Daytona – Estreia quarta

15/04/2018

daytona

 

A ideia para Daytona surgiu quando eu tava escrevendo Enterro dos Lobos. Eu tava querendo escrever algo mais leve depois de Enterro. Tava ensaiando Palácio dos Miúdos com o Linguinha na época, e falei pra ele que ia escrever uma peça pra gente e pros nossos brothers atuarem. Pra se divertir. A ideia veio quando eu tava bebendo com o Klebão. A gente bebia bastante naquela época. Ele praticamente morava comigo e com a Camila e depois que ele voltava das vendas dos livros eu já tava esperando no boteco da esquina, com um litrão barato na mesa. Num desses litrões, surgiu alguma notícia sobre os poucos fliperamas que ainda existem por aí. E aí eu disse É isso, eu vou escrever sobre o último fliperama da cidade, e ele vai fechar, e o cara era o melhor no ranking de alguma máquina e resolve roubar essa máquina junto com uns amigos. O único comentário do Kleber a respeito foi: Esses caras podem ter uma bicicletaria. Eu não tenho a menor ideia do porquê ele disse isso, às vezes eu não tenho a menor ideia do porquê o Kleber fala umas coisas, mas eu sempre sei que ele vai falar umas coisas, e se eu tiver esperto na hora, acato. Eu tava esperto nessa noite. E a peça se passaria nessa bicicletaria no dia que antecede o roubo do fliperama. E essa ideia ficou na minha cabeça muito tempo. Eu acabei Enterro dos Lobos e, quase um ano depois, a gente montou e, dois meses depois da temporada acabar, eu quis escrever algo sobre crianças e eu já tinha a bicicletaria e o fliperama pra isso. Escrevi Daytona em duas horas. Não que ela já tivesse inteira na minha cabeça. Eu tinha essa premissa. Eu tinha decidido que a máquina roubada seria uma máquina do jogo Daytona. E quando fui escrever a primeira página, duas mulheres apareceram na cena. Eu faço jogos particulares com as coisas que escrevo. Enterro dos Lobos começava com duas mulheres conversando, e eu achei legal que Daytona começasse assim também. Tem outros, muitos outros, pelo decorrer da peça, mas o lance é que Daytona seria uma peça quase que só de homens, ia ter uma personagem feminina, que seria escrita pra Debora Sttér, porque eu sou mó fã da Debora Sttér, e ela seria a única atriz de verdade da peça, porque os outros iam ser eu, o Klebão, o Linguinha, o Lorandi (essas crianças tristes) e mais amigos que acabaram saindo dos meus planos assim que essas duas minas apareceram. Aí eu pensei, porra, é isso, alguns desses caras têm que ser mulheres. O que pra mim foi ótimo, porque prefiro escrever personagem mulher. E escrevi, por duas horas, fazendo meus jogos particulares e mais atrizes de verdade tiveram que entrar na peça (Luisa, Fernanda/Livia). Embora eu quisesse uma peça leve, eu queria uma peça que seguisse com o estilo que comecei a desenvolver em Enterro, textos mortos, pouco ou nada de poesia em diálogo, sem grandes revelações ou explicações, a trama principal (que parte de um ou mais clichês de gênero) relegada ao segundo plano para o foco ser aquelas pessoas ali, o que elas não falam, o que fez elas explodirem e não o que fizeram ou falaram quando explodiram etc. E foi isso. Como era pra ser uma peça em clichês de infância, de aventura, de roubo, todo o resto tinha que ser ainda mais sutil, e toda a infância e aventura e roubo tinha que fazer parte de um imenso nada. Era isso que eu sabia. E sabendo isso, foram duas horas bem bacanas de se viver. Grandes caras já descobriram há muito tempo que o nada é cheio de coisas (ao lado esquerdo do computador onde escrevo, tem um minialtar sincrético com símbolos e representações de deuses/deidades como Chenrezig, Kuan Yin, Saraswati, Ganesha, Apolo, São Francisco de Assis, patuá de Iansã, coleção de Ichings etc, e ao lado direito, em fotos, estão Anton Tchekhov e Jerry Seinfeld, é deles que tô falando aqui, meus dois preferidos mestres do nada). E agora Daytona estreia, quase um ano depois de escrita, depois de um monte de problemas – Linguinha quebrou a mão, quase operou a moleira e depois quebrou o pé, entrou Adriano como substituto. Ademir, ano passado, que dirigiria a peça, teve que sair por conta da sua agenda atribulada no trabalho (e volta agora, depois de longa temporada de algo que não sei se foram férias no Caribe ou um massacre a mafiosos albaneses, pra operar as mesas!), e entrou o Peterson. Ah, é claro que a peça não virou algo tão leve assim. Mas acho que ela tá impregnada desse descompromisso e dessa diversão também – o Ademir já ia preservar isso e o Peterson também preservou, em termos de direção. Que bom. Porque era isso que eu queria naquelas duas horas. Divertir crianças tristes, nem que seja um pouco, nem que seja até o terrível barulho do portão da casa se abrindo. Tão ligados, né? Aquele pânico das chaves na porta da frente.

 

 

Daytona estreia esta quarta (18), e segue nas quartas e quintas por curta-temporada no Cemitério de Automóveis.

 

 

 

 

 

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melhores de terror

29/01/2018

Se em 2017 não vi nenhum terror que virou clássico instantâneo, como It Follows e A Bruxa nos anos anteriores, vi ótimos filmes do gênero. Hoje em dia tá mais fácil pra fãs de terror, nem precisa de tanta prospecção pra achar umas pérolas, o mercado nos EUA parece aquecido depois de James Wan ficar milionário e da produtora Blum House lucrar muito com filmes baratos e bons. Segue lista de alguns do fim de 2016 ou desse ano que são bem bacanas:

1) Os olhos da minha mãe – Um dos filmes de mais bonitos que já vi, gótico norte-americano em preto e branco com uma puta atriz portuguesa (Kika Magalhães), fado e um desenrolar lento e terrível. Pra mim, todo o filme é grande arte, mas a cena do banho no pai é de se guardar. Primeiro filme do diretor Nicolas Pesce, que agora tá adaptando Piercing do Ryû Murakami.

2) Corra – O ator Jordan Peele escreveu e dirigiu esse baita filme de terror satírico ao racismo e à era Obama. Um dos melhores do ano. Daniel Kaluuya mandou bem demais.

3) Raw (Grave, no original) – de vez em quando o cinema nos dá umas releituras intimistas e originais do arquétipo do vampiro. Foi assim com Martin, do George Romero, e Deixa ela entrar, filme nórdico baseado no livro do Lindqvist. Em Raw, da diretora e roteirista francesa Julia Ducournau, uma garota virgem e vegetariana é obrigada a comer carne em uma espécie de trote universitário. A partir daí, desenvolve um gosto desenfreado pelo alimento. Essa premissa podia dar um filme bem trash, mas não é o caso, ele é delicado e sensível e, só às vezes, forçado. Podia ser pretensioso também, com tantos temas que aborda – vegetarianismo, sair de casa, a babaquice dos trotes, despertar sexual, relação entre irmãos (e isso é o melhor do filme) – mas se mantém na linha. A cena do corredor do hospital é grande arte, a da briga entre irmãs também. Não é tão bom como Martin e Deixe ela entrar, final previsível digno de twilight zone, mas é um terror muito bacana sim.

4) O sacrifício do cervo sagrado – Yorgos Lanthimos, esse grego maluco que faz o Colin Ferrell atuar! Depois da parceria no ótimo drama The Lobster, agora eles vêm com esse terror e suspense psicológico pesado pra burro. O ritmo e a entonação estranha dos diálogos meio fakes seguem, os planos fixos que te acostumam com o bizarro e aí se movem lentamente também. Tudo estranho. Tudo bonito. Uma tensão que precisa de um certo tipo de surrealismo pra se manter. Lanthimos e Efthymis Filippou, seu roteirista de sempre, são espécimes estranhas.

5) Ao cair da noite – Filme bom de terror mesmo é o dramático e agoniante Krisha (2015), do mesmo diretor (Trey Edward Shults), praticamente caseiro, filmado apenas com membros de sua própria família atuando como sua própria família. Mas este, seu segundo filme, não é nada mau também. Setenta por cento rodado dentro de uma casa em um mundo pós-apocalíptico, as questões levantadas pelo roteiro se deslocam um pouco dos dramas desse tipo de filme, o que dá um certo brilho na crueza da história. Destaque para a cabra que faz parte do elenco, a mesma do excelente A Bruxa.

6) Super Dark Times – Outro longa de estreia de um diretor. Aqui é Kevin Philipps. Terror nada fantástico sobre pré-adolescentes (nenhum adulto protagonista). Se perde um pouco no ritmo e no final, mas vale pela estranheza da cena central do filme (no parque, grande arte) e pela lógica juvenil e bizarra que domina desde o roteiro até a fotografia.

