso, às vezes os colegas que lêem ficam putos comigo porque eu saio melhor que eles. Mas eles que nem se preocupem, vão ter os empregos dos seus sonhos e eu vou seguir nessa. Se tivesse um trabalho que fosse resumir sem ler ou copiar com palavras diferentes eu ia ganhar muita grana por aí. Vocês, críticos e espertinhos, podem dizer que o jornalismo faz exatamente isso. Mas é um leigo engano, ele copia com as mesmas palavras mesmo, e ainda paga as agências pra isso.)

Daí a garota olha no relógio, vai ao banheiro, volta e pede pra que eu a acompanhe até a sua casa, eu vou, é claro. Chegamos na porta, tasco um beijo, ela me abraça e quando eu percebo já ta dizendo preu anotar seu telefone, mas que porra é essa? “Bem, vou subir que amanhã eu tenho que acordar cedo. Mas vê se me liga hein, vamos sair pra beber outro dia de novo”. Dá outro beijo e eu fico vendo sua bela bunda subir aquelas escadas que eu tanto queria subir. Puta que o pariu, nem uma foda meia boca? Mas eu gosto do Melamed, porra, o único cara que gosta nesse fim de mundo, lembra?, sou um garoto legal, “Jáinda” e tudo o mais. Hey, sério, o Chico Buarque, ele é foda, o melhor que tem, tá me ouvindo? Construção e aquelas proparoxítonas mudaram a minha vida! Algo só comparado às mesóclises de Caetano. Hey, volta aqui, porra. Deixa eu entrar! E aqueles olhos azuis… Não adianta, ela desaparece. Merda, se as BR’s não parecessem tão longes a essa hora da manhã.

Bem que isso podia ser triste

Novembro 5, 2009 por brunobandido

É quinta-feira e isso se chama ressaca, baby, talvez pra algumas pessoas seja difícil de entender. É que a gente não acredita em inferno astral, a gente liga um blues e tá tudo pronto, sem essa de carne no ponto, a gente quer ela é bem mal passada. Como todos os contos de tristeza e os uivos só pra garantir que a gente tá vivo pra alguma matilha que insiste em andar em bando por aí. Me passa um copo que eu te dichavo no meio, posso ser o mais direto possível quando o assunto é solidão. Objetivo e sarcástico e triste, como aqueles dias em que eu cometo a cagada de olhar no espelho antes de sair de casa e saio pela rua de cabeça baixa, no compromisso de não encarar ninguém.

______________________________________________________

A abertura da série True Blood do Allan Ball, é a melhor abertura da televisão. Um blues fudido e imagens bacanas e secas do interior norte americano. E uma letra que diz mais ou menos assim, “eu não sei quem cê pensa que é mas antes da noite acabar, eu quero fazer coisas sujas com você” e “sou do tipo que fico acordado a noite inteira no seu quarto, coração doente e olhos tristes”.

O música é Jace Everett, um country blues pop rockabilly man norteamericano com cara de Rick Martin. Nem todas as músicas são boas, mas umas valem a pena.

Saca só – Bad Things- True Blood

aqui o música e sua banda -

Tarde de vagabundagem e temporal, me emociono com Bukowski, Romero e Bortolotto

Novembro 4, 2009 por brunobandido

Hoje passei uma clássica tarde vagabunda pra caralho. Primeiro eu fiquei lendo o “Fragmentos Autobiográficos” do Bukowski. É bom reler partes do Misto Quente, que foi o primeiro dele que eu li, agora eu percebo mais coisas ali, não tenho mais quinze anos afinal. Daí eu fico vendo aquela infância dele com outra percepção, se antes eu me identificava um pouco por sempre os excluídos e malucos ficarem tentando ser meus amigos só porque eu não era igual a todos os outros no meu colégio, agora eu fico vendo além daquilo, percebo como ele teve chances e foi derrubando todas elas, não se entregou a nenhuma. O Chinaski é um filho da puta, quando a gente acha que ele vai se dar bem porque acertou um home run, depois de ser humilhado pelos outros garotos da turma, ele nunca mais consegue dar uma tacada direito, todo mundo segue o odiando, mesmo que seja um ódio sem porque. Essas coisas seguem acontecendo com ele no Factótum e em todos os outros. Eu me identifico um pouco e me emociono com isso. Também fiquei chapado quando apareceram textos do Septuagenary Stew no livro, essa é uma publicação dele que eu nunca li e nem sei se já foi traduzida por aqui.

