Entrevista

10/07/2018

https://comoeuescrevo.com/bruno-bandido/

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O hexa possível

27/06/2018

taison

Nosso futuro está sempre sendo reescrito. Existem várias possibilidades e elas se alteram de acordo com um conjunto de ações fundamentadas em livre arbítrio a cada segundo. Pois bem, posso contar pra vocês o único futuro em que o Brasil seria campeão da Copa. É o único mesmo. Então se algo do que vou contar não acontecer no meio do caminho, infelizmente, vocês já saberão que o Brasil não ganhará a Copa. Vamos lá, prestem atenção. Começaria hoje, nossa seleção se classificaria contra a Sérvia, a classificação, contudo, traria também uma tristeza carregada de medo. Pois Menino Neymar levaria o segundo cartão amarelo contra a Sérvia, fato que o tiraria do próximo jogo. Já pensando nisso, Tite colocaria Jovem Taison em campo, pra ir acostumando, e ele teria uma participação mais que discreta. Para as oitavas, Douglas Costa ainda estaria com dores, os jornalistas reclamariam ainda mais da convocação de Jovem Taison, pois ele é a única opção agora. Os jornalistas passariam horas discutindo sobre uma possível nova opção. Os jornalistas lembrariam do 7 a 1 sem o menino Neymar. O próprio Tite pensaria sobre isso, mas concretizar uma nova opção seria admitir que não deveria ter escalado Jovem Taison, e Tite, por motivos subjetivos, não concorda com isso. Jovem Taison, então, entraria como titular e acabaria com o jogo. Brasil nas quartas. Menino Neymar de volta. Primeiro tempo sofrível. Brasil sai perdendo de um a zero. Neymar é muito marcado, sofre muitas faltas, é perseguido por um rodízio de jogadores que se tornariam mais e mais vilões na cabeça de Menino Ney. Philippe Coutinho estaria muito bem, mas sem companhia. Tite, tomado de uma coragem sobre-humana, olharia pra trás e veria Jovem Taison, rindo, nervoso, sentado em seu lugar de costume. Jovem Taison olharia para Tite, Tite mandaria Jovem Taison aquecer. Jovem Taison entraria em campo no lugar de Menino Neymar. Os televisores de todo Brasil contemplariam um Galvão Bueno mudo. Jovem Taison faria o gol de empate. Philippe Coutinho marcaria o outro nas prorrogações. Brasil nas semi-finais. Menino Neymar mais uma vez em campo. Mais uma vez muito marcado. Jovem Taison entraria mais cedo dessa vez, já na volta do vestiário, no lugar de Menino Ney. Com seu futebol moleque, com alegria nas pernas, Jovem Taison comandaria a vitória da seleção canarinha. Chegamos então na final. Jovem Taison entra como titular. Neymar, portanto, começa assistindo seus amigos do banco. No rodízio de capitão, a braçadeira ficou com Jovem Taison. Na noite anterior, após Tite anunciar quem comandaria a seleção dentro de campo, Jovem Taison demora pra dormir e quando dorme sonha que levanta a taça. Jovem Taison sonha com um caminhão de bombeiros em Pelotas. Seus onze irmãos estão lá em cima com ele. No sonho, seus onze irmãos são de fato seus onze irmãos, mas ele não é ele, é outra pessoa, uma pessoa que sequer conheceu, um rosto que nunca viu em sua vida, mas Jovem Taison sabe que é ele, e todos o tratam como se fosse ele, o Jovem Taison, festejando em cima daquele caminhão. De repente, uma explosão. Uma bomba. Uma bomba estoura o caminhão de bombeiros. Jovem Taison acorda assustado. Toma um banho frio e se dirige ao café da manhã ainda com o pesadelo na cabeça. Mas é o dia da final e Jovem Taison precisa se concentrar. Jovem Taison se concentra. Jovem Taison faz um belo jogo, dá assistência para o um a zero. Aos trinta minutos do segundo tempo, esgotado da melhor atuação de sua carreira, sentindo o desgaste físico de um final de final de temporada, sentindo o desgaste emocional de ter se tornado o novo herói de um país, Jovem Taison sente caimbras. Tite o substitui por Menino Neymar. Jovem Taison, ao sair de campo sob aplausos de um estádio inteiro, de nações inteiras, retira a braçadeira de capitão e a entrega a Menino Neymar. Ela é sua, ele diz. Menino Neymar a coloca. Entra bem no jogo, o Menino Neymar. Aos 47 do segundo tempo, faz um belo gol em contra-ataque veloz, o gol do dois a zero, para sacramentar a vitória. Os jogadores comemoram. Tite beija a boca de Jovem Taison. Menino Neymar levanta a taça. Menino Neymar chora, chora muito, e levanta sua taça.

