notas do cu do mundo (belchior e bruno bandido)

Um amigo de um amigo, muito do chato, me fez um bocado de perguntas literárias em uma madrugada dessas. Até respondi as primeiras, mas depois enchi o saco – eu tava numa mesa de bar, porra. Ele falou que tinha lido o meu blog e que parecia que eu escrevia meus textos “tudo na hora, sem nem ler eles de novo”. Tu acertou em cheio, eu disse, é exatamente isso o que eu faço na grande maioria dos posts, e bêbado, ainda por cima. “Mas não dá pra falar que isso é ser escritor”, retrucou. Não sei por que eu ainda aguentava aquele cara sem mandar ele a merda  – porra, os meus outros amigos tavam falando sobre mulheres gostosas e qualquer bagaceirice costumaz.

Eu não disse que sou escritor, duvido que tu tenha me ouvido dizer isso, cara. Até escrevo algumas coisas com pretensões literárias, na verdade, mas não são que nem meus posts de blog, eu leio e reviso depois, respondi. “Sei”, ele disse, “li um conto teu esses dias, só a primeira frase tem a palavra ‘punheta’ e uso de termos em inglês. Duas coisas que detesto, baixo calão e desvalorização da língua portuguesa”. Aí sim, parei de falar com o mala.

O texto que ele deve ter lido, se não me engano, foi o Guia Subterrâneo de Relações Arrasadas. A primeira frase, de que o garoto tanto reclamou, é:

“Sem ela é foda, fico punheta forever, cheese salada e almoço doritos, oito doses abaixo, finais de sarjeta – grandes paixões de uma noite só.”

Tudo bem, não é lá nenhuma grande frase da literatura mundial. São só umas imagens jogadas, mas eu tenho um apreço especial por esse conto e os argumentos do cara quase me fizeram vomitar na sua camiseta do The Smiths (mas, se os argumentos não fizeram, meu porre de vinho com cerveja faria, umas horas depois). Como já diria meu amigo Careca. “Putinho, isso que ele é.”

Desconsiderando esse fato. Aconteceram duas coisas engraçadas, aqui, na minha curta estadia pela cidade natal.

A primeira foi bizarra. Eu tava com alguns amigos bêbados às três da tarde caminhando pelo centro, quando olho pro lado e vejo o Belchior. Juro, era a porra do Belchior, em carne e osso. Falei pra gurizada “cara, olha lá, aquele cara não é igual ao Belchior, ele é a porra do Belchior!”  Antes que eu pensasse que fosse efeito das quantias absurdas de whisky que tenho tomado, um dos meus amigos, que ainda mora aqui, falou coa maior naturalidade: “ah, grande coisa. Ele vem pro lado brasileiro uma vez por mês pra ir no Banco do Brasil tirar um dinheiro. Esses dias ele tava tomando um café ali na confeitaria.”

Por isso que ninguém achava ele, afinal. Encontro o cara aqui nesse cu de mundo. Aliás, escolher o Uruguai pra ficar sozinho e tranquilo é uma bela escolha. Meu projeto de vida e morar em alguma cidadezinha de lá um dia. Mas eu nem acredito muito em projetos.

A outra situação, meio que cômica, foi quando minha vó me ligou há umas semanas atrás. Minha vó me ligar já é estranho, tudo bem, mas ela tinha os seus motivos.

Alô, quem fala?
É o Bruno.
Não o Bruno Bandido né?
O que? Vó?
Não é o Bruno Bandido né? – minha alcunha chegou até na minha vó, pensei. Coisa maluca.
É sim. – eu falei.
Que horror, hein! – porra, só o que faltava era a minha vózinha, que mal vejo, ficar puta por isso.
Como assim, vó?
Que horror isso aí.
O que?
Como assim ‘o que?’ Tu não viu o caso desse goleiro que matou a mulher?

