repouso

meu notebook vinha se arrastando há uns bons anos e semana passada ele morreu de verdade. eu sabia que isso ia acontecer alguma hora, mas nada que tenha feito eu salvar minhas coisas em outro lugar. perdi uma caralhada de textos, contos, poemas bêbados, filmes baixados, discos, muitos discos, fotos, esboços, peças em construção, merdas assim. e, quer saber, e daí? não consigo me importar muito com todas essas perdas, assim como eu não dou a mínima pra nenhuma vitória ou algo que eu venha a ganhar – o que é bem raro. Só sigo virando madrugadas quentes e insones assistindo os DVDs piratas da série Roma que a Gabi me gravou. Lucius Vorenus e Titus Pulo vão me mostrando que a sorte e a desgraça vivem juntas como dois amigos que sempre acabam se arrebentando um ao outro. Mas é claro que eles se reconciliam e tudo segue torto e desgraçadamente cruel.        

enquanto eu não tenho como escrever muito, sem notebook, vou postar uns negócios que eram pra sair numa edição do língua pop.fora um poema meu e outro do ricardo, um pessoal bacana mandou coisas, a gente pediu pra outros, mas eu e o ara nunca fizemos matérias pressa edição e agora ele tá lá no canadá fazendo, provavelmente, coisa muito mais interessante. então, aí vão dois por hoje:

***

UM VEZES UM
por bruno bandido

Ela me mostra as tetas pela webcam,
diz que tá calor na Virgínia e que me queria por perto
mordendo sua bunda.
Eu sempre acabo pensando que garotas assim precisam ser abraçadas
e sinto falta de abraçá-las e de imprimir meus dentes nos seus
rabos melancólicos, como impressões digitais.
Encaro os seus olhos doces malucos de quem bebe
taças de vinho depois do jantar
e ela parece contente quando digito sacanagens.
Conta sobre a empregada de sua casa que lhe abusava na infância
ou sobre caras que lhe mandam calar a boca e não dividem o cobertor.
Nenhuma mulher precisa ser discreta para chorar, eu digo
e acho que chego mais perto da sinceridade do que deveria.
O jogo começa a ficar perigoso
como palhaços de circo contando piadas no bar,
o celular de um gângster que toca no horário de almoço.
Ela pede pra ouvir minha voz
“Oi.”
Ela sempre enxerga beleza onde não há.
Enquanto isso eu sigo sozinho -
É segunda-feira de carnaval
e eu sigo sozinho.
Mas ainda posso abrir uma cerveja,
olhar suas tetas através da internet
e me controlar pra não dizer
eu te amo.

***

UMA GARAGEM NO MEIO DA NOITE
por Ricardo Carlaccio

Um dia desses eu fui moleque. Botava três luvas de inverno na mão, sacava minha bola de capotão besuntada de sebo no fundo do quintal e saía pra rua em busca de alguma coisa que eu jamais sabia o que era. Eu não sabia que todo filme que ficava registrado na minha memória era em preto e branco. Isso eu só fui sacar depois dos vinte anos, na hora  que as coisas começaram a ficar desordenadas. Até hoje eu nunca tive paciência pra colocá-las em ordem, apenas descolei uma prateleira pra que elas não ficassem espalhadas pelo chão, pra que  suportassem a minha presença sem reclamações. Pra que agüentassem meu peso de uma maneira mais delicada. Nunca pensei seriamente em usar coletes à prova de balas e tomar engov antes de uma bebedeira homérica, sinceramente nunca pensei nessas coisas. Sempre deixei  os  loucos virem em bandos  com seus diálogos desenfreados e seus códigos de conduta mais éticos que o código dos burgueses no rigor da moralidade. Lembro do seu Antônio com seu inglês fluente e uma foto três por quatro que ele fazia questão de tirar do bolso e exibí-la no meio de suas longas estórias. Sua foto  tirada há vinte anos atrás era parecida com a cara de algum beatnik  que eu tinha visto em algum livro, mais tarde descobri que era com o Kerouac que ele se parecia . Ele  pedia cigarros com sua cordialidade aristocrática e dava longos tragos que diziam o quanto eles eram sagrados. Naquele tempo eu não podia me sentir mais tranqüilo senão na hora em que tomávamos pingados e pão com mortadela na padaria do Largo do Bonfiglioli às sete da manhã. Eram conversas recheadas de ternura e aquele velho maluco era realmente capaz de escutar o canto dos passarinhos e sacar suas notas melodiosas  ao mesmo tempo que se excitava com  as coxas das garotinhas  que iam em bando praticar algum tipo de esporte. Contava sobre casos com as empregadas das casas ao redor da área  onde ele dormia e como elas facilitavam sua entrada prum sono tranqüilo dentro de uma garagem no meio da noite. O cara tinha sido abandonado pela mulher há uns quinze anos atrás  e tava ali esse tempo todo pagando algum tipo de penitência, dormindo sobre os escombros da culpa.

