sobre os motivos que não importavam quando ela queria ir pro pau

26/01/2012

Saca, garota, esse aqui é meu mundo e só tem duas coisas que domam meus demônios. Uma garrafa de conhaque, um filme do Jarmusch. Tu não tá nessa área. Tu não vai sair impune ao jogar cara ou coroa coa moeda que pegou do meu bolso.  Olhar tuas pernas acalma meu estado de espírito e eu posso até dizer que vou me controlar evitando atacá-las, mas nunca aposte contra o instinto de um cara quebrado, um vagabundo sem vez.  Não se baseie no crucifixo de madeira que tu me viu usar há dois anos atrás naquele verão em que a gente bebia vinho Sangue de Boi na frente daquele bar onde hoje é uma agência das Lotéricas porque o dono dele era bicheiro e foi preso. Logo as lotéricas foram parar ali. Gozado, né? Mas não se baseie em eu ter te encontrado no Van Gogh depois de ter visto A Serbian Film no Cine Mário Quintana naquele festival de cinema de horror que tem todo ano mais ou menos no inverno. Eu tava sóbrio e te falei umas coisas bonitas naquela noite. Tu continuou fumando teu L&M e descascando o esmalte velho dos dedos. Segui olhando tuas pernas que tavam de fora mesmo sendo mais ou menos inverno – eu vestia o casaco verde musgo que roubei do meu pai. Agora lembrei do dia em que tu tava enchendo pra caralho e gritando feito louca e eu quebrei tudo e tu quebrou tudo e aí saí puto pra rua procurando o bar mais próximo e tu foi pra calçada vestindo só o casaco verde musgo com o zíper fechado, devia tá uns dois graus lá fora, tuas pernas de fora, admirei a cena, olhos em chamas voz rouca coxas lindas, e te levei pra dentro e gozei de primeira e saí pra rua de novo e tu seguiu gritando da janela até eu não escutar mais. Tu sabe que eu me amarro em pernas. Fechei os olhos agora e pude ver as tuas. Mas é o que eu disse, garrafas de conhaque filmes do Jarmusch, tu não vai me ganhar na bandeira branca com pernas. E tu sabe tudo isso e eu sei que o fato de tu saber não tem a mínima importância quando tu tá puta e quer brigar. Por isso eu andava tão quieto, escutando tuas trovoadas enquanto pensava no filme de perseguição que assisti no Intercine – e eu taria assobiando Blind William McTell se soubesse assobiar.  Saca, garota, esse é o motivo e eu sei que eu ter meus motivos não quer dizer absolutamente nada quando tu calça as Havaianas e quer brincar de furacão. Fica bem.

sobre aquela voluntariosa pedicure e meu desleixo com explicações

22/01/2012

A noite tá quente e úmida. Fico escutando o Closing Time do Tom Waits – lembrando daquela garota que me falou que a palavra umidade pedia por um H. Eu não comentei nada a respeito. Ela olhou meus pés na areia e falou que podia dar um jeito nas cascas de antigas bolhas que estouraram neles. Prefiro gastar dinheiro em coisas mais produtivas, eu disse pensando em outra cerveja.
Não vou te cobrar, seu besta.
Tu quer tirar resquícios de bolhas dos meus pés por vontade própria?
Quero. Isso é estranho?
Talvez não se fôssemos amantes e tu tivesse desenvolvido um tipo bem doente de amor. Mas a gente recém se conheceu.
É, as pessoas dizem que eu sou maluca, ela disse, e eu fiquei ali, em silêncio, olhando as irregularidades embaixo dos meus pés e pensando em que tipo de amor que não é doente, afinal.

-

É nisso que eu tô pensando agora, nessa noite abafada e úmida em que escuto Closing Time. O Tom Waits cantando “Eu espero não cair de amor por você/ porque me apaixonar só me deixa triste/ bem, a música toca e você me mostra o seu coração/ Eu tomo uma cerveja e agora eu ouço você me chamando/ eu espero não cair de amor por você.”

