Morte Entre Amigos ainda em cartaz

18/02/2017

Semana passada, o Peterson Queiroz foi assistir e escreveu sobre:

SOBRE ‘MORTE ENTRE AMIGOS’

Fui ver ontem “Morte Entre Amigos”, nova peça com direção de Mário Bortolotto para 4 autores que, cada um a seu modo, abordam a finitude. Me arriscaria a dizer que a relação tempo/distância é o que define a morte. Pois há aqui um belo ensaio cênico composto justamente nestas bases, seja por meio da ressonância causada pelos espaços entre os precisos focos de luz que o Marião trabalha tão bem (e pelo trânsito sutil de cada um vagando em cena de um porto ao outro) ou pela também sempre muito sacada escolha das músicas, sobretudo as que embalam as cenas como trilha incidental por sobre os diálogos/hiatos entre todos estes personagens/almas penadas suspensas nesta penumbra toda que é a vida.

Em “Não dá pra ver a lua da Augusta”, da Carol Teixeira, Carca Rah empresta sua verve desencantada pra um reencontro com uma escritora, Débora Estter muito bem também, em meio a ressonâncias do consumo pop/cult fossilizado pelo rock e pelo jazz e ao eterno desencontro. E é isso: 2 anjos caídos sobre a noite paulista, na sarjeta dos pensamentos, sem nada adiante que possa valer a pena. Nem uma dança. Nem mesmo uma chegada mais forte e que nem por isso diminui o abismo como um buraco inesperado no asfalto engolindo carros e consciências distraídas em suas bolhas particulares. Nem mesmo a lua parece poder abençoá-los.

Na sequência, Fernanda Gonçalves (muito precisa em sua composição e filha do lendário Ênio Gonçalves, um dos maiores atores que já tivemos) divide a cena com Guilherme Lorandi, além do óbvio encaixe da escolha pelo seu visual heavy metal, um ator de espontaneidade e comicidade fáceis: “Cocainômano”, de Edivaldo Ferreira, joga ambos na composição de um tipo estranho de ode a Lynyrd Skynyrd. E é justamente o descompromisso, algo difícil de se atingir numa dramaturgia sem que a coisa fique meio capenga (o que não é o caso aqui, claro), é que dá a medida exata dessa coisa que sempre se interpõe entre o real e a expectativa com a qual sempre se projeta algo no outro. Novamente então, como na morte, a distância. Não tão grande aqui, mas sempre presente. Na oposição/junção desse que a gente nunca consegue dizer facilmente tratar-se de um casal tanto quanto não dá pra dizer que não sejam um. E um tempo sempre dilatado demais.

“Kenny G”, do gênio Lucas Mayor, não poderia encontrar intérprete melhor que o diretor/ator Mário Bortolotto. É raro ver um texto onde a revolta e a inadequação social tornem-se tão desconcertantes que só nos resta rir. É impressionante como em um monólogo patético sobre uma dondoca de classe média alta e sua peculiar relação com o animal de estimação possa alcançar toda a dimensão da tragédia humana e ainda ser um compêndio/petardo crítico à indústria cultural e ao consumo massificado de subprodutos. Como se, nisso, fosse possível tirar da prateleira sua identidade como uma pessoa ‘sofisticada’ e/ou ‘única’, lotando vernissages e cursinhos de História da Arte sem entender nada sobre o que realmente trata a real questão por trás de tudo: novamente a distância, agora entre a aparência e a essência, da arte e da própria vida. E ainda consigo me impressionar com a energia e as sutilezas com as quais o ator consegue fazer com que a gente se deixe levar, no melhor estilo Louis CK, pelos vastos caminhos que o texto magistral do Lucas nos conduz – então não vou resistir a um trocadilho muito infame: aqui, literalmente ‘o buraco é mais embaixo’ (quem for ver, vai entender).

Por fim, o magistral texto de Bruno ‘Bandido’ Goularte que dá título à peça. Em “Morte entre amigos”, a síntese de todo este ensaio. Frases certeiras. Figuras arquetípicas como todo grande autor busca almejar pros seus personagens. Quando surgem, são como fotografias still que escorressem diante dos nossos olhos. Como lágrimas demorando pra cair ou mesmo teimando em se esconder diante do outro. Marcando a distância. E o tempo. Como a luz que não é salvadora. Como não conseguir se esconder por tanto tempo assim nas sombras/sobras entre eles e entre tudo. Como amigos que também nem perceberam o fim dessa ideia de fraternidade entre eles até ali. Como interstícios entre os suspiros na morbidez frívola e civilizada da espera cerimonial pelo rito de encerramento de outro amigo. Na ausência nem tão repentina assim dele. E de nós mesmos diante dessa escultura do tempo – não por acaso vislumbrei como personagens de Jim Jarmusch poderiam flanar em um filme de Tarkovski, ainda que eu saiba que os autores elegeram Cassavettes como referência, o que também se aplica, claro. De todo modo, Gabriel Oliveira surge como um ator de cuja densidade parece escapar todo o timming letárgico necessário para a contemplação de sonho que a cena pede. Mas com contundência. E uma força interna. Silenciosa. Perturbadora. Tenho falado muito sobre essa idiotice de privilegiar o ritmo. A cena me mostrou que continua valendo a pena não ter pressa. Sobretudo pra apreciar a beleza. Renata Becker é o próprio desalento. Ela simplesmente parece afundar com tudo ali. Como o epicentro nervoso de um terremoto que nunca se acalma, abalando tudo em volta, de dentro pra fora. Único facho de luz possível sobre o futuro, mas um facho pálido. Embaçado. E Marcelo Selingardi atingiu uma espécie de ingenuidade e inocência quase que sagrados. Navegando de um lado pro outro ali também, com um tipo de esperança estúpido qualquer. Nessa cena, pra mim, se consolidou este ensaio sobre a morte. Tempo/Espaço por sobre os quais vamos nos destilando a cada gota. Obrigado aos atores, autores e ao diretor.

Lido Motel

31/01/2017

O único quarto disponível era a suíte asiática – venho mesmo me dedicando a ler todos Kawabatas. Seria engraçado se morrêssemos na suíte asiática? A perversão em seu ventre (não é japonesa, mas poderia). Seria engraçado se morrêssemos assassinados pelo casal do quarto ao lado? Isso não evitaria a inevitável conversa sobre eu só ter dinheiro pra suíte normal. Isso evitaria que fôssemos infelizes. Que voltássemos pra casa. Quando a gente morre encontra nossos cachorros mortos, eu disse. E nossos amantes mortos. Eles estão todos em paz no paraíso. Trabalhando com os mortos. Peraí, ela disse – só de calcinha, os peitos dançando uma canção asiática, um pouco, só um pouco menores e seriam asiáticos também -, eu tô postando algo no face pra despistar meu marido. Algo no face? É, uma piada sobre o Trump que pensei hoje. E então ela ri. Pode rir. Ria da vida enquanto eu penso nos amantes mortos (não os meus mas os do mundo, todos no paraíso, trabalhando felizes com os mortos e seus cachorros mortos) até que ela atire o celular na mochila e a gente se encontre como fantasmas insaciáveis por desespero (a infidelidade é a profissão mais antiga do mundo). Quando criança assisti essa série sobre o holocausto em que o exército americano salvou um grupo de judeus em privação e eles se atiraram sobre um caminhão de comida e alguém teve de implorar pra que tivessem calma e comessem aquilo devagar e aos poucos senão morreriam e mesmo assim alguns continuaram a devorar os pães que viam pela frente e depois de quatro camisinhas ela diz pra eu falar o nome de uma banda. Steely Dan, eu digo e ela procura no YouTube e compartilha no face e ri novamente e deixa a música rolando enquanto eu penso em Primo Levi e na vez que meu amigo Gustavo Schwetz, na primeira semana de faculdade, duvidou que soubéssemos soletrar o seu nome e só eu acertei. Ela o tem no facebook porque viemos da mesma cidade e frequentamos lugares iguais e agora estamos aqui na suíte asiática do Motel Lido numa das maiores cidades do mundo – que nem nos parece grande coisa assim. Ela pede um Uber e eu volto a pé pra casa e penso que seria engraçado morrer atropelado. Me jogar na frente do primeiro carro bêbado que fizesse o melhor do sertanejo universitário chegar aos meus ouvidos. Seria engraçado eu morrer assoviando um tango de Paco Varela a caminho de casa? Porque a vida pode ser séria. Minha amante viva. Meu cachorro vivo e suas alegorias. Pulando em mim logo que eu girar a chave, lambendo minha boca e abanando seu rabo e caindo sentado em meu colo assim que eu me atirar no sofá.

