Fonte do Boi

23/08/2016

fonte

Preparando pra levar os primeiros ao correio. O pessoal que já leu veio me falar que curtiu. É um conto grande que escrevi somente para a edição do Kleber Felix. Ele tinha pensado em juntar uns textos meus pra lançar, mas eu tava com essa ideia na cabeça. Um cara, dentro de seu deserto espiritual, fazendo um balanço de acontecimentos meio que sobrenaturais e juntando cacos de desastres românticos em sua curta vida. Uma vida inteira pode ser curta demais. Mas pros meus personagens ela é sempre o contrário disso, não importa se eles têm 13 anos ou 94 (lembro de Sam Shepard, no início do filme August, recitando Hollow Men do T.S. Elliot. “Life is very long”, com sua voz sepulcral). É isso aí. Longa demais. E não há algo que sobre se não angústia quando eles flertam com coincidências que os lembram dessa ideia maldita que é a eternidade.

Além disso, é uma homenagem minha a Salvador.

O livro tá à venda na livraria do Tarcisio Buneas, no Cemitério de Automóveis SP. Eu tô vendendo por aqui, só falar nos comentários ou mandar e-mail (brunobandido00@gmail.com). É 12 contos. Ou você pode comprar todos os livros dessa coleção diretamente com o Kleber.

seis poemas meus

22/08/2016

saíram no mallarmargens:

Discurso ao funeral do meu pai

Houve no mar
– meu pai disse –
um princípio de som

(sereias
porque era belo)

Dias depois
não muito antes do porto
um dos soldados
pediu atenção
e mijou no mar

– meu pai disse –
nunca viu
mijo mais longo

 

Hipnose e Briga

15/08/2016

 

 

  1. (A Hipnose)

Esses dias, numa das minhas rituais caminhadas com o cachorro, passei pela Paulista e um cara tava hipnotizando um grupo de pessoas. Parei um pouco e fiquei olhando. Eu conhecia várias daquelas técnicas. Quando criança eu fiz amizade com uma menina gaga porque ela também gostava de Cazuza (a gente tinha oito anos). Acontece que um dia, num parque de diversões que montou seus brinquedos na beira do rio da cidade, um senhor ficou ouvindo nossa conversa e veio falar com a gente. Eu morava na fronteira com o Uruguai e ele era urugaio. A gente não entendeu nada do que ele tava dizendo, aí ele se afastou, chamou sua esposa e ela explicou em um espanhol devagar que ele podia curar a gagueira da minha amiga.

A gente só tinha que pedir pra nossos pais nos levar na casa dele – a única laranja em determinado lugar do outro lado da ponte. Não tenho certeza se a gente pediu pros pais dela nos levarem ou não. Tenho uma vaga lembrança de que ela pediu sim, e eles ficaram assustados e disseram pra gente fugir desse homem toda vez que encontrasse com ele. Eu já sabia o que eram pedófilos, tinha um velho que morava no lado do nosso colégio, e todo mundo sabia sobre as sujeiras dele, todos os pais mandavam tomar cuidado e tudo, ao mesmo tempo que ninguém nunca fez mais do que isso. O motivo é óbvio. Ele só levava meninas muito pobres pra casa dele, “negrinhas” como se chama lá de onde eu venho, meninas em estado de miséria, e ainda dava uns trocados pra elas. Tinha outro cara também. Ele era um pouco mais novo e tinha um carrinho onde vendia panchos no centro. O alvo dele também era esse. Menininhas miseráveis. Quem ia ligar, não é? Além do mais ele fazia os melhores panchos da cidade. Razões suficientes pra pedófilos se safarem no meio de gente racista e hipócrita.

Então é isso, tenho leve impressão de que encaramos aquele senhor uruguaio, o senhor Lico, como um pedófilo. E corri nas duas ou três vezes que passei por ele, embora ele sempre tivesse interesse mesmo era na minha amiga. Mas uns três anos depois, quando eu já tinha uma bicicleta e pedalava até o Uruguai porque achava as meninas de lá mais bonitas, eu parei na frente da casa laranja. Ele tava sentado na calçada com a mulher tomando chimarrão. Perguntou se eu ainda era amigo de la chica tartamuda. Eu balancei a cabeça. A mulher dele me disse que era viciada em cigarros antes de conhecer o marido e ele que a fez parar, através da hipnose. Explicou em que consistia isso afastando o máximo que podia dos filmes de terror e aproximando didaticamente das retóricas motivacionais. Por algum motivo acreditei naquilo e no sábado seguinte levei minha amiga até eles. Não dava pra não pensar em filmes de terror. Na minha infância o Uruguai viveu uma puta crise, arrastado pela Argentina, e a maioria das suas cidades eram como lugarejos fantasmas. Não tinha quase comércio aberto e parecia não morar ninguém na maioria das casas. Só faltavam as bolas de feno pelas ruas de terra e os lençóis voando por aí com furos nos olhos.