Aquela garota não era lá muito maluca. Claro que a gente nunca sabe o quão psicopata uma pessoa pode ser até acordar amordaçado e pronto pro abate. Mas eu nunca me preocupei coessas coisas. Ofereci um gole da minha cerveja, ela sorriu e aceitou e a gente ficou conversando o resto da noite, olhando a água com os pés fincados na areia, e eu posso garantir que já conheci malucas bem mais perigosas do que aquela. E eu posso lembrar de algumas agora. E eu poderia escrever sobre elas se não fosse a falta de saco pra escrever nesse blog ultimamente, se eu precisasse dar qualquer tipo de explicação pra mim mesmo. Há tempos deixei de me preocupar com explicações. “Bem, a noite faz coisas engraçadas dentro de um homem/ Esse velho Tom tem sentimentos que você não entende”, ele canta, e tá recém na segunda faixa do disco e eu não preciso de mais nada por hoje.

sobre boxe, escrever e quadrinhos

20/01/2012

O André Barcinski escreveu sobre esse filme e fui atrás. É um dos documentários mais bacanas que já assisti sobre boxe e sobre Muhammad Ali. A história do maior pugilista do mundo contada por quem o encarou num ringue. Seus oponentes contam detalhes das lutas, da personalidade de Ali, da sua inteligência maligna dentro de um ringue e, ao mesmo tempo, do seu enorme coração. Tudo recheado com imagens fodas de arquivos. Claro que também dá pra saber da vida de outros grandes boxistas como George Cuvallo (que garante que Sonny Liston entregou sua famosa luta contra Ali), Joe Frazier (que faz um depoimento comovente de como as coisas que Ali falava antes da luta prejudicaram sua vida – e o ajudaram a vencê-lo dentro do ringue), Ron Lyle (que depois de ser preso quando jovem por homicidio, conseguiu chegar ao grande patamar dos pesos pesados e perdeu injustamente – na minha opinião – para Ali) e George Foreman, é claro.

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E isso também tá lá no blog do André Barcinski -

James Ellroy, sobre escrever/ser escritor:

“Foda-se a escola. Foda-se o trabalho duro. Foda-se essa mentira de que você está fodido e mal pago sem um diploma. Leia, assista a filmes policiais, vague por Los Angeles. Fantasie e cutuque seu nariz e conte histórias para você mesmo. (…) Seja preguiçoso. Seja indolente. Ignore a sabedoria adulta. Seja consumido pelo fogo de seu insensato auto-conhecimento.”

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E aqui, mais uma página da hq que Leo Yang e eu estamos fazendo. Ela se chama Cem Paus. O desenho é dele, por supuesto.

sobre tá bêbado, desopilar, diversão, falta de interesse e garotas intragáveis que você acaba tragando porque acabou de desencarnar e não achou luz alguma sequer