 

Poema #185

19/01/2017

Carta aos inquilinos de inverno

A casa é um lixo mas a vista é linda
chuva nas montanhas pôr do sol no píer
dentro a tranquilidade de
bonecas de tecido antigo batizadas por
crianças que já morreram

algo nas árvores sem folha
no circuito foragido dos insetos
lembra os deuses esquecidos
do quarto de visitas

à noite podemos ouvir nossas
pupilas aumentando
é quando o suicídio lambe
minha orelha
nosso filho sonhou com um lobo

uso folhas verdes
e madeira úmida para fazer fumaça
com a fogueira

Listas #01

11/01/2017

séries:

1 – Mad Men
2 – Rectify
3 – Sopranos
4 – Louie
5 – Shameless (US)
6 – The Wire
7 – The Shield
8 – Seinfeld
9 – Deadwood
10 – Him and Her

Rectify

10/01/2017

Hoje acordei cedo e assisti de novo o último episódio de Rectify. Série que acabou no ano passado, em sua quarta temporada. Na minha lista pessoal, ela conseguiu entrar antes de Sopranos, depois, apenas, de Mad Men. Quem acha Mad Men parada, eu diria que Mad Men é o último Mad Max perto de Rectify. Se Mad Men mostra traços de Cheever de vez em quando, Rectify é Carver, em sua essência. Grande arte, grande roteiro. Quantas boas atuações. Vou ver toda de novo ainda em 2017, tenho certeza.

 

 rec

Livro Palácio dos Miúdos

04/01/2017

palacio-27

Meu editor, brother, e amigo dos meus cachorros Kleber Felix (vulgo Kleboso) tá montando um livrinho com o conto original de Palácio dos Miúdos e ilustrações do André Kitagawa (o texto que foi para o Quarta em Cena, interpretado pelo meu ator fetiche, Rodrigo Linguinha, foi uma versão alterada e bastante resumida). Pelo jeito vai ficar bem bonito. E serão pouquíssimas cópias, então quem quiser se adiantar pode avisar nos comentários ou no e-mail (brunobandido00@gmail.com) que, em breve, passamos o valor, que será inteiramente revertido para o fundo de conhaque do Klebão. Ou seja, além de ler o texto na íntegra, ver os belos desenhos do mestre Kitagawa, você estará contribuindo para uma ótima causa.

p.s.1: o livro é quadrado!
p.s.2: as imagens são inéditas, esta que ilustra o post é uma que infelizmente não coube.

notas

17/12/2016

Uma hora bebendo sozinho em um bar da Nestor Pestana

 
Um senhor de sessenta anos resolve levantar da sua mesa e se dirigir até outra para conversar com um senhor de setenta anos. Tá um certo frio na rua, mesmo sendo dezembro, e eles vestem pulôveres e o mais velho usa uma boina e luvas com os dedos cortados. Parecem fazer amizade e trocam assuntos por uns vinte minutos. O senhor de sessenta anos se levanta e se despede, vai até o balcão e pede mais uma cerveja. Enquanto o garçom não chega com sua garrafa ele volta até a mesa do senhor de setenta anos e pergunta Você gosta de rock? Olha, diz o senhor de setenta anos, na minha idade eu dançava Twist, mas hoje eu só gosto de música romântica. O senhor de sessenta anos parece decepcionado, volta para o balcão, pega sua cerveja e senta em outra mesa, sozinho. Depois de dar o primeiro gole, ele diz: Eu ia mostrar minha banda pra ele.

