“Eu não imaginava o teu apartamento assim desse jeito.”
“E o que tu pensou?”
“Algo como livros pelo chão, roupas atiradas, uma pilha de pratos pela pia…”
“Bem, tu ainda não entrou no meu quarto e eu só tenho dois pratos por aqui, eles tão sujos ali na cozinha.”
Com apenas dois pratos eu evito essa coisa de ter uma montanha deles embaixo da torneira. Não que eu tenha um ódio mortal quanto a lavar louça, como muita gente tem, só procuro facilitar as coisas. E também nunca me passou pela cabeça gastar meu dinheiro com vários pratos e talheres. Já basta ter que gastar com Miojo, pão ou ovo e dogs de carrocinha. Mas por experiência própria, o assunto de louça suja é polêmico. Quando eu dividia moradia com mais dez pessoas num sobradinho, a única regra clara que a casa possuía era “cada um lava a porra da louça que usa”. Às vezes ficava um bocado de coisas na pia porque todo mundo tinha deixado pra lavar mais tarde, aí um ia lá e ficava horas procurando só o que tinha usado no meio de uosm conglomerado gigante de panelas, frigideiras e tudo o mais. Eu e uma amiga ganham, por várias vezes, deliciosas refeições de graça só por garantir que lavaríamos tudo depois.
Na minha primeira semana morando ali, teve uma manhã em que a garota com quem eu dividia o quarto ainda tava dormindo a eu fui pro sofá da cozinha (que também era sala) ler um livro e tomar um chimarrão pra curar uma puta de uma ressaca, aí chegou um maluco e disse “Merda, não tem nada sujo na pia hoje”. Eu perguntei se ele queria que eu sujasse algo prele lavar, mas o cara explicou que o esquema dele não era esse e, sim, pegar panelas que deixam pra limpar depois e fazer sua comida com elas. Ele também almoçava e jantava com pratos usados e largados na pia, assim, ele só devolvia pra lá e a pessoa que tinha sujado pela primeira vez era quem lavava. porra, isso que eu chamo de um sério problema com limpar uma louça. As garotas da casa achavam nojenta a atitude do cara, eu achava engraçada e ele pensava que aquilo era uma puta esperteza da sua parte. Até concordo que foi uma boa sacada.
Eu contei essa história pra ela, depois me perguntei por que eu tava falando essa porra, mas ela riu e também achou o maluco nojento. Entrou no meu quarto e ali é que tava tudo o que ela esperava. Umas camisetas jogadas, livros e papéis e cd’s espalhados e essas coisas assim. Perguntou se o resto da casa era “tipo, só um corredor” pra mim, expliquei meio por cima toda a parada de que o dono chegava aqui de vez em quando e eu tinha que manter o apartamento em ordem. Pra não ter que ficar arrumando e fazendo faxinas toda hora e comprando muitos materiais de limpeza, eu vivia meio que só no meu quarto mesmo.
Ela ficou olhando os boxes de cantoras de jazz que eu tenho, perguntou se eu queria escutar Etta James ou Nina Simone, eu tava mais pra primeira opção naquele momento, mas ela colocou a segunda para tocar. A gente tava bêbado de vinho e ela perguntou se podia fumar, “vou te abrir uma grande exceção”, falei. Só que não foi um Malboro Light que saiu daquela carteira, mas um longo baseado, eu não gosto de fumar maconha, muito de vez em quando até acompanho uns amigos, porém naquela noite só ela fez a cabeça. E se atirou no colchão ao meu lado e empurrou uns livros e cadernos que tavam ali em cima com seus pés e deixou o que restava do fumo descansando na boca da garrafa vazia de vinho e me beijou com sua língua deep purple com gosto de cannabis e tinto seco.
Acordei de manhã e ela tava deitada com os olhos abertos escutando “My baby Just cares for me” do cd que ficou no repeat, conversamos qualquer coisa.
“Posso ler teus poemas?” Me perguntou de repente.
“Eu não escrevo poemas.”
“Claro que escreve.”
“Eu não, isso é coisa de viadinho.”
“Ah, não fode!”
“É tarde de mais pra tu me dizer ‘não fode’.”
“Tu acha mesmo que eu vou acreditar que tu não escreve?”
“Por que tu pensaria uma merda dessas de mim?”
“Porque me parece que sim.”
“Bem, talvez eu escreva sobre a nossa foda depois.”
“Tudo bem, pelo menos coisa de viadinho é que não vai ser.”
Ela se levantou, remexeu nuns papéis e encontrou uns malditos poemas. Leu alguns, pegou outros e guardou na sua bolsa. Daí veio com uma história de que não tava tomando anticoncepcionais e como a gente não tinha usado nada, período fértil e… Foda-se, sei lá, toma aquelas porras do dia seguinte, não posso fazer mais nada afinal, talvez na próxima vez, mas espero que não, quem pode fazer alguma coisa são esses cientistas que ao invés de ficarem criando, cada vez mais, remédios pra velhos levantarem o pau deviam inventar algo melhor e mais confortável do que a porra da camisinha.
