canções pra quem não joga a toalha – sabina, solidão e soldadinhos de chumbo multilados (pra quem sabe o que é ter 14 anos e estar morto)

Sempre digo que o maior letrista vivo, na minha opinião, é o Joaquín Sabina – o cara é algo como um Bob Dylan español que jamais se deixou levar por ideologia nenhuma (religiosa ou política), que não o romantismo suicida regado a doses de whisky:

(…Yo no quiero saber por qué lo hiciste;
yo no quiero contigo ni sin ti;
lo que yo quiero, muchacha de ojos tristes,
es que mueras por mí.

Y morirme contigo si te matas
y matarme contigo si te mueres
porque el amor cuando no muere mata
porque amores que matan nunca mueren.”

; um Chico Buarque imaturo (que não nasceu velho), que tromou uns tragos com Keith Richards e que conhece muy bien el roquenrol (não róquênról, viu Chico?). Aliás, o cara é um grande mestre pra grandes roqueiros argentinos. Poeta de versos exaltados por sua rouquidão de quem não sabe cantar.

Suas músicas tem o dom de emocionar gorilas, blues ou tangos direcionados aos “filhos da necessidade” – de roer o coração das mulheres mais tristes e lindas e de caras como ele mesmo, um “Impúdico animal sin pedigrí/ adicto al elixir/ del corazón de la botellas”, que enchem a cara e não jogam a toalha, “benditos malditos”, ou qualquer coisa assim.

Além de escutar todos os seus discos (e são uns quantos), já li duas biografias do cara, as duas feita pelo mesmo autor. Uma delas é uma ordem cronológica de sua vida (PERDONEN LA TRISTEZA , um puta nome, não?) e a outra, e mais bacana, é Yo también sé jugarme la boca – EN CARNE VIVA. Essa é um pouco mais inspirada em conversas e pensamentos e histórias dele e como isso influencia o seu trabalho. Tem algumas coisas que tão lá pra fazer graça, e fazem, como quando ele contou sobre a separação com uma de suas mulheres. Disse ter pego ela sendo comida por outro cara, o biógrafo concluiu algo como “Foi aí que começou o processo de divórcio”. E ele disse “Sim, mas primeiro tirei a roupa, pulei na cama e fui comer ela também”. Não foram bem coessas palavras, faz anos que eu li, mas a história é essa.

Hoje eu tava escutando o cd Enemigos Intimos, que ele fez com o Fito Paez. Na verdade, eles quebraram o pau nos estúdios. Parece que o Fito tinha acabado tudo o que tinha pra fazer em duas semanas e ficou só esperando o Sabina e, então, começou a porradaria e as discussões e os ataques em rede pública. Mesmo assim, no último dvd do Fito Paez (gravado em Madri), o Sabina sobe no palco e emenda duas canções e entra e sai ovacionado por todos, inclusive, por Fito – percebe-se facilmente a admiração dele por Joaquín. Passam por cima de qualquer desentendimento idiota, a velha poesia de amigos que se dão porrada e acabam a noite abraçados se lambuzando em  destilados e juras de amor fraterno. Sabina explica os motivos cantando:

“no somos mas que dos canallas,
que no tiramos la toalla
si nos pasamos de la raya
nos echan a trompadas cada noche
los gorilas de algún bar”

Gosto de cenários que eles constroem nesse disco. Como o assassino indo embora do cinema, antes de acabar a sessão, porque O Poderoso Chefão II lhe deixou decepcionado. Ou quando “Ontem, Julieta denunciava Romeo por maus tratos no juízado” (os dois em Llueve sobre el mollado). Também na personagem da música Cecilia:


Cecilia dice siempre lo que piensa
y casi nunca piensa como yo
(…)
Cecilia sabe tanto de mi vida
porque ha vivido tanto como yo,
cada sábado bronca y despedida,
cada domingo reconciliación.
Me gusta hablar con ella sin hablar…
(…)
Cecilia busca amores imposibles,
por eso fue posible nuestro amor
(…)”

E ainda na triste balada Más guapa que cualquiera, a mais bonita do disco –

“Se llamaba Soledad y estaba sola
como un puerto maltratado por las olas,
coleccionaba mariposas tristes,
direcciones de calles que no existen.
(…)
De Esperanza no tenía más que el nombre
la que no esperaba nada de los hombres,
coleccionaba amores desgraciados,
soldaditos de plomo mutilados.

Pero quiso una noche comprobar
para qué sirve un corazón
y prendió un cigarrillo y otro más
como toda esperanza se esfumó. (…)”

E agora deixo o posto com uma outra canção bacana do Enemigos Intimos – Delirium Tremens. Pra quem sabe o que é ter 14 anos e estar morto.

E, por último, Más guapa que cualquiera:

http://www.youtube.com/watch?v=uGob-7CPuOA

no somos mas que dos canallas,
que no tiramos la toalla
si nos pasamos de la raya
nos echan a trompadas cada noche
los gorilas de algún bar
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2 Respostas to “canções pra quem não joga a toalha – sabina, solidão e soldadinhos de chumbo multilados (pra quem sabe o que é ter 14 anos e estar morto)”

  1. Mário Bortolotto Says:

    Porra, eu tenho esse disco do Fito com o Sabina. Várias músicas estão no meu MP3. É bom pra caralho. Fiquei curioso pra ouvir os outros e ler a biografia do cara.

    • brunobandido Says:

      É bom mesmo, acho em questão de músicas, um dos melhores do Sabina. Mas ele tem umas putas letras em outros trabalhos. Vou te mandar algumas paradas, mesmo.

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