Enquanto isso tudo acontece, uma mulher que fala muito alto conversa com seu amigo no bar ao lado. A frase que ela mais diz é Ai, que delícia. E ela fala isso bem alto mesmo. Às vezes incrementa: Ai, que delícia, caralho. Ela tava feliz por ter encontrado o Igreja, que era seu amigo há 20 anos. E ela ia de mesa em mesa e falava sobre o Igreja e apontava pra ele. As pessoas olhavam pro Igreja e ele sorria. Eu não sei bem por que razão, mas quando você olha para o Igreja você não estranha nem um pouco que ele seja chamado assim. Quando ela já tinha puxado assunto com todas mesas da calçada do bar ao lado, ela veio pras mesas da calçada do meu bar. Fui o primeiro alvo. Eu moro em Campinas hoje, ela disse, já casei, já voltei, já separei de novo, mas eu venho uma vez por mês pra cá e hoje encontrei o Igreja. Pode crer, eu disse, ele é teu amigo há mais de vinte anos. Ela deu uma risada alta e falou Ai, que delícia. Ela era muito magra, dessas pernas altas e finas que começam numa bundinha que pode ser inteiramente envolvida com apenas uma palma de uma mão. E ela veste uma blusa que mostra sua barriguinha de fora, que deve ser o único lugar do seu corpo com alguma gordura à mostra, por causa da cerveja. Hoje é dia de ir pro Love Story e se acabar dançando, ela disse. Eu fiquei só olhando pra ela. Eu conheci a Luana Piovani no Love Story e ela é minha melhor amiga agora, tá bom? Você sabe quem é a Luana Piovani? Sim, eu disse, a Babalu. Não, caralho, a Babalu era a Deborah Secco, ela diz e vai pra mesa seguinte.

Na mesa da frente, um casal de homens está se conhecendo. Eles não sabem nada um do outro. Provavelmente se encontraram pelo Tinder ou por um desses aplicativos pra quem desistiu da difícil arte de viver. Um deles, veemente, fala que não gosta da história de Fantasma da Ópera então seria impossível que ele gostasse do musical, além do mais, ele leu Os Miseráveis e adorou a leitura mas odiou o filme, não só o filme ruim com o Wolverine, todos os filmes, se até as histórias que ele gosta ele odeia o musical, imagina as que ele não gosta. O outro tem que ficar quieto diante de um argumento desses e ir se acostumando a ideia de que seu novo parceiro de foda não vai assistir a porra de um musical com ele, ou que ele não vai fuder com um cara que não gosta de musical, enfim, não escutei muito mais dessa conversa pra saber o final desse dilema.

Meu telefone tocou. Eu avisei onde tava. Ela avisou que tava indo me encontrar. Enquanto isso a mulher do Ai, que delícia, falou Bicha em alguma conversa que tava tendo e quase se meteu em confusão com uma travesti que passava. Mas acabaram amigas e trocaram um longo abraço. O cara que tava na mesa-alvo da Ai, que delícia, falou Parecem duas travestis, a mulher que tava com ele riu, mas a Ai, que delícia não escutou.