Depois eu fechei o Buck vi dois filmes, acabei de ver A Cavalgada do Proscristo, um faroeste muy bueno sobre a quadrilha do Jesse James, com David Carradine e seus irmãos. E também vi Martin, o único filme do George Romero que eu ainda não tinha visto. Esse não é sobre zumbis, é sobre um garoto que vai morar com seu tio e os dois estão convencidos de que ele é um vampiro, apesar de terem um jeito diferente de ver as coisas. O guri entra no quarto das mulheres, dá uma injeção pra elas dormirem, contem seus gritos até que o remédio faça efeito e então as corta com uma navalha para que consiga beber seu sangue. Podia ser só um filme trash, mas é um filme de mestre, a direção é sensível pra caralho mostrando o jovem Martin (que acredita ter 86 anos) deslocado, silencioso e triste pra caralho por causa da sua diferença, mas mesmo assim ele segue respeitando seus impulsos malucos.

Tudo me emocionou nessa tarde vagabunda, eu devia tá dormindo porque de noite eu vou querer sair, mas não foi bem assim que as coisas andaram. O livro do Bukowski, os filmes, eles me puxavam os olhos pra cima e eu nem posso reclamar disso, muito pelo contrário. Aí eu abro o blog aqui, vou clicando em quase todos os links da lista aí do lado pra ver se tem algo bacana pra ler hoje e, lá pelas tantas, quando eu já tava até normal, me emociono pra caralho de novo lendo um texto que o Mário Bortolotto escreveu no Atire no Dramaturgo em uma lan house de aeroporto, antes de pegar um avião, botar os fones no ouvido e escutar Lynyrd Skynyrd (que é algo que um paranóico com aviões jamais faria, afinal metade da banda morreu num acidente aéreo).

O Atire é um dos blogs que eu mais gosto de ler, porque o cara escreve bem pra caralho e atualiza quase todos os dias e porque fala de coisas que eu curto ou dá dicas de coisas que, provavelmente, eu vá curtir. Acredito um pouco nessa teoria, de que a gente só lê coisas que reforçam a nossa maneira de pensar. Até porque ela é um pouco óbvia, por que eu vou ler um blog que fala sobre o que eu não gosto?

De vez em quando até surgem umas exceções, já aconteceu de algum leitor daqui decidir comentar que discorda da maneira de ver o amor e essas coisas, ou que não acredita em nada do que eu falo e nem no que o Bukowski fala, mas não sabe porque mesmo assim entra nesse blog e lê os meus posts. Isso já aconteceu umas duas ou três vezes, mas em geral não é assim. Quem entra aqui é porque se identifica com as merdas que eu faço ou com os gibis e filmes e séries que eu comento.

Voltando ao post de hoje lá do Atire no Dramaturgo, que me emocionou pra caralho, era tudo o que eu tava querendo ler nessa semana. Há uns dois posts atrás, eu falei sobre minha noite de anteontem e sobre copos de whisky que apareciam mesmo sem eu pedir e sobre voltar pra casa bêbado e precisando do afeto de antigas garotas e que se eu tivesse crédito no celular, talvez, ligasse pra alguma delas e provavelmente me arrependeria no outro dia. Isso sempre acontece, eu sempre me arrependo, mas sempre volto a ficar bêbado e a ligar e faço tudo de novo. Eu fico me perguntando o quanto idiota é tudo isso, se não é um pouco covarde ou qualquer coisa que o valha. Daí o Bortolotto escreveu sobre algo parecido e mandou essa:

“Eu sei que os copos de whisky se materializam nas minhas mãos de uns tempos pra cá. E sei que fico louco, bêbado e carente de madrugada. E sei que ligo pra mulheres de madrugada esperando alguma espécie de afeto. E sei que me arrependo no dia seguinte. E sei que mesmo assim acho poético ficar completamente bêbado e ligar de madrugada. Isso prova que ainda tô vivo e me emocionando com verdade. Não me interessa o caminho do meio e da racionalidade. Só me interessa esse pulsar descompassado, essa embriaguez emocionada.”

Porra, aí eu percebo que é provável que eu siga fazendo essas merdas até morrer. Ele segue fazendo e não se pergunta se é idiota ou não, e entende melhor tudo isso. É claro que a embriaguez emocionada me interessa, assim como mentiras sinceras e raspas e restos, só que ainda não encaro isso com tanta naturalidade, seria bacana se um dia eu encarasse. Talvez seja uma percepção que venha com o tempo, talvez ela não me venha e eu siga socando paredes por aí. Espero que não, embora eu ainda prefira socar paredes e arrumar confusões na madrugada que me fodem pra caralho do que “seguir o caminho do meio”.