17/01/2012

excluindo todas as merdas, todas as minhas convicções vagabundas e os meus fantasmas mais tristes, deve existir um ou dois momentos que desopilam um inútil como eu. saquem que eu não tô falando de momentos de felicidade, isso é coisa pra outro tipo de gente ficar falando. tô falando de desopilar – como quando aquela garota bêbada senta no seu colo bêbado no banco de trás de um táxi rumo ao fim da madrugada e deixa você fazer de tudo ali mesmo. é, ela faz com que até sua alma se encha daquele prazer torto e sacana depois de chegar no vazio da garrafa de conhaque, um prazer que não quer mais brincar sem ir fundo. ou como quando eu caio num palco com velhos amigos e começo a tocar meus rocks e meus blues vagabundos. eu nunca fui muito de procurar diversão. eu procuro paz comigo mesmo e isso é tão inalcançável que o máximo que consigo chegar é em uma serenidade fajuta depois de bater muita cabeça por aí. eu não me divirto assistindo futebol, eu apenas assisto o meu time jogar. eu não me divirto saindo pra beber, eu apenas preciso disso, é um lance de se esconder da merda toda no canto mais escuro do bar e torcer pra que quando aquela hemorragia interna vier ela seja rápida e rasteira como um bom pistoleiro e acabe logo com isso. mas então, eu me divirto tocando meus blues e rocks vagabundos em cima de um palco. é o único lugar em que consigo me divertir, porque é o único lugar em que a diversão me interessa. é por causa do rock’n roll e de uns brothers bêbados que eu sei que essa história de diversão existe e que pelo menos em uma situação ela me atrai, mesmo que alguns versos bêbados que eu faço em casa, como quem reza, carreguem tantas angústias que mal caibam no apartamento. mas isso é outro momento. há alguns dias atrás eu tive o prazer de desopilar da merda toda e ir pro uruguai tocar minhas canções com velhos amigos. eu gosto, eles gostam, e sempre tem um pessoal desconhecido que curte nos ver em cima do palco quando eu resolvo fazer isso. então eu tô ali, cheio de fissura, pego a guitarra de alguém e mando bala – sou antipático, cago pros aplausos, não digo boa noite, nem o meu nome – a única coisa que eu falo em palco é o nome da banda, e nem me importo com o fato de eu não ter uma banda, eu apenas elejo alguns músicos amigos pra me acompanhar, alguns amigos que também se divertem e bebem em cima do palco, e digo: Nós somos a Pau de Baleia. É sempre esse mesmo nome, Pau de Baleia, antes eram outros, mas desde o dia em que eu e o  Maestro Gentilesa chegamos nesse título – após ouvirmos numa conversa que a baleia tem o maior falo do mundo – antes de se juntar mais uma vez e subir no palco de algum evento qualquer, não mudou mais. Talvez eu devesse ter uma banda. Mas não sei não. Eu sou um cara quebrado, um cantor rouco sem voz, um demônio sem vez, não curto ensaios, só plugar o instrumento ao vivo e não pensar em mais nada, os brothers que aceitaram ser a Pau de Baleia da vez nunca têm muita ideia do que vou tocar, eu não mostro os acordes direito, eles que se virem atrás da minha bebedeira e do meu tesão, até as músicas mais antigas que já viraram pequenos clássicos da nossa turma, eu tenho a manha de mudar as notas, a melodia e coisas assim. Um porra louca ranzinza triste imaturo tocando blues que falam sobre como as mulheres sempre acabam caindo fora quando se envolvem com porras loucas ranzinzas tristes imaturos. Só isso. É como ler um salmo e rir de si mesmo ao mesmo tempo. e é divertido. depois que acaba, depois do último acorde, do último soar de pratos da bateria, tudo fica na mesma merda. tudo ficou na mesma merda lá no uruguai. voltei a caminhar bêbado pelo lugar totalmente sem rumo, como um espírito que desencarnou do corpo e não viu luz nenhuma lhe ofertando o paraíso. algumas pessoas vinham falar do show, me ofereciam bebida ou outras coisas, eu aceitava ou recusava, seguia cada vez mais bêbado e mais escroto, devagar atrás de porra nenhuma, pensando que se eu tivesse quatro horas diárias pra tocar blues e rocks vagabundos com amigos, talvez não seria tão penoso caminhar devagar atrás de porra nenhuma – e as garrafas vão sumindo, olho as garotas e falo com algumas, e fico bêbado o suficiente a ponto de falar merdas escrotas pra algumas e isso ainda ter algum resultado – preu acabar morrendo na areia, acariciando um vira-lata e uma garota intragável ao mesmo tempo, sabendo que o vira-lata tem muito mais estilo do que ela, ouvindo conversas avulsas, pessoas me chamando pralguma roda escrota de violão, recusar, recusar, recusar, antipático e tímido e, principalmente, escroto, talvez um pouco arrogante, mas sem o menor motivo a não ser meus vinte e poucos anos, a não ser eu tá muito ocupado batendo um papo com meu velho companheiro de guerra, esse camarada que fala minha língua e se chama Desinteresse.

poema

06/01/2012

ando sem saco pra escrever por aqui.

mas aí vai um poema fudido da camila fraga. gosto desse tipo de poesia:

Prisões

Ele me falava sobre
estupro enquanto
olhava pras minhas
pernas.
Disse que havia
estuprado uma garota quando era
mais jovem
e tinha ido em cana
por isso.
Ele esperou alguma reação minha
mas eu só
acendi mais um cigarro
e disse
“ok”.
“Quando cheguei na cela
e me viram, disseram:
- Ah, tu é bonito
não foi um estupro.
Isso me deixou bem
puto
eu queria que arrebentassem a
minha cara
até eu
morrer”
Eu continuei quieta
olhando a fumaça do
cigarro
subindo devagar
como uma serpente
doente
no cio
Ele ainda olhava minhas
pernas
fazia muito tempo que
eu estava sozinha
eu me sentia em
cana
pedi um whisky
e perguntei:
“Quando vamos pra sua
casa?”.

