a vidinha vai mal mas as tempestades vão ter que agir mais um pouco p/ conseguirem me acertar em cheio

Novembro 20, 2009 por brunobandido

Se eu acreditasse naquela história de inferno astral ou nuvens negras sobre a cabeça, eu diria que tô com isso. Mas é só a vida, e ela tá uma merda nessas últimas semanas. Não se preocupem, não vou ficar reclamando por aqui, nem em nenhum lugar, foi só pra dizer que hoje mais uma merda aconteceu, merda esperada essa, só não queria que fosse hoje. Internet cortada. Tô cheio de trabalhos chatos  pra fazer e tenho outras coisas que dependo da internet, hoje em dia não dá mais pra fazer um bocado de coisas se tu não tem internet, eu digo “ah, mas eu posso ir aí pra fazer isso” e o funcionário ou seja lá o que for diz que não, só na web. Fora que eu gosto de ficar lendo blogs e essas coisas que se fazem na internet (redtube, facebook, baixar Supernatural, redtube, enfim…).

Daí eu tenho que fazer um trabalho pra hoje de noite e pensei em ir pruma lan house. Só que tem que pagar pra usar uma lan house, então essa ideia saiu rápido da minha cabeça. Inda bem que esse meu notebook, que ainda tá ná oitava de dezessete prestações e já tá todo detonado, tem aquela história de Wireless e eu moro a duas quadras de um shopping. Aí tô aqui numa praça de alimentação usando uma net de graça do Macarroni e morrendo de fome com tanta comida e um puta cheiro bom na minha volta. Mais ou menos isso daí.

Ainda chove pra caralho, a semana inteira, morreu um monte de gente pelas bandas do estado, cairam árvores, ontem um cara que tava falando comigo me contou que ficou uma hora e meia dando volta dentro de um táxi sem conseguir chegar nos lugares. Eu fiquei em casa, fazendo as merdas que eu tinha pra fazer e nem vi nada, só saí de noite quando tudo tinha dado uma cessada, mas vai e volta, assim sempre, não tô pensando muito nisso. Quero que chegue amanhã porque vou num churrasco e vou comer carne, carne mesmo, de churrasco. Se eu pudesse comia todos os dias, que nem quando morava no interior…

Vamos pedir piedade

Novembro 20, 2009 por brunobandido

Vendo o especialzinho da globo pro Cazuza. Coisa pra iniciante aquilo ali. Tem dois grandes problemas, fora os outros. Um é que todos os especiais que fazem pra ele são pautados pela mãe do cara. Porra, a gente já conhece a maioria dessas histórias, aí quando não é a mãe e o mesmo círculo de cinco pessoas, sendo que a pior delas é sempre o Pedro Bial, um tipinho que adora uma autopromoção. Imagina quantos amigos o Cazuza teve e quantas noites loucas ele quebrou com eles e quantas histórias boas que traduzem a porra louquice dele devem existir, só imaginem, porque adoram dizer que ele era amigo de todo mundo, mas quando é pra livro ou tv sempre só aparecem os cinco de sempre e as histórias também são aquelas que quem já viu qualquer reportagem de anos de morte conhece.

A outra grande merda é que é da Globo, a gente não pode esperar muito dela, não é mesmo? Fora a censura, em brigas em que o ator (bem meia boca) explodia em cena, o máximo que ele falava era “Sifu”, muito malvado esse Cazuza. Até o Lula falou “sifu”. E quando queriam dizer que ele tava se passando nas drogas, eles nem a palavra “droga” usavam. Eufemismos de jornal na ditadura, como “ele tava mandando ver nessa época”, ou “muito pirado”, eram usados por entrevistados e narradora.

Umas cenas de ator bem fracas, umas que se salvavam um pouquinho, a pior é a de quando ele descobre que tá com Aids, pior que a do filme, por sinal, ficou uma espécie de perseguição de filme trash de terror, muito mal dirigida. Então é isso, quem nunca ouviu falar em Cazuza talvez tenha aprendido alguma coisa.

Algumas imagens de arquivo mais ou menos inéditas foram o ponto positivo. O pai dele apareceu falando, o que é meio raro, mas como ele é funcionário da Globo e tudo o mais… Explicaram direito também aquela história de que o resto do barões o trancaram no camarim antes do bis e fizeram duas músicas sem ele no seu último show antes de partir pra carreira solo. Essa ficou bacana, o Frejat largou irritado no microfone “Aí pessoal, hoje é um dia especial porque algo importante tá acontecendo com o Barão Vermelho, então hoje a gente vai tocar o que a gente quer”, e o Cazuza tentava arrombar a porta pra voltar pro palco, mas não obteve sucesso.

Então ficou mais ou menos nisso. Ainda quero ver um documentário realmente bacana sobre o artista que ele foi. Algo não pautado pela Lucinha Araujo, “rockeiro não tem mãe”, porra, não é isso que eles adoram dizer?

E semana que vem o próximo especial sobre algum artista morto da Globo conta a vida do Buchecha ou do Claudinho, um deles, não lembro qual é. Dá pra sacar algumas coisas com isso.

