Às vezes tu só tem o último gole de um Domecq, um maço úmido chegando ao final e uma garota que por enquanto te entende. Depois tu não vai ter nem isso. E até ter de novo tem que se virar de algum jeito, rodando por aí, escrevendo as angústias ou escutando a estação de rádio menos pior da cidade doar conselhos furtivos em forma de balada. E a noite vai te largando a real aos poucos, dechavando um que outro roupante, até tu perceber que mesmo assim tu te sente melhor do que todas aquelas pessoas que te sacaneiam, ao menos mais livre do que elas, e as putas e os michês e os bêbados carentes e chatos, que a qualquer momentos podem fazer alguma cagada, tão que nem urubus rondando teus últimos centavos. Aqueles que tu guardou pra pegar um ônibus e parar na frente da casa da mulher que de alguma forma incompreensível ainda te aceita.
Eu tava assim e meu destino era esse, só que no meio do caminho me deu uma puta vontade de tomar mais uma dose. Foda-se o ônibus e sua linha T9, “ei, meu chapa, me vê uma dose do conhaque mais barato que tutivéaí”. Pronto, bolsos vazios, agora nenhum vagabundo leva nada de mim a não ser minha benção. (Não que isso valha alguma coisa.) Se eu fosse pra casa dela, pobre garota, como é que ela ia me negar?, bêbado sem nenhum trocado nas mãos e longe pra caralho de qualquer lugar que eu possa chamar de casa a não ser o seu carpete verde cinzento. Melhor não fazer isso com ela, ninguém merece um bêbado na porta remoendo amores antigos e inventados. Mesmo que ela possa gostar disso uma vez que outra, mesmo que se tudo que ela quisesse naquela noite era que alguém tocasse o interfone e tascasse um ponto final naquela solidão de olhos de garota, de olhos de garoa. Mesmo assim, isso só atrasa a vidinha dela mais ainda. Daí eu sempre finjo que penso nisso tudo antes de gastar minhas moedas e, de certa forma, essa mentira me faz bem.
Caminho até em casa coa cerração no pescoço prenunciando um calor do caralho. Daí eu subo as escadas, cumprimento uns vizinhos que vão ao trabalho ou ao colégio, demoro pra abrir a última porta. Bom Dia Brasil passa na televisão, lembro dos domingos quando eu era criança e acordava cedo e assistia Siga Bem Caminhoneiro e Pesca e Cia no SBT, ficava bravo com os pescadores que devolviam aqueles peixes pro mar, os danados davam um puta de um trabalho para serem pescados, esperar o anzol ser fisgado não era nada praqueles caras que faziam força e rodavam e puxavam seus caniços com empenho e demoravam minutos imensos pra concluir o serviço, o mínimo que podiam fazer depois de tudo era levar o guerreiro pra casa e assá-lo para almoçarem felizes com suas famílias, mas não, ele era devolvido ao mar com um furo na boca e seguia pulando contente. Me perguntava quem era mais estúpido, os peixes ou aqueles pescadores, e o programa acabava e eu seguia ali, sempre esperando a hora do Pica Pau e daquele seriado em que o Hulk era apenas um bom e velho ator gigante.
Depois do jornal entra um programa de receitas, eu me atiro no colchão e reclamo do ventilador que não funciona e do bafo que tá aquela peça e torço pra dormir logo e parar de sentir tanto calor. Mas eu não consigo, penso em colocar uma música só que não quero mais levantar, fico só escutando a Ana Maria Braga ensinando a maldita de uma receita de peixe cozido. E ela me parece um bocado mais idiota do que aquele peixe.
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Se, entre os anos de 88 e 94, você era um desses caras solitários e durões que sobreviviam com o caráter de um velho cão e às vezes a bebida acabava junto com a sua grana, daí cê ia praquele lugar que sabe que vai encontrar a pessoa certa, mas dessa vez ela decidiu não aparecer e cê tava tão perdido que a única saída era voltar pra sua casa pequena e bagunçada. Naquelas noites de sábado em que mesmo que você uivasse pra lua a plenos pulmões nenhum vira lata responderia o seu convite, porra amigo, ainda assim cê era um cara de sorte. Era só ligar o radinho de pilha, sintonizar na Ipanema e escutar a vinheta Agora os caminhantes solitários terão companhia e os amantes carícia para os seus ouvidos. Entrando no ar, Rádio Cool. Era a voz do artista Julio Reny que, entre seus clássicos prefiridos tirados de cada vinil que ele roubara no passado, lia pequenos textos pra fazer o coração do ouvinte bater um pouco mais forte.
Mas peraí, naquela época cê nem sabia o que era Cool, ou estava longe demais de qualquer estação que uma madrugada de fim de semana pode oferecer? Bem, não é tanto azar assim, porque você pode revirar a internet e os sebos atrás desse livrinho fantástico que ele lançou há uns anos atrás. O nome é o mesmo, Rádio Cool, e os textos são aqueles que ele falava no calor ou no frio de madrugadas insones. Textos que carregam a chama da mais pura poesia beat. Vezes lembrando aquela ingenuidade de um Kerouac jovem, reclamando de namoradas que viraram madames ou constatando que tudo que queriam na vida é uma garota para amar e caminhar de mãos dadas, vezes tendo a audácia de nos falar verdades esquizofrenicas. Você vai arriscar? Se que aprender sobre a noite e sobre garotas que vêm com a palavra encrenca escrita em suas testas mas mesmo assim você acha que pode dar certo - espero que arrisque.