Eles nos sentaram em um sofá, ofereceram doces e explicaram tudo que ele faria. O velho perguntou se eu queria ser hipnotizado também, pra ver como era, mas a palavra pedófilo ainda balançava entre um lado e outro da minha cabeça e é claro que eu disse que não, ia ficar assistindo. Então ele fez uma série de testes que mais pareciam brincadeiras e depois colocou ela em um estado profundo de relaxamento. Primeiro ele fez palhaçadas, coisas que me fizeram rir, como fazer com que minha amiga esquecesse o próprio nome e visse o Cazuza na sala ao invés de mim. Só depois disso que colocou ela pra relaxar de novo e começaram conversas relacionadas à gagueira, mas de um jeito muito simples, ele se esforçou pela primeira vez pra falar em português correto e não lembro muito do conteúdo, só que quando ela abriu os olhos uma meia hora depois não gaguejava mais. No sábado seguinte fomos lá de novo, ele faz mais uma sessão durante a tarde e pelo que sei ela não sofre disso até hoje. Eventualmente ela contou aos seus pais e se não me engano eles foram lá e lhe deram muitos presentes, como garrafas de vinho e um leitão inteiro, pronto pra ser assado.

Eu voltei e disse que queria aprender hipnose. Ele aceitou me ensinar porque eu parecia um menino responsável e no dia seguinte tava hipnotizando a mulher dele e um ou dois estranhos que ele chamou da rua. É ridículo de fácil, na verdade. Basta a pessoa na sua frente não querer te fuder e você saber vestir a carapuça do mago. Só isso e umas técnicas simples. Nada demais. Com o tempo, fui desencanando a ponto de esquecer do señor Lico pela maior parte dos meus anos, como se ele mesmo tivesse programado isso, em uma de suas hipnoses.

 

  1. (Briga de mulheres)

O que me fez parar de assistir o hipnotista aquele dia foi uma confusão que parece ter vindo desde aquele shopping perto do Masp e parado bem na nossa frente. Duas mulheres gritando uma com a outra até chegarem às vias de fato. Meu cacharro latiu. Atrapalhou todo mundo na hipnose e uma cambada de homens ficou observando com os olhos cheios de diversão. O Linguinha me pediu esses dias pra eu escrever um texto pra ele montar e ontem mesmo eu escrevi, o personagem diz uma hora que a diversão é uma ideia perversa. Muitas vezes ela é. Eram duas mulheres bonitas. Há um tempo eu seria um desses homens. É algo mitológico na cabeça de um adolescente duas mulheres bonitas brigando. Não sei quem construiu esse ideal instintivo, mas pra mim deve ter sido algo entre as pautas do Gugu Liberato e a Lucy Lawless. E claro, a maior parte dos homens não passam de púberes primitivos, não importa muito a idade, e não tô dizendo que eu não seja um deles, mas depois de um tempo passei a enxergar a violência – qualquer tipo de violência – como eu enxergo quase todo o resto das outras coisas: com tristeza. Não uma tristeza arrasadora nem nada do tipo, é mais a constatação da tristeza do que a tristeza em si – uma película de melancolia entre eu e o resto. Quer dizer, é óbvio que há tristeza em duas mulheres se atracando na porrada, ou dois homens, ou o que quer que seja. E há tristeza nesses vídeos de policiais batendo em meninos protestando por escola. Mas também existem outros sentimentos que a violência traz, até necessários, não sei, desapego, revolta, superação, vingança, autoafirmação, paz (sobretudo) – vá lá. É que eu só acho muito triste hoje em dia. Eu tive meus tempos de brigas, e ganhando ou perdendo, o fato de saber que eu tenho raiva suficiente pra quebrar o nariz de alguém, por mais supostamente odiável que seja esse alguém, ficar triste com isso me parece inevitável, até porque eu nunca de fato odiei em quem eu bati. Eu não tava brigando contra molestadores, evangélicos cagarregras ou neonazistas e nem essas figuras eu sei se odeio. Eu tava brigando na maioria das vezes contra a chatice e na maioria das vezes eu devia tá sendo chato também. A chatice é um negócio invencível. E eu concordo com a porra do Cazuza, não há perdão para os chatos. Mas também só há uma penitência. Dar as costas e cair fora.  Acho que não dou um soco há uns três anos (não em seres vivos pelo menos), só que é claro que a gente é cheio de violência e só o fato de eu dar um grito pros meus cães ou uma resposta seca pra minha mulher, deixando um resquício de raiva se esvair, já é motivo suficiente pra ótica da tristeza ganhar a vez e eu precisar de algumas horas sozinho pra ver se me fortaleço de novo. Há quem diga que isso é bobajada cristã demais. Mas também é Johnny Cash demais. E foram dois caras legais, Jesus e Johnny Cash, pelo menos eu acho. E nem tô condenando quem precisa da violência ou odeie de fato outras pessoas. É bastante compreensível na maioria dos casos. De repente eu só passei por circunstâncias que fizeram com que isso fique mais fácil ou mais viável pra mim. Aquelas mulheres. Elas rolaram no chão. E dois policiais não conseguiram conter. O hipnotista desfez a roda porque qualquer possibilidade de concentração foi pro saco. Um casal veio brincar com meu cachorro e ele latiu feito um insano pra cima deles. Meu cachorro nunca mordeu ninguém. Mas ele é medroso demais, ou antissocial demais, e definitivamente não gosta de interagir com estranhos. Você precisa ir algumas vezes na minha casa e até dar comida pra ele pra que  a interação dele mude de latidas malucas a pedidos de carinho, e eu tô falando comida de verdade, não a merda desses petiscos de cachorro. É compreensível. Ele cresceu com dois humanos um tanto antissociais, eu e minha mulher, e eu disse, ele nunca mordeu ninguém. Não é violência. É outra coisa. Era algo assim que eu tava sentindo quando a gente se afastou da confusão de volta pra casa. Outra coisa.

