you can leave your hat on

Fiquei sentado no balcão bebendo bourbon e assistindo algumas partidas tortas de sinuca. Dois caras ensinavam a Garota Bêbada e Linda e Atirada a segurar no taco, os dois pareciam querer comê-la ali mesmo e, pelo jeito que as coisas rolavam, talvez conseguissem. Alguém colocou “Ol’ 55”, na versão do Eagles, pra tocar na jukebox – é uma bela jukebox castelhana aquela, mas também não esperava que tivesse Tom Waits. Depois foi a vez de Joe Cocker tocar “Girl From The North Country”, outra versão e eu nem sabia da sua existência.

Alguém resolveu seguir com Cocker e apostou uma ficha em “You can leave your hat on”, bela aposta, eu diria, pois a Alma Feminina Endiabrada ensaiou um strip. Por causa do frio, era um bocado de peças de roupa que ela tinha que tirar, subiu na mesa e começou pelo cachecol – foi uma bela tirada de cachecol, eu garanto. Eu nem sabia que havia um jeito tão sensual e tentador para se tirar um cachecol. Acho que ninguém dali sabia, até então. Me apaixonei por aquela garota. Todo aquele arranjo de sopro na música do Cocker e as roupas indo embora e aquela tirada de cachecol!, uns caras gritavam e eu assistia calado junto do meu bourbon. Marina chegou a tempo, riu da minha cara e disse que eu nunca vou mudar. É isso mesmo, a não ser em certos limites, as pessoas nunca mudam, já dizia o Edward Bunker ou o Pablo Beato, sei lá.

Marina se lembrava das nossas antigas bebedeiras e ria com seu timbre agudo e irritante de voz. Como é aguda e magra e ingênua e, um tanto, estúpida e putinha, a Marina. Nem bonita ela é, não do jeito clássico da palavra “bonita” (e claro que seu nome não é Marina) – e como eu adoro essa garota. É uma garota e tanto. Não se deixe enganar só porque não consigo achar nenhum adjetivo de qualidade para ela – Seria um tremendo erro. Depois, começou a me falar sobre o seu trabalho no hospital e coisas chatas do tipo e, não sei como, acabamos conversando sobre o amor.

É claro que eu já me apaixonei várias vezes, mesmo que por apenas alguns minutos, ou algumas noites, ou dois anos – naquele momento, por exemplo, eu tava apaixonado pela Alma Feminina Endiabrada que havia ensaiado um strip e por todo aquele seu estilo para tirar o cachecol ao som de Joe Cocker, tenho certeza que ela é quem melhor tira um cachecol ao som de“You can leave your hat on”  em toda a face da terra – e  eu tava apaixonado por Marina também. Agora não mais, por nenhuma delas. E é quase sempre assim. Mas, quanto ao amor, faço questão de mantê-lo afastado de mim. Sou novo de mais pra andar por aí amando alguém. E, é claro, não sou besta pra amar mais de uma vez nessa vida. Por isso fico aqui me apaixonando por um bocado de garotas, às vezes intensamente, e me desapaixonando e escrevendo poemas bêbados sobre isso tudo. É só o que posso fazer até que um dia o amor venha e me tire a paz e acabe comigo, assim como faz com todo mundo que respira.  Depois disso, a única diferença é que eu já vou ter amado, ou estar amando, e, não vou amar de novo – vou apenas levar a vida em frente com alguns traços amargurados e belos e estranhos causados pelo amor. Só uma questão de consequências. Porque, como dizia o Edward Bunker, ou o Pablo Beato, ou sei lá, “a não ser em certos limites, as pessoas nunca mudam”.

Era isso o que eu explicava pra Marina (e que ela não entendia, por supuesto) enquanto o Jim Morrison bancava o Frank Sinatra dentro da jukebox castelhana. Os dois caras seguiam fazendo de tudo pra comer a Garota Bêbada e Linda e Atirada do taco de sinuca e a Alma Feminina Endiabrada estava um pouco menos endiabrada e, prestes, a adormecer nos ombros de sua amiga tranquila. Marina voltou a falar do hospital e de suas ideias bestas para o futuro. Ela queria conselhos, só que, claro, do cara errado – Bem do seu feitio, estar sempre metida com os caras errados. Na tarde em que a conheci, há tantos anos atrás, Marina chorava por causa de um desses caras. As coisas não evoluíram muito desde então, sinto pena por isso, embora eu só tenha ajudado nessa coisa toda durante os meses em que passamos juntos. É notório que sou uma péssima companhia, afinal. Ela também é. E passamos um verão bastante agradável, no entanto. Lembro de sua bunda, bela e melancólica – assim como casi todas bundas argentinas. Muito mais européia, do que brasileira e africana. Já disse; melancólica. Um bom adjetivo para a bunda de Marina, que dançava sublime as baladas dos Rolling Stones enquanto eu ainda dormia adiando a ressaca. Mas Marina, e sua bunda, amadureceram um pouco. Sempre chega um momento em que esse tipo de garota descobre que Knock On Heavens Door não pode ser a melhor música dos Guns’N Roses, porque nem dos Guns’N Roses ela é. E descobre que aquilo tudo que está fazendo vai dar em nada. Daí resta jogar conversas de gin na nossa cara e ir ao banheiro para mostrar as curvas e, no outro dia, dar no pé antes da gente acordar. Com Marina, o momento ainda não veio, mas acredito que tá prestes a acontecer – vou ficar contente no dia, juro que vou. Sei disso porque me deixei enganar quando ela levantou em direção ao toilet. “É agora”, eu pensei. Bebi um gole e fiquei ouvindo “No more lonely nights”, do Paul McCartney, com um sorriso bobo na cara, até que ela voltasse. “Tua bunda ainda é a bunda mais melancólica do velho oeste”, falei bêbado como sempre. Ela riu.  A aguda e irritante gargalhada da Marina.

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8 Respostas to “you can leave your hat on”

  1. caracoles Says:

    querido bandido, se já escreves bem assim sem ter vivido um amor, então que ele venha grande, assim vais escrever ainda melhor.
    sou tri fã do amor.

  2. caracoles Says:

    e de ti!

  3. Airplane Charter Says:

    querido bandido, se já escreves bem assim sem ter vivido um amor, então que ele venha grande, assim vais escrever ainda melhor.sou tri fã do amor.
    +1

  4. Helena Hutz Says:

    de ti às vezes, de amor sempre!

  5. Cidah Duarte Says:

    De ti e do amor tb! ele tira a paz sim, mas dá uma inspiração e tanta! rs…foda o texto , Bruno!

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