duelo de babacas

30/12/2011
eu ando elaborando paraísos egoístas na minha cabeça enquanto tenho que ser caridoso. tô precisado de 7 garrafas de conhaque por semana e a mais completa solidão, talvez alguns filmes do john ford. e eu nao vou ter isso por um bom tempo e saber isso me deixa mais sozinho no meio dessa merda toda. quando sobra um tempo, assisto os episódios que me faltam nas duas temporadas completas de Louie – a combinação de piadas sobre masturbação e peido com a  melancolia de um solitário crônico criando suas filhas, ou de trepadas no instinto, ou de amigos que caem na porrada e depois voltam a andar juntos pela madrugada, ou de um velho conhecido que volta pra quebrar uma noite de bebedeira e depois dizer que vai se matar, é um bocado interessante na minha mente escrota e amargurada. escrevo notas rápidas para um DJ de rádio que criei há uns anos atrás. um DJ desses que não existem mais. DJ Sallinger é o nome dele. E se eu pudesse colocar num dial em que ele tivesse falando e mandando suas músicas, pelo menos eu ia poder brindar coa solidão e não ficar nesse jogo maluco e infantil com ela – quando moleque,  tinha essa brincadeira idiota em que a gente pegava uma bainha de faca e ficava batendo um na mão do outro com ela até ver quem não aguentava mais, quem não desistisse seria o campeão, a bainha era de couro e deixava vergões na mão da gente, uns moleques levavam a porrada e faziam um fiasco de dor e depois riam feito panacas daquilo tudo, o que dava a porrada também ria e eles voltavam a jogar taco ou falar sobre meninas, nas poucas vezes em que decidi entrar naquela porra, eu só fiquei quieto – levava a porrada, dava ela, o outro fazia seu fiasco afetado cheio de dor e dentes e gargalhadas e eu ficava quieto morrendo de dor, até pra levar porrada eu era tímido e antipático, e eu geralmente não desistia, mesmo que meu braço estivesse tremendo e eu não pudesse segurar nada coaquela mão por um bom tempo (é claro que eu escolhia a esquerda, já que sou destro e um garoto tímido apaixonado por uma coleguinha de classe e gamado naquelas atrizes gostosas dentro da televisão precisa de sua melhor mão funcionando – era um esforço meu, porque de acordo coas regras do jogo da bainha a mão que leva é a mesma que bate, e claro que eu bateria muito mais forte coa direita, mas eu não correria o risco de prejudicar meus momentos mais sagrados), então, eu vencia de canhota e voltava quieto pra casa, quando eu ficava distante o suficiente pra que os outros garotos não pudessem me ver eu começava a caminhar com passos rápidos, entrava pela porta correndo, rezando pra que meus pais não tivessem e colocava a mão embaixo da pia, ficava ali, coa água correndo e aliviando um pouco a ardência na palma da mão e me sentindo o maior idiota de todos os tempos. foi quando eu descobri que ser o vencedor não significa porra nenhuma pra mim e que perder também não. e, agora, quando de noite, eu tenho alguns segundos de descanso, eu apenas tiro a bainha da faca e chamo a solidão prum duelo de babacas. sempre dá empate. as pessoas não mudam quase nada. aqueles caras que duelavam comigo na infância seguem rindo dessas bostas e comemorando conquistas, eu sigo sendo um idiota melancólico e sozinho e tudo isso não me faz pensar em nada de mais.