Ela chegou e perguntou por que eu tinha ido beber naquele lugar. Eu disse que não conhecia ninguém na mesa que a gente tava, e eu precisava ficar um pouco sozinho e que eles tavam discutindo se foi golpe ou não. Ela riu. Pediu uma caipirinha pro garçom. Eu não gosto de caipirinha, mas eu imagino que mesmo se gostasse, jamais pediria uma num bar como aquele. A Ai, que delícia, quando voltava pra mesa dela e pro Igreja, parou na frente da minha mesa. Babalu era Danielle Winits, caralho. Pode crer, eu disse. E ela foi embora. Eu sabia que não era a Deborah Secco, eu disse. Olha aquele cara, é o Igreja. Vai dizer que tu não entende por que o apelido dele é Igreja? Ela olhou e riu e perguntou como eu conhecia essas pessoas. Quer dizer, eu sei que você conheceu elas agora, mas por quê? Ela já tava bêbada, claro, ninguém aguenta duas horas numa mesa onde tão discutindo se foi golpe ou não sem estar pelo menos bêbado. E não só eles, ela seguiu, por que a gente se conhece, tipo, do nada? Não sei, eu disse, pensando que tudo faz parte de um certo movimento de astros ou do grande plano de Deus, ou melhor, de um grande plano da Justiça – provavelmente é a Justiça o enorme Deus relapso a quem todos recorrem. Fico pensando nos dois senhores, eles já foram embora, cada um pro seu lado. Fico pensando que a conversa toda foi causada por conta daquela luva de dedos cortados. Ele parecia um velho rock’n roll, mesmo sendo um velho normal, com aquela luva de dedos cortados. Mas ele era só um velho romântico. O garçom esqueceu da caipirinha. E ela provavelmente esqueceu que tinha pedido. Não fiz questão nenhuma de lembrar isso a qualquer um dos dois.

trecho

14/12/2016

***

Meu filho passou uma tarde inteira perguntando o que eu queria que ele desenhasse. Ele não é um desses meninos que tem um talento nato para o desenho. Ele desenha tão mal quanto eu desenhava na idade dele – e até hoje. Em algum momento, dei a ideia de um homem invisível porque foi uma dessas recordações que de repente surgem na cabeça da gente. Lembrei de desafiar minha mãe a adivinhar o que era aquilo ao mostrar uma folha em branco. Um caderno, ela disse. Sorrindo e vitorioso eu falei que não, era um homem invisível. Meu filho não pareceu surpreso com o pedido, houve a mesma reação após todos os pedidos anteriores, um balanço firme de positivo com a cabeça, como mostrando que o desafio foi aceito, e se debruçou sobre a escrivaninha com o lápis na mão. Caminhei até suas costas para olhar como desenharia alguém invisível. Nessa altura já criava uma segunda mulher. Eram bonecas de palito, como todos os humanos que ele desenhava – as mulheres com um triângulo abaixo da linha do corpo para simular uma saia e uma franja sobre suas cabeças e os homens apenas com duas linhas diagonais como pernas e invariavelmente carecas. As duas estavam na mesma altura do papel e tinham o mesmo tamanho. Depois de os corpos estarem prontos, desenhou seus rostos, que eram iguais também, exceto pelas bocas. A de uma era uma circunferência oval e a outra o simples e eficiente sorriso das carinhas felizes. No meio delas, ele começou a fazer tracinhos e esses traços formaram o boneco de palito, ao invés das cinco linhas do corpo e dos membros e o círculo da cabeça, várias pequenas linhas, que nunca tocavam uma na outra mas formavam aquele homem tracejado, invisível. Pronto, ele disse. Eu ri e, antes de conseguir elogiar seu raciocínio e dizer que eu jamais teria pensado nisso, ele pediu uma nova ideia para o próximo desenho.

Naquela noite, depois que dormiu, levantei pra arrumar as coisas dele. Peguei o caderno e arranquei a folha do homem invisível pensando em mostrar à minha ex-mulher quando ela viesse na semana seguinte levar nosso filho de volta. Então resolvi tomar uma cerveja e sentei na cozinha com o desenho e a garrafa. Observei a boca das mulheres, que provavelmente conversavam entre si, a de boca oval devia estar falando enquanto a outra sorria. Imaginei se ele tinha pensado em algo assim ou se, como em tantos momentos da arte, foi apenas acaso. Também pensei por que ele havia desenhado duas mulheres, e não apenas uma, se já serviria como referência para o homem tracejado. E por que as duas eram mulheres, se poderiam ser homens de linha inteira, normais, enquanto apenas o do meio seria invisível. Ele não estava na mesma altura das mulheres na folha e nem tinha o mesmo tamanho. Estava no meio e sua cabeça começava abaixo das cabeças delas e suas pernas acabavam na altura de suas saias. Como se fosse uma criança, talvez um anão, que além de ser invisível, podia flutuar por aí. São duas habilidades que toda criança deve sonhar em ter alguma hora, a do voo e a da invisibilidade, então me perguntei se sua intenção foi a de fazer um autorretrato, ele mesmo ali, com superpoderes.

Deixei o desenho sobre a mesa, bebi mais duas cervejas e quando voltei a olhar para a folha percebi que aquele podia ser um adulto de estatura normal se meu filho dominasse a ideia de profundidade. Ele apenas estava mais atrás que as mulheres, sem participar da conversa, observando as duas e, como pessoa invisível que era, sem ser percebido. Diante disso, o fato de serem mulheres ganhou um sentido sinistro pra mim. Como mais uma dessas recordações que surgem na cabeça da gente, me encontrei não como criança, mas púbere, com o desejo secreto de ser invisível e adentrar o quarto de minhas colegas à noite ou o da mãe de algumas colegas e acariciá-las sorrateiramente e massagear suas costas noite após noite ao ponto em que se vissem com um amante em seus sonhos ou com um fantasma apaixonado em suas vidas pra que enfim eu conhecesse o gosto de cada uma delas. Em arroubos ainda mais doentios, desejava ter o poder de parar o tempo para, além de roubar tudo que eu bem entendesse em lojas e mercados, poder tirar a roupa das mulheres pela rua e olhar e fazer o que quisesse com seus corpos. Eu reconhecia na época, inclusive, a gravidade desses pensamentos, pelo menos se aplicados na prática – o que não me fazia parar de ter nenhum deles.

Uma vez, em algum tempo ocioso de um antigo trabalho, batendo papo com um colega, algo também me trouxe isso à tona e resolvi jogar na conversa. Ah, sim, eu também imaginava essas coisas, ele disse com naturalidade. Por isso sei que não fui o único a pensar assim e, a não ser que naquele momento estivesse acontecendo um encontro entre duas mentes de raro distúrbio, talvez seja um pensamento recorrente na assustadora construção masculina de nossos tempos. Acabei a cerveja, guardei a folha em uma gaveta e me deitei. No decorrer da semana pensei várias vezes na intenção do desenho, meu filho tinha apenas oito anos na época, reparei, em outros do seu caderno, que aplicava sim a ideia de profundidade, mas isso não era prova de coisa alguma. Pensei, três ou quatro vezes, em conversar com ele a respeito e decidi pelo silêncio. Até hoje, o desenho deve estar naquela gaveta e é um anão, uma criança, e um adulto violador, como o gato de Schrödinger. A infância tem essas narrativas com que, acho, devemos lidar sozinhos, compartilhando certas coisas corremos o risco de envelhecer errado – ou pior, não envelhecer.
…”

Reprise na quarta (Palácio dos Miúdos)