E o texto do Mário seguiu me lembrando dum monte de coisas. Me fez pensar e rir do Mickey, um personagem meu duma peça que eu tenho escrito nesses últimos dias. “Pra depois que o rock acabar” é o nome dela, e tem uma hora que o Mickey reclama com uma garota sobre como é um saco namorar com essas minas inteligentes que gostam de Caetano Veloso e o caralho. Ele tá se queixando porque diz que elas tão sempre querendo fugir da rotina do casal e reclamando que fazem a mesma coisa e culpando os caras por isso, mas que diabo de tanta coisa diferente tem pra se fazer todo o santo dia? Aí quando elas aceitam fazer um programinha normal e pegar um cinema, diz o Mickey, “querem ir ver a porra de um filme do Almodóvar”. A personagem responde que gosta do diretor e ele devolve:

“É claro que gosta, você é mulher. Só que nós, os homens de verdade, odiamos os filmes do cara. Eles deviam vir com um aviso no cartaz: Não aconselhável para homens que se garantem.”

O Mickey acha que o diretor não faz filme pra homem, tipo “Xuxa só para baixinhos, Almodóvar só para viados”. Eu não sou tão radical assim, acho que ele é um bom diretor, usa cores boas e o caralho (já falei disso aqui no blog também) mas ele simplesmente não me desperta porra nenhuma com os filmes dele. Ele não interessa o Bortolotto também, que prefere o Woody Allen, não foi ver o Anticristo e é “o caipira de Londrina que se emocionou assistindo o último Rock do Stalone”. Porra, se eu fosse de Londrina poderia dizer essa mesma frase. Sou de Jaguarão, o que pode me levar a ser considerado um belo de um caipira também, ou um “grosso” como me disse a Gabi ontem, mas um “grosso legal e um pouco sensível também”. E eu citei na semana passada por aqui o quanto aprendi com o Stalone, o quanto ele me ensinou enquanto discursava pro seu filho cuzão no sexto Rocky que o que importa na vida não é quantos socos você leva e sim quantos você agüenta levar. Que na real é discurso desde o primeiro filme da série naquela luta fudidaça em que ele perde pro Apollo e que também me emocionou quando eu era pequeno e vi o filme no Cinema em Casa.

Então se vocês ainda não leram esse último post do Atire no Dramaturgo, entrem lá e leiam, porra. Aí vocês vão sacar qual é a desse puta texto bacana que eu to falando e que  me fez escrever esse monte de coisa desconexa, que só deve ter sentido pra mim. E ainda vão ganhar de brinde uma frase foda do personagem do Dennis Quaid num filme da década de 80, que eu acho que é The Night The Lights Went Out In Geórgia. Vi essa beleza de filme, graças a um tio que é fã da gatinha (nos 80’s) Kristy McNichol e me fez olhar vários filmes em que ela atuou num fim de semana do ano passado. Esse foi o melhor que eu vi, mas tinham outros bacanas como um em que é sobre uma atriz alcoólatra e a filha (não lembro o nome dele) e Cão Branco do Samuel Fuller, que é um diretor e roteirista que curto pra caralho e tem filmes como Renegando meu sangue, um filme foda sobre um americano que sobrevive a guerra de secessão, pega raiva dos yankes e se junta aos índios Sioux, I shot Jesse James, Anjo do Mal e mais uns quantos clássicos antigos americanos.

Assim que eu acabo essa tarde de vagabundagem total, pensando na Kristy McNichol, no Jesse James, em rockeiros que morreram em acidentes de avião, no Elvis ainda não gordo e brega, no Ken Parker e na cadelinha Lily. Vai começar um temporal lá fora, espero que ele acabe até a hora deu sair pra beber, mas se continuar tudo bem, não é uma chuva que vai me fazer parar de socar a porra da parede.