bons filhos da puta II

23/12/2011

Tu parece ter preguiça de falar, mal abre a boca pra soltar as palavras e ainda tem essa voz fudida. Tu já gritou alguma vez? ela perguntou.
Uma vez teve um jogo emocionante do Inter, eu disse.
E tu gritou Gol?
Não, gritei algo como ‘Quebra ele!’ ou ‘Bate nas pernas desse filho da puta’.
Tu é cínico, ela disse, muito cínico, e teus olhos são tristes, um bêbado bochechudo de olhos tristes. Ahahahaha.
Será que valho alguma coisa no mercado negro?
Quase nada, ela falou e seguiu rindo e analisando meu silêncio enquanto eu bebia meu conhaque compulsivamente. Sabe, se tu não tivesse sempre coesse copo ao alcance da boca, e não tivesse olhado pra, no mínimo, cinco bundas que passaram por aqui e conseguisse ficar um minuto sem olhar as minhas pernas, eu diria que tu podia ser um monge ou sei lá.
Bebida, bundas e pernas. Se é assim, nunca vou ser um monge.
Tudo bem, mas faz mais sentido do que parece.
Só por que eu tô quieto?
Sei lá, tu é todo tranquilão, a gente tem amigos em comum, eu sei que teu mundo tá desabando faz um tempo, eu sei que tu é cheio de merda, e tu tá aí, quieto, olhando minhas pernas, todo tranquilão.

Ela não sabia das coisas. Não sabia que se tirasse suas pernas dali, talvez, eu arranjasse encrenca com o primeiro mala que se pendurasse na minha mesa. Mas ela achava que sabia das coisas e o que ela sabia é que tinha belas pernas. Uma mulher com belas pernas na minha frente, até certo ponto, pode se dar ao luxo de achar que sabe das coisas. Os olhos dela também eram tristes, seu sorriso era real mas quando acabava parecia ser algo muito passageiro. Como o sol que às vezes dribla as nuvens e aparece por uns cinco minutos numa tarde nublada. Merdas do tipo. Ela colocou as pernas pra baixo da mesa, o que me deixou puto por uns dois segundos, até ela começar a esfregá-las em mim.

O namorado dela chegou com uns amigos, de repente, de surpresa. Eu não sabia que ela tinha namorado. Ela fez uma cara de sacana, como se tivesse fazendo algo errado, e talvez estivesse lá dentro dela e  - a não ser as leves roçadas de pernas - ainda não tinha posto nada muito errado pra fora. Provavelmente se o cara não chegasse a história seria outra. A vida tá sempre me mostrando que eu não devo confiar em mulheres. E não é machismo. Apenas não tenho motivo pra querer confiar em homens. Se eu me envolvesse com homens, provavelmente, não confiaria neles também. O namorado parecia um cara bacana. Ela pediu licença e o abraçou e o beijou e ficou conversando com ele o os amigos. Eles pareciam ser muito engraçados. Ela ria pra burro. O namorado não olhava os olhos dela quase nunca e quando olhava parecia não perceber muita coisa. Tem gente que tem a manha de deixar a tristeza só nos olhos, tem gente que a transforma em enfeites de natal. Eu segui bebendo, olhando pra eles, pra outras bundas e pras pernas dela. Os amigos do namorado dela iam ao banheiro e trombavam na minha mesa achando que aquelas trombadas eram verdadeiros ataques à moda Pearl Harbor. Eu apenas encarava o rosto deles, dava um gole, eles desviavam o olhar. Enquanto não me convocassem pra guerra ou derrubassem a minha bebida, eu ficaria ali, intacto, como se filhos da puta também hibernassem.

um kerouac pra aliviar a ressaca / a desgraça dos santos

18/12/2011
“Ela sorriu e desceu com passinhos miúdos e a mão na saia, com aquela lentidão linda e majestosa de mulher, como uma ninféia chinesa. “Não somos nada.” “Podemos morrer amanhã” “Não somos nada.” “Você e eu.” Eu acompanho-a educadamente com a lanterna até a rua, onde chamo um táxi branco para levá-la para casa. Desde tempos imemoriais e adentrando o futuro sem fim, os homens amaram mulheres sem dizer a elas, e o senhor os amou sem dizer, e o vazio não é o vazio porque não há nada para ser esvaziado. Estás aí, Senhor estrela? – Suave é o chuviscar que perturbou minha calma…” (Tristessa, Jack Kerouac)

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A primeira vez que cruzei com o Figueroa, eu tava bebendo na frente do Bells. Ele veio me pedir uma moeda pra conseguir comprar cigarro avulso e eu recém tinha recebido um troco de um real e dei prele. Ele pegou um punhado de cartões com imagens e orações de santos católicos que ele vendia pras pessoas e me deu um, eu disse que não precisava, mas o Figueroa insistiu pra que eu pegasse. Peguei e ele caiu fora com seus passos lentos e o cuidado de quem enxerga por um olho só.