Reencarnação

26/06/2018

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É bacana, claro, a boa intenção do Papa Francisco em levantar temas humanitários (não apenas de esquerda) dentro da Igreja Católica. Só do nome escolhido ser Francisco já é muito bacana. E estou falando da boa intenção, a qual acredito, sim, que ele tenha, e não do marketing e do medo que envolvem essas declarações. Mas não deixa de ser uma tentativa superficial de redenção para a igreja como instituição. Redenção estrutural seria, por exemplo, admitir a reencarnação.

Por que admitir e não reavaliar? Porque na verdade seria readmitir. A Igreja Católica tinha a reencarnação como fato até meados de 550. Por que ela tinha a reencarnação como fato? Porque é uma religião fundamentada na crença cristã e Jesus Cristo falava sobre reencarnação. Coisa, é claro, que a igreja não costuma comentar por aí. Acontece que o segundo Concílio de Constantinopla, por pressão do Império Bizantino, ou seja, por questões políticas, atendeu aos pedidos e tirou a reencarnação da cartilha, engabelou aqui e ali com a ressurreição (WTF?) e já era.

Que esquecessem as vezes em que isso aparece na Bíblia. Que esquecessem, por exemplo, que Jesus, de acordo com Mateus e Malaquias, identificou em João Batista o espírito de Elias, aquele do Antigo Testamento. Por sinal, sabe como João Batista morreu um tempo depois disso? Degolado após ser preso, com direito a cabeça entregue numa bandeja. Pois bem. Vai no Antigo Testamento e vê o que Elias fez com os 450 profetas politeístas de Baal – mandou prender, depois degolou em nome do seu deus. Quer dizer, além de uma aula sobre reencarnação e evolução do espírito, também temos aqui uma lição sobre karma.

Aspectos, aliás, que várias filosofias e religiões, pré e pós-catolicismo, possuem em suas crenças – budismo, hinduísmo, os cultos aos orixás, o espiritismo, a cabala judaica, a teosofia, a wicca, várias vertentes xamânicas, do Egito antigo e por aí vai. Assim como a igreja católica antes do segundo Concílio. Antes das cobranças.

O que parece ter acontecido foi que Teodora, esposa do poderoso imperador Justiniano (esse casal bonito aí da ilustração), era uma maluca escravocrata com pouquíssimos traços de humanidade e muito preconceito, é claro. Quando ouvia sobre reencarnação, lei do retorno e esse tipo de coisa, morria de medo de voltar como uma raça que julgasse inferior, uma escrava ou de alguma forma que pagasse seus pecados. Já que tinha consciência, então, de que era uma pessoa péssima, ao invés de melhorar, o que era muito difícil, nada cômodo, resolveu pedir ao seu marido e aos seus conchaves que abolissem a reencarnação na sua religião. Faz sentido? Nenhum. Mas desde quando os ricos precisam fazer sentido? Como eram ricos, poderosos e temidos, a igreja não pareceu ter dúvida, foram tantas distorções das palavras de Cristo, afinal, grande merda essa parada de reencarnação, não é mesmo? Nem conveniente isso é pra quem quer hegemonia com um reinado de culpa.

E então foi isso. Agora, pergunto. Faz sentido que alguém que tem em sua fé os preceitos da reencarnação seja racista, machista, homofóbico ou a favor da pena de morte, por exemplo? Claro que não. Como esses “cristãos” toscos iam ser tão furiosos contra alguns direitos humanos então?

Existe espiritualista que crê em karma e reencarnação mas mesmo assim é racista, machista, homofóbico e a favor da pena de morte? Claro que sim. Mas eles não fazem o menor sentido, são influenciados pela cultura e meios em que vieram e não por suas crenças, que não parecem tão fortes assim, porque se fossem, desmontariam seus argumentos em uma simples corrente de pensamento – o que podemos fazer em qualquer discussão.

Fora que o estudo da espiritualidade através da reencarnação desmonta aqueles clássicos argumentos adolescente-ateístas de “Se Deus existe por que tem fome no mundo, as mães perdem filhos e bla bla bla”…

Deixando claro aqui que não tenho absolutamente nada contra ateus e esse texto tampouco é pra isso. Não é novidade que há gente que não acredita em Deus, em reencarnação, em nada, e é muito mais conectada aos bons valores e ao seu próprio espírito (isso só vão descobrir quando morrerem) do que muitos crentes por aí. Nem tenho absolutamente nada contra a pessoa acreditar no que ela quiser. O que acho errado, ou no mínimo incongruente, o que acredito que tem o dever de mudança, são a ignorância e a intolerância apoiadas em distorções de uma filosofia tão bonita como a de Cristo. “E conheçam a verdade e ela os libertará”. O cara diz isso há dois mil anos e a gente até hoje aqui, apontando dedos.

Tabárez

26/06/2018

É uma pena que Copas do Mundo não sejam feitas de utopia. Pois, na minha cabeça, ninguém é mais merecedor de uma taça que o viejo na foto. No melhor estilo “não se ensina uma nova melodia a um velho maestro”, o futebol que o Uruguai joga hoje em dia é um ‘regalo’ pros meus olhos ‘gauchos’. Numa era onde qualquer timeco sabe fazer um esquema de marcação eficiente, deixando oitenta por cento dos jogos muito chatos, o Uruguai tem esse estilo maravilhoso onde oito homens carregam a tarefa de empurrar o jogo pra frente onde dois bueníssimos atacantes se mexem como loucos famintos entre marcadores preocupados. Todo e qualquer jogo, seja contra o melhor ou pior time, poderá ser sofrido. E até os jogos em que eles dominam completamente há alguma briga – a briga entre o próprio time e uma possível goleada (que parece sempre difícil, e hoje até se concretizou, com aquela forte subida do Godín pra Cavani exorcizar suas maldições), é um futebol quase anacrônico, com uma tática quase ingênua, que muitas vezes dá certo, ou seja, uma fórmula imbatível de esperança em corações celestes.

Há uma galeria na minha memória afetiva dedicada à seleção uruguaia. Em 2001, então com 11 anos, ainda morando em Jaguarão, fronteira com Uruguai, jantando com meus pais em um pequeno restaurante no lado castelhano, vi na TV uma mesa redonda dos hermanos. Os jornalistas estavam ensandecidos e estouravam garrafas de champanha ao vivo. Meu pai explicou que era porque o Uruguai tinha garantido vaga na Copa do Mundo de 2002. O Uruguai virou minha segunda seleção naquele momento. Os jornalistas de terno, gordos, suados, bebendo em sua mesa redonda com cenário pobre, meio brega, retrato tanto cultural quanto da crise econômica que o país vivia, saudando a seleção de Víctor Puá, destoando tanto da esterilidade dos programas esportivos brasileiros, marcou minhas retinas pra sempre. A efusividade e a quebra de protocolo faziam sentido. O Uruguai não disputava uma copa desde 1990 – onde foi comandado pelo mesmo Oscar Tabárez de hoje, e eliminado nas oitavas, quando perdeu para a Itália, o time da casa.

Em 2002, eles não passariam da primeira fase. Em 2006, não iriam pra Copa de novo. Depois disso, no entanto, com Maestro Tabárez mais uma vez no comando da celeste, fazendo um belo trabalho de reestruturação e contando com Forlán, Cavani e Suárez na força ofensiva, Lugano e Godín gigantes atrás, começou sua caminhada pra não ficar mais fora de nenhum campeonato.

Em 2010, eu trabalhava na Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no mesmo andar do gabinete do próprio secretário, e meu grito foi ouvido por ele quando Gana perdeu aquele pênalti. Aquele pênalti histórico que Suárez provocou defendendo uma bola com a mão matreira de um Deus latino e sudaco, marcando presença em mais uma Copa. Não trabalhei mais naquele dia, a cavadinha de Loco Abreu, o martirismo de Suárez comemorando nos túneis de saída, a técnica de Forlán, e aquele jovem Muslera que parecia acreditar no impossível injetaram em mim uma bomba quase fatal de adrenalina.

Em 2011, dei a sorte de estar visitando meus pais e amigos em Jaguarão no dia da final da Copa América, quando Uruguai venceu o campeonato em solo argentino. Atravessei a ponte com alguns amigos pra ver a festa no outro lado da fronteira. A pequena cidade de Rio Branco estava incaminhável, nunca mais vi uma alegria tão condensada.

Em 2014, a mordida de Suárez, esse personagem complexo e magnífico, deixou a seleção, que já contava com um Forlán sem tanto poder de fogo, órfã e tirou grande parte das chances de um novo maracanazo.

E agora vejo Maestro Tabárez se desfazendo como homem físico em cima de sua bengala. Toda força que precisa fazer para ir gritar com seu time na beira de campo. Que homem! Quanto merecimento. Ele não é chamado de Maestro no sentido que jogadores chamam seus técnicos de ‘professor’. Ele é chamado de Maestro porque de fato exerceu a carreira docente, em paralelo ao futebol, por muito tempo. Em 87, com 40 anos, ainda era considerado um técnico de time pequeno quando Penãrol o anunciou. Vocês sabem o que aconteceu com o Peñarol em 87, né? Aquela libertadores épica. Aquele gol histórico de Aguirre, que provavelmente será seu sucessor como técnico da seleção quando a hora chegar.

Pois bem, minha Copa utópica é essa. Uruguai e Argentina iriam pra final em 2018. Jogariam muito bem. Cada equipe marcaria dois gols. A prorrogação seria doída. Muslera mais uma vez deixaria de lado a desconfiança eterna sobre seu costado com um ou dois milagres em chutes de Messi. Higuaín, coitado, entraria pra perder mais um gol imperdível em sua maldição de tango, e o Uruguai venceria o jogo no sexto pênalti. Suárez morderia o escudo de sua camisa. Neymar assistiria de casa, junto de seus parças, seu colega Cavani correndo com a taça na mão. E o Maestro Tabárez, bem, ele levantaria suas duas mãos aos céus e seria puxado por Deus, é só isso que falta, é só isso que ele precisa, levantar as duas mãos e sumir plácido e celeste rumo à eternidade.tabarez 18

Jesus

18/06/2018

Início transcrito do relato fictício de Maria Madalena, sobre o primeiro encontro com Jesus, no ótimo livro O Filho do Homem, de Khalil Gibran:

“Era o mês de junho quando O vi pela primeira vez. Ele estava caminhando no trigal quando passei com minhas servas, e Ele estava sozinho. O ritmo de Seus passos era diferente do ritmo dos outros homens, e o movimento de Seu corpo não parecia com nada que eu tivesse visto antes.
Os homens não andam sobre a terra daquela maneira. E mesmo agora não sei se Ele andava depressa ou devagar.”