Fica aí um youtube de um arquivo de rádio com a música Quarta-Feira, um blues foda, aí em nem tão foda qualidade. Mas só achei essa na internet. Se puderem, escutem no disco ou no cd, é bem melhor -

o negócio é adrenalina em duas rodas, morô?

Novembro 19, 2009 por brunobandido

Porra, ontem o Bernhard me mostrou esse vídeo, achei um bocado engraçado o primeiro minuto dele. Tem que aumentar o volume pra ouvir o que o cara fala.

Quando eu tinha quinze anos e ainda mantinha aquela postura meio Holden Caufield com a sociedade lá do interior. Isso era tudo que eu torcia pra que acontecesse com os malucos que ficavam se exibindo com uma moto no centro da cidade.

tô bebado

Novembro 19, 2009 por brunobandido

o aniversário do couto foi bacana pra caralho e eu tô bêbado e só tô em casa muito contra a minha vontade. é que foi aparecendo um pessoal bacana no ap do Ara e esse mesmo pessoal foi indo embora e ficamos nós, sempre os mesmos, compondo uns ótimos blues, que só são ótimos pq a gente tá bêbado e porque não vamos lembrar amanhã. tinha que levar bebida e eu levei a garrafa de Dreher que meu dinheiro podia comprar e bebi ceva com todo mundo e depois passei pra ela, só eu e o Couto ficamos bebendo o conhaque. Aì o pessoal foi vazando ou se dormindo e eu desci com o Coutera e ele tava podre e queria caminhar pra algum lugar, mas eu chamei um táxi e acho que o carro levou ele pra casa. Daí vim a pé e é longe pra caralho, tive que descer até o parque da redenção e atravessar ele, porra, é puta perigoso atrevessar esse maldito parque durante a madrugada. Aí eu caminhei entre aquelas árvores com uma postura errada e a garrafa de Dreher quase vazia e ela era minha arma, mas os olhos bandidos só me encararam e deixaram pra lá. Avistei o Van Gogh lá do outro lado e apressei o passo mas o garçom que não vai coa minha cara era o que tava na porta e não queria que eu entrasse por causa do conhaque, bebi o que restava mas aí ele disse que tava fechando e não valia a pena eu entrar, então pedi um teachers em copo plástico e não paguei, porque eu tava bêbado o suficiente pra achar bons argumentos pra não ter que pagar e eu nem precisei dizê-los, só saí caminhando mesmo e praguejando, cheio de demônios no ombro, contra aquele garçom. Nenhum bar tava aberto, que grande zona de bares da cidade, em plena quarta-feira nenhum lugar permanece intocável pra que eu beba até a hora de ir pra faculdade. Sou obrigado a voltar pra casa, com fome e de porre e pensando em prováveis garotas por quem eu devo estar apaixonado nessa semana, mas nem sei direito. Vagabundos do crack me olham e querem contar suas histórias tristes de vida e eu digo “hoje não, amigo, hoje não”.

sobre peixes, salmos e aniversários

Novembro 18, 2009 por brunobandido

Às vezes tu só tem o último gole de um Domecq, um maço úmido chegando ao final e uma garota que por enquanto te entende. Depois tu não vai ter nem isso. E até ter de novo tem que se virar de algum jeito, rodando por aí, escrevendo as angústias ou escutando a estação de rádio menos pior da cidade doar conselhos furtivos em forma de balada. E a noite vai te largando a real aos poucos, dechavando um que outro roupante, até tu perceber que mesmo assim tu te sente melhor do que todas aquelas pessoas que te sacaneiam, ao menos mais livre do que elas, e as putas e os michês e os bêbados carentes e chatos, que a qualquer momentos podem fazer alguma cagada, tão que nem urubus rondando teus últimos centavos. Aqueles que tu guardou pra pegar um ônibus e parar na frente da casa da mulher que de alguma forma incompreensível ainda te aceita.

Eu tava assim e meu destino era esse, só que no meio do caminho me deu uma puta vontade de tomar mais uma dose. Foda-se o ônibus e sua linha T9, “ei, meu chapa, me vê uma dose do conhaque mais barato que tutivéaí”. Pronto, bolsos vazios, agora nenhum vagabundo leva nada de mim a não ser minha benção. (Não que isso valha alguma coisa.) Se eu fosse pra casa dela, pobre garota, como é que ela ia me negar?, bêbado sem nenhum trocado nas mãos e longe pra caralho de qualquer lugar que eu possa chamar de casa a não ser o seu carpete verde cinzento. Melhor não fazer isso com ela, ninguém merece um bêbado na porta remoendo amores antigos e inventados. Mesmo que ela possa gostar disso uma vez que outra, mesmo que se tudo que ela quisesse naquela noite era que alguém tocasse o interfone e tascasse um ponto final naquela solidão de olhos de garota, de olhos de garoa. Mesmo assim, isso só atrasa a vidinha dela mais ainda.  Daí eu sempre finjo que penso nisso tudo antes de gastar minhas moedas e, de certa forma, essa mentira me faz bem.