Alguns caras são mais ferozes e enganam os viadutos, disfarçam como mestres e de alguma maneira continuam. Outros psicóticos cometem homicídios e depois metem um crivo no meio da testa. Mas muitos caras legais vão parar debaixo da ponte por causa de uma mulher, lembram, é Chinaski. Essa epígrafe me remeteu  aquele velho que parecia o Kerouac barbudo.  E ela sempre me deu um pouco de medo, mesmo  sabendo o quanto eu sou forte e capaz de resistir aos desaforos da vida. Lembrei da bola de capotão besuntada no fundo do quintal, ali pesada de água e bicas. Meus dez anos foram geniais, mas os trinta estão aí e sinceramente eu tô achando do caralho.  As fotos em preto e branco são   realmente delicadas. O dark side pode ser lindo depois da meia noite e no meio de duas  garrafas de vinho. Eu revejo ele diariamente em suas diversas tonalidades de escuridão e descubro definitivamente que eu jamais vou caber dentro de um armário minuciosamente arrumado.

15 Respostas para “repouso”

  1. Edilva Bandeira Disse:

    Hum…poema muito comovente Bruno, só curto poemas que me comovem…hehehehe
    Gostei especialmente dos últimos versos: “e me controlar pra não dizer Eu te amo”
    Afffff…..é f. quando temos que nos controlar pra não dizer eu te amo para alguém que amamos, mas que as vezes não temos coragem de dizer, não convém dizer, temos vergonha e/ou medo de dizer…enfim, nos controlamos e não dizemos.
    Beijo

    • brunobandido Disse:

      é, edilva, nesse poema foi um lance mais de solidão mesmo. bebum precisando de afeto. merda do tipo. mas cada um vê como quer né? esses dias eu li esse poema num evento de porto alegre e o pessoal ria pra burro, vai entender…

  2. Camila Fraga Disse:

    esse poema é bom sim, pô. nem vem com essa que eu não curto ele.

    e tu perdeu o filme do marlboro man?

  3. Adriana Brunstein Disse:

    rabos melancólicos…porra!

  4. adriana godoy Disse:

    Demasiadamente bom. É o que posso dizer e melancólico como os rabos melancòlicos das garotas.

    Beijo

  5. Kleber Felix Disse:

    se for afim ter reenvio os contos que cê me mandou

  6. juliana gola Disse:

    faz tempo que não comento aqui. reli o poema quatro vezes. é lindo. beijos

  7. Anônimo Disse:

    também gostei do poema. fiquei feliz com a parte de que nenhuma mulher precisa ser discreta pra chorar…

    abraço.

  8. RAFAEL ROCHA Disse:

    Cara, não sei o que aconteceu com seu note, mas, se vc levar num desses lugares de computador eles conseguem recuperar, senão a totalidade, pelo menos, uma boa parte do seu HD.
    Grande abraço!

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