E abaixo é uma mensagem que transcrevi faz um tempo de um vídeo onde uma extraterrestre (Shellyana) falava através de uma médium. É também sobre Jesus. Transcrevi, porque achei muito bonito:

“Quando eu tive o primeiro contato com o conhecimento deste ser, eu deveria ter aquilo que vocês aqui chamam dois anos de idade, é como um cego que passa a ver, é isso que ele faz, possibilita que nós passemos a ver. Nada mais é necessário. Quando você é tocado pelo amor que nele existe, você passa a ver flores em tudo que existe. Isso é o que ele é. É o que ele representa. Quando ele aqui se manifestou, não digo na formação da terra, mas quando aqui ele foi introduzido, por equipes extraterrestres, no útero de Maria, a simples conexão dele à fisicalidade promoveu uma onda de choque tão poderosa que alterou os destinos de toda a Terra, uma onda de choque que acordou seres adormecidos, que fez com que as flores que aqui existem produzissem mais beleza e frutos mais ricos, que animais se sentissem mais amparados e acolhidos e despertos, que homens sem esperança começassem a ter esperança, que seres totalmente corrompidos pelo ódio tivessem rompidas as suas armaduras escuras e ali brotassem a possibilidade das suas retomadas evolutivas e que os anjos se fortalecessem no combate à escuridão. Nada mais é preciso dizer dele, que é o maior de todos.”

Daytona – Estreia quarta

15/04/2018

daytona

 

A ideia para Daytona surgiu quando eu tava escrevendo Enterro dos Lobos. Eu tava querendo escrever algo mais leve depois de Enterro. Tava ensaiando Palácio dos Miúdos com o Linguinha na época, e falei pra ele que ia escrever uma peça pra gente e pros nossos brothers atuarem. Pra se divertir. A ideia veio quando eu tava bebendo com o Klebão. A gente bebia bastante naquela época. Ele praticamente morava comigo e com a Camila e depois que ele voltava das vendas dos livros eu já tava esperando no boteco da esquina, com um litrão barato na mesa. Num desses litrões, surgiu alguma notícia sobre os poucos fliperamas que ainda existem por aí. E aí eu disse É isso, eu vou escrever sobre o último fliperama da cidade, e ele vai fechar, e o cara era o melhor no ranking de alguma máquina e resolve roubar essa máquina junto com uns amigos. O único comentário do Kleber a respeito foi: Esses caras podem ter uma bicicletaria. Eu não tenho a menor ideia do porquê ele disse isso, às vezes eu não tenho a menor ideia do porquê o Kleber fala umas coisas, mas eu sempre sei que ele vai falar umas coisas, e se eu tiver esperto na hora, acato. Eu tava esperto nessa noite. E a peça se passaria nessa bicicletaria no dia que antecede o roubo do fliperama. E essa ideia ficou na minha cabeça muito tempo. Eu acabei Enterro dos Lobos e, quase um ano depois, a gente montou e, dois meses depois da temporada acabar, eu quis escrever algo sobre crianças e eu já tinha a bicicletaria e o fliperama pra isso. Escrevi Daytona em duas horas. Não que ela já tivesse inteira na minha cabeça. Eu tinha essa premissa. Eu tinha decidido que a máquina roubada seria uma máquina do jogo Daytona. E quando fui escrever a primeira página, duas mulheres apareceram na cena. Eu faço jogos particulares com as coisas que escrevo. Enterro dos Lobos começava com duas mulheres conversando, e eu achei legal que Daytona começasse assim também. Tem outros, muitos outros, pelo decorrer da peça, mas o lance é que Daytona seria uma peça quase que só de homens, ia ter uma personagem feminina, que seria escrita pra Debora Sttér, porque eu sou mó fã da Debora Sttér, e ela seria a única atriz de verdade da peça, porque os outros iam ser eu, o Klebão, o Linguinha, o Lorandi (essas crianças tristes) e mais amigos que acabaram saindo dos meus planos assim que essas duas minas apareceram. Aí eu pensei, porra, é isso, alguns desses caras têm que ser mulheres. O que pra mim foi ótimo, porque prefiro escrever personagem mulher. E escrevi, por duas horas, fazendo meus jogos particulares e mais atrizes de verdade tiveram que entrar na peça (Luisa, Fernanda/Livia). Embora eu quisesse uma peça leve, eu queria uma peça que seguisse com o estilo que comecei a desenvolver em Enterro, textos mortos, pouco ou nada de poesia em diálogo, sem grandes revelações ou explicações, a trama principal (que parte de um ou mais clichês de gênero) relegada ao segundo plano para o foco ser aquelas pessoas ali, o que elas não falam, o que fez elas explodirem e não o que fizeram ou falaram quando explodiram etc. E foi isso. Como era pra ser uma peça em clichês de infância, de aventura, de roubo, todo o resto tinha que ser ainda mais sutil, e toda a infância e aventura e roubo tinha que fazer parte de um imenso nada. Era isso que eu sabia. E sabendo isso, foram duas horas bem bacanas de se viver. Grandes caras já descobriram há muito tempo que o nada é cheio de coisas (ao lado esquerdo do computador onde escrevo, tem um minialtar sincrético com símbolos e representações de deuses/deidades como Chenrezig, Kuan Yin, Saraswati, Ganesha, Apolo, São Francisco de Assis, patuá de Iansã, coleção de Ichings etc, e ao lado direito, em fotos, estão Anton Tchekhov e Jerry Seinfeld, é deles que tô falando aqui, meus dois preferidos mestres do nada). E agora Daytona estreia, quase um ano depois de escrita, depois de um monte de problemas – Linguinha quebrou a mão, quase operou a moleira e depois quebrou o pé, entrou Adriano como substituto. Ademir, ano passado, que dirigiria a peça, teve que sair por conta da sua agenda atribulada no trabalho (e volta agora, depois de longa temporada de algo que não sei se foram férias no Caribe ou um massacre a mafiosos albaneses, pra operar as mesas!), e entrou o Peterson. Ah, é claro que a peça não virou algo tão leve assim. Mas acho que ela tá impregnada desse descompromisso e dessa diversão também – o Ademir já ia preservar isso e o Peterson também preservou, em termos de direção. Que bom. Porque era isso que eu queria naquelas duas horas. Divertir crianças tristes, nem que seja um pouco, nem que seja até o terrível barulho do portão da casa se abrindo. Tão ligados, né? Aquele pânico das chaves na porta da frente.

