diário alcóolico #33 – cinco boludos assistindo boggart e passando frio

A mãe de Chuck, dona Maria, é uma figuraça – típica velha galega cheia de preconceitos tolos, porém, muito engraçados quando saem da sua boca. Ela esperou que Cessi e Pamela saíssem da sala pra vir falar com a gente.

Filho, tem algo de estranho com a Cessi, falou, acho que ela está te traindo. Chuck disse que era bobagem e riu olhando pra mim, que me divertia coa cena. É verdade, você sabe que eu não costumo errar esse tipo de coisas. Por que não acaba com ela, filho? Essas garotas trazem problemas, também pudera, você só anda com chicas mais novas, quantos anos tem a Cessi?

Dezesseis, respondeu, pero es muy rica, mama.

Lembro do personagem do filme Tudo pode dar certo (Woody Allen), defendendo que todo mundo que fala “mamãe” e “papai” deveria ser condenado à cadeira elétrica – O horror! O horror! – No filme, ele também se envolve com uma garota muito mais nova.

Y qual es tu nombre mismo? dona Maria perguntou olhando pra mim e, depois, me questionou sobre como pode um hombre, da idade do Chuck, andar com essas menininhas seis ou oito anos mais novas – Sobre o que parlam? perguntou fiasquenta. Não soube responder, comigo é até meio que ao contrário.

Ele tá com a Pamela, mama. brincou o Chuck.

Hm, o oposto também não é bom, apavorou-se a velha. Tem que encontrar uma mulher uns dois anos mais nova que vocês, assim é que é certo, concluiu.

Chuck abriu a porta e me chamou, entramos na sua camionete. Ele reclamava algumas coisas com expressões que não entendo, dizia que não aguentava mais morar com sua mãe. Na verdade, ele não morava antes. Comprou aquela casa só pra ele, mas em questão de dois meses, seu pai morreu e a dona Maria se mudou pra lá. Grande piada do destino, Chuck praguejou.

Compramos umas latas de cerveja e fomos pruma sessão de cinema, que só passa filmes antigos. Tive que esconder a lata no bolso do casaco pra conseguir entrar – é um daqueles cinemas de calçada que mais parecem grandes teatros e, hoje em dia, tá em péssimo estado de conservação.

Abri um pequeno sorriso no rosto ao descobrir que o filme ia ser O prisioneiro do passado. A la pucha, el viejo DeForest! comemorou Chuck – é o nome do meio de Humprey Boggart. Assistimos e depois deixamos o carro por ali mesmo e fomos caminhando até o bar, eram algumas quadras e assopramos fumaça e esfregamos as mãos. A cidade tava vazia, mesmo no grande cinema com centenas de lugares, umas cinco pessoas, apenas, assistiam o filme, todos homens por sinal, todos solitários, inclusive os que tinham a companhia de algum amigo. Oh, mulheres, onde estão vocês? Cês ainda deviam se amarrar no Boggart, nenas, juro que deviam.
Nenhuma alma na rua, solamente las muertas, por supuesto.
No bar, até que havia alguma presença. Pamela y Cessi y Clarissa jogavam bilhar. Chuck entrou para fazer dupla com Clarissa, que até então disputava sozinha. Sentei no balcão e pedi uma dose e assisti os muchachos jogarem, pensei em colocar alguma música na jukebox, mas preferi esperar. O forno à lenha que preparava algumas pizzas aquecia o ambiente e o whisky desceu bem pela minha garganta. Naquela hora, bateu uma vontade tremenda de viver por ali.

Pamela e Cessi perderam. Clarissa foi embora e Chuck ficou esperando pra ver quem jogaria com ele. Não me manifestei. Pamela desistiu e veio me cumprimentar e Chuck e Cessi seguiram na mesa. Cessi é uma bela pequena de dezesseis anos, uma garota durona de cabelo preto ensebado e camiseta do Velvet Undergound. Chuck tá caído na dela, que faz o que quer com ele. Pamela, sua prima de 25 anos, disse que ele fica assim com casi todas las chicas que carrega em sua picape. Sua faixa etária de garotas é essa, 16-19 e não mais – nada que chegue perto dos seus vinte e sete. Pareceu ser um cara tranquilo durante esses dias em que passei por lá. A imagem dele jogando sinuca com a sua garota era um bocado bacana. Gosto de ver amigos em bons momentos com suas namoradas.

Eu falava com Pamela sobre alguma frase específica do Gutiérrez (no me acuerdo) e ela seguia me contando diversas coisas que envolviam filmes de guerra, quadros do Basquiat e Bruce Springsteen. O sobrenome dela é Zimmerman, aí eu perguntei se ela era parente do Bob Dylan – que merda de pergunta foi essa? Ainda tive de explicar a razão por ter questionado aquilo. Ela riu, não porque a razão é  engraçada, é porque ela simplesmente gosta de rir, talvez porque fique bonita dando aquele sorriso, no lo se. Aquela altura, ambos sabíamos que não precisávamos ficar dizendo muita coisa um pro outro, tava tudo silenciosamente encaminhado. Mesmo assim, usei a palavra ‘desculpa’ em algum momento. Sei que muitas garotas, que falam espanhol, tem uma espécie de apreço por essa palavra. Vai entender. Chuck parou com o jogo e veio, junto de Cessi, em nossa direção. Vamos nos despedir dele com algum estilo que seja, falou e pediu uma garrafa de Red Label.

Quando acordei, no outro dia, observei tudo por alguns minutos e depois caminhei pelo quarto tentando silêncio e abri e fechei a porta com cautela furtiva. Chuck já tinha ido trabalhar. Pensei em deixar um bilhete, mas ia ser só alguma bobagem qualquer e, então, desisti. Dei adeus à dona Maria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: