diário alcóolico #32 – noites assim são em julho

Coloco Rocks off dos Stones, acho que essa música tem cara de inverno na cidade, sei lá por que. Escondo os cds do Caetano Veloso antes que algum taradinho tropicalista chegue na festa – Sempre tem algum por aí, afinal.

Um uruguaio que se preze não tem disco de Caetano, falo pro Chuck. Ele ri e acomoda todos em sua casa. Tô bêbado pra burro, todos estamos, Pâmela dá as cartas e jogamos poker – não sei jogar, não sabia nem as regras antes dessa noite, mas acho que sou bom, enganei todo mundo e ganhei uma porrada de vezes. A madrugada segue ao som do Exile on Main Street e eu sigo ganhando de todo mundo. Clarissa coloca uma espécie de coletânea. Quem é esse viado que tá cantando? pergunto. Porra, isso é (não lembro o nome, algum cantor de jazz ou neo-jazz, ou sei lá), ela diz.

Sigo ganhando, sou o rei do poker e nem sabia, há grandes jogadores na mesa, eles se levam a sério de mais, tão a sério que alguns usam óculos escuros, mó viadagem isso, penso com meus botões. Os dois caras de óculos começam a ficar putos coa minha sorte, são grandes jogadores, mas não são páreos para bruno bandido. Saliento que poker não é só sorte. Callate la boca, tu nem sabia jogar essa merda. Pamela ri – ela sempre ri, ela é um absurdo que se esqueceu de existir, seja lá o que isso signifique. O jogo acaba depois de um bocado de tempo e de toda a coletânea chata da Clarissa. Arrasto um bocado de pesos uruguaios pro bolso – sou o rei do poker, acho que já disse isso antes.

Ficamos bebendo vinho tinto seco bagaceiro e escutando Attaque 77. A bebida acaba, dôo alguns pesos que ganhei pra gente comprar mais. Eu não vou lá comprar, tá frio pra burro, diz um dos caras que usava óculos. Todos querem que o Chuck vá – Sou o dono da casa, não vou deixar esse bando de maus elementos aqui. ele fala. Acaba que eu pego os pesos doados, por mim mesmo, e vou até o bar acompanhado por Pamela. Uma boa companhia. Ela me conta sobre o curso de artes em Montevidéu, parece razoavelmente feliz, a felicidade não tem muito a ver com alegria, ainda mais no Uruguai. Me pergunta o que eu vou fazer amanhã. Falta muito tempo pra amanhã, eu poderia dizer. Nada, eu digo. Vamos jogar sinuca no clube, ela fala.

Não sei jogar sinuca.

Assim como não sabe jogar poker? ela pergunta. Na verdade, é diferente, não sei mesmo nada de bilhar. Eu sempre ficava tentando zerar o Street Fighter na máquina de fliperama, que tinha no mesmo lugar, e tomando cerveja, quando todos os outros jogavam sinuca, aí acabei não adquirindo a manha do bilhar, nem o interesse, diga-se de passagem. Nunca tive muito saco pra jogo nenhum, nem pro poker, isso que eu sou o rei do poker (além de ser um ótimo lançador de dardos, diga-se de passagem). Mas falo pra ela que posso ir ao clube (que é um bar) sim. Gosto de ver belas garotas jogando bilhar, eu poderia concluir. Porém me calo. Compramos uma garrafa de Sir Edwards e algumas cervejas. Decidimos beber umas latas de cerveja, escorados na marquise de um prédio antigo, antes de entrar na casa de Chuck de novo.

Tá uma noite linda, Pamela fala. Concordo. Não só a noite, tá tudo legal, ela diz. Julho sempre tem algumas noites assim. Escutamos gritos conhecidos, a porta de Chuck se abre há uma quadra de distância. Ele entra em sua camionete antiga e começa a aquecê-la, corremos até lá. Um dos caras, que usavam óculos, está desmaiado. Vamos todos ao hospital. No caminho, escuto palavras como convulsão e medo. Pamela me diz que ele costuma ter esses ataques. O cara é ferrado, os médicos o estabilizam, estamos todos tão bêbados e nos pedem pra ir pra fora do hospital porque fazemos barulho pelos corredores. Fica só a Clarissa lá dentro. Chuck liga baixinho o som da velha camionete, toca algo que não lembro mais, bebemos as cervejas e a garrafa de whisky tranquilos na calçada até ficar de manhã.

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9 Respostas to “diário alcóolico #32 – noites assim são em julho”

  1. ricardo ara Says:

    yeah!

  2. Lu Says:

    Qnd tu volta pra cá?

  3. Andy Says:

    se tiver pelas bandas do uruguai ainda um camarada aqui de SP tá tocando por aí, um ótimo gaitista, vale a pena!
    one man band blues: http://www.myspace.com/xtremebluesdog

    têm a agenda lá,

    abrazo

    • brunobandido Says:

      putz, ele toca amanhã lá em canelones, é meio longe. se soubesse antes, convocava algum amigo com carro.
      mas vi que ele vai ir segunda-feira num bar lá de porto alegre, talvez eu consiga ver se não for muito caro. curti o som. valeu a dica, brother.
      grande abraço.

  4. Lalo Arias Says:

    Gosto invariavelmente dos seus textos, Bruno. Mas os que você escreve sobre suas viagens são impagáveis.
    Grande abraço, cara.

    • brunobandido Says:

      Valeu, Lalo. Tô juntando alguma grana que sobra dos meus salários pra, no ano que vem, fazer uma viajem sem limite de tempo que atravesse toda a br116 – seja lá de que maneira. A estrada cruza o país inteiro, acaba na cidade onde fui criado aqui no minidinho do sul e começa lá em Fortaleza, pretendo fazer o caminho inverso.
      Grande abraço.

  5. pedro domecq Says:

    o velho buck tem umas passagens semelhantes sobre poker no misto quente

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