 

 

Daytona estreia esta quarta (18), e segue nas quartas e quintas por curta-temporada no Cemitério de Automóveis.

 

 

 

 

 

melhores de terror

29/01/2018

Se em 2017 não vi nenhum terror que virou clássico instantâneo, como It Follows e A Bruxa nos anos anteriores, vi ótimos filmes do gênero. Hoje em dia tá mais fácil pra fãs de terror, nem precisa de tanta prospecção pra achar umas pérolas, o mercado nos EUA parece aquecido depois de James Wan ficar milionário e da produtora Blum House lucrar muito com filmes baratos e bons. Segue lista de alguns do fim de 2016 ou desse ano que são bem bacanas:

1) Os olhos da minha mãe – Um dos filmes de mais bonitos que já vi, gótico norte-americano em preto e branco com uma puta atriz portuguesa (Kika Magalhães), fado e um desenrolar lento e terrível. Pra mim, todo o filme é grande arte, mas a cena do banho no pai é de se guardar. Primeiro filme do diretor Nicolas Pesce, que agora tá adaptando Piercing do Ryû Murakami.

2) Corra – O ator Jordan Peele escreveu e dirigiu esse baita filme de terror satírico ao racismo e à era Obama. Um dos melhores do ano. Daniel Kaluuya mandou bem demais.

3) Raw (Grave, no original) – de vez em quando o cinema nos dá umas releituras intimistas e originais do arquétipo do vampiro. Foi assim com Martin, do George Romero, e Deixa ela entrar, filme nórdico baseado no livro do Lindqvist. Em Raw, da diretora e roteirista francesa Julia Ducournau, uma garota virgem e vegetariana é obrigada a comer carne em uma espécie de trote universitário. A partir daí, desenvolve um gosto desenfreado pelo alimento. Essa premissa podia dar um filme bem trash, mas não é o caso, ele é delicado e sensível e, só às vezes, forçado. Podia ser pretensioso também, com tantos temas que aborda – vegetarianismo, sair de casa, a babaquice dos trotes, despertar sexual, relação entre irmãos (e isso é o melhor do filme) – mas se mantém na linha. A cena do corredor do hospital é grande arte, a da briga entre irmãs também. Não é tão bom como Martin e Deixe ela entrar, final previsível digno de twilight zone, mas é um terror muito bacana sim.

4) O sacrifício do cervo sagrado – Yorgos Lanthimos, esse grego maluco que faz o Colin Ferrell atuar! Depois da parceria no ótimo drama The Lobster, agora eles vêm com esse terror e suspense psicológico pesado pra burro. O ritmo e a entonação estranha dos diálogos meio fakes seguem, os planos fixos que te acostumam com o bizarro e aí se movem lentamente também. Tudo estranho. Tudo bonito. Uma tensão que precisa de um certo tipo de surrealismo pra se manter. Lanthimos e Efthymis Filippou, seu roteirista de sempre, são espécimes estranhas.