7) Creep 2 – os bons Patrick Brice e Mark Duplass dando sequência ao ótimo filme de found footage Creep. Não é tão bom quanto o primeiro. Mas também não foi apenas mais do mesmo. Teve menos sustos e mais humor, mas é um humor muito estranho e bacana. Tem os dois no Netflix.

8) O Lamento – Filme sul-coreano engraçado e assustador. Se você já viu um velho japonês de fralda geriátrica e olhos vermelhos na floresta, torça para não vê-lo de novo.

9) Fragmentado – Pra mim, não tá nem no top 5 do Shyamalan, acho pior também que o A Visita, o divertido found footage que ele fez em 2015, mas tem roteiro redondo e é bem dirigido, o James McAvoy e a Anya Talor-Joy (assim como a cabra, também saída de A Bruxa) tão mandando muito e o filme tem que tá nessa lista só pela alegria que eu, fã do M. Night, saí do cinema depois daquela cena final.

10) A Morte Te Dá Parabéns – Uma mistura barata de Pânico com O Feitiço do Tempo (Dia da Marmota). Pra quem nasceu em 1990 é legal de ver.

11) Better Watch Out – Esse é uma mistura de Os Estranhos com Esqueceram de Mim. Divertido, inusitado e maníaco. O Netflix produziu uma comédia gore também esse ano – A Babá – com praticamente o mesmo plot só que invertido (não posso explicar senão estraga as surpresas), mas esse é melhor.

12) Annabelle 2 – Depois da bomba de merda que foi o primeiro filme, esse conseguiu recuperar uma franquia, com boas cenas e climas legais de medo. É que o diretor aqui é David Sandberg, mestre em curtas independentes de terror, que também dirigiu o filme Lights Out, adaptação meia boca (muito nos moldes antigos da indústria) do seu ótimo minicurta de youtube. Com certeza, ele não pôde mostrar tudo que sabe nesse filme, que ainda conta com aqueles sustos fáceis e música alta que o James Wan e a Warner adoram. Mas eu esperava um filme horroroso, fui assistir só porque apreciadores desse gênero estão acostumados a qualquer porcaria e saí do cinema bem satisfeito, não é Invocação do Mal, mas é o meio do caminho, pra mim tá valendo.

P.s.: “Mãe!”, do Aronofsky, não tá aí porque aquilo é mais, muito mais, do que um filme de gênero. Filmaço.

P.s.2: IT – A COISA, não tá porque fez uma bela cena no início e depois não cumpriu o terror que prometeu e virou algo como um coming of age de sessão da tarde muito bem feito.

O gato

28/09/2017

1.
Foi ela que enterrou nosso gato. Também não entendi direito onde. Chegou em casa com os cabelos grudados no rosto e barro nas calças. “Eu podia ter só jogado ele no lixo”, ela disse enquanto usava a ponta da chave do carro pra limpar a sujeira abaixo das unhas. Depois disso não disse mais nada. Entrei no banho e ela me seguiu, brinquei com seu corpo como costumo brincar, ela reagiu como costuma reagir, escutamos uns livros caindo da estante e chegamos a abrir a boca pra gritar o nome do gato em ridículo tom paternal mas nos calamos a tempo.

Esvaziei o cinzeiro antes de sair. Gosto de contar, na volta, quantos cigarros ela fuma. Ela nunca fuma quando tô em casa, e encontrar dezenas de bitucas quando chego é um jeito de saber o que ela faz quando tá sozinha. Pelo jeito fica sentada, fumando. É assim que costumo a encontrar também. Ou dormindo no sofá, com o cinzeiro em cima da barriga, cinzas pela sua barriga, amo aquela barriga, tiro o cinzeiro e espano um pouco as cinzas. Quando fui pra Índia, depois de me formar, vi um iogue dizendo que esfregar cinzas pelo nosso corpo é bom antes de irmos a lugares com energias ruins, parece que as cinzas são uma espécie de proteção. Sempre lembro disso quando espano as cinzas pela barriga dela, mas no caso eram cinzas de incenso que o iogue dizia. Então o que faço é mais uma espécie de limpeza das cinzas de sua barriga e não algum tipo de ritual – não um ritual iogue pelo menos. Contemplo aquela barriga. Amo mesmo aquela barriga. Me ajoelho no chão pra escorar minha cabeça nela. Fico até um bom tempo ajoelhado, com a coluna curvada, a lateral do meu rosto deitada na barriga, a orelha tão colada na barriga que os ruídos de seu organismo funcionando parecem engrenagens de uma fábrica lá dentro do meu cérebro. Fecho os olhos e fico assim. É provável que eu acharia ridículo ver essa cena numa fotografia ou com outro homem na mesma situação, mas eu me sinto bem ali, tentando não me mover pra que ela não acorde, pra que ela pelo menos não tenha que fingir que não tá acordada

