moto acampada / anjos desolados / raymond carver

Desde sexta-feira, um bocado de motogrupos malucos do Uruguai, Argentina e Brasil enfrentaram as temperaturas negativas e pegaram a estrada para uma espécie de encontro que eles têm por aqui. Meus amigos tocaram com suas bandas por lá e o Careca me chamou pra tocar baixo nos rocks que eu fiz há uns anos atrás e tão no repertório deles até hoje. Tem um motoqueiro maluco de Porto Alegre, não lembro o nome dele porque todo mundo chama o cara de Velho Safado, enfim, ele é um daqueles velhões de barba e cabelo banco e anda numa daquelas motos com três rodas e colocou vários adornos nela, coisas como crânios de touro e tudo o mais (pertence aos Abutres do Asfalto, se não me engano). Ele chegou para um amigo meu, que é baterista e é louco e é enfermeiro, e falou: “Tu é enfermeiro.” Acertou na mosca, mas a gente não viu como ele pôde ter acertado. “Como tu sabe?” Perguntou meu amigo. “Porque nunca vi um enfermeiro que não fosse viado.” Respondeu. E assim as coisas continuavam na mais perfeita paz daqueles motoqueiros apreciadores de Ventania. Fora isso, tenho bebido demais e passado dias imensos com uma ressaca tremenda. Hoje, por sorte, estou bem porque, ontem, por sorte, apareceram na minha frente duas garrafas de Sir Edwards e, lá pelo fim da noite, um Black Label inteirinho pra cair matando. Coisa linda. Tive a hombridade de não tomar mais nada depois que o Black acabou. Saí com cinco reais no bolso e voltei com eles pra casa, mesmo com doses caindo a todo momento no meu copo, isso é um bocado bom e um tanto perigoso.

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E a L&PM vai lançar em agosto o Desolation Angels, do Kerouac. Ela já lançou esse ano o Satori em Paris, que ainda não li. Também não li o Visões de Cody, porque não desce o preço dos setenta mangos e nenhum amigo meu teve a delicadeza de comprá-lo e me emprestar depois. Parece que esse “Desolation…” segue  um pouco naquelas paradas de montanha e budismo e tudo o mais. Não gosto quando ele embarca muito nessa onda – mas é estritamente pessoal e, mesmo assim, acho Jack Kerouac um dos melhores que tem. E também, o livro não é só isso. Saquem só, nas palavras do tradutor Guilherme Braga:

“em Anjos da desolação Kerouac faz da vida uma aventura e relata desde as experiências espirituais que teve durante a solidão prolongada no topo do Desolation Peak, onde trabalhou como vigia de incêndios, até cenas absolutamente hilárias ao lado dos amigos Allen Ginsberg, Peter Orlovsky, Lafcadio Orlovsky e Gregory Corso na Cidade do México – tudo regado a viagens, garotas, alegrias, bebidas, paranoias, tristezas e ternuras, como qualquer leitor devoto está cansado de saber.”
(para ler o texto na íntegra, tente aqui.)

Olé!

Esses dias, uma garota ficou me falando que o Fante era ‘infinitamente melhor escritor que o Kerouac’. Não sei daonde ela tirou isso, quero dizer, tudo bem que ela goste mais do John Fante, mas aquele ‘infinitamente’ me deixou com o pé atrás. Eu também gosto dele, principalmente em Espere a primavera, Bandini e Pergunte ao pó (que é o livro fundamental do cara), mas, na minha preferência, ele tá bem abaixo de Kerouac, Charles Bukowski e outros escritores. Essa mesma garota me perguntou de quem eu gostava no Brasil, o primeiro nome que me vem a cabeça é sempre o do Reinaldo Moraes. O primeiro livro que li dele foi o Abacaxi, que é divertido pra burro, mas os dois que li na sequencia  (Tanto Faz e Pornopopéia) fazem a gente pensar em palavras como “gênio”, “do caralho” e “obra prima”. Também tem outros vários escritores nacionais bacanas. O problema é que se a gente não vai direto ao ponto vai encontrar com um monte merda disfarçada no meio do caminho. Por enquanto, vou atrás dos dois pockets de 2010 do Kerouac e torcer pra que algum amigo compre logo o Visões de Cody.

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E a Folha de São Paulo publicou ontem 4 poemas d0 Raymond Carver (outro puta escritor). Nunca havia lido nada além dos contos dele. Achei bacana. Para ler, tente aqui.

O que o médico disse
(Raymond Carver)

Ele disse não parece bom
ele disse parece mau na verdade muito mau
ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes
que parasse de contar
eu disse fico contente não gostaria de saber
que há ainda mais do que isso lá
ele disse você é um homem religioso você se ajoelha
em bosques na floresta e pede por ajuda
quando encontra uma cachoeira
a névoa soprando contra seu rosto seus braços
você pára e pede por luz nesses momentos
eu disse não mas pretendo começar a partir de hoje
ele disse eu realmente sinto muito ele disse
gostaria de ter outro tipo de notícia para lhe dar
eu disse Amém e ele disse algo mais
que eu não entendi e sem saber o que mais fazer
e sem querer que ele tivesse de repetir aquilo
e que eu tivesse de digeri-lo por inteiro
apenas olhei para ele
por um minuto e ele olhou de volta foi então
que me ergui num pulo e apertei a mão desse homem
[que acabara de me dar
algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado
talvez eu tenha até agradecido por força do hábito

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