Ah, então era isso, entendi. É um filho da puta esse Bruno. Só podia ser flamenguista, o bosta.  Fudeu coa minha alcunha. O que eu vou ter que fazer agora? É difícil bater um bandido que tortura e mata a mulher e ainda deixa os restos pro cachorro. Aliás, não é o meu tipo de serviço. A mim, basta vomitar em caras com camisetas de bandas vegetarianas e assexuadas. Se quisesse batê-lo, talvez eu cometesse um atentado contra o Belchior – depois que o Fantástico explorou a solidão do cara, os brasileiros até fingiram se importar com ele, afinal. Mas já devem ter esquecido. Assim como tão esquecendo os Nardone, e vão esquecer o Bruno daqui uns anos. Aguardo por isso.
Aliás, deve ser muito bacana ter dois comparsas de nome Macarrão e Coxinha.

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13 Respostas to “notas do cu do mundo (belchior e bruno bandido)”

  1. tavinho paes Says:

    …tenho lido seus textos, indicado pelo Mirisola, que não é gente do tipo que joga confete em ninguém. Aliás, não jogou nenhum em vc, apenas indicou sua blog como algo de texto firme e intressante. tenho lido. muito interessante e bem firme. só conheço um no mesmo ponto: Felipe Leprevost, de Curitiba. É só isso: me interessei pelo teu texto. continue afiando a pena.

    • brunobandido Says:

      bacana saber que um puta poeta, como você, e uma puta escritor, como o Mirisola, leram essa bagaça.
      não conheço o Leprevost, vou procurar
      e continuar afiando a pena, é claro.
      gracias. grande abraço.

  2. lili Says:

    boa a história da sua vó. rachei rindo aqui.

    eu gosto dos textos que você escreve. e escritor é quem escreve, eu acho, independente da metodologia…

    e eu gosto mais dessas suas histórinhas do que dos contos… pelo menos os que eu já vi aqui. nada contra os contos, mas é que as histórinhas são ótemas! e gosto das poesias tb.

    abraço.

    • brunobandido Says:

      valeu lili.
      os contos que coloco aqui de vez em quando são coisas antigas, que nem lembrava que eu tinha escrito e de repente encontro. nada que eu fosse publicar em algum lugar ou coisa do tipo. mas tenho uma pá de textos que tô pensando em publicar de alguma forma, foda é grana pra isso.
      um beijo.

  3. Mel Says:

    O Guia subterrâne… foi o que saiu na fanzine dos guris aqui n´?
    É muito bom…. Beijo.

  4. fly Says:

    Citado pelo Mirosola? Mazá guri!

    • brunobandido Says:

      pois é. esses dias um marcelo mirisola comentou algum post daqui. eu pensei que fosse um fake tirando onda. agora com esse do paes, até deve de ser verdade.
      grande abraço

  5. fly Says:

    Mirisola*

  6. eve Says:

    cara, gosto de você. me amarrei no lance de você trocar a grana do teu rango pelas fraldas descartáveis do bebê que tava na merda. tua avó te ama, mano. eu também. continua.

    • brunobandido Says:

      gracias, eve. na verdade, sobre o post das fraldas, eu tive uma escolha, ou comprava o rango e as fraldas, ou comprava o conhaque e as fraldas. decidi pelo conhaque, então não dá pra dizer que sou nenhum santo que passou fome por bebê alheio – muito pelo contrário – sou um idiota que comprei Dreher ao invés de bife.
      minha vó me ama mesmo, talvez seja a única no mundo, isso porque ela me vê uma vez por ano, caso contrário, não sei não. sobre o seu “eu também”, se você me ama, fico grato, e espero que seja mulher. eve é nome de mulher né?
      um beijo (se for mulher)

  7. Adriana Godoy Says:

    Ei, Bruno Bandidaço, entendo sua vó, tadinha…seu texto hoje tá bom demais, dá uma lavada na alma, depois desse vômito todo. Esses caras são um porre mesmo, hein? Sempre bom te ler. Beijo.

  8. Ernane C. Says:

    Também vim pós Mirisola. Vou ficar assíduo.

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