20 anos de nada – um post autobiográfico, sem nenhum compromisso com a verdade e, tampouco, com a mentira

Em 2005 era ruim chegar em casa. Minha mãe me perseguia pelas peças procurando resquícios de alguma chapação – lembro que, uma vez, eu tava com conjuntivite e ela viu meus olhos vermelhos e pensou que eu tinha voltado a me ‘emboletar’ – fez um grande escândalo, ameaçou amarrar-me na cama, depois, tentou abordagens mais carinhosas, como quem lê revistas com matérias psicológicas sobre o assunto. Filho, eu sou tua amiga, se tu me contar a verdade, a gente vai achar a melhor solução possível. Ah, a classe média.

Tá bem mãe, eu voltei a usar drogas, não consigo me livrar desse vício maldito, eu juro que tento, mãe, eu juro que não quero decepcionar-te, mãe querida, mas, de noite, um imenso vazio toma conta de mim e ouço vozes. Eu não gosto delas, mãe, elas não são minhas amigas.

No outro dia, eu tava a caminho da Argentina onde me internaria numa clínica de vanguarda chamada Cuarto Blanco. Prefiro não comentar os métodos dessa clínica – mas eles machucavam nossa cabeça e nossos membros. Lembro que passei minha conjuntivite para um enfermeira gatinha que, a bem da verdade, era uma traficante (também de vanguarda).

Como eu não tava viciado mesmo, virei o rei daquele hospício, eu pensava claramente enquanto todos os outros estavam travados de abstinência ou da heroína, vendida pela enfermeira gatinha traficante (de vanguarda). Ficava no melhor assento da sessão de cinema e comia uns quatro ou cinco sorvetes por dia, enquanto os outros só comiam um e alguns (quatro ou cinco internados) não comiam nenhum.

Em algum lugar de Baires. Eu tô no meio, Jelli The Boss Man é o primeiro à direita.

Acabei fugindo da clínica com um espanhol chamado Jelli The Bossman. Ele era negro e o melhor skatista long board que já conheci, embora, diga-se de passagem, não tenho encontrado muitos skatistas long board por aí. Vivi por um tempo em Buenos Aires. Deixei mullets nos meus cabelos e formei minha primeira banda de rock’n roll chamada Bruno Bandido y los Nada. De noite, tocávamos em festas universitárias regadas a drogas e Quilmes. Durante o dia eu roubava livros nos sebos da Calle Florida. Namorava a baterista da minha banda. Meu sogro, Lauro Boludo, era traficante e gigolô. Me ensinou muitas coisas sobre ganhar dinheiro. Uma noite, chegou em casa pra jantar conosco e disse “Puta madre, vendi drogas pro Charly Hijo del Puta Garcia. Dei a demo da banda de vocês pra ele.” Foi um jantar feliz aquele. O último, por sinal, logo mais, nossos problemas com o pó desaguariam no fim banda e uma perna quebrada. Voltei ao Uruguai em um dos piores momentos da minha vida até hoje – eu tava sempre em crises de abstinência, uns vinte quilos mais gordo, inchado de álcool, drogas lícitas e miojo com salsicha – sem dinheiro nenhum, e só atendia as pessoas se elas me chamassem de Maradona. Resolvi botar em prática algumas coisas que Lauro Boludo tinha me ensinado. Não quis mexer com drogas, por motivos óbvios, então, me foquei no trabalho sexual. Procurei putas pra gerenciar, mas não consegui nada. Acabei fechando negócio com Viega Alvarez, um espanhol de cabelos compridos, e T-bonner, alemão que tinha como público alvo, a terceira idade – todas as velhas adoravam seus talentos coa língua.

show em ambiente universitário de Bruno Bandido y Los Nada. eu sempre fui um ótimo baixista e péssimo guitarrista, pena que ninguém dá bola para os baixistas e não encontrei fotos que registrassem algum momento do tipo.

eu era o Brian Wilson quando criança.

Fui uma criança quase normal, de classe baixa por algum tempo e, razoavelmente, endinheirada depois. Digo quase normal, porque desde lá passei muito tempo sozinho, acompanhado apenas por mim mesmo. Os adultos têm medo de ver criançaa sozinhas – crianças pensando –  portanto, o televisor foi uma ótima ferramenta da minha solidão. Eu o ligava qualquer canal e me sentava no sofá, ficava a tarde ali, sentado sozinho enquanto meus pais trabalhavam. Se me perguntassem o programa que tava passando, não saberia informar. De noite, quando os velhos chegavam, eu ficava um pouco com eles e depois me trancava no quarto pra brincar de Forte Apache e criar tremendas batalhas entre índios arrancadores de escalpos brancos e soldados liderados por algum general racista e conquistador. Até hoje, se perguntarem aos meus corôas como foi minha infância, dirão que gastei ela inteira de fronte à televisão. Bobagem.

Meu pai, um eterno trabalhador, escravo dele mesmo, montou seu negócio e trabalhou de domingo a domingo das seis da manhã até as onze da noite pra nos dar uma vida classe-média. Acontece que eu não me identificava coaquilo. A grande sociedade do município de interior onde morávamos era pautada em sobrenomes. Nós não tínhamos um, ou melhor, tínhamos, mas não era um sobrenome de peso – meus pais nasceram pobres e, meu velho, até hoje, come coa de boca aberta, assim como eu e meu irmão (minha mãe nos repreende, mas quase nunca adianta muito). Admiro um bocado os meus pais, diga-se de passagem.

Lá naquela sociedade ridícula, a pessoa não precisa ter dinheiro e sim