5) Ao cair da noite – Filme bom de terror mesmo é o dramático e agoniante Krisha (2015), do mesmo diretor (Trey Edward Shults), praticamente caseiro, filmado apenas com membros de sua própria família atuando como sua própria família. Mas este, seu segundo filme, não é nada mau também. Setenta por cento rodado dentro de uma casa em um mundo pós-apocalíptico, as questões levantadas pelo roteiro se deslocam um pouco dos dramas desse tipo de filme, o que dá um certo brilho na crueza da história. Destaque para a cabra que faz parte do elenco, a mesma do excelente A Bruxa.

6) Super Dark Times – Outro longa de estreia de um diretor. Aqui é Kevin Philipps. Terror nada fantástico sobre pré-adolescentes (nenhum adulto protagonista). Se perde um pouco no ritmo e no final, mas vale pela estranheza da cena central do filme (no parque, grande arte) e pela lógica juvenil e bizarra que domina desde o roteiro até a fotografia.

7) Creep 2 – os bons Patrick Brice e Mark Duplass dando sequência ao ótimo filme de found footage Creep. Não é tão bom quanto o primeiro. Mas também não foi apenas mais do mesmo. Teve menos sustos e mais humor, mas é um humor muito estranho e bacana. Tem os dois no Netflix.

8) O Lamento – Filme sul-coreano engraçado e assustador. Se você já viu um velho japonês de fralda geriátrica e olhos vermelhos na floresta, torça para não vê-lo de novo.

9) Fragmentado – Pra mim, não tá nem no top 5 do Shyamalan, acho pior também que o A Visita, o divertido found footage que ele fez em 2015, mas tem roteiro redondo e é bem dirigido, o James McAvoy e a Anya Talor-Joy (assim como a cabra, também saída de A Bruxa) tão mandando muito e o filme tem que tá nessa lista só pela alegria que eu, fã do M. Night, saí do cinema depois daquela cena final.

10) A Morte Te Dá Parabéns – Uma mistura barata de Pânico com O Feitiço do Tempo (Dia da Marmota). Pra quem nasceu em 1990 é legal de ver.

11) Better Watch Out – Esse é uma mistura de Os Estranhos com Esqueceram de Mim. Divertido, inusitado e maníaco. O Netflix produziu uma comédia gore também esse ano – A Babá – com praticamente o mesmo plot só que invertido (não posso explicar senão estraga as surpresas), mas esse é melhor.

12) Annabelle 2 – Depois da bomba de merda que foi o primeiro filme, esse conseguiu recuperar uma franquia, com boas cenas e climas legais de medo. É que o diretor aqui é David Sandberg, mestre em curtas independentes de terror, que também dirigiu o filme Lights Out, adaptação meia boca (muito nos moldes antigos da indústria) do seu ótimo minicurta de youtube. Com certeza, ele não pôde mostrar tudo que sabe nesse filme, que ainda conta com aqueles sustos fáceis e música alta que o James Wan e a Warner adoram. Mas eu esperava um filme horroroso, fui assistir só porque apreciadores desse gênero estão acostumados a qualquer porcaria e saí do cinema bem satisfeito, não é Invocação do Mal, mas é o meio do caminho, pra mim tá valendo.

P.s.: “Mãe!”, do Aronofsky, não tá aí porque aquilo é mais, muito mais, do que um filme de gênero. Filmaço.

P.s.2: IT – A COISA, não tá porque fez uma bela cena no início e depois não cumpriu o terror que prometeu e virou algo como um coming of age de sessão da tarde muito bem feito.

O gato

28/09/2017

1.
Foi ela que enterrou nosso gato. Também não entendi direito onde. Chegou em casa com os cabelos grudados no rosto e barro nas calças. “Eu podia ter só jogado ele no lixo”, ela disse enquanto usava a ponta da chave do carro pra limpar a sujeira abaixo das unhas. Depois disso não disse mais nada. Entrei no banho e ela me seguiu, brinquei com seu corpo como costumo brincar, ela reagiu como costuma reagir, escutamos uns livros caindo da estante e chegamos a abrir a boca pra gritar o nome do gato em ridículo tom paternal mas nos calamos a tempo.