 

 

 

POEMA Nº1

31/07/2016

Sobre os corpos descobertos

A casca de tinta
das paredes velhas
camufla o último grito
de criança louca
– uma nuvem
entre os que aguardam
na selvagem descoberta
e o que vai chegar
para sempre
indefinido.
Jamais houve romance
nos olhos
de alguém.

POEMA Nº17

31/07/2016

Hotel Europa

O hotel não fede a cigarros
mas poderia
também não faz frio lá fora

(as prostitutas tomam banho
de sol
enquanto os filhos
nadam na piscina natural)

hoje a camareira bateu
olhei sua bunda ao
dobrar os lençóis

(me senti em um livro
da Yoko Ogawa)

sempre gostei dessa
imagem
de camareiras fumando
entre um quarto e outro

acendi um cigarro
ela abanou a fumaça
e me olhou com
desgosto –
sua saia longa
suas melenas
infinitas

tive vontade
mostrar o meu pau

evangélicas chupam paus
como gordos em dieta
comem escondidos de si mesmos

como adolescentes fumam
longe dos pais
e fingem que eles
não sabem

o mesmo princípio
só que com Deus.

Yesterday Once More (Morte entre Amigos)

29/07/2016

Canções antigas que voltam como amigos perdidos. É  disso que fala essa música do Carpenters que o Bortolotto colocou – em outra versão – na trilha de Morte entre Amigos. É um tema recorrente nas coisas que escrevo: amigos perdidos (tema do Calamaro también). São três amigos fazendo tempo antes de irem para o funeral de um outro. Então o texto, pelo menos na minha visão agora,  bem depois que escrevi, é mais sobre a amizade do que sobre amigos perdidos. Não bem uma exaltação à amizade. Tem uma hora que a Lina diz assim “Acho que esse lance que a gente tem… Esse lance de ser amigo. Vai ver é tipo uma fuga. Ser amigo de alguém. Aí a gente perde um amigo. A gente fica um tempo meio que assim. Sem ter pra onde fugir”. Eu não entendo de teatro, mas gosto de escrever essas cenas ou peças pra me divertir entre um conto e um esboço de livro qualquer. Porque eu não me divirto com quase nada. Na verdade, escrever essas peças é a única coisa que consigo pensar agora. O que não quer dizer que sejam textos divertidos. Pelo contrário. Os dois que assisti, Abismos (por vídeo) e o dessa semana, são meio que o oposto. O Ademir Muniz e o Bortolotto botaram ainda mais desse oposto em suas direções, o que eu adorei. Outra coisa que sempre tem no teatro que gosto e não tem nos meus textos são aqueles momentos em que a poesia deixa de estar só na aura da cena e vira conteúdo – aparece numa puta frase de um personagem. Uma frase que uma pessoa normal talvez não dissesse naquela situação, mas isso é dramaturgia, e, bem, não é pra pessoas normais. Sempre achei isso essencial num texto de teatro ou boa TV. Admiro pra caramba. Mas também não tenho muito esse talento. Toda vez que tento levar a poesia pro diálogo cometo o erro que muitos cometem e tendo ao forçado, sei lá. Eu poderia me esforçar e trabalhar duro nesse fundamento, já que admiro tanto. Mas e aí? Eu disse que tava me divertindo escrevendo teatro. Que vá a merda o trabalho duro… Daí que eu pensei em ligar o foda-se e meus personagens falarem só o que acho que talvez pessoas normais falariam (pelo menos tendo em vista que ninguém é muito normal). E é por isso que faço questão de deixar uma mulher falando “eu tô tão triste” quando todo mundo já sabe disso, porque as pessoas infelizmente falam essa frase, não é? E é por isso, também, que eu sempre digo que não gosto muito dos meus textos pra teatro. O pessoal faz aquela cara de que eu sou um idiota, um falso modesto ou sei lá, mas na minha concepção isso não é o texto de teatro que acho bom, sempre acho que vai ficar