O nome dele foi uma homenagem do pai ao grande zagueiro chileno Elías Figueroa, que jogou pelo Internacional na década de 70. Alguém contou uma vez pra ele que quando o zagueiro foi apresentado à imprensa gaúcha, ele citou um poema de Pablo Neruda ao responder uma pergunta dos jornalistas (que diferença pros jogadores de hoje, não?). Enfim, o Figueroa – o dos cartões de santos – deve ter enchido o saco dessa mesma pessoa pra que ela conseguisse o poema pra ele – ela conseguiu e ele sempre andava com ele no bolso e, sempre que tinha a oportunidade, tirava aquela folha de ofício amassada e lia pras pessoas nos bares. Eu cruzei com o Figueroa mais um bocado de vezes, ele sempre me pedia uma moeda e me dava um cartão de santo. Claro que eu perdi quase todos os cartões que ele me deu, não sei se alguma vez cheguei com um deles em casa, mas o Figueroa tinha uma puta memória e sempre sabia os cartões que ele já tinha me dado e tomava o maior cuidado pra que eu não repetisse o santo.

Eu já tava há um bom tempo sem vê-lo e, há poucos dias atrás, poucos mesmo, Figueroa surgiu enquanto eu tava bebendo conhaque no Van Gogh. Ele parou na minha mesa, começou a olhar atentamente pra todos seus cartões  e disse Dos que eu tenho hoje, ainda te faltam São Lázaro, São Jorge e São Cristovão, acho que eram esses (minha memória não é certeira como a dele). Acho que eu escolhi o São Jorge. Acho que esse cartão também não voltou comigo pra casa. Ele conversou um pouco sobre o Inter, sobre o último Gre-Nal que aconteceu no ano, e aí seguiu pelas mesas, mostrando seus cartões de santos pras pessoas e pedindo algumas moedas, sempre tranqüilo pra burro. Eu nunca o vi agitado. Eu vi pessoas caçoarem dele e ele nunca demonstrou se afetar, virava os olhos, pegava os cartões de volta e seguia pra próxima mesa. Claro que ele não devia ser só isso. Os santos também devem ter olhado pro céu algum dia e perguntado ‘por que eu?’, ou coisa do tipo. O Figueroa também, provavelmente. Mas eu seguia vendo ele com a camiseta velha do colorado, as calças jeans mais sujas da cidade, os olhos vidrados e a calma implacável. Ele sempre se despedia com um Vai na paz, irmão. Ele parecia acreditar mesmo nessa coisa de paz.

Hoje o Jeferson me disse que ele morreu. De acordo com um taxista da rua da República, ele se meteu em encrenca e uns cinco ou seis filhos da puta bateram nele covardemente. Acho que o Figueroa não tinha mais do que 35 anos. O Elías Figueroa, ainda tá vivo, por sinal. Eu poderia ficar escrevendo sobre como isso é revoltante e que as pessoas são idiotas, mas que se foda, por que diabos? O Facebook já tá cheio de correntes pra quem quer esse tipo de coisa. Eu só recebi a notícia, sentei, pensei nele na calçada em frente ao Van Gogh procurando os cartões de santo que ainda não tinha me dado e resolvi escrever sobre isso. O Figueroa, infelizmente, não foi na paz. Nem a vida nem a morte se dão por merecimento, todo mundo já sabe. Mas, agora, mesmo que não tenha mais porra nenhuma, ele chegou lá. Quer coisa melhor do que porra nenhuma? (pelo menos pra mim, um radical antipático que sempre acreditou que Deus é silêncio e o paraíso é ninguém). E se tiver alguma coisa, espero que ele teja recitando Neruda e contando histórias que ouviu sobre o zagueiro Figueroa em algum boteco divino. Isso também é algo muito próximo do melhor que se pode esperar.

lançamento

17/12/2011

Nessa segunda-feira, lá em São Paulo, o Ricardo Carlaccio vai lançar o livro “Um brinde em copos de plástico”, que eu tive a honra de ‘orelhar’. Aí tá o texto:

Os bons filhos da puta ficaram pra trás. Estão eternizados em personagens melancólicos e cheios de collones nos contos anteriores de Ricardo Carlaccio. Pois, agora, o autor apresenta o seu melhor e mais ácido livro.