Por um rock’n roll até os talos

Novembro 4, 2009 por brunobandido

Ela tava no show do Faith No More depois saiu feliz por aí.  É uma banda bacana, não daquelas que fazem a minha cabeça, mas é bacana. Lembro quando o Cabeça, que é fã do caras e nem pôde vir presse show, veio me apresentar o grupo com um cd na mão, “Bandido, saca só esses californianos malucos.” Eu brincava dizendo que “esses guris que imitam De Falla são legais até”. Ela curtiu o show e tava com um sorriso brilhante que eu não via faz tempo, é foda quando o Rock faz isso coa gente. Faz tempo que não vou a um bom show de Rock’n Roll, puta tempo mesmo, nem tô conseguindo lembrar do último, e isso é triste porque é uma coisa que faz falta na vida duma pessoa.  Nem as bandas aqui de Porto Alegre, eu não curto muito a grande maioria e as que eu curto tocam só lá de vez em quando.

E ainda tem neguinho que levanta bandeira de cidade do Rock e o caralho, Rock Gaúcho. Rock Gaúcho é a maior lenda, foi uma mentira muito bem contada que o Miranda e o Edu K inventaram lá nos anos 80. O próprio Miranda confessa isso, só perguntar a história pra ele. Claro que teve um pessoal legal, Julio Reny e a Expresso Oriente, o próprio De Falla, Replicantes, Garotos de Rua e teve o TNT e a Cascavelletes, duas bandas que podiam ser muito melhores não fossem seus vocalistas, Charles Master e Flavio Basso, pensarem que são grandes estrelas.

O pessoal entra numas de que o Júpiter Maçã (Flavio Basso) é um gênio, porra, eu não concordo em nada com isso. Os shows que eu fui dele nunca prestaram, ele é desses tipinhos que forçam a barra demais pra parecerem muy loucões, mais do que já são. E o grande problema é que ele acredita na galera que o classifica de genial. Eu só não sei que música que ele já fez que é tão genial assim? Quem diz que alguma música dele é inovadora, ou original, simplesmente, não conhece nada de Rock. Não que eu ache que as pessoas têm que fazer músicas inovadoras e originais, acho que a maioria que tenta acaba sempre fazendo uma merda, mas é que ele se diz assim.

O Wander Wildner segue sendo muito mais legal que o cara e ele nem tem pretensão disso. Tem o Yanto Laitano, eu já fui em boas apresentações dele. Essas bandas novas very indies e hypes daqui também são quase todas muy pretenciosas e pouco boas. Falta talento e sobra estilo pros guris. Acho que só aqueles caras da Pública é que são bons mesmo, embora eu não curte muito o tipo de som que eles fazem. Nunca tive nada contra a pretensão, a prepotência, ou arrogância, mas tem que ser foda pra ser assim.

A Cachorro Grande, que é a mais famosa daqui do estado (tirando a Fresno é claro, Fresno detona), pra mim só vai piorando, fazem cds cada vez mais chatos e em cada um dizem coisas como “ah, agora somos só a Cachorro Grande, não apenas um monte de influências e blablabla”, se isso é verdade, só a Cachorro Grande é uma merda. Tem tanta banda de rock assim melhor pelo Brasil afora. Acho que a Relespública do Paraná é mais bacana, Cascadura da Bahia é fudidaça, e por aí vai.

E pra quem já tá me detonando porque eu não citei Graforréia Xilarmônica, Marcelo Birck e esse pessoal todo aí, tudo bem, os caras são fodas, também não entram na minha área de gosto pessoal, mas eles são fudidos. E o Superguidis é bacana, pelo menos pra mim que nasci nos anos 90 e já escutei Pavement, Mudhoney e Nirvana. Os caras da Walverdes são bons, tem a Dam Lases Vampires pra quem é ligado num Pós Punk e tudo o mais.

Mas o que falta por aqui é show bom de rock’n roll mesmo, sem frescura, Telecaster ou Les Paul socada num Marshal a todo pano e já era. Porra, é tão simples uma coisa dessas e tão difícil de se encontrar. Não quero esse rockinho de butique pra Indie dormir. Sinto falta de ouvir uma banda que fale a minha língua, não a língua dos Strokes, do Kings of Leon e do Franz Ferdinand. Nada contra os caras, mas é que tem banda aqui que não tem por que escutar se dá pra comprar o cd de qualquer um desses e botar no som. É tudo muito festinha londrina, ou New York hype,  e eu sigo precisando de um rock’n roll de carne e osso.

que coisa bacana isso

Novembro 4, 2009 por brunobandido

e sempre quando eu não tenho nada pra fazer e tá chovendo lá fora eu gosto de colocar Lennie Tristano, acho bacana também.

mas o bacana mesmo é essa entrevita com a safadinha  Bruninha Ferraz que eu não me canso de ver. ela é tão meiga falando dessas putarias que ela gosta, coisa linda isso numa mulher.