06/12/2016

Eu não conhecia direito o Linguinha. Eu conhecia a fama que o precede, é claro. Eu bebia no bar e às vezes eu o via por ali e era isso. Eu já disse, eu conhecia a fama que o precede, eu li histórias sobre ele, eu não precisava conhecer ou conversar com ele – conhecendo essas histórias, eu nem queria, é claro. E eu sou um cara na minha, tímido e antipático, eu não costumo puxar assunto com ninguém, é preciso de algo realmente extraordinário que me faça puxar assunto com alguém, eu sou inapto pra isso, eu posso até querer conversar com alguém, mas isso não vai fazer com que eu mova um músculo do meu pesado corpo. No caso do Linguinha, eu nem queria, então eu ficava lá, bebendo meu conhaque, e às vezes eu o via por ali. Ele puxou assunto comigo um dia. Provavelmente bêbado ou drogado ou as duas coisas. A gente conversou sobre a Guarda do Embaú, porque é claro que ele já teve lá, o Linguinha já deve ter frequentado todos os lugares do mundo, sem dinheiro, sem ter o que beber, largado na vida, mas dando um jeito, que nem naquela música do Cazuza. O Linguinha é o último beatnik. E ele morava no teatro. E a gente trocou umas histórias de brigas e surras que levamos por aí e um dia ele me pediu uma peça. Eu falei, tudo bem, eu escrevo. E aí passaram dois meses e ele me pediu de novo. Eu falei que tudo bem, eu ia escrever. Ele fez questão de dizer que era um cara talentoso, e que trabalhava com teatro há vinte anos e não queria uma simples peça, ele queria um monólogo. Pra dirigir e atuar. Quantas páginas, Linguinha? Sei lá, ele disse, umas dezoito. Eu sabia que era pra uma Terça em Cena, então não seriam dezoito. Então um dia eu comecei a falar sozinho, como faço às vezes, achando que essa fala pode virar um conto ou uma ideia. A frase saiu da minha boca fácil. Ali no bar a gente só serve miúdos. E aí eu pensei em alguns miúdos. E falei o primeiro parágrafo inteiro. Na colada. Igual o Lucas transcreveu na divulgação, não mudei uma vírgula desde então. Aí eu pensei nesse cara, um maluco que ficou sozinho num restaurante de família. E o restaurante só vende miúdos e é frequentado pelos piores tipos de velhos bêbados. E ele mora em cima do restaurante. Sozinho. E aí eu fui pro computador e escrevi oito páginas dessa história. E pensei, caralho, isso não é um conto, isso é a porra do monólogo do Linguinha. É claro que eu tive que cortar quatro páginas depois, o que, na minha opinião, tirou toda a profundidade da história, mas em dois meses de ensaio, eu tentei ir explicando essa profundidade pra ele. Acho que ele entendeu. Não ficou ruim não. As histórias que eu lia do Linguinha é que ele era um porra louca do caralho, que só arrumava confusão etc e tal. E não tô dizendo que não seja, longe de mim cagar pra fama do Linguinha. Ele é sim. Tudo isso. Essa porra toda. Claro que é. Mas eu não posso dizer que não vi ele se esforçando pra montar essa cena. É uma grande cena? Não sei. Provavelmente não. Mas ele mandou bem. E essa quarta tem mais uma vez. Tirem suas próprias conclusões. Vocês vão ver o Linguinha em palco. Sozinho. Isso basta. Ou não?

São Paulo

25/11/2016

Nove meses em São Paulo. Já tenho alguma opinião formada sobre as coisas mais abomináveis dessa cidade. Tem as pessoas, claro. Particularmente, aqui, me desagrada grande parte dos jovens “alternativos e descolados”, que são tão estúpidos reacionários retrógrados preconceituosos como os possíveis pais deles ou a galera do sertanejo universitário. Outra coisa lastimável é a dificuldade dos bares em servir/manter as cervejas geladas de verdade e o fato de boa parte dos paulistas estarem tão acostumados a isso que nem se incomodam. Mas talvez a pior de todas seja estar caminhando à noite e passar por essas Limousines escandalosas – pelo que entendi abrigam festas lá dentro – com duas gostosas peruas pra fora do teto solar gritando como idiotas. Vejo isso seguido pelas imediações da Paulista e Augusta, mas esses dias eu vi uma em Campos Elíseos, caramba! Nem a cracolândia essa gente respeita mais. Claro que também há coisas boas, as que me ocorrem agora são: eu já ter visto o último Jarmusch no cinema, o KINTARO, o rap, as peças boas de teatro e, acima de tudo, a quantidade de pessoas que observo pelo Bixiga caminhando com carrinhos de bebê vazios.