um kerouac pra aliviar a ressaca / a desgraça dos santos

“Ela sorriu e desceu com passinhos miúdos e a mão na saia, com aquela lentidão linda e majestosa de mulher, como uma ninféia chinesa. “Não somos nada.” “Podemos morrer amanhã” “Não somos nada.” “Você e eu.” Eu acompanho-a educadamente com a lanterna até a rua, onde chamo um táxi branco para levá-la para casa. Desde tempos imemoriais e adentrando o futuro sem fim, os homens amaram mulheres sem dizer a elas, e o senhor os amou sem dizer, e o vazio não é o vazio porque não há nada para ser esvaziado. Estás aí, Senhor estrela? – Suave é o chuviscar que perturbou minha calma…” (Tristessa, Jack Kerouac)

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A primeira vez que cruzei com o Figueroa, eu tava bebendo na frente do Bells. Ele veio me pedir uma moeda pra conseguir comprar cigarro avulso e eu recém tinha recebido um troco de um real e dei prele. Ele pegou um punhado de cartões com imagens e orações de santos católicos que ele vendia pras pessoas e me deu um, eu disse que não precisava, mas o Figueroa insistiu pra que eu pegasse. Peguei e ele caiu fora com seus passos lentos e o cuidado de quem enxerga por um olho só.

O nome dele foi uma homenagem do pai ao grande zagueiro chileno Elías Figueroa, que jogou pelo Internacional na década de 70. Alguém contou uma vez pra ele que quando o zagueiro foi apresentado à imprensa gaúcha, ele citou um poema de Pablo Neruda ao responder uma pergunta dos jornalistas (que diferença pros jogadores de hoje, não?). Enfim, o Figueroa – o dos cartões de santos – deve ter enchido o saco dessa mesma pessoa pra que ela conseguisse o poema pra ele – ela conseguiu e ele sempre andava com ele no bolso e, sempre que tinha a oportunidade, tirava aquela folha de ofício amassada e lia pras pessoas nos bares. Eu cruzei com o Figueroa mais um bocado de vezes, ele sempre me pedia uma moeda e me dava um cartão de santo. Claro que eu perdi quase todos os cartões que ele me deu, não sei se alguma vez cheguei com um deles em casa, mas o Figueroa tinha uma puta memória e sempre sabia os cartões que ele já tinha me dado e tomava o maior cuidado pra que eu não repetisse o santo.

Eu já tava há um bom tempo sem vê-lo e, há poucos dias atrás, poucos mesmo, Figueroa surgiu enquanto eu tava bebendo conhaque no Van Gogh. Ele parou na minha mesa, começou a olhar atentamente pra todos seus cartões  e disse Dos que eu tenho hoje, ainda te faltam São Lázaro, São Jorge e São Cristovão, acho que eram esses (minha memória não é certeira como a dele). Acho que eu escolhi o São Jorge. Acho que esse cartão também não voltou comigo pra casa. Ele conversou um pouco sobre o Inter, sobre o último Gre-Nal que aconteceu no ano, e aí seguiu pelas mesas, mostrando seus cartões de santos pras pessoas e pedindo algumas moedas, sempre tranqüilo pra burro. Eu nunca o vi agitado. Eu vi pessoas caçoarem dele e ele nunca demonstrou se afetar, virava os olhos, pegava os cartões de volta e seguia pra próxima mesa. Claro que ele não devia ser só isso. Os santos também devem ter olhado pro céu algum dia e perguntado ‘por que eu?’, ou coisa do tipo. O Figueroa também, provavelmente. Mas eu seguia vendo ele com a camiseta velha do colorado, as calças jeans mais sujas da cidade, os olhos vidrados e a calma implacável. Ele sempre se despedia com um Vai na paz, irmão. Ele parecia acreditar mesmo nessa coisa de paz.