 “Um brinde em copos de plástico” é o submundo da cretinice brasileira sobrevivendo aos tempos – um lugar onde o caráter é apenas algo que se sabe que existe, mas ninguém faz questão de encontrá-lo. De repente uma anã travesti ou um vídeo-maker judeu até podem esbarrar com ele em algum lugar cinza da cidade, mas eles colocarão as possibilidades na manga e deixarão que drinks coloridos ditem o xeque-mate.

São personagens desse naipe que o narrador vai apresentando enquanto conta seus sucessos e declínios nessa fábrica de dinheiro e queda que bem podemos chamar Putaria. Jornais populares na maior onda “espreme que sai sangue”, livros de autoajuda plagiados, igrejas que transformam Jesus em ministério, atrizes pornôs que viram estrelas de novela, assassinos profissionais do Acre, empresários da libido e – na sacada mais bem bolada de toda a narrativa – empreendedores da ideologia fajuta chamada Gigababahair, algo muito “pior do que sexo, drogas e rock’n roll.”

Ricardo Carlaccio continua firme com seu texto direto coberto de uma aura pulp norte-americana e diálogos cínicos, incorporando agora uma crítica social que beira a tiração de sarro – o que deixa tudo mais divertido, por supuesto. Ele tem a manha de brincar com clichês de maneira sarcástica, tornando quase tátil essa galeria de excentricidades que tão escondidas por aí, entre inferninhos subterrâneos e tudo aquilo que fica por trás das revistas de fofoca.

Mas é perigoso pensar que não há bons exemplos nesse mundo criminoso e sacana. Carlaccio sabe que as pessoas são o que são e não podem fazer muito quanto a isso. O negócio é cair e se levantar enquanto ainda dá tempo de fazer o que se é capaz. Os seus personagens, por mais errantes que sejam, estão impregnados desse espírito. E tentam sobreviver à caretice dos tempos na base de porradas e broxadas. Por incrível que pareça, às vezes, quando calham de sobreviver, eles até conseguem brindar a essa conscientização maluca de seguir pagando pelos mesmos erros de sempre. Ou, como diz o autor, se divertir “fazendo da vida um boneco de vodu.”

repouso

11/12/2011

meu notebook vinha se arrastando há uns bons anos e semana passada ele morreu de verdade. eu sabia que isso ia acontecer alguma hora, mas nada que tenha feito eu salvar minhas coisas em outro lugar. perdi uma caralhada de textos, contos, poemas bêbados, filmes baixados, discos, muitos discos, fotos, esboços, peças em construção, merdas assim. e, quer saber, e daí? não consigo me importar muito com todas essas perdas, assim como eu não dou a mínima pra nenhuma vitória ou algo que eu venha a ganhar – o que é bem raro. Só sigo virando madrugadas quentes e insones assistindo os DVDs piratas da série Roma que a Gabi me gravou. Lucius Vorenus e Titus Pulo vão me mostrando que a sorte e a desgraça vivem juntas como dois amigos que sempre acabam se arrebentando um ao outro. Mas é claro que eles se reconciliam e tudo segue torto e desgraçadamente cruel.        

enquanto eu não tenho como escrever muito, sem notebook, vou postar uns negócios que eram pra sair numa edição do língua pop.fora um poema meu e outro do ricardo, um pessoal bacana mandou coisas, a gente pediu pra outros, mas eu e o ara nunca fizemos matérias pressa edição e agora ele tá lá no canadá fazendo, provavelmente, coisa muito mais interessante. então, aí vão dois por hoje:

***

UM VEZES UM
por bruno bandido

Ela me mostra as tetas pela webcam,
diz que tá calor na Virgínia e que me queria por perto
mordendo sua bunda.
Eu sempre acabo pensando que garotas assim precisam ser abraçadas
e sinto falta de abraçá-las e de imprimir meus dentes nos seus
rabos melancólicos, como impressões digitais.
Encaro os seus olhos doces malucos de quem bebe
taças de vinho depois do jantar
e ela parece contente quando digito sacanagens.
Conta sobre a empregada de sua casa que lhe abusava na infância
ou sobre caras que lhe mandam calar a boca e não dividem o cobertor.
Nenhuma mulher precisa ser discreta para chorar, eu digo
e acho que chego mais perto da sinceridade do que deveria.
O jogo começa a ficar perigoso
como palhaços de circo contando piadas no bar,
o celular de um gângster que toca no horário de almoço.
Ela pede pra ouvir minha voz
“Oi.”
Ela sempre enxerga beleza onde não há.
Enquanto isso eu sigo sozinho -
É segunda-feira de carnaval
e eu sigo sozinho.
Mas ainda posso abrir uma cerveja,
olhar suas tetas através da internet
e me controlar pra não dizer
eu te amo.

***

UMA GARAGEM NO MEIO DA NOITE
por Ricardo Carlaccio

Um dia desses eu fui moleque. Botava três luvas de inverno na mão, sacava minha bola de capotão besuntada de sebo no fundo do quintal e saía pra rua em busca de alguma coisa que eu jamais sabia o que era. Eu não sabia que todo filme que ficava registrado na minha memória era em preto e branco. Isso eu só fui sacar depois dos vinte anos, na hora  que as coisas começaram a ficar desordenadas. Até hoje eu nunca tive paciência pra colocá-las em ordem, apenas descolei uma prateleira pra que elas não ficassem espalhadas pelo chão, pra que  suportassem a minha presença sem reclamações. Pra que agüentassem meu peso de uma maneira mais delicada. Nunca pensei seriamente em usar coletes à prova de balas e tomar engov antes de uma bebedeira homérica, sinceramente nunca pensei nessas coisas. Sempre deixei  os  loucos virem em bandos  com seus diálogos desenfreados e seus códigos de conduta mais éticos que o código dos burgueses no rigor da moralidade. Lembro do seu Antônio com seu inglês fluente e uma foto três por quatro que ele fazia questão de tirar do bolso e exibí-la no meio de suas longas estórias. Sua foto  tirada há vinte anos atrás era parecida com a cara de algum beatnik  que eu tinha visto em algum livro, mais tarde descobri que era com o Kerouac que ele se parecia . Ele  pedia cigarros com sua cordialidade aristocrática e dava longos tragos que diziam o quanto eles eram sagrados. Naquele tempo eu não podia me sentir mais tranqüilo senão na hora em que tomávamos pingados e pão com mortadela na padaria do Largo do Bonfiglioli às sete da manhã. Eram conversas recheadas de ternura e aquele velho maluco era realmente capaz de escutar o canto dos passarinhos e sacar suas notas melodiosas  ao mesmo tempo que se excitava com  as coxas das garotinhas  que iam em bando praticar algum tipo de esporte. Contava sobre casos com as empregadas das casas ao redor da área  onde ele dormia e como elas facilitavam sua entrada prum sono tranqüilo dentro de uma garagem no meio da noite. O cara tinha sido abandonado pela mulher há uns quinze anos atrás  e tava ali esse tempo todo pagando algum tipo de penitência, dormindo sobre os escombros da culpa.

Alguns caras são mais ferozes e enganam os viadutos, disfarçam como mestres e de alguma maneira continuam. Outros psicóticos cometem homicídios e depois metem um crivo no meio da testa. Mas muitos caras legais vão parar debaixo da ponte por causa de uma mulher, lembram, é Chinaski. Essa epígrafe me remeteu  aquele velho que parecia o Kerouac barbudo.  E ela sempre me deu um pouco de medo, mesmo  sabendo o quanto eu sou forte e capaz de resistir aos desaforos da vida. Lembrei da bola de capotão besuntada no fundo do quintal, ali pesada de água e bicas. Meus dez anos foram geniais, mas os trinta estão aí e sinceramente eu tô achando do caralho.  As fotos em preto e branco são   realmente delicadas. O dark side pode ser lindo depois da meia noite e no meio de duas  garrafas de vinho. Eu revejo ele diariamente em suas diversas tonalidades de escuridão e descubro definitivamente que eu jamais vou caber dentro de um armário minuciosamente arrumado.


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