Carregue como um livro de salmos, leia quando puder, e cê vai ficar alegre ao ver que ele se encontrava numa felicidade tola, como quando a gente acorda contente porque sonhou que tava transando com alguma apresentadora gostosa da tv. E cê vai achar a melancolia mais bonita do que já é. Por que afinal, quem não vê beleza na melancolia, não deve tá lendo isso aqui agora.
E faça a sua trilha sonora. Eu fiz a minha, pra cada texto me baixa uma canção ou um músico da pesada.
Marvin Gaye ressona sensual pelos meus tímpanos depois que leio “Nada como uma mulher bem arrumada, de salto alto, com saia ou calça apertada. Nada como uma mulher desarrumada, de chinelinhos e short, fazendo a limpeza da casa. E eu adoro ambas as coisas. Mãos bem cuidadas e cabelos desalinhados. Tenho uma queda por ladies, madames e garotas de bairro.”
E um Bob Dylan me parece inevitável quando fecho os olhos depois de “A floresta atrás da rodovia incendiou, mas o pastor não viu. Ele estava encerrado em seu claustro. E só perceberia se fosse sua pequena catedral a queimar. Porque então finalmente seria a voz de Deus a se manifestar. E perto dali, o andarilho com sua guitarra soltava a voz para as montanhas e campos, para o nada, nem mesmo o latido de um cão a responder suas preces. Será que faria alguma diferença, ele ser adorado como um ídolo? O pastor e o andarilho bem que podiam ter se encontrado e se conhecido. Terem se tornado amigos, toda noite a beber vinho, conversando sobre Deus e as Canções.”
E por que não escutar um blues safado e os uivos do velho Wolf para ler “Nós somos dois loucos. Eu avisei que se fôssemos ao banho juntos… não iríamos mais parar. E contribuí para que tudo acontecesse, te embriagando com aquele vinho. Mas é que você é tão mulher com todos os teus lábios, que tiram a poesia dos meus. E então viro o animal faminto e não tenho mais palavras. Eu sou todo sacanagem. E você é a garota do meu poster da Playboy.”
E se você não leva muito à risca essa parada de trilha pro livro, pelo menos, quando chegar na página 115, tira o primeiro disco do Tom Waits da tua coleção, o Closing Times, coloca direto na faixa Ol 55 e lê isso aqui: “A chuva recém havia parado e as sombras do dia cinzento se espalhavam pelas cortinas e as curvas do teu corpo. Eu acordei de ressaca e como sempre acontece, fiz amor muito bem para aquecer a dor. E o carro me esperava na estrada molhada, enquanto toda a vida lá fora parecia dizer: paciência amor, paciência…”
Se possível, leia em voz alta, cê vai sacar dessa porra toda que eu tô falando.
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E hoje é aniversário do Thiago Couto, um puta amigo dessas bandas de Porto Alegre. É o tipo de cara que não tem medo de dizer que gosta de Lulu Santos. Daí eu pergunto qual é o nome daquela música bacana que começa com “ela me encontrou, eu tava por aí, num estado emocional tão ruim…” e ele nem sabe responder. Eu curto isso daí. E gosto de me sentar na mesma mesa que ele, embora ele não seja figura muito presente pelas madrugadas. Quando sai, a gente fica falando sempre a mesma merda, ou rasgando elogios pra baladas antigas e ele manda eu ler Camus ou procurar algum filme que ele assistiu no Intercine, enquanto eu provavelmente estava bêbado com pensamentos depreciativos sobre mim mesmo em algum lugar da cidade, e falamos sobre mulheres e sobre como a vida dele é uma merda, mas que mesmo assim ele tá disposto a encarar tudo isso. Eu faço piadas, mas se eu fosse do tipo que reza todas as noites pedindo coisas pra Deus, incluiria ele nas minhas orações. Algo assim. E a gente sempre se diverte um bocado quando o Couto tá bêbado. Hoje tem alguma festa, ou coisa do tipo, lá no apartamento do ricardo ara, e eu só espero que ele se embebede preu poder rir um pouco. Esses dias eu perguntei se ele queria a Playboy da Fernanda Young ou um L&PM pocket de presente. Ele respondeu um pocket e eu já esperava por isso de um fã ardoroso de Camus, por mais que talvez seja uma contradição. É claro que eu não tenho grana pra dar qualquer dos dois pra ele, mas se eu tivesse, ele sabe muito bem que eu daria a Playboy. Ou se eu fosse simpático e metido a engraçadinho lhe entregava um livrinho do Garfield ou do Marx, ou qualquer outra merda que a gente acha ruim mas a L&PM gosta de publicar, Luís Augusto Fischer, Claudio Moreno, ou coisa que o valha… Abração Coutera, tô na espera pra que tu apareça qualquer dia na madrugada pra me pagar umas doses.