Espero que isso daí é q seja o correto

Novembro 3, 2009 por brunobandido

“Se você me encontrar num bar/ Desatinado, falando alto coisas cruéis/ É que eu tô querendo um cantinho ali/ Ou então descolando alguém pra ir dormir”
(Cazuza)

Ontem eu saí só pra tomar uma cerveja gelada porque ainda tava de ressaca naquele calor dos infernos, aí foi chegando gente e mais gente e as doses na minha mão apareciam do nada, sei lá, eu não tinha grana e não tava pedindo porra nenhuma, mas alguém tava, fiquei bebadasso. Pra fechar cinco dias de porres consecutivos. Hoje tá foda de pensar em bebida, mas talvez de noite a coisa mude.

Eu não gosto de ficar muito bêbado, fico mais desagradável ainda, cheio de maldades na cabeça, daí procuro ficar quieto e acabo triste pra caralho. Mas sempre tem alguém que me conhece e percebe que eu tô calado há um puta tempo enquanto todo mundo conversa, daí me pergunta qual é a melhor sequencia de discos duma mesma banda de rock. Eu falo que são os Stones e digo que com Between the Buttons – Beggars Banquet  – Let It Bleed na colada não tem pra ninguém, isso que, se não me engano, antes já vinham Aftermath, o clássico The Satanic Majesties Request e o Flowers. E é claro que como eu tô em outras, só percebo bem depois que eles fizeram a pergunta pra me ver emocionado e com os olhos cheios de lágrima e tirarem um sarro.

É foda porque antes disso eu tinha falado algumas merdas com um amigo meu, merdas sobre garotas que aprontaram com conhecidos. Ele me disse, “quem gosta de pau é viado, mulher gosta é de dinheiro”, é claro que é uma generalização, mas é uma generalização bem fácil de se aceitar, cada vez mais. Ainda mais pra gente que sempre conhece alguém com um carro do ano que pega todas as garotas da nossa festa. Eu fiquei falando essas porras assim, enrolando a língua e lembrando dum personagem meu duma parada que eu ando escrevendo, na verdade sou eu esse personagem, ou quase isso. Tem uma hora que ele fala algo como

“Cara, eu vou falar com meus amigos cults e eles me acham ignorante, daí eu converso com os caras do futebol e dos filmes do Bruce Willis e eles dizem que eu sou um cult. Os comunas me julgam um neo liberalista e os de direita me tacham como mais um socialista filho da puta. Os valentões falam que eu sou um nerd e os nerds me acham um cara durão e assim vai. As garotas me usam para trairem seus namorados caretas por uma noite só e as que me agüentam por mais tempo, uma hora ou outra, me deixam e vão embora com esses mesmos magros que vão virar advogados ou funcionários públicos. Desse jeito fica fácil de saber que eu não passo de um fudido.”

È mais ou menos isso daí, é muito melhor escrito do que aí em cima, mas a ideia é essa. Essas mesmas bostas de sempre, que insistem em jogar na minha cara que eu sou um merda, que é isso que acontece com quem é alienado e tá cagando pra tudo aquilo. Ontem isso ficava cada vez mais claro e eu brigava embriagado com todos os demônios que queriam mandar o pessoal se foder, eu queria ir embora pra casa, ou só descolar um canto só meu ali no bar, mas tava física e alcoolicamente impossibilitado de caminhar. Não podia levantar dali, já tava tudo rodando naquela cadeira de merda e eu escutava um monte de papo meia boca e tentava não ouvir porra nenhuma. Sorte que o Rodrigo chegou com seu velho Corcel novo e me deu uma carona aqui pra minha baia. “Tu vai conseguir subir as escadas  né?”  É claro que eu consigo, pode ficar mais complicado, mas eu ainda consigo.

Quando cheguei fui inventar de pegar o notebook e ele vôou da minha mão, se estatelou no chão. O negócio pra botar cd tava aberto aí eu forcei pra fechar e agora ele não abre mais. Que grande cagada essa, aí eu só me deitei e esperei os minutos pra ter que levantar de novo e fiquei pensando que eu devia mesmo ter mandado todo mundo se foder. Eu chegaria mais aliviado em casa, talvez não pegasse o meu notebook pra escrever qualquer porra. Os demônios devem ter se vingado de mim. Fiquei pensando em antigas garotas e em como elas me faziam falta naquele momento, se eu tivesse crédito no meu celular talvez eu ligasse pra uma delas. Mas isso tudo foi só uma porção de bobagens na cabeça de um bêbado. Não teve vingança de demônio, eu fiz bem em ficar quieto e ainda bem que eu não tinha crédito. Espero que isso tenha sido o certo, pelo menos espero.