Caminho até em casa coa cerração no pescoço prenunciando um calor do caralho. Daí eu subo as escadas, cumprimento uns vizinhos que vão ao trabalho ou ao colégio, demoro pra abrir a última porta. Bom Dia Brasil passa na televisão, lembro dos domingos quando eu era criança e acordava cedo e assistia Siga Bem Caminhoneiro e Pesca e Cia no SBT, ficava bravo com os pescadores que devolviam aqueles peixes pro mar, os danados davam um puta de um trabalho para serem pescados, esperar o anzol ser fisgado não era nada praqueles caras que faziam força e rodavam e puxavam seus caniços com empenho e demoravam minutos imensos pra concluir o serviço, o mínimo que podiam fazer depois de tudo era levar o guerreiro pra casa e assá-lo para almoçarem felizes com suas famílias, mas não, ele era devolvido ao mar com um furo na boca e seguia pulando contente. Me perguntava quem era mais estúpido, os peixes ou aqueles pescadores, e o programa acabava e eu seguia ali, sempre esperando a hora do Pica Pau e daquele seriado em que o Hulk era apenas um bom e velho ator gigante.

Depois do jornal entra um programa de receitas, eu me atiro no colchão e reclamo do ventilador que não funciona e do bafo que tá aquela peça e torço pra dormir logo e parar de sentir tanto calor. Mas eu não consigo, penso em colocar uma música só que não quero mais levantar, fico só escutando a Ana Maria Braga ensinando a maldita de uma receita de peixe cozido. E ela me parece um bocado mais idiota do que aquele peixe.

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Se, entre os anos de 88 e 94, você era um desses caras solitários e durões que sobreviviam com o caráter de um velho cão e às vezes a bebida acabava junto com a sua grana, daí cê ia praquele lugar que sabe que vai encontrar a pessoa certa, mas dessa vez ela decidiu não aparecer e cê tava tão perdido que a única saída era voltar pra sua casa pequena e bagunçada. Naquelas noites de sábado em que mesmo que você uivasse pra lua a plenos pulmões nenhum vira lata responderia o seu convite, porra amigo, ainda assim cê era um cara de sorte. Era só ligar o radinho de pilha, sintonizar na Ipanema e escutar a vinheta Agora os caminhantes solitários terão companhia e os amantes carícia para os seus ouvidos. Entrando no ar, Rádio Cool. Era a voz do artista Julio Reny que, entre seus clássicos prefiridos tirados de cada vinil que ele roubara no passado, lia pequenos textos pra fazer o coração do ouvinte bater um pouco mais forte.

Mas peraí, naquela época cê nem sabia o que era Cool, ou estava longe demais de qualquer estação que uma madrugada de fim de semana pode oferecer? Bem, não é tanto azar assim, porque você pode revirar a internet e os sebos atrás desse livrinho fantástico que ele lançou há uns anos atrás. O nome é o mesmo, Rádio Cool, e os textos são aqueles que ele falava no calor ou no frio de madrugadas insones. Textos que carregam a chama da mais pura poesia beat. Vezes lembrando aquela ingenuidade de um Kerouac jovem, reclamando de namoradas que viraram madames ou constatando que tudo que queriam na vida é uma garota para amar e caminhar de mãos dadas, vezes tendo a audácia de nos falar verdades esquizofrenicas. Você vai arriscar? Se que aprender sobre a noite e sobre garotas que vêm com a palavra encrenca escrita em suas testas mas mesmo assim você acha que pode dar certo -  espero que arrisque.

Carregue como um livro de salmos, leia quando puder, e cê vai ficar alegre ao ver que ele se encontrava numa felicidade tola, como quando a gente acorda contente porque sonhou que tava transando com alguma apresentadora gostosa da tv. E cê vai achar a melancolia mais bonita do que já é.  Por que afinal, quem não vê beleza na melancolia, não deve tá lendo isso aqui agora.

E faça a sua trilha sonora. Eu fiz a minha, pra cada texto me baixa uma canção ou um músico da pesada.

Marvin Gaye ressona sensual pelos meus tímpanos depois que leio “Nada como uma mulher bem arrumada, de salto alto, com saia ou calça apertada. Nada como uma mulher desarrumada, de chinelinhos e short, fazendo a limpeza da casa. E eu adoro ambas as coisas. Mãos bem cuidadas e cabelos desalinhados. Tenho uma queda por ladies, madames e garotas de bairro.”

E um Bob Dylan me parece inevitável quando fecho os olhos depois de “A floresta atrás da rodovia incendiou, mas o pastor não viu. Ele estava encerrado em seu claustro. E só perceberia se fosse sua pequena catedral a queimar. Porque então finalmente seria a voz de Deus a se manifestar. E perto dali, o andarilho com sua guitarra soltava a voz para as montanhas e campos, para o nada, nem mesmo o latido de um cão a responder suas preces. Será que faria alguma diferença, ele ser adorado como um ídolo? O pastor e o andarilho bem que podiam ter se encontrado e se conhecido. Terem se tornado amigos, toda noite a beber vinho, conversando sobre Deus e as Canções.”