Mas nem sei, acho que a minha geração não leva essa obrigatoriedade de camisinha muito a sério como a que veio antes. Daqui uns dias tá todo mundo fodido de novo, cheio de doenças do caralho (com o perdão do trocadilho), mas por enquanto a gente aproveita e goza (perdão de novo) um pouco da vida. Ela falou que tava sem a grana pra pílula e nem me pediu nem nada, a garota sabia que eu também não tinha um mísero centavo se quer, afinal foi ela quem pagou aquele vinho. Daí tudo o que a gente fez foi transar de novo sem se preocupar com porra nenhuma (droga, esses trocadilhos são mesmo inevitáveis).
Novembro 12, 2009 às 2:08 pm |
Li o Mário Bortolotto falando muito bem do seu blog e resolvi conhecer. Gostei demais do seu texto, e mesmo a triste história da falta de camisinha, antes de me fazer desligar a droga do blog e ir pra outro canto ( já penso no nenê sendo morto antes de nascer, e quando tem injustiça contra criança eu entro em surto), fez-me pensar em que nada vai acontecer, foi só mais uma poesia cotidiana que deu certo.
Espero.
Novembro 12, 2009 às 2:36 pm |
Nada vai acontecer, Marcia.
Mas não sei se foi mais uma poesia que deu certo.
Prefiro simplificar pra mais uma foda inconsequente que, graças a deus, eu escapo ileso.
Sei que não é sempre que isso acontece. Seria burrice demais pensar assim.
Valeu.
Beijo.
Novembro 12, 2009 às 3:17 pm |
Menino, tú é doido!!!
beijos
Novembro 12, 2009 às 7:15 pm |
Não muito Tatiane. Essa maioria aí que é certa demais.
Beijo.
Novembro 12, 2009 às 4:17 pm |
acontece nas melhores famílias… ou melhor… em algumas noites inconsequentes de bebedeira.
B-Ju
Novembro 12, 2009 às 7:16 pm |
é, pode crer que acontece.
Beijo.
Novembro 12, 2009 às 6:44 pm |
Particularmente não curto pílulas anticoncepcionais de nenhum tipo, na realidade nenhum tipo de droga que dizem ser remédio. Nunca li a bula detalhadamente de um anticoncepcional, mas vai saber o que aquilo pode causar dentro do nosso corpo.
Novembro 12, 2009 às 7:20 pm |
É Lilian, vocês são mulheres, devem saber mais disso aí do que eu.
Novembro 12, 2009 às 8:07 pm |
anticoncepcional ferra com o utero e o corpo da gente, mas eu tomo, porque assim como tu, não penso em filhos, e depois de anos tomando é capaz de nem engravidar mais.
e quem aqui amigo? …
não sentiu a carne entrando sem o plastico.
mas confesso que não fico mais sem o dito plastico.
aprendi a adorá-lo. tenho até tesão por camisinha.
Novembro 12, 2009 às 8:20 pm |
Tesão por camisinha Drix? Tu devia ser garota propaganda de campanhas do governou ou da Jontex…
Beijo.
Novembro 12, 2009 às 8:08 pm |
borracha plastificada, acho que seria mais específico que plástico.
enfim. mesma merda.
Novembro 12, 2009 às 11:20 pm |
BRUNOOOO, você é o melhor para se ler!!! E eu estava na torcida pra que você e esta tal “ELA” chata parassem de se ver!!! ELA NÃO MERECIA NADA DISSO QUE VOCÊ VIVE. não fica triste não. BJU!
Novembro 12, 2009 às 11:41 pm |
Que é isso Camila, tá bêbada?
Não torce prelo mal dos outros não. Ainda mais que tu nem me conhece.
Novembro 13, 2009 às 12:38 am |
Tchê, transo sem camisinha algumas vezes e fico super culpada por conta disso, ainda bem que tem mais loucos inconsequentes assim como eu, me sinto parte da tribo! beijo, legal o post…também é de poa? meu, tem um monte de gente interessanta na capital e eu em pelotas! é foda!
Novembro 13, 2009 às 1:21 am |
Sei como é Irian, morei anos aí perto, em Jaguarão, até vir pra cá.
Tenho vários amigos em pelotas…
Beijo.
Novembro 13, 2009 às 1:22 am |
“Tú” é doido mesmo em menino??? Eita….
Mas aquele seu amigo do lance dos pratos sujos consegue ser pior ainda… hahahahahahaha
bjs
Novembro 13, 2009 às 1:30 am |
esse cara era maluco. um puta figuraça!
Novembro 13, 2009 às 3:56 pm |
Bruno: sucesso!
haha