Hoje o Jeferson me disse que ele morreu. De acordo com um taxista da rua da República, ele se meteu em encrenca e uns cinco ou seis filhos da puta bateram nele covardemente. Acho que o Figueroa não tinha mais do que 35 anos. O Elías Figueroa, ainda tá vivo, por sinal. Eu poderia ficar escrevendo sobre como isso é revoltante e que as pessoas são idiotas, mas que se foda, por que diabos? O Facebook já tá cheio de correntes pra quem quer esse tipo de coisa. Eu só recebi a notícia, sentei, pensei nele na calçada em frente ao Van Gogh procurando os cartões de santo que ainda não tinha me dado e resolvi escrever sobre isso. O Figueroa, infelizmente, não foi na paz. Nem a vida nem a morte se dão por merecimento, todo mundo já sabe. Mas, agora, mesmo que não tenha mais porra nenhuma, ele chegou lá. Quer coisa melhor do que porra nenhuma? (pelo menos pra mim, um radical antipático que sempre acreditou que Deus é silêncio e o paraíso é ninguém). E se tiver alguma coisa, espero que ele teja recitando Neruda e contando histórias que ouviu sobre o zagueiro Figueroa em algum boteco divino. Isso também é algo muito próximo do melhor que se pode esperar.

17 Respostas para “um kerouac pra aliviar a ressaca / a desgraça dos santos”

  1. Anônimo Disse:

    Emocionante o texto e sempre triste a covardia.

  2. Diego Moraes Disse:

    Foda.

  3. Ernane Catroli. Disse:

    A qualidade literária, ímpar, do seu texto, perpassada de dor e poesia da melhor cepa.Abç.

  4. Beatriz Provasi Disse:

    pô, não sei se foi no dia q eu tava bebendo contigo q o cara apareceu, mas cheguei em casa com um cartão de são jorge q misteriosamente havia surgido na nossa mesa… pelo menos achei q aquele santo surgiu ali do nada, e q era pra um amigo meu q é devoto de são jorge e era o q tava aquele dia dando entrevista no jô – achei uma puta coincidência! aquele são jorge aparecer ali, naquele dia… peguei o santo e guardei. vou dar pra esse meu amigo. qto ao figueroa, pô, q belo texto q vc fez pro cara! e a gente lá inventando histórias de facadas… essas coisas são bem reais, e bem tristes. q pelo menos exista algum santo pra quem acredita, e q estejam agora todos lá cuidando do cara. bruno, tô voltando hoje pro rio, foi um prazer passar algumas madrugadas bêbadas com vc… vê se descola um jeito de aparecer por lá algum dia! e vai pensando na ideia do livro… a gente se fala. bjss

    • brunobandido Disse:

      porra, bia, foi antes de eu ir pro coquetel mesmo. vai que é o mesmo cartão. pelo menos um eu sei onde tá, agora. bacana beber contigo também, vou pensando sim, boa viagem. um beijo

  5. Pedro Pellegrino Disse:

    Brunão,cê viu que falaram de você na Folha? No guia de livros/discos, etc, falaram sobre a revista inglesa que você participou com um conto… Grande abraço.

  6. arnaldo. Disse:

    http://acervo.folha.com.br/resultados?q=%22bruno+bandido%22&site=fsp&periodo=acervo&x=6&y=15

    se não abrir esse link acima, clica aqui http://acervo.folha.com.br/ e no campo de busca digita teu nome entre aspas (nao sei se precisa ser entre aspas, mas foi assim que eu fiz) e depois de aparecer os resultados (que deve incluir o goleiro do flamengo), escolhe 2011, dezembro, 17/12/2011 e por aí vai.

    abraço.

  7. Pedro Pellegrino Disse:

    Cê quiser eu te mando o Guia,brother, Manda seu endereço no email: travisbicke@hotmail.com Grande abraço.

  8. Pedro Pellegrino Disse:

    Saiu no último sábado.

  9. Anônimo Disse:

    Pô, sacanagem com ele, Texto bonito, Bandido.
    Não consegui abrir o linkda folha com o texto sobre vc. Beijo

  10. adriana godoy Disse:

    O anônimo aí no caso sou eu. Esqueci de colocar nome.

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