 

2.
Eu fiquei com saudade de escutar umas músicas deprê dos anos 90 que escutava com meu primeiro namorado aí liguei o youtube na tv e coloquei, fiquei dançando no meio da sala, geralmente o gato fica me olhando dançar no meio da sala quando eu fico sozinha dançando mas dessa vez eu nem sabia onde ele tava, fui dançando até o quarto e também não vi ele, voltei pra sala, me agachei ainda no ritmo da música até ficar de joelho no chão, assim, de um jeito que se não fosse eu seria beem sexy e aí me deitei de barriga pra baixo pra ver se ele tava no vão entre o chão e o sofá onde ele dormia às vezes, fiquei segurando o cigarro com os lábios e a fumaça foi pros meus olhos e ardeu pra caralho e só depois que as lágrimas saíram eu consegui abrir bem os olhos e dessa vez ele não tava dormindo, ele tava me olhado com aqueles olhões ou estaria se aqueles olhões ainda tivessem alguma merda de vida dentro deles.

A gente trouxe o Spooky do interior. A gente não comprou nem adotou o Spooky, ele era um gato de alguma família, desses que podem sair pela rua no interior e ir pra outras casas e até ter mais de uma família, sumir por semanas e voltar bem e gordo mas com saudade da gente. Só que de uma hora pra outra ele não saiu mais do nosso quintal, ficou meses só no nosso quintal e na nossa casa e quando nos mudamos, bem, não tinha como deixar o Spooky sozinho. A gente que deu o nome de Spooky pra ele e ele já devia ter outro nome ou ser meio retardado porque nunca atendeu por esse. Na verdade eu nem gostava de gatos, eu gosto de cachorros, tive vários na infância, minha família é conhecida no interior por ter vários cachorros e ainda cuidar dos cachorros que vivem na rua, eu não quis ter um cachorro na minha casa quando casei, muito menos um gato, mas o Spooky apareceu e como eu falei a gente não ia deixar ele sozinho. Na verdade eu nem gostava muito do Spooky. Eu não chorei nem nada. Eu enrolei ele num cobertorzinho que roubei da Avianca e aí eu deixei um bilhete dizendo que o Spooky tinha morrido e que eu ia no interior visitar minha mãe e enterrar ele onde minha mãe enterrava os cachorros, decidi isso enquanto escrevia o bilhete, na verdade eu só ia procurar um crematório de animais ou sei lá porque é isso que eles fazem em São Paulo, cremam os animais, só que algo na música deprê dos anos 90 me deu uma fome de nostalgia e de estrada e fomos eu e o coitado do Spooky morto no cobertorzinho viajar um pouco.

Preferi manter no porta-malas, em duas horas eu acho até que ele não fosse começar a feder mas achei meio sinistro ele comigo no banco do passageiro. Imaginei o cobertorzinho da Avianca se mexendo, ele voltando à vida lá de dentro, só pra me dar um último susto ou sei lá. Tinha uma blitz no meio do caminho e rezei tanto pra que não abrissem meu porta-malas, era até fácil de explicar, né? Eu vou enterrar meu gato na cidade em que ele nasceu, só que sei lá, freak! Eu não parei na casa da minha mãe. Na verdade eu nem vi minha mãe. Eu bati na casa do meu primeiro namorado, ou pelo menos onde eu imaginei que ele ainda morava e ele morava mesmo e pelo jeito sozinho e eu falei pra ele Meu gato morreu e dei um beijo nele e fui entrando direto pra onde eu imaginei que fosse o quarto e era o quarto mesmo.

A gente acabou indo pro lago mais tarde, enterrei o Spooky na areia antes do lago. O cara quis me ajudar a cavar o buraco e eu fui até grossa mandando ele cair fora, coitado, eu não achei tão ruim sugar a merda do corpo inteiro dele mas era meio que uma sacanagem ele me ajudar a enterrar o nosso gato. Fiz um buraco fundo, bem fundo, pra que nenhuma criança brincando no lago encontrasse ele, não nos próximos dias pelo menos, se é que as crianças de hoje em dia ainda brincam no lago no inverno. Eu sempre brinquei. E esperamos amanhecer ali, escutando músicas ruins dos anos dois mil no rádio e nos beijando e nos lembrando de como a gente era estranho. O que seu marido ia achar disso? ele disse, igual um idiota orgulhoso ou um ator ruim num filme ruim e dublado ainda por cima. Meu marido, faz muito tempo que ele só acha que gosta de mim, eu disse, igual uma atriz boa num filme bom só que dublado também. Deixei o coitado em casa e peguei a estrada de novo.