chato em cena etc. Só que os dois que vi, bem, eu curti. Aí entra o paradoxo, que na real é a sorte de ter tido o Ademir e o Mario Bortolotto dirigindo as peças e de ter atores bons nelas. Em Abismos, o Nelson Peres só de se mexer em cena, antes mesmo de falar meu texto, já faz ele ficar melhor. O Gabriel tá nas duas montagens, ele não tem formação de ator e acho que nem muita experiência ainda, mas ele é um cara esperto, e sensível (escreve muito bem também), não tem pompa, manda muito… O Gabriel vai ser cada vez melhor em cima de um palco. Em Morte entre Amigos, que reprisa semana que vem no Terça em Cena, o Bortolotto já disse que o negócio é down, é mesmo, e o Gabriel, a Renata e o Marcelo foram muito bons dentro disso, foi como se eu tivesse vivendo um monte dessas coisas que às vezes voltam, coisas nada divertidas, que me levaram a escrever tanto sobre amigos perdidos.

o dia em que eu não escrevo

24/07/2016

Tenho conseguido escrever algumas páginas quase todo dia. Às vezes cinco, às vezes quinze. Assim a história que tô bolando vai se construindo de uma maneira razoável pra daqui a dois meses eu cortar a metade, reescrever e ver no que vai dar. Nos domingos eu prefiro não escrever, e por isso eles são meus dias preferidos agora. Invariavelmente acordo cedo, tendo bebido na madrugada ou não. Dou comida pros cachorros e desço com eles. Aí eu subo, deixo a velhinha em casa e volto pra rua com o mais novo. Nossa rota é quase sempre a mesma no domingo. A gente sai da Brigadeiro Luis Antonio em direção à Santo Amaro e passa pela feira e aí vai até o Estadão e passa pela feira da Major Quedinho também, gosto de andar pelas feiras, sempre acabo pensando em comprar moela ou fígado ou sardinhas pra fazer de almoço, mas nunca ando com dinheiro, então eu penso em levar dinheiro no próximo domingo e isso nunca acontece também. Depois a gente vai pra Praça Roosevelt, onde só sobraram destroços, mendigos e dois ou três caras andando de skate. Eu me sento um pouco pra ver e fico pensando em coisas bonitas e arrasadoras, como o suicídio do John Goodman na primeira temporada de Treme ou o livro do V. S. Naipaul que tô lendo. Então seguimos até a Praça da Sé e sempre gosto de assistir uma missa que os africanos fazem ao ar livre em sua língua nativa. Alguns cachorros dos moradores vêm cheirar o meu e, em geral, uns mendigos vêm conversar sobre cachorros também – uma família deles, que fica em frente ao Tribunal de Justiça, tem uma vira-lata bem parecida com o meu, e o dono dela e eu, que só suspeitamos de que misturas podem ter saído, gostamos de compartilhar características parecidas entre os dois. Saindo da praça, caminhamos até a feirinha da Liberdade antes de voltar pra Brigadeiro. Aí eu subo em casa, deixo o cão, e vou na padaria comprar um frango assado e uma coca-cola pro almoço. É mais ou menos nessa hora que minha mulher costuma acordar, hoje ela tá viajando, então eu comi sozinho ouvindo os esportes. Nesses momentos que algumas coisas que vou escrever durante a semana vão tomando forma na minha cabeça. Agora tô escrevendo essa novela sobrenatural. Mas um dia ainda vou escrever um romance pulp chamado Livre é o lutador de sumô. Pensei nele hoje, enquanto caminhava. É sobre um poeta que trampa de ajudante de cozinha num pequeno restaurante chinês. Ele também descola uma grana em campeonatos ilegais de vale tudo em academias fechadas na Zona Leste. Ele é gordão e sensível e sempre volta a pé das lutas, geralmente no domingo de noite, geralmente sob uma garoa, construindo poemas em sua cabeça.