E por que não escutar um blues safado e os uivos do velho Wolf para ler “Nós somos dois loucos. Eu avisei que se fôssemos ao banho juntos… não iríamos mais parar. E contribuí para que tudo acontecesse, te embriagando com aquele vinho. Mas é que você é tão mulher com todos os teus lábios, que tiram a poesia dos meus. E então viro o animal faminto e não tenho mais palavras. Eu sou todo sacanagem. E você é a garota do meu poster da Playboy.”

E se você não leva muito à risca essa parada de trilha pro livro, pelo menos, quando chegar na página 115, tira o primeiro disco do Tom Waits da tua coleção, o Closing Times, coloca direto na faixa Ol 55 e lê isso aqui: “A chuva recém havia parado e as sombras do dia cinzento se espalhavam pelas cortinas e as curvas do teu corpo. Eu acordei de ressaca e como sempre acontece, fiz amor muito bem para aquecer a dor. E o carro me esperava na estrada molhada, enquanto toda a vida lá fora parecia dizer: paciência amor, paciência…”

Se possível, leia em voz alta, cê vai sacar dessa porra toda que eu tô falando.

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E hoje é aniversário do Thiago Couto, um puta amigo dessas bandas de Porto Alegre. É o tipo de cara que não tem medo de dizer que gosta de Lulu Santos. Daí eu pergunto qual é o nome daquela música bacana que começa com “ela me encontrou, eu tava por aí, num estado emocional tão ruim…” e ele nem sabe responder. Eu curto isso daí. E gosto de me sentar na mesma mesa que ele, embora ele não seja figura muito presente pelas madrugadas. Quando sai, a gente fica falando sempre a mesma merda, ou rasgando elogios pra baladas antigas e ele manda eu ler Camus ou procurar algum filme que ele assistiu no Intercine, enquanto eu provavelmente estava bêbado com pensamentos depreciativos sobre mim mesmo em algum lugar da cidade, e falamos sobre mulheres e sobre como a vida dele é uma merda, mas que mesmo assim ele tá disposto a encarar tudo isso. Eu faço piadas, mas se eu fosse do tipo que reza todas as noites pedindo coisas pra Deus, incluiria ele nas minhas orações. Algo assim. E a gente sempre se diverte um bocado quando o Couto tá bêbado. Hoje tem alguma festa, ou coisa do tipo, lá no apartamento do ricardo ara, e eu só espero que ele se embebede preu poder rir um pouco. Esses dias eu perguntei se ele queria a Playboy da Fernanda Young ou um L&PM pocket de presente. Ele respondeu um pocket e eu já esperava por isso de um fã ardoroso de Camus, por mais que talvez seja uma contradição. É claro que eu não tenho grana pra dar qualquer dos dois pra ele, mas se eu tivesse, ele sabe muito bem que eu daria a Playboy. Ou se eu fosse simpático e metido a engraçadinho lhe entregava um livrinho do Garfield ou do Marx, ou qualquer outra merda que a gente acha ruim mas a L&PM gosta de publicar, Luís Augusto Fischer, Claudio Moreno, ou coisa que o valha… Abração Coutera, tô na espera pra que tu apareça qualquer dia na madrugada pra me pagar umas doses.

Quando chegam notícias bacanas não interessa o meio

Novembro 17, 2009 por brunobandido

A Manola é uma espanhola bacana e quando eu queria esquecer todos os problemas, no verão passado, ia lá pro apartamento dela, do Jorge e da Paloma. Três jovens loucos de Madrid que viajam pelas capitais do mundo quando podem. Eles me ofereciam vinhos e falavam merdas e Paloma me lia os poemas dela e do Garcia Lorca e do LeRoy Jones (Amiri Baraka) e eu apresentava uns versos do Paulo Leminski quando sobrava algum tempo. A Manola ficava cheia de ciúmes e aí o Jorge pulava em cima da Paloma pra quebrar o gelo. Hoje recebi um mail assinado por elas duas, Paloma agradecendo pelo livro do Leminski que mandei quando soube que ela tava com uns problemas e internada em um hospital, embora a bagaça só tenha chegado agora em Madrid, uns dois meses depois. Ela já tá bem e tá em casa estudando e trabalhando pra poder viajar mais um pouco. Manoela disse que talvez venha pra Buenos Aires em julho do ano que vem, fiquei contente, embora julho seja longe demais pra gente ficar acreditando em planos. Ela disse que vamos ter que nos ver de qualquer jeito, nem que ela tivesse que passar por aqui antes, eu acharia muito bom isso daí. O Jorge também mandou um recado pelo e-mail, disse que lê esse blog todos os dias, embora a única a palavra que ele entenda seja whisky (e “graças a Deus que a palavra aparece bastante, e venha logo conhecer Madrid, aqui tem muitas garotas que fumam malboro vermelho e te pagariam um whisky por uma boa história”). Eu imagino aquele maluco falando isso. Deu uma puta saudade de um monte de coisas. Saudade de vocês garotos, embora essa palavra ne exista por aí, cês sabem o que eu tô querendo dizer. Abrazos y besos hermanos perros.