Esvaziei o cinzeiro antes de sair. Gosto de contar, na volta, quantos cigarros ela fuma. Ela nunca fuma quando tô em casa, e encontrar dezenas de bitucas quando chego é um jeito de saber o que ela faz quando tá sozinha. Pelo jeito fica sentada, fumando. É assim que costumo a encontrar também. Ou dormindo no sofá, com o cinzeiro em cima da barriga, cinzas pela sua barriga, amo aquela barriga, tiro o cinzeiro e espano um pouco as cinzas. Quando fui pra Índia, depois de me formar, vi um iogue dizendo que esfregar cinzas pelo nosso corpo é bom antes de irmos a lugares com energias ruins, parece que as cinzas são uma espécie de proteção. Sempre lembro disso quando espano as cinzas pela barriga dela, mas no caso eram cinzas de incenso que o iogue dizia. Então o que faço é mais uma espécie de limpeza das cinzas de sua barriga e não algum tipo de ritual – não um ritual iogue pelo menos. Contemplo aquela barriga. Amo mesmo aquela barriga. Me ajoelho no chão pra escorar minha cabeça nela. Fico até um bom tempo ajoelhado, com a coluna curvada, a lateral do meu rosto deitada na barriga, a orelha tão colada na barriga que os ruídos de seu organismo funcionando parecem engrenagens de uma fábrica lá dentro do meu cérebro. Fecho os olhos e fico assim. É provável que eu acharia ridículo ver essa cena numa fotografia ou com outro homem na mesma situação, mas eu me sinto bem ali, tentando não me mover pra que ela não acorde, pra que ela pelo menos não tenha que fingir que não tá acordada

 

2.
Eu fiquei com saudade de escutar umas músicas deprê dos anos 90 que escutava com meu primeiro namorado aí liguei o youtube na tv e coloquei, fiquei dançando no meio da sala, geralmente o gato fica me olhando dançar no meio da sala quando eu fico sozinha dançando mas dessa vez eu nem sabia onde ele tava, fui dançando até o quarto e também não vi ele, voltei pra sala, me agachei ainda no ritmo da música até ficar de joelho no chão, assim, de um jeito que se não fosse eu seria beem sexy e aí me deitei de barriga pra baixo pra ver se ele tava no vão entre o chão e o sofá onde ele dormia às vezes, fiquei segurando o cigarro com os lábios e a fumaça foi pros meus olhos e ardeu pra caralho e só depois que as lágrimas saíram eu consegui abrir bem os olhos e dessa vez ele não tava dormindo, ele tava me olhado com aqueles olhões ou estaria se aqueles olhões ainda tivessem alguma merda de vida dentro deles.

A gente trouxe o Spooky do interior. A gente não comprou nem adotou o Spooky, ele era um gato de alguma família, desses que podem sair pela rua no interior e ir pra outras casas e até ter mais de uma família, sumir por semanas e voltar bem e gordo mas com saudade da gente. Só que de uma hora pra outra ele não saiu mais do nosso quintal, ficou meses só no nosso quintal e na nossa casa e quando nos mudamos, bem, não tinha como deixar o Spooky sozinho. A gente que deu o nome de Spooky pra ele e ele já devia ter outro nome ou ser meio retardado porque nunca atendeu por esse. Na verdade eu nem gostava de gatos, eu gosto de cachorros, tive vários na infância, minha família é conhecida no interior por ter vários cachorros e ainda cuidar dos cachorros que vivem na rua, eu não quis ter um cachorro na minha casa quando casei, muito menos um gato, mas o Spooky apareceu e como eu falei a gente não ia deixar ele sozinho. Na verdade eu nem gostava muito do Spooky. Eu não chorei nem nada. Eu enrolei ele num cobertorzinho que roubei da Avianca e aí eu deixei um bilhete dizendo que o Spooky tinha morrido e que eu ia no interior visitar minha mãe e enterrar ele onde minha mãe enterrava os cachorros, decidi isso enquanto escrevia o bilhete, na verdade eu só ia procurar um crematório de animais ou sei lá porque é isso que eles fazem em São Paulo, cremam os animais, só que algo na música deprê dos anos 90 me deu uma fome de nostalgia e de estrada e fomos eu e o coitado do Spooky morto no cobertorzinho viajar um pouco.

Preferi manter no porta-malas, em duas horas eu acho até que ele não fosse começar a feder mas achei meio sinistro ele comigo no banco do passageiro. Imaginei o cobertorzinho da Avianca se mexendo, ele voltando à vida lá de dentro, só pra me dar um último susto ou sei lá. Tinha uma blitz no meio do caminho e rezei tanto pra que não abrissem meu porta-malas, era até fácil de explicar, né? Eu vou enterrar meu gato na cidade em que ele nasceu, só que sei lá, freak! Eu não parei na casa da minha mãe. Na verdade eu nem vi minha mãe. Eu bati na casa do meu primeiro namorado, ou pelo menos onde eu imaginei que ele ainda morava e ele morava mesmo e pelo jeito sozinho e eu falei pra ele Meu gato morreu e dei um beijo nele e fui entrando direto pra onde eu imaginei que fosse o quarto e era o quarto mesmo.