Eu pensei que eu ia chegar e ele ia tá todo sentimental ou chorando porque ele gostava mais do gato do que eu e também tem um monte de signo de água num monte de casa na merda do mapa astral dele. Mas ele tava de boa. Até meio frio. Como se soubesse de alguma coisa só que óbvio que não sabia. Me chamou pra tomar um banho e eu ainda tava suja e passei uma água rápido e logo ele já tava com o sabonete na mão me limpando e eu senti como se um buraco escuro e frio começasse a se formar no meu estômago e contemplasse cada célula do meu corpo. É óbvio que me senti uma pessoa de merda mas no fundo eu sabia que não era uma ou pelo menos que não era muito diferente da merda de pessoa que ele devia ser também. Ele começou a usar os dedos em mim de um jeito sacana como eu não via há muito tempo e eu até que gostei pra caralho.

Depois nos secamos ou pelo menos eu me sequei porque ele sempre fica todo molhado e se veste ainda molhado que nem um retardado, me deitei pelada na cama olhando pro teto, alguma música ruim dos anos dois mil soava na minha cabeça e eu até que tive vontade de chorar por causa do Spooky, pensei no cobertorzinho que roubei da Avianca, pensei nessas coisas quase inofensivas como fones de ouvido de avião ou xampus de hotel que a gente rouba só pra se sentir bem, como se fosse a merda de um pirata fodão ou sei lá. E se elas não forem tão inofensivas quanto a gente pensa? Ele acabou de se vestir e me deu um beijo na testa e virou pra ir embora porque tinha uma entrevista de emprego, eu ainda estendi o braço e toquei de leve com meus dedos nas costas dele e me senti tonta e tirei rápido os dedos dali. A porta bateu e foi como se um alívio, um puta de um alívio, começasse a se formar no meu estômago e contemplasse cada célula que tem no meu corpo.

livro novo

24/06/2017

Tô lutando comigo mesmo e com um romance, que o Daniel Valentim (grande editor e grande padeiro) me encomendou, desde fevereiro. Ele estava de certa forma redondo na minha cabeça. Hoje, por causa de uma frase, foi como se eu tivesse naqueles jogos de tabuleiro – você joga o dado, conta o número de casas, para em cima de uma e a mensagem é algo como: “Você perdeu. Volte para o início”. E eu voltei. Mas sigo no jogo. Provavelmente o livro contará a história de um bar na Liberdade e de um de seus donos, o bar só funciona de madrugada e, para comer, só serve uma receita de foie gras a preços módicos. Posso adiantar que a falta de enredo, a solidão e a desolação habitual das coisas que escrevo estão lá, mas eu nunca investi tanto na loucura – tem veganismo, anjo da guarda, fantasma japonesa, lutador de sumô, espírito de marreco, deuses indianos e até o Giovanni di Pietro di Bernardone, que vocês devem conhecer como São Francisco de Assis (tudo bem, na bíblia tem até dragão), mas no fundo, no fundo mesmo, o livro seguirá sendo sobre nada, ou sobre a vida, se eu estiver em um dia pretensioso. Começa mais ou menos assim: – Para contar a história do Bar e Restaurante Ogawa, talvez eu tenha que contar a minha história e para isso devo lembrar de meu avô, que caçava javalis, e de minha avó, que ouvia espíritos.

poema nº 72

23/06/2017

Ontem no solstício de inverno

 

Toda pedra é uma consciência adormecida

me disse um buda adormecido

numa estação de trem em Rishikesh

– onde encontrei a paz

quarenta e nove graus celsius

superpopulação de moscas e pessoas

dois ratos dividiam

conosco o vagão – dentro de mim.

E todo deus é OM pois todo deus

são todos os mantras e orações

sorriu o buda adormecido

e estendeu suas mãos malucas

como se bebesse água de

um riacho filipino dentro de mim.

Nessa altura, o carinho desmemoriado

de meu cão me fazia lembrar

Helena Blavatsk e as bruxas chapadas

sorriam lá fora sem conseguir falar e

traiam seus namorados e lambiam

o pescoço do destino

e toda folha que arranquei de toda

planta formava em minha sala

o grande espelho vulgar.