O cara do jornal castelhano, pra qual eu escrevi um texto sobre o Kerouac, me telefonou e disse que leu a matéria do Pablo Beato no Língua Pop. Me ligou ontem de tarde e queria saber se eu dizia onde é que tava aquele maluco, porque ele tinha vergonha de morar no país do cara e não conhecê-lo. É claro que eu não sei dar coordenadas, eu fiquei uns dois dias naquela cidade e não sei porra nenhuma dela, a gente deu foi uma puta sorte. Ele disse que ia procurar, mas acredito que ele não encontre, não é pra todo mundo que aquela figura abre a porta, abriu pra gente por causa de sua sobrinha. Ele também não quer ser muito incomodado, imagino. Pensaria duas vezes antes de dar qualquer coordenada, se eu soubesse. Embora a intenção dos caras do jornal deva ser sincera. Afinal, ninguém ganha muito dinheiro publicando textos sobre Kerouac e Pablo Beato em um jornal diário. Ele perguntou se eu posso fazer um texto sobre o cara e usar partes da entrevista, caso ele não encontre. Disse que tudo bem. Até quero que isso aconteça, porque uns pesos na minha conta agora, não cairiam nada mal.

Quem também ajudou na minha conta foi o Ricardo Carlaccio, que puta coração ele tem. Ontem abri a caixa do correio e lá estava o seu A última ficha na jukebox, com uma bela capa que lembra HQ’s. Ele também me copiou o primeiro cd da La Carne e o dvd Jack Kerouac – O Rei dos Beats. Três coisas que eu iria acabar comprando, e o cd e o DVD ainda vou, mas agora posso esperar por uma reserva melhor de grana. O documentário sobre o Jack assisti ontem mesmo, antes de sair pra rua. É bem bacana, começa ele na entrevista antológica do Steve Allen Show e conta toda a história do cara com imagens e depoimentos fudidaços. O ruim mesmo é o ator que faz umas passagens interpretando o próprio beatnik. Quem tinha me falado desse filme acertou, o Felipe me disse que o ator era um viadinho, o Bortolotto comentou aqui que era um canastrão e o Carlaccio preveniu que cara era um cuzão. É mesmo, dá pena de ver ele estragando a aura do rei, o que o diretor da bagaça tava pensando quando deixou aquilo acontecer. O “ator” não usou um pingo de sua alma pra interpretar Kerouac, um mísero pingo, em cenas que podiam ser antológicas como ele voltando pra casa com os pais depois de lesionar a perna jogando futebol, sentado numa poltrona que ia junto coa mobília na carroceria da camionete, fumando cigarros e pensando na vida, a cara daquele panaca estraga toda a poesia e melancolia da cena. Nada mais a dizer, viadinho, canastrão e cuzão. Mas o resto, como já disse e eles também disseram, vale muito a pena mesmo. Valeu Carlaccio, um grande abraço. Hoje a noite, vou chegar em casa, botar La Carne a todo volume e devorar o seu pocket, que também deve ser do caralho, ou melhor, do carlaccio.

 

Novembro 16, 2009 por brunobandido

Dormi um pouco e acordei pensando no romance Os Ratos, do Dyonélio Machado. Sei lá eu o motivo, mas eu tava com essa história na cabeça. Foi o primeiro livro que eu tive que ler pro colégio que eu gostei. Nada antes me chamava atenção, José de Alencar, Machado de Assis, Camões, nada mesmo. Mas Os Ratos eu tive que abrir a mão e confessar que era um puta livro bom. A aflição que aquele cara me passava tendo que conseguir o dinheiro pra pagar o leiteiro em mais ou menos 24 horas, que era o tempo narrado durante todo o texto, era a mesma que eu sentia vendo o filme Te pego lá fora na Sessão da Tarde. Aquele que um garoto irrita o valentão da escola e é marcada uma briga na hora da saída, aí o maluco fica tentando sair mais cedo do colégio de todos os jeitos possíveis e nunca consegue porra nenhuma e o tempo vai passando e a sensação de que já era aumenta cada vez mais. Mais ou menos assim.

Claro que eu tava descobrindo coisas por fora do âmbito escolar, logo mais apareceriam Holden Caufield, Gregor Samsa, Arturo Bandini, Dean Moriaty e tudo o mais. Mas o primeiro livro que me fez acreditar que romances podiam ser tão maneiros quanto gibis foi o Pet Cemetery (O Cemitério) do Stephen King.  Eu curtia muito os livros dele lá pelos meus 13 anos, porra, ali tinha um doutor pai de família que curtia Ramones e presenciava cenas fortes como seu filhinho sendo dilacerado por um caminhão. A loucura do Dr Creed roubando seu guri morto de uma cova e depois enterrando sua mulher no cemitério de animais, mesmo sabendo que aquilo ia deixar ela um demônio, ou coisa parecida, me parecia muito mais real do que a loucura do Bentinho que eu tinha que resumir em trabalhos pra sala de aula. Pra mim esse cara sempre foi meio viadinho com aquela paranóia toda. Eu esperava que pelo menos ele matasse a Capitu, o amigo dele, algo assim. Deve ter sido por isso que, mais tarde, eu gostei do que li na obra do Dostoievski.