A gente acabou indo pro lago mais tarde, enterrei o Spooky na areia antes do lago. O cara quis me ajudar a cavar o buraco e eu fui até grossa mandando ele cair fora, coitado, eu não achei tão ruim sugar a merda do corpo inteiro dele mas era meio que uma sacanagem ele me ajudar a enterrar o nosso gato. Fiz um buraco fundo, bem fundo, pra que nenhuma criança brincando no lago encontrasse ele, não nos próximos dias pelo menos, se é que as crianças de hoje em dia ainda brincam no lago no inverno. Eu sempre brinquei. E esperamos amanhecer ali, escutando músicas ruins dos anos dois mil no rádio e nos beijando e nos lembrando de como a gente era estranho. O que seu marido ia achar disso? ele disse, igual um idiota orgulhoso ou um ator ruim num filme ruim e dublado ainda por cima. Meu marido, faz muito tempo que ele só acha que gosta de mim, eu disse, igual uma atriz boa num filme bom só que dublado também. Deixei o coitado em casa e peguei a estrada de novo.

Eu pensei que eu ia chegar e ele ia tá todo sentimental ou chorando porque ele gostava mais do gato do que eu e também tem um monte de signo de água num monte de casa na merda do mapa astral dele. Mas ele tava de boa. Até meio frio. Como se soubesse de alguma coisa só que óbvio que não sabia. Me chamou pra tomar um banho e eu ainda tava suja e passei uma água rápido e logo ele já tava com o sabonete na mão me limpando e eu senti como se um buraco escuro e frio começasse a se formar no meu estômago e contemplasse cada célula do meu corpo. É óbvio que me senti uma pessoa de merda mas no fundo eu sabia que não era uma ou pelo menos que não era muito diferente da merda de pessoa que ele devia ser também. Ele começou a usar os dedos em mim de um jeito sacana como eu não via há muito tempo e eu até que gostei pra caralho.

Depois nos secamos ou pelo menos eu me sequei porque ele sempre fica todo molhado e se veste ainda molhado que nem um retardado, me deitei pelada na cama olhando pro teto, alguma música ruim dos anos dois mil soava na minha cabeça e eu até que tive vontade de chorar por causa do Spooky, pensei no cobertorzinho que roubei da Avianca, pensei nessas coisas quase inofensivas como fones de ouvido de avião ou xampus de hotel que a gente rouba só pra se sentir bem, como se fosse a merda de um pirata fodão ou sei lá. E se elas não forem tão inofensivas quanto a gente pensa? Ele acabou de se vestir e me deu um beijo na testa e virou pra ir embora porque tinha uma entrevista de emprego, eu ainda estendi o braço e toquei de leve com meus dedos nas costas dele e me senti tonta e tirei rápido os dedos dali. A porta bateu e foi como se um alívio, um puta de um alívio, começasse a se formar no meu estômago e contemplasse cada célula que tem no meu corpo.

livro novo

24/06/2017

Tô lutando comigo mesmo e com um romance, que o Daniel Valentim (grande editor e grande padeiro) me encomendou, desde fevereiro. Ele estava de certa forma redondo na minha cabeça. Hoje, por causa de uma frase, foi como se eu tivesse naqueles jogos de tabuleiro – você joga o dado, conta o número de casas, para em cima de uma e a mensagem é algo como: “Você perdeu. Volte para o início”. E eu voltei. Mas sigo no jogo. Provavelmente o livro contará a história de um bar na Liberdade e de um de seus donos, o bar só funciona de madrugada e, para comer, só serve uma receita de foie gras a preços módicos. Posso adiantar que a falta de enredo, a solidão e a desolação habitual das coisas que escrevo estão lá, mas eu nunca investi tanto na loucura – tem veganismo, anjo da guarda, fantasma japonesa, lutador de sumô, espírito de marreco, deuses indianos e até o Giovanni di Pietro di Bernardone, que vocês devem conhecer como São Francisco de Assis (tudo bem, na bíblia tem até dragão), mas no fundo, no fundo mesmo, o livro seguirá sendo sobre nada, ou sobre a vida, se eu estiver em um dia pretensioso. Começa mais ou menos assim: – Para contar a história do Bar e Restaurante Ogawa, talvez eu tenha que contar a minha história e para isso devo lembrar de meu avô, que caçava javalis, e de minha avó, que ouvia espíritos.

poema nº 72

23/06/2017

Ontem no solstício de inverno

 

Toda pedra é uma consciência adormecida

me disse um buda adormecido

numa estação de trem em Rishikesh

– onde encontrei a paz

quarenta e nove graus celsius

superpopulação de moscas e pessoas

dois ratos dividiam

conosco o vagão – dentro de mim.

E todo deus é OM pois todo deus

são todos os mantras e orações

sorriu o buda adormecido

e estendeu suas mãos malucas

como se bebesse água de

um riacho filipino dentro de mim.

Nessa altura, o carinho desmemoriado

de meu cão me fazia lembrar

Helena Blavatsk e as bruxas chapadas

sorriam lá fora sem conseguir falar e

traiam seus namorados e lambiam

o pescoço do destino

e toda folha que arranquei de toda

planta formava em minha sala

o grande espelho vulgar.

Ontem no solstício de inverno

a garota que tem me visitado

tirou sua roupa e parecia

mais linda e parecia a Virgem

com a fumaça de seu punhal azul.

Seu filho (que ainda não existe)

dormiu sorrindo

assistindo aos Simpsons no sofá.