Novembro 2, 2009 por brunobandido

1064632
(liniers)

Dia dos Finados e eu morto de ressaca e coa carteira morta e coa geladeira vazia, lá na fronteira minha família deve ter ido ao cemitério e colocado flores em túmulos conhecidos. Lembro das vezes em que era criança e fui junto, minha mãe achava triste ver as flores artificiais em frente as lápides, dizia que as colocavam ali só pra não precisarem voltar tão cedo e nos comunicava que não queria que tomássemos essa atitude depois que ela morresse.

Lembro do feriado de Finados em que meu irmão mais novo foi pela primeira vez ao cemitério, tava eu e minha mãe caminhando pelos corredores quando ele aparece cheio de flores nas mãos porque queria fazer uma surpresa.  A gente riu e ele devolveu uma em cada lápide sem entender muito tudo aquilo. Eu também não entedia nada daquilo. De noite, antes de dormir, ele me perguntou se Deus ia castigá-lo por ter roubado as flores dos mortos. “Deixa de bobagem, tu não fez por gosto”, eu garanti.

Agora eu tô aqui jogando Grim Fandango, escutando um Luiz Melodia ou uma Nina Simone, tanto faz, lendo o Retrato de um Artista Quando Jovem Cão. Talvez hoje eu escreva o que eu tenho há um bocado de tempo na cabeça. Talvez eu coloque uma canção do Júlio Barroso no som, “Ontem a noite eu sonhei que conversava com Jack Kerouac / Ele chegava e me dizia/ “Hey man, eu renasci black e agora sou um tocador de piston”.” Mas essa música ontem me pareceu tão chata. Chata como não me parecia há dois meses atrás. Bem, ela não mudou, não é mesmo?

Zapeio o controle remoto e não passa muita coisa, num programa comentam o espetáculo de strip tease da Dita Von Tease. Li no blog do Fabio Reoli que ele foi o fotógrafo de uma entrevista que fizeram com ela e que o cara ainda tinha o convite para ir na parada, deve ter ido. Eram só 300 convidados, puta cara de sorte.  Fico pensando em como essa mulher foi dar praquele nojento do Marylin Manson. Ontem eu vi fotos de seu show num site de fofocas –

02ditaparan9veshowsp30102009

dentro da baleia a vida é tão mais fácil

Novembro 1, 2009 por brunobandido

Eu tava pensando em alguma coisa pra fazer longe de Porto Alegre nesse feriadão quente pra caralho. Ia ir pruma praia aqui perto ou sei lá, embora eu não goste muito de praias. Foi quando o meu celular tocou, era o Rodrigo me mandando ir pra janela, levantei da cama, fechei o livrinho do cummings, vesti uma camiseta do avesso e meti a cabeça pra fora do apartamento, não vi nada a não ser um Corcel 2 brecando meio que travado com um som dos Rolling Stones lá dentro. Desceram o Rodrigo e a Lu da caranga. “Aí bandido, olha só meu novo investimento. E depois tu não entende como eu consigo trabalhar todos os dias mexendo com html’s”. Ele tinha me falado que o sonho dele era ter um Corcel 2, mas eu não imaginava que ele fosse realizar tão cedo, o cara tava realmente feliz e a Lu me olhava  lá de baixo num riso vestido de comentário. “Pra que praia a gente vai?” Eu perguntei, mas ele só balançou a cabeça e disse que ninguém ia pra litoral nenhum. “A gente vai pra porra dum sítio do meu tio que morreu faz um ano e ninguém foi lá até hoje.”

