sobre como eu não culpo essas merdas nem os livros malditos

Eu posso tá no meio do furacão ou tocando rock num palco uruguaio que vou seguir sendo esse filho da puta sozinho. Eu posso tá dentro de uma mulher e eu vou tá sozinho duas vezes, como na música do Sabina ou na amargura de Raymond Chandler. Penso que nasci assim, mas a vida tê-la levado não ajudou nem um pouco. As merdas vão seguir vindo. Só que ainda tem uma música do Miles Davis que sempre toca aqui dentro. Tem essa camiseta do Frank Sinatra que ela me deu e sempre uso. Tem um episódio de Californication me esperando no computador pra quando eu voltar pra realidade. Não adianta, é óbvio que voltar é sempre a opção mais triste, mas a realidade continua sendo o único lugar em que posso tirar o telefone do gancho e pedir uma pizza. Eu curto deixar a maior parte da pizza pra ir comendo fria no outro dia, um velho clichê, como ela dizia. E uma fatia com muzzarela fria quando acordo de ressaca às quatro da tarde de um domingo chuvoso também me faz voltar pra realidade – me faz lembrar de Lady Past, dos hematomas em suas pernas, da despedida no hospital, do dia em que os médicos disseram o inevitável com frieza nas palavras e um pesar fudido nos olhos, eu preferia não ter olhado pros olhos do médico. Ele disse que tava fazendo o possível e que nós todos devíamos fazer a nossa parte. Sabe qual é a porra da parte que ele nos incumbiu? Rezar. Acredita nisso? Tudo bem, cada pessoa sabe o que fazer com sua fé. Não acho nada condenável alguém rezando por uma coisa dessas, num momento desses. Acho que até eu que nunca fui de encher o saco de divindade nenhuma me peguei pensando, em um par de momentos de desespero e desolação, alguma coisa como ‘porra, alivia essa, vai’. Mas um médico não devia dizer isso. Ele é a porra dum médico, saca? Sou só eu que acho estranho um homem que lida com ciência e medicina ficar incentivando a reza? Dizendo que rezar é preciso. Quando um médico fala ‘Você devia agradecer a Deus’ isso só me faz jamais optar por ele na próxima doença. E não é nada contra Deus. É contra o médico. O fato é que todo o resto rezou, e eu até pensei em bater um papo franco com Deus, mas daí eu lembrei daquele piloto de Californication que a gente tinha visto junto fazia um mês – quando ainda não havia hematoma nenhum – em que Hank Moody entra na igreja pra ter sua conversa com Jesus e uma freira o aborda e acaba lhe pagando um boquete. Era um sonho do Hank. O começo do episódio, antes da gente conhecer sua realidade. Foi isso que acabei pensando quando eu pensei em rezar. Aquela freira gostosa. E me senti um pouco culpado, mas isso não tirou minha líbido. Ontem eu assisti esse episódio de novo. E continuo achando a ideia excitante. E pensei nela e na sua ida. E pensei em quantas vezes eu tentei escrever sobre isso e deixei quieto, e pensei nas buriladas em contos e textos meus, nas distorções em que cavei sua história só preu saber que ela tava ali, mais ninguém. E contabilizei os demônios que viraram minhas companhias de bar em dias de tormenta desde que tudo isso aconteceu. O fato é que não dá pra saber exatamente. Eu ainda acho que nasci esse filho da puta imaturo resmungão antipático solitário. Não foram os livros malditos que li, as coisas que ficaram pra trás, as pessoas que se foram, ou os demônios que surgiram na metade do caminho. Sou só eu, não pedi pra minha vida ser como ela é, como na música do Mário Bortolotto, a ira de Deus, um disco de jazz. Mas ela é tudo isso que eu nunca pedi – e eu também nunca pedi prela não ser. Vou seguir coas notas do Miles Davis e a camiseta do Frank Sinatra e a fantasia de um blowjob de freira ao som dos Rolling Stones. A voz de Nico acariciando meus lóbulos naquele primeiro cd do Velvet. Quando sobrar uns trocos mesmo depois de todo esse conhaque, corto a fantasia fora, pego o telefone e peço a pizza. Sempre vai ter mais um domingo inteiro pela frente. E isso vai ser sempre um saco. Até não ter mais.

18 Respostas para “sobre como eu não culpo essas merdas nem os livros malditos”

  1. Sofia H. Disse:

    é estranho. a gente não escolhe o que é, mas vez por outra se pega tentando entender poque a gente é assim, quando na verdade as vezes simplesmente é porque é. mas acredito piamente que muita coisa que acontece vai contribuindo pra gente se fechar e acabar se minguando num canto da cama quando chove ou, sei lá, quando bate aquela vontade de não ver ninguém.

    tem coisas absurdas que acontecem que fazem a gente querer rezar, orar, fazer alguma prece. tem coisa que acontece que – mesmo na maior vontade de chorar – so faz a gente querer rir. gargalhar. quando você falou na nico me deu um nó na garganta, mas eu só quis rir. e, querendo ou não, acabo pensando nas pessoas que se foram, mas musicas que foram ouvidas, nas coisas lidas, no tudo que aconteceu e me pergunto se eu seria assim caso isso tivesse sido diferente. ah, sei lá.

    bom dia, bruno :)

  2. Camila Fraga Disse:

    triste pra burro. beijo.

  3. Kleber Felix Disse:

  4. adriana godoy Disse:

    Bandido, é uma constatação sua, não há o que fazer. Talvez torcer pra que seus domingos não sejam tão longos. Texto bom, texto triste. Beijo

  5. Rocha Disse:

    belo texto, Bandido!
    grande abraço!

  6. Gabriel Oliveira Disse:

    Do caralho, Bruno.

  7. Miriam Disse:

    Não tem jeito, pouca coisa é tão bonita quanto a tristeza.

  8. Pedro Disse:

    O Bruno só responde as mulheres, safadinho.

    O texto é tão bom que chegou a dar um nó em minha garganta.

    Abraços!

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