Eu não tô falando mal do Machado de Assis, sei que ele é foda, acho bacana a narrativa dele e mais outras coisas, mas é aquele velho papo de que não é isso que um pré-adolescente quer ler. Todo mundo sabe que não, mesmo assim insistem em pagar uma professora pra falar bem desses caras e desconsiderar tudo o que a gente gosta. Um professora quem nem deve conhecer o que a gente gosta.

Uma das piores torturas que se fazem coas crianças é o colégio. Garotos gostam de ver filmes de terror ou jogar vídeo-games ou ler gibis até tarde, aí os obrigam a levantar às sete da manhã pra decorar fórmulas que eles nem sabem pra que servem, ou pra ficar classificando o reino dos animais, o elementos químicos, os escritores antigos, tudo descontextualizado de tempo e período. Eles sabem que pouca gente aprende o que ensinam, mesmo assim seguem enfiando goela abaixo como se fosse a única opção. Eu fui educado sem nunca ter prestado atenção no que os professores falavam, ficava pensando outras coisas ou riscando na classe, mas eu sabia o que os filmes americanos dos anos 80 e o Topa tudo por dinheiro e Chaves e Chapolim e Pica Pau e Tom e Jerry queriam dizer. Todos eles me ensinaram que o que importa na vida não está em uma sala de aula.

O Ferris Bueller e o Kevin McCallister (personagens do John Hugues) é que me mostravam a real, eles eram pra minha cabeça de criança o que o Rock’n Roll seria uns anos mais tarde, não levavam ninguém a sério, nem a eles mesmos, me encaravam do outro lado da tv e diziam “você tem razão, os adultos não consideram a gente e eles estão profundamente enganados. A gente consegue dar um jeito na situação se tivermos que nos virar sozinhos”. Vai ver que é por isso que eu sou tão burro, não sei nada de lógica ou coisa parecida, mas eu não me arrependo de nunca ter ligado para o que alguém falou na frente de um quadro negro, tratando um grupo de pessoas diferentes como se fossem todas iguais. Meus professores sempre se gabaram pelo fato de não enxergar diferenças entre um aluno e outro, educá-los como se fossem um só. Nunca entendi isso muito bem.

Algo assim

Novembro 16, 2009 por brunobandido

Sempre prazerozo voltar dos bares pra casa às seis e pouco da manhã numa segunda-feira em total contra-mão. O pessoal tá indo trabalhar, provavelmente vai ser um dia chato.  Sempre prazerozo se lixar pras segundas, mesmo que eles estejam com carteiras forradas e geladeiras forradas e televisões cheias de canais bacanas e crianças bacanas com respostas rápidas e engraçadinhas e uma semana de muita sobremesa pela frente. Mesmo assim. Paro pra tomar um café na padaria mais próxima, observo o mundo girar un poquito más, de repente a sensação de estar estancado e de não contribuir pras voltas do mundo e alguns sujeitos passam pela calçada e me encaram aflitos e pensam com seus botões o que será que tá errado comigo e sentem pena dos meus pais.  Como se eu estivesse na mesma cidade que eles só que num espaço paralelo, bem mais frio e com riscos mais exagerados. Aqui o perigo tem um belo quadril e um apreciativo par de seios. Aqui a gente chama o perigo de Lady. Uma ponta de sorriso caustico se abre no canto da minha boca, quase maligno, é aquela estranha e regojizante sensação de prazer da qual eu venho falando.  Pro pessoal que mira na minha lata com os olhos recém acordados, é pura implicância.

Fernandas, Nasi de Rorscharch, Rosanne e Cash e Carl Perkins

Novembro 14, 2009 por brunobandido

Zapeio a televisão de ressaca, amistoso do Brasil, replay da Fernanda Abreu linda sofrendo na torcida do Vasco. Mudo o canal, alguém dizendo que alguma mulher famosa é bissexual. Grande coisa. Toda mulher é bissexual, homem bissexual é que não existe, todo mundo sabe disso. Desligo a tv. Outro filme de vampiros, Quando Chega a Escuridão, esse sim é bom. Com Bill Paxton e Adrian Pasdar no elenco. “Aquelas pessoas não são normais. Pessoas normais não cospem a bala quando atiramos nelas.” O roteiro é assinado pelo fudidaço Eric Red (A morte pede carona) junto com a diretora Katrhyn Bigelow (Estranhos Prazeres). É um road movie com clima tenso western bem como o Eric Red gosta. Tem caroneiros ladrões, assaltos a bares de beira de estrada, crianças malditas e tudo o mais, só que eles também são vampiros agora.

