excluindo todas as merdas, todas as minhas convicções vagabundas e os meus fantasmas mais tristes, deve existir um ou dois momentos que desopilam um inútil como eu. saquem que eu não tô falando de momentos de felicidade, isso é coisa pra outro tipo de gente ficar falando. tô falando de desopilar – como quando aquela garota bêbada senta no seu colo bêbado no banco de trás de um táxi rumo ao fim da madrugada e deixa você fazer de tudo ali mesmo. é, ela faz com que até sua alma se encha daquele prazer torto e sacana depois de chegar no vazio da garrafa de conhaque, um prazer que não quer mais brincar sem ir fundo. ou como quando eu caio num palco com velhos amigos e começo a tocar meus rocks e meus blues vagabundos. eu nunca fui muito de procurar diversão. eu procuro paz comigo mesmo e isso é tão inalcançável que o máximo que consigo chegar é em uma serenidade fajuta depois de bater muita cabeça por aí. eu não me divirto assistindo futebol, eu apenas assisto o meu time jogar. eu não me divirto saindo pra beber, eu apenas preciso disso, é um lance de se esconder da merda toda no canto mais escuro do bar e torcer pra que quando aquela hemorragia interna vier ela seja rápida e rasteira como um bom pistoleiro e acabe logo com isso. mas então, eu me divirto tocando meus blues e rocks vagabundos em cima de um palco. é o único lugar em que consigo me divertir, porque é o único lugar em que a diversão me interessa. é por causa do rock’n roll e de uns brothers bêbados que eu sei que essa história de diversão existe e que pelo menos em uma situação ela me atrai, mesmo que alguns versos bêbados que eu faço em casa, como quem reza, carreguem tantas angústias que mal caibam no apartamento. mas isso é outro momento. há alguns dias atrás eu tive o prazer de desopilar da merda toda e ir pro uruguai tocar minhas canções com velhos amigos. eu gosto, eles gostam, e sempre tem um pessoal desconhecido que curte nos ver em cima do palco quando eu resolvo fazer isso. então eu tô ali, cheio de fissura, pego a guitarra de alguém e mando bala – sou antipático, cago pros aplausos, não digo boa noite, nem o meu nome – a única coisa que eu falo em palco é o nome da banda, e nem me importo com o fato de eu não ter uma banda, eu apenas elejo alguns músicos amigos pra me acompanhar, alguns amigos que também se divertem e bebem em cima do palco, e digo: Nós somos a Pau de Baleia. É sempre esse mesmo nome, Pau de Baleia, antes eram outros, mas desde o dia em que eu e o Maestro Gentilesa chegamos nesse título – após ouvirmos numa conversa que a baleia tem o maior falo do mundo – antes de se juntar mais uma vez e subir no palco de algum evento qualquer, não mudou mais. Talvez eu devesse ter uma banda. Mas não sei não. Eu sou um cara quebrado, um cantor rouco sem voz, um demônio sem vez, não curto ensaios, só plugar o instrumento ao vivo e não pensar em mais nada, os brothers que aceitaram ser a Pau de Baleia da vez nunca têm muita ideia do que vou tocar, eu não mostro os acordes direito, eles que se virem atrás da minha bebedeira e do meu tesão, até as músicas mais antigas que já viraram pequenos clássicos da nossa turma, eu tenho a manha de mudar as notas, a melodia e coisas assim. Um porra louca ranzinza triste imaturo tocando blues que falam sobre como as mulheres sempre acabam caindo fora quando se envolvem com porras loucas ranzinzas tristes imaturos. Só isso. É como ler um salmo e rir de si mesmo ao mesmo tempo. e é divertido. depois que acaba, depois do último acorde, do último soar de pratos da bateria, tudo fica na mesma merda. tudo ficou na mesma merda lá no uruguai. voltei a caminhar bêbado pelo lugar totalmente sem rumo, como um espírito que desencarnou do corpo e não viu luz nenhuma lhe ofertando o paraíso. algumas pessoas vinham falar do show, me ofereciam bebida ou outras coisas, eu aceitava ou recusava, seguia cada vez mais bêbado e mais escroto, devagar atrás de porra nenhuma, pensando que se eu tivesse quatro horas diárias pra tocar blues e rocks vagabundos com amigos, talvez não seria tão penoso caminhar devagar atrás de porra nenhuma – e as garrafas vão sumindo, olho as garotas e falo com algumas, e fico bêbado o suficiente a ponto de falar merdas escrotas pra algumas e isso ainda ter algum resultado – preu acabar morrendo na areia, acariciando um vira-lata e uma garota intragável ao mesmo tempo, sabendo que o vira-lata tem muito mais estilo do que ela, ouvindo conversas avulsas, pessoas me chamando pralguma roda escrota de violão, recusar, recusar, recusar, antipático e tímido e, principalmente, escroto, talvez um pouco arrogante, mas sem o menor motivo a não ser meus vinte e poucos anos, a não ser eu tá muito ocupado batendo um papo com meu velho companheiro de guerra, esse camarada que fala minha língua e se chama Desinteresse.
18/01/2012 às 10:40 am |
Te entendo, Bandido. Esse camarada também conversa muito comigo. Texto bom de ler e pensar nessa porra de vida. Beijo
19/01/2012 às 4:48 pm |
Taí um texto que o velho Buk assinaria. bem legal.
25/01/2012 às 12:09 am |
legal cara…curti mesmo teus textos…massa mano
25/01/2012 às 12:58 am |
valeu, cara. abraço.