não acontece nada de muito extraordinário por aqui

Ei, garota, fique sabendo, não vou te ler poemas da Pagu. Sou só um cara que sai por aí e acaba sempre no mesmo tipo de lugares – não interessa o motivo. Interessa que eu tava te esperando, bebendo em copo plástico e sentado no meio fio, escutando o barulho lá dentro do teatro. Claro que eu tava sozinho e satisfeito, prestes a ficar bêbado e nada solene, e te esperava em baixo de todas aquelas músicas do Alemão Ronaldo. Fique sabendo que eu não vou te levar a shows do Alemão Ronaldo. E que vou entender, perfeitamente, quando rolar o que dizia aquela música – aquela canção triste e bonita e tão brega, que a porta se encarregava de botar pra fora. Melodias direto pro meio fio, onde um vira lata, quase tão feio como eu, parecia fazer questão de me acompanhar. Gosto desses cachorros de rua, eles parecem saber de tudo, mas só de vez em quando. ‘Os livros são teus, os discos são meus, já que tudo tem que ser assim’, acho que foi isso que eu ouvi, aquele monte de vozes femininas, em maioria, cantando desafinadas.  Pensando bem, isso não interessa também. Porque eu sou sempre esse mesmo idiota. Porque levantei, comprei mais uma dose, entrei na fila do banheiro e uns caras quiseram passar por mim, eu conhecia os malandros, eles nunca foram coa minha cara e isso era recíproco. Claro que não deixei, eu sabia o que eles queriam, eles queriam brigar. Droga, garota, fique sabendo, às vezes eu compro esse tipo de briga, não sei bem por que, não mesmo. E, fique sabendo,quando os seguranças têm que expulsar um dos lados da briga, eles mandam embora quem parece dar menos lucro ao negócio, não quem tem razão, acho que são treinados pra isso – eu era só um, mas eu era um exército, e briguei junto de todos os demônios dentro do meu corpo e briguei junto de todo o whisky dentro do meu copo e fui colocado pra fora – sem essa coisa de “convidar a se retirar”, que falam muito por aí hoje em dia. Aquela espelunca não era do tipo que convida as pessoas a qualquer coisa que valha, aquele lugar coloca pra fora à moda antiga. Na verdade, eu não sei por que o pardieiro tem seguranças,talvez por causa de outros endiabrados que costumam comprar certos tipos bestas de brigas. E, fique sabendo, não são seguranças com ternos ou qualquer coisa do tipo, são dois brutamontes bebedores de cachaça (e provavelmente de bombas), vestidos com camiseta regata, que tão ali pra resolver problemas de forma simples e objetiva – Por isso fui colocado pra fora, por isso não piso mais lá, por isso a madrugada me desvirtuou e eu rodei por todos os cantos e o cachorro, que me acolheu na calçada, rodou comigo por um tempo, e, confesso, fiquei triste quando ele desistiu, algumas horas depois. Porra, até o cusco desistiu de toda aquela solidão. De certo, deve ter escolhido uma boa avenida pra correr atrás dos carros, ou um lugar com garotas bêbadas dispostas a lhe dar carinho, ou deixar que ele se enrosque por suas pernas – não o culpo, longe disso. O teu show já devia ter acabado há um bocado de tempo, por isso não voltei atrás, escolhi um bar ainda pior e conversei com putas tristes, tão tristes que, fique sabendo, já nem cobravam mais.

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3 Respostas to “não acontece nada de muito extraordinário por aqui”

  1. Adriana Godoy Says:

    Bandido, demais! Muito forte, real e bonito. Resumindo: du caralho! beijo.

  2. Kleber Felix Says:

    Despedaçante brother, du caralho. abraço

  3. Sandro Rocker Says:

    Porra , Bandido! Pegou na veia…Abraços!!!

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