Ontem no solstício de inverno

a garota que tem me visitado

tirou sua roupa e parecia

mais linda e parecia a Virgem

com a fumaça de seu punhal azul.

Seu filho (que ainda não existe)

dormiu sorrindo

assistindo aos Simpsons no sofá.

 

futebol

20/06/2017

 

  1. O músico gremista Jupiter Maçã costumava dizer sobre a seca de títulos do seu time, com a língua enrolada e seu forjado sotaque bom fim-liverpool, que havia um cavalo enterrado no Olímpico e era essa magia negra a causa de todo infortúnio tricolor. Curiosamente, já que faleceu no decorrer de 2016, vitimado pelo alcoolismo, não viu seu time quebrar o jejum de taças – já fora do Olímpico – nem o Inter, arquirrival, ser rebaixado para a série B. Hoje, em 2017, se algum pinguço do lado vermelho levantar a hipótese de um cavalo enterrado às margens do Guaíba, não sei se alguém se atreverá a duvidar.
  2. Na minha peça, Enterro dos Lobos, no meio da cena de assuntos desconjuntados entre pai e filho pródigo, em algum momento eles emendam um diálogo sobre futebol. O pai fala: – Futebol no Brasil hoje é que nem quando vocês tinham aquelas apresentações no colégio. Sabe? Dia dos Pais, Dia das Mães… Chato pra cacete, mas a gente tem que ver, porque são nossos filhos, ora… Às vezes até se emociona…
  3. Bem, ele estava falando de futebol no Brasil. Pois se fosse falar dos jogos do Inter na série B, caramba, seria como se a apresentação no colégio fosse as crianças lendo “Em busca do tempo perdido” na íntegra e, eu juro, o tempo passaria mais rápido que os 90 minutos do jogo e, com toda certeza, seria muito mais emocionante.
  4. O frio no Rio Grande do Sul, segundo contam as notícias e meus amigos, está um negócio pavoroso. Como se não bastasse o futebol do Inter estar essa coisa, o jogo, por crueldade do destino e da CBF, foi marcado para às nove e meia de uma terça-feira. O torcedor que foi ao estádio está voltando agora, à meia-noite, para casa, com a temperatura abaixo dos dez graus, após ver isso, que comparei inferiormente a crianças declamando Proust na íntegra. Amanhã é recém quarta-feira. Dia dos jogos da primeira divisão.
  5. Durante a exibição deste espetáculo do futebol, recebi uma mensagem de minha mãe no celular, era a foto do meu pai sentado ao sofá em frente à TV. Muito mais sábio que eu, o velho dormia.

Poema nº 69

29/05/2017

Todos os peixes

Todos os peixes são lobos
nos encontramos assim
pernas embaixo da mesa
todos os peixes são monges
e bêbados antigos
ainda que o mar acabe
ainda que nosso dinheiro acabe
em bobagens
nos encontramos assim
olhos de santo e
morreremos
todas as manhãs
sem sede.

Enterro dos Lobos

29/05/2017

O Peterson Queiroz, foi assistir a nossa peça, que está em cartaz no Cemitério de Automóveis, e escreveu sobre ela. Abaixo:

 

SOBRE “ENTERRO DOS LOBOS”

Thomas Hobbes popularizou a frase do dramaturgo romano Platus que diz que “o homem é o lobo do homem”. Mas tudo o que Jara (Bruno Goularte), filho pródigo de Claudio (Walter Figueiredo) e Cristina (Ângela Figueiredo), vê quando chega de volta pra encontrá-los juntos de sua irmã Ionara (Debora Sttér) são apenas almas vira-latas cercadas pelas grades de seu próprio patrimônio. Os nomes dele e de sua irmã saíram de um livro de nomes indígenas do qual o pai, espécie de ex-selvagem, não se lembra de como lhe veio parar nas mãos. A mãe não faz outra coisa senão lamber suas crias e tentar manter o equilíbrio delicado daquela matilha efêmera, uma vez que Jara, num primeiro instante, parece ressurgir apenas para evocar ressonâncias perdidas como ganidos distantes demais para serem ouvidos. E para atiçar também a selvageria de velhos fantasmas e conflitos mal resolvidos. Estes sempre delicadamente varridos para debaixo do tapete pela mãe e pela irmã, zelosas que são daquele sistema clássico em torno de seus referenciais masculinos principais, embora isso soe como algo tardio mesmo ali, nessa carcomida estrutura patriarcal por sobre as tábuas rangendo em noites gélidas como se fossem passos – não de fantasmas, mas, sim, do próprio tempo.