Internet – vejo as fotos da outra Fernanda, a Young, na Playboy. Ficaram bacanas, poderiam ser melhores, ela é bonita pra caralho, mas eu achei bom, ultimamente playboy é só umas gostosas que não sabem ser lá muito sensuais, fotos todas iguais com a mulher de costas virando o pescoço e olhando pra câmera com uma cara de atriz ruim. Sei lá, não tenho curtido muito as Playboys, mas são mulheres e, mesmo que não sejam gostosas, sempre acabam ficando. A da Young mudou quanto aos últimos meses, me lembrou das que eu via nos meus doze, ou treze anos, quando fuçava na coleção dos meus primos. Vi as fotos na Internet, a ideia de pagar um dinheiro por uma revista que dá grana pro Nelson Motta escrever contos não me parece muito aceitável.

Outra coisa que encontro na rede é um blog muito estranho do Nasi, Diários de Rorschach. Ele grava vídeos vestido de Rorschach, meu personagem favorito no Watchman, Graphic Novel do Allan Moore. Esse Nasi se presta, fica lá com um capuz na cabeça falando umas metáforas, que dialogam com a linguagem do personagem, mas pra queimar todo mundo que ele quer queimar. Ele fala umas coisas bacanas às vezes, mas só às vezes. Eu acho um pouco estranha a figura pública dele, não me cai muito bem, mas curto sua música e é isso que interessa. Acho o seu cd solo Onde os anjos não ousam pisar del grand carallo, o Júlio Reny também gosta muito, diz que foi o último trabalho nacional que chamou atenção dele,  tem mais umas poucas pessoas bacanas aí que gostam, tem outras que não gostam, não é um disco pra muitos.

Ontem eu e o Stoch, grande pianista e vocalista de rock’n roll das antigas, ficamos falando sobre o Johnny Cash. O Stoch teve uma das primeiras bandas de rock do estado, chamada Os Animais, depois ele virou jornalista de rádio e professor universitário. Ele ficou me falando sobre a Rosanne Cash, filha do homem, e a vida também conturbada dela. Mandou eu procurar o DVD do Carl Perkins and Friends, diz que é muito bom. Vou procurar, mas por enquanto fico no youtube:

“Para derrota-los eu não faço acordos

falando em casaco, casa comigo, falando em caralho, aquele cara não presta (Yppee Kai Yay Motherfucker)

Novembro 14, 2009 por brunobandido

Raios, cortes e um Corcel amassado

Não acredito em sexta-feira 13, mas já vi todos os filmes do Jason e ontem de manhã passei pelo primeiro gato preto do dia e fiquei pensando um pouco nisso. Claro que é tudo uma bobagem, mas que minha sexta foi uma merda foi. Eu tô sem grana, não saí na quinta e eu fico meio estranho os dias em que eu não saio na noite anterior. Daí eu me molhei pra caralho na chuva, precisava fazer uns trabalhos na internet, mas um raio caiu perto do meu prédio e tirou a rede de todo o mundo.

O técnico da Net, quando veio, teve que subir lá em cima, o síndico é bastante velho daí eu carreguei a escada com ele e tudo o mais, o cara se cortou em algum lugar e deu um puta grito, subi pra ver o que era e aí disse pra gente descer que eu ia em alguma vizinha e pedia algo pra limpar aquele sangue todo, ou um curativo, é que eu não tenho curativos em casa. Só que quando o cara tava descendo, deu um chute na ponta da escada e ela caiu. Puta merda, né? Ele bem que gritou pra ver se alguém escutava, mas uns cinco minutos depois de nenhum socorro, eu disse que ia ter que pular daquela porra, o magrão ficou me dando dicas de como cair melhor e isso me irritou um pouco, quem sabe se eu tivesse dado dicas de como descer duma escada sem derrubar ela lá embaixo nada disse teria acontecido, ele seguia destilando suas teorias sobre pulos, se não tivesse sangrando feito sei lá o quê, eu empurrava ele naquela hora. Fui saindo de costas pra me segurar com as mãos na portinha minúscula do sótão, que fica no teto do último andar do prédio, daí me agarrei e meus pés ficaram balançando no ar e ainda tinha uma boa distância até o chão. Larguei e meio que caí por cima da escada, não me machuquei, só fiquei um pouco dolorido na hora. A internet voltou uma hora depois e eu fiz a porra dos trabalhos.

Fui pro campus, voltei, de noite saí com o Rodrigo, quando a gente tava voltando pra casa e ele ia me dar uma carona alguém bateu na traseira do Corcel 2 dele. Ele desceu do carro, mas tinha bebido e não era bom que viesse polícia, foi uma bela de uma batida, o cara que saiu do outro carro tava mais bêbado ainda, eu saí e tava legal. Eles meio que quiseram brigar, tavam se bicando, o Rodrigo tava irado com o cara, eu vi que tinha alguém mais dentro do carro e fui conversar, era a namorada do tipo, ela me pediu desculpa porque ele tava bêbado demais, e tava meio irritada com o seu namorado, largou uns insultos pra cima dele. Eu disse que tudo bem e pedi o telefone dela pro Rodrigo ligar hoje, ninguém ia resolver nada naquela hora. Ela deu dois números e pediu perdão de novo, era uma garota legal namorando um grande idiota, existem várias dessas por aí.

Aí fui falar com o Rodrigo pra gente ir embora e o outro cara começou a querer brigar comigo também, “cala a tua boca e volta pro teu carro e pra tua garota”, falei e virei as costas e tava vindo pra dentro do Corcel quando ele tentou me empurrar, eu cheguei a sentir o seu toque mas foi fraco porque bem na hora o Rodrigo acertou um puta soco na fuça da figura. A namorada dele saiu do carro gritando e mandou o cara voltar, fizeram um fiasco danado, o Rodrigo alcoolizado e furioso ainda ficou numas de xingar as pessoas que tavam assistindo tudo na calçada, e mostrar o porta malas afundado, eu só entrei no carro e fiquei esperando e torcendo pra que a polícia não chegasse. Graças a ineficiencia dos porcos, ele se safou ontem, vai ver eles não saem pra rua numa noite de sexta-feira 13.

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A princesa bebeu rum e foi festejar com os piratas

“Beatles ou Rolling Stones?” Ela sentou na mesa bêbada e entrou numas de me perguntar essas coisas.

“Stones.”

“Woody Allen ou Bergman?”

“Allen.”

“Chaplin ou Jerry Lee?”

“Rowan Atkinson.”

“Henry Miller ou Bukowski?”

“Bukowski.”

“Mas gosta de Henry Miller?”

“Gosto, mas sou mais do Bukowski.”

“Chico ou Caetano?’

“Blergh”

“Maradona ou Pelé?”

“Maradona.”

“Ronaldo ou Zidane?” Ela riu depois de perguntar.

“Zidane.”

“Tu não gosta de nenhum jogador brasileiro?”

“Gosto. Do Edmundo.”

“Edmundo?”

“É, e você?’

“Eu detesto futebol.” Ainda ri pra caralho. “Tu só tá respondendo essas merdas porque tá bêbado e quer algo comigo né?”

“Bem, porque eu tô respondendo tu já sabe, mas tu sabe por que tu tá perguntando?”

Ela ri ainda mais, começa a encher o meu saco, parece forçar a barra naquele porre, mas algumas garotas são assim. Explica que com essas perguntas ela tem idéia de como é uma pessoa. Eu podia falar algo como “Ah é? E como você acha que eu sou?” e começar mais um papinho desses. Mas me deu na telha ir embora, ela me pediu ajuda para vomitar, não tinha nenhuma amiga por perto, a garota.

O garçom não me deixa entrar no banheiro feminino com ela, é claro que não, mas eu tava bêbado demais pra perceber isso, levo ela pra fora e a faço se debruçar numa árvore, mete o dedo na goela e faz seu serviço por ali, eu só seguro seus cabelos pra trás. Quero botar ela num táxi, mas não tenho dinheiro e ela não tem dois reais na bolsa, que merda, e agora? “Vâmo pra minha casa, é uma caminhada longa até lá, mas vai fazer bem pra ti de qualquer jeito.” Morre de frio, bate os dentes e parece que vai ter uma hipotermia, soluça fundo na rua e eu decido dar meu casaco prela vestir, dois minutos depois ela pára de andar, fica petrificada olhando pra ninguém e vomita em cima dele.

Me fala com a voz arrastada e numa espécie de desafinação algo que entendo como “Tiíiira o meu sapato”, tá atirada na minha cama, eu tiro e jogo no chão e ela se levanta correndo e bota a cara na privada. Pronto, agora ela tá rezando no minha igreja particular, eu não gosto muito disso. Chego a pensar que talvez ela não vá parar nunca. “Vomitou até as tripa”, meus amigos diriam. Bebe água da pia, bota pasta nos dedos e passa nos dentes, gargareja e cospe, daí se atira na minha cama de novo, dorme em segundos e ronca alto feito um ogro bêbado. Imagino que eu deva roncar desse jeito quando tô de porre e durmo pesado, eu, meu pai lá no interior e um urso hibernando. É uma garota feroz essa. Ocupa toda a cama com braços e pernas abertas, empurro-lhe um pouco pra poder me deitar, ela nem sente e segue seu ronco das selvas.

É um belo contraste oberservá-la, com seu nariz fininho e arrebitado, seu tipinho Eddie Sedwick, seu rosto delicado mas com os poros abertos por causa do álcool e olheiras que a maquiagem não esconde, ela é bonita mesmo assim. De um jeito meio escroto, algo como uma princesinha que tomou um barril de rum e saiu pra festejar o roubo com os piratas, sei lá eu o porquê. Fico imaginando o que a levou a beber desse jeito, ela já tava bêbada quando veio me abordar, só assim prela ter vindo me abordar, afinal. “O que mais pode acontecer?’ Eu imagino e depois torço pra que já tenha botado suas tripas pra fora. Penso que eu sempre me meto numas roubadas dessas, parece que em certas noites minha mesa no canto do bar é um imã de encrencas. Escuto seu sinfonar ronrônico e durmo me perguntando algo como “pobre garota, onde foi que ela se meteu?”