Existe uma antena, ou tempos paralelos, ou coincidências estúpidas

20/07/2016

Por algum motivo lembrei do filme do David Chase hoje cedo, Not fade away. E aí fiquei o dia inteiro com Time is om my side na cabeça, porque essa música tá bem presente no filme. A Camila deve ter enchido o saco de tanto que cantei esse refrão pelo apartamento. De noite, até coloquei os Stones pra tocarem enquanto preparava um negócio pra comer. Aí agora fui ver um episódio de Treme e lá tava a música, com Irma Thomas e Allen Toussaint e o personagem Batiste. Me amarro quando essas coisas acontecem. Existe uma antena, ou tempos paralelos, ou coincidências estúpidas.

 https://www.youtube.com/watch?v=mDandoEaqME

wood shakespeare

15/07/2016

Eu lia esse gibi em que a caveira do cemitério se amarrava num monólogo. Era como Shakespeare, só que misturado com Ed Wood. Eu ria pra caralho assistindo Nós Jogamos com os Hipopótamos. Era bacana não trabalhar. Naquela época ainda podia aparecer uns peitos na Sessão da Tarde. O meu sofá fedia a suor. Eu fodia com minha mulher quatro vezes ao dia. E duas noites por semana ainda fodia com outra. Ah, sim, sempre acreditei em Deus. Saca só, meu crucifixo é do tamanho de um punho. E tem esse escapulário que minha vó me deu há uns vinte anos e ainda não arrebentou. O lance é que não consigo prestar atenção no que o padre fala. Eu fico olhando as mulheres, mães, filhas, porra, quando eu vou na igreja eu só penso em foder. Mas de noite eu rezo. Toda noite. Pai Nosso e Ave Maria. Sei Salve Rainha de cor. Não quero conversar com Deus. Eu falo essas frases que eu decorei. São as únicas coisas que decorei na vida. Minha memória é uma merda. Nem Detalhes do Roberto Carlos eu decorei e é a música mais linda que se pode ouvir nesse planeta. Não sei que diferença faz, provavelmente nenhuma, eu só penso as porra das orações antes de dormir. Que diabo interessa? Eu não entendo vocês, os ateus. Minha mulher, por exemplo. Sempre fica me olhando com uma cara de Que porra cê tá fazendo? quando eu começo a fazer o sinal da cruz deitado na cama. Aí eu acabo, faço o sinal da cruz de novo e durmo.
Ela deve ficar lá pensando: Mas que cara cheio de merda…

Reverendo Maldito

11/06/2016

Assisti uns shows mó bacanas de rock autoral em Salvador. Muito mais que em Porto Alegre, por exemplo – que dizem que é uma cidade de rock, mas vive muito do passado.

Não que eu tenha identificado uma cena por lá, no sentido social e político da palavra cena, mas tem opção pra quem quer ver um show, quase toda semana. Muito graças a uma ou duas casas que abrem as portas pro rock e ao Rogerio Pereira Brito, o Big Bross, que organiza e produz tudo na garra. As que mais gostei são Jato Invisível, Pastel De Miolos (banda mais antiga e já estabelecida no cenário), Os Jonsóns (praticamente uma banda baiana de rock gaúcho, um Cascavelletes só que menos machista, pero com menos carisma também), Bilic Roll (um power trio de moleques estranhos), Latryna (punk puro, periférico e zoado), Ubráis Barco (que é do interior), Declinium (banda pronta, de guitarra, meio pós-punk, com um vocalista de vozeirão que se denomina Chinaski) e Os Intrusos (uma das minhas preferidas, letras boas, melodias grudentas – no bom sentido da palavra grudenta). Mas tem muitas. Muitas mais. De vários estilos, da capital e do interior. Tem mais banda que público, bem mais. E as próprias bandas não vão muito nos shows umas das outras. E claro que isso é algo sintomático hoje em dia. As pessoas não saem de casa pra descobrir coisas novas, nem que seja pra não gostar das coisas novas. Tudo certo, é uma opção delas. Os anacrônicos que se virem pra sobreviver nesse deserto espiritual.

Mas o som mais autoral e maluco que ouvi é o do Reverendo T (Tony Lopes), que produz tudo na última linha da independência. Foi o único que escutei e quis conhecer a pessoa por trás. Acabei até tocando com ele. Do caralho. Esse é o ep novo do maldito Reverendo baiano:

http://reverendot.bandcamp.com/album/puta-b-o-c-a-santa-2?from=embed


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