Pouco importa a preocupação de mãe com o descaminho de Jara ou as desventuras amorosas igualmente desesperadas da irmã ou o peso literal de um deus-pai-todo-poderoso cujas leis parecem emanar, o tempo todo, de um simples olhar implacável para o filho com “vocação pra suicídio”. O que realmente parece ir minando a força vital de cada um destes animais agora domesticados é mesmo o tempo. Presente ali em livros velhos cheios de renovados signos ou em quadros ‘kitsch’ esquecidos nas paredes. Ou nas lembranças sempre tão escorregadias que nunca são concluídas a tempo, levadas que são pela correnteza dos acontecimentos carregados de urgência em torno da volta do filho, ainda que em letárgico e pesado desenrolar – num efeito proporcionado quer seja pelo descompromisso da narrativa proposta pela dramaturgia densa e repleta de sutilezas do autor/ator Bruno Goularte (o filho que é “quem entende dessas coisas”) ou pela direção concisa e detalhista com a qual Ademir Muniz encontrou a forma ideal de preservar esta fluência algo modorrenta e típica das manhãs geladas do sul, de onde Bruno parece nutrir-se de senso e de sensibilidade em cada palavra/situação/personagem a cada obra que vou conhecendo deste escriba tão desconcertante e cheio de brilhantismo.

Os desempenhos do quarteto de cordas: o pai nos gravões de uma construção obsessiva e vigorosa do ator compondo a medida exata entre o brutal e a alma em frangalhos, a mãe nas semitonais carregadas de doçura e singeleza feito torrentes de um amor que é tão puro e profuso que sempre se apresenta deslocado naquele quadro de desalento consumido e consumado, a irmã jogando um ou outro sustenido entre acordes dissonantes na sua busca por um sentido sempre tão perdido de entendimento dos homens e, enfim, Jara em solos implacáveis de agudos surdos dentro de si como uivos que teimam em chamá-lo de volta pra floresta o tempo todo. Tudo pontuado por baladas do cone sul e ecos de Procol Harum, pra descambar num tipo muito específico de nostalgia-do-que-parece-nunca-ter-sido. E assim foi: o bom filho a casa torna. Mas nem todos os lobos aceitam ser enterrados. Ainda bem.

poema nº 67

28/02/2017

Paz secreta

 

Elas voltam

com nuvens negras nos dedos

cabeça de cavalo corpo

de dragão

e uma picape de almas

Elas me dão carinho

acionam o despertador

para o fim do pesadelo

Voltam

como poemas de Hitler

cicatrizes de horror

não são videntes

são oráculos

e são bichas

pescando no grande lago

lambendo o grande lago

Deixe que as mulheres venham

– dizem

continue só

acumule as células do câncer

e deixe que as mulheres

venham

Só assim.

Morte Entre Amigos ainda em cartaz

18/02/2017

Semana passada, o Peterson Queiroz foi assistir e escreveu sobre:

SOBRE ‘MORTE ENTRE AMIGOS’

Fui ver ontem “Morte Entre Amigos”, nova peça com direção de Mário Bortolotto para 4 autores que, cada um a seu modo, abordam a finitude. Me arriscaria a dizer que a relação tempo/distância é o que define a morte. Pois há aqui um belo ensaio cênico composto justamente nestas bases, seja por meio da ressonância causada pelos espaços entre os precisos focos de luz que o Marião trabalha tão bem (e pelo trânsito sutil de cada um vagando em cena de um porto ao outro) ou pela também sempre muito sacada escolha das músicas, sobretudo as que embalam as cenas como trilha incidental por sobre os diálogos/hiatos entre todos estes personagens/almas penadas suspensas nesta penumbra toda que é a vida.

Em “Não dá pra ver a lua da Augusta”, da Carol Teixeira, Carca Rah empresta sua verve desencantada pra um reencontro com uma escritora, Débora Estter muito bem também, em meio a ressonâncias do consumo pop/cult fossilizado pelo rock e pelo jazz e ao eterno desencontro. E é isso: 2 anjos caídos sobre a noite paulista, na sarjeta dos pensamentos, sem nada adiante que possa valer a pena. Nem uma dança. Nem mesmo uma chegada mais forte e que nem por isso diminui o abismo como um buraco inesperado no asfalto engolindo carros e consciências distraídas em suas bolhas particulares. Nem mesmo a lua parece poder abençoá-los.

Na sequência, Fernanda Gonçalves (muito precisa em sua composição e filha do lendário Ênio Gonçalves, um dos maiores atores que já tivemos) divide a cena com Guilherme Lorandi, além do óbvio encaixe da escolha pelo seu visual heavy metal, um ator de espontaneidade e comicidade fáceis: “Cocainômano”, de Edivaldo Ferreira, joga ambos na composição de um tipo estranho de ode a Lynyrd Skynyrd. E é justamente o descompromisso, algo difícil de se atingir numa dramaturgia sem que a coisa fique meio capenga (o que não é o caso aqui, claro), é que dá a medida exata dessa coisa que sempre se interpõe entre o real e a expectativa com a qual sempre se projeta algo no outro. Novamente então, como na morte, a distância. Não tão grande aqui, mas sempre presente. Na oposição/junção desse que a gente nunca consegue dizer facilmente tratar-se de um casal tanto quanto não dá pra dizer que não sejam um. E um tempo sempre dilatado demais.

“Kenny G”, do gênio Lucas Mayor, não poderia encontrar intérprete melhor que o diretor/ator Mário Bortolotto. É raro ver um texto onde a revolta e a inadequação social tornem-se tão desconcertantes que só nos resta rir. É impressionante como em um monólogo patético sobre uma dondoca de classe média alta e sua peculiar relação com o animal de estimação possa alcançar toda a dimensão da tragédia humana e ainda ser um compêndio/petardo crítico à indústria cultural e ao consumo massificado de subprodutos. Como se, nisso, fosse possível tirar da prateleira sua identidade como uma pessoa ‘sofisticada’ e/ou ‘única’, lotando vernissages e cursinhos de História da Arte sem entender nada sobre o que realmente trata a real questão por trás de tudo: novamente a distância, agora entre a aparência e a essência, da arte e da própria vida. E ainda consigo me impressionar com a energia e as sutilezas com as quais o ator consegue fazer com que a gente se deixe levar, no melhor estilo Louis CK, pelos vastos caminhos que o texto magistral do Lucas nos conduz – então não vou resistir a um trocadilho muito infame: aqui, literalmente ‘o buraco é mais embaixo’ (quem for ver, vai entender).

Por fim, o magistral texto de Bruno ‘Bandido’ Goularte que dá título à peça. Em “Morte entre amigos”, a síntese de todo este ensaio. Frases certeiras. Figuras arquetípicas como todo grande autor busca almejar pros seus personagens. Quando surgem, são como fotografias still que escorressem diante dos nossos olhos. Como lágrimas demorando pra cair ou mesmo teimando em se esconder diante do outro. Marcando a distância. E o tempo. Como a luz que não é salvadora. Como não conseguir se esconder por tanto tempo assim nas sombras/sobras entre eles e entre tudo. Como amigos que também nem perceberam o fim dessa ideia de fraternidade entre eles até ali. Como interstícios entre os suspiros na morbidez frívola e civilizada da espera cerimonial pelo rito de encerramento de outro amigo. Na ausência nem tão repentina assim dele. E de nós mesmos diante dessa escultura do tempo – não por acaso vislumbrei como personagens de Jim Jarmusch poderiam flanar em um filme de Tarkovski, ainda que eu saiba que os autores elegeram Cassavettes como referência, o que também se aplica, claro. De todo modo, Gabriel Oliveira surge como um ator de cuja densidade parece escapar todo o timming letárgico necessário para a contemplação de sonho que a cena pede. Mas com contundência. E uma força interna. Silenciosa. Perturbadora. Tenho falado muito sobre essa idiotice de privilegiar o ritmo. A cena me mostrou que continua valendo a pena não ter pressa. Sobretudo pra apreciar a beleza. Renata Becker é o próprio desalento. Ela simplesmente parece afundar com tudo ali. Como o epicentro nervoso de um terremoto que nunca se acalma, abalando tudo em volta, de dentro pra fora. Único facho de luz possível sobre o futuro, mas um facho pálido. Embaçado. E Marcelo Selingardi atingiu uma espécie de ingenuidade e inocência quase que sagrados. Navegando de um lado pro outro ali também, com um tipo de esperança estúpido qualquer. Nessa cena, pra mim, se consolidou este ensaio sobre a morte. Tempo/Espaço por sobre os quais vamos nos destilando a cada gota. Obrigado aos atores, autores e ao diretor.