Ele tinha que pegar umas coisas e arrumar outras, resolveu nos levar junto. Eu desci com a roupa do corpo e meia garrafa de conhaque que eu tinha por aqui, sentei no carro e vi que o som que rolava vinha dum toca fitas, porra, fazia mó tempo que eu não escutava música nessas fitinhas, lembrei de quando eu era criança e ganhei um walkman de natal aí eu ficava gravando as músicas dos Raimundos e dos Titãs que tocavam na rádio, o Rodrigo gravou umas direto de uns cds dele pra deixar no carro, não tem grana pra comprar um som decente agora. E ele explicava todos os detalhes da compra e do antigo dono militar aposentado e dos detalhes do veículo e a história da marca Corcel, tudo muito rápido e eu meio que prestava atenção mais na alegria do cara do que na própria conversa, uma fitinha com faixas do Rodrix, Sá e Guabiraba rodava e fazia uma ruideira maluca dentro do auto. Ficou me explicando todo os próximos passos que já tinha explicado pra Lu, mas falou que eu devia saber também pra não fazer perguntas idiotas e ele soltava palavras formando frases malucas e batia no volante e cantava Mestre Jonas tudo ao mesmo tempo e de um jeito um bocado maluco.

“Vâmo passar num Super Mercado, tu tem dinheiro aí, né? Alguma coisa tu deve ter, só pra rachar umas cevas ou uns vinhos, sei lá. Eu tenho uns salsichões, uns corações de galinha, lá tem uma armação de tijolos pra gente fazer de churrasqueira, peguei uma grelha também, e no porta malas tem um isopor cheio de gelo e algumas latas de Antártica que eu peguei da geladeira do meu vô, tudo isso. Mas antes do Super a gente vai pegar uma amiga minha, eu tô apaixonado por ela, ela é muito afudê e é linda e lê Bukowski. Guria que lê Bukowski dá de primeira, essa é uma das certezas da vida, não tem nem que enrolar ou ficar com mentirinhas, não é Lu?” E ele nem dava tempo pra ela responder, não que ela fosse responder. “Cara, ela mora ali na rua Santana, só pegar a Ipiranga aqui, vou fazer esse balãozinho no canteiro mesmo, poder não pode, mas não tem ninguém vendo, não é? O policiais não trabalham com esse calor aqui em Porto Alegre, nem os ladrões roubam com esse calor aqui em Porto Alegre. Tá vendo esse liquinho no teu pé? É que tá tudo desligado lá, se a gente não achar o disjuntor não vai ter luz elétrica.” A Lu acabou com o silêncio e fez um “O que?” e ele riu um bocado, “Calma Luciana, a minha tia me explicou onde é essa parada, a gente acha em dois toques. Mas sujeira vai ter, porra, imagina, quanto tempo sem limpar, a casa é pequena também, mas o espaço de fora é grande, tem um campinho de futebol até, não que a gente tenha alguma bola ou vá jogar, até porque vão ter quatro pessoas e duas delas são mulheres, mulheres que lêem Bukowski não costumam saber as regras de três dentro três fora, essa é uma das certezas da vida. Porra, três dentro e três fora é bacana, não é Bandido? Existia três dentro e três fora lá em Jaguarão?” E assim ele seguiu até chegar na casa da garota, falando qualquer coisa e fazendo as pernas e a direção de bateria ou qualquer coisa que o valha. Eu não falei muita coisa, só fiquei escutando e observando tudo aquilo. “Dentro da baleia é tudo tão mais fácil.”

A mina do Rodrigo era mesmo bacana e se deu bem com a Lu e comigo e com ele ainda mais. O foda é que ele não tinha avisado a garota que ia passar lá e levá-la prum sítio. Mas foram uns cinco minutos de conversa e ela saiu convencida, o Rodrigo sabe mesmo convencer uma garota, ainda mais se ela lê o velho Buck. A gente sacou isso já no mercado e na estrada enquanto o Rodrigo seguia falando merdas rápidas e mandava a garota trocar o lado das fitas e seguia contando de drogas que viu na tv durante a semana como o Felipe Dylon gordo e com dreds no cabelo dizendo que todo o artista deve estar em constante mudança, ou uma matéria do Jornal Nacional em que apareciam traficantes de crack mirins que vendiam pelas calçadas de São Paulo e guardavam a droga dentro de um gibi do TEX. Assim a gente foi até o sítio, não sem se perder, pelo menos, umas quatro vezes no caminho, quatro jovens bebendo vinho de garrafão no gargalo num velho Corcel marrom e ‘Jesus numa moto’.

Chegamos lá as nove e pouco da noite e levamos meia hora pra achar a porra do disjuntor e uma boa parte do vinho a gente já tinha acabado dentro do carro mesmo, mas tinha muito, a gente comprou muito e eu deixava o meu meio conhaque na reserva, porque uma hora ou outra, eu sabia que ia precisar dele. Aí depois demos um jeito nos tijolos que improvisamos de churrasqueira e que tavam tapados por uma altura de pasto bastante considerável e ateamos fogo naquela porra toda e ele trouxe um isopor com as carnes e tinha muita carne, a gente foi fazendo aos poucos e ficamos bebendo e comendo e conversando até as oito da manhã.

Teve uma hora em que a garota entrou pra ir ao banheiro e o Rodrigo foi atrás e ficou só eu e a Lu ali e a gente não tava muito bem um com o outro e os dois tavam torcendo pra não acontecer isso de ficar os dois sozinhos sem ninguém na volta. Eu fiquei olhando pras estrelas e abrindo outra garrafa com um velho canivete vermelho que meu pai ganhou há uns dez anos atrás quando comprou uma garrafa de Johnny Walker, o velho Johnny tá desenhado no canivete com sua bengala e sua cartola, keep walking. Aí pelo que ela falou, ela esperava que eu pedisse desculpas, o que eu podia fazer sem problema nenhum, o problema é que não iam ser tão sinceras porque eu seguiria fazendo todo aquele tipo de coisas que ela não gosta. É complicado de explicar, mas é simples, o que acontece é que as desculpas até são de verdade, o foda é que eu vou ter que seguir me desculpando sempre e uma hora ela não vai mais agüentar. “Eu já sabia que isso ia acontecer afinal, não sei nem por que é que eu tô me esquentando”, ela falou, e tinha algo de tristeza ou lamento nessa frase dela, daí se sentou no meu lado, botou um braço por cima dos meus ombros e com o outro pegou a garrafa e ficou bebendo e olhando as estrelas enquanto eu abria e fechava a faquinha do canivete.

Eles voltaram e seguimos conversando e bebendo normal e nos deitamos às oito mas só dormimos até as onze porque tava calor demais e não tinha um lugar em que o sol não nos pegasse de jeito. Assamos mais e aquecemos o que tinha sobrado e bebemos o que tinha sobrado e aí eu usei meu conhaque também, mas durou pouco porque a mina do Rodrigo me acompanhou e quando tava só eu e ele levando as coisas pro carro eu perguntei “E aí Rodrigo, a guria que lê Bukowski e bebe conhaque deu de primeira?”

Lá pelas três da tarde, ele achou uma bola murcha dentro da casa e a gente ficou fazendo um gol a gol bêbados pra caralho, só pra esperar o porre passar e ele poder dirigir com mais sobriedade na volta pra casa. Dali a pouco foi batendo aquele sentimento de finzinho do final de semana e eu falei “quem faz o próximo ganha” e ele acatou, mesmo que eu tivesse perdendo por uns dois gols de diferença. E é claro que eu fiz o último, dei um bico louco e a bola acertou um golaço no ângulo, ele brincou protestando “ô magrão, só vale colocadinha” e me sentei um pouco embaixo das traves com a língua pra fora e ela e os dentes tavam roxos por causa desses vinhos deliciosos e vagabundos que a gente toma, enquanto as garotas tavam sentadas na varanda da casa na sombra e deviam tá conversando sobre coisas que garotas conversam e sobre como Charles Bukowski é fudidaço. Por sinal, a Lu acabou de ler o “Textos Autobiográficos” dele e convenci ela a me dar a bagaça, assim não gasto cinqüenta mangos do meu futuro orçamento, já que ela leu todo mesmo, embora esse seja o tipo de livro que eu não me livro depois que acabo.

A capa dele é branca e tá sem uma mancha, fodeu, um livro de capa branca na minha mão fica todo manchado de um preto acinzentado, só não mais sujo que o Diários do Kerouac que eu tenho, nossa, esse tá sujo e nem é branco, é que eu viajei três meses no verão passado e ele era o único livro que eu tinha na mochila, aí eu li ele duas vezes e depois abria em qualquer página e lia alguns pedaços de novo, uma noite eu perdi minha mochila e o cara que me devolveu, confessou que ia roubá-la mas quando viu que eu lia Jack Kerouac achou melhor não levar. Foi um discurso bonito, mas ele deve ter devolvido mesmo porque só tinha um monte roupa suja, minha carteira de identidade e nada, infelizmente nada, de dinheiro.

Só foram uns vinte minutos pra voltar pra cidade e na ida a gente levou uma hora pra chegar lá. É que aquela história de se perder umas quatro vezes foi séria mesmo. Mas é domingo e amanhã é feriado, o que quer dizer que só terça-feira é que vai ser segunda e eu tô demolido de sono, mas acho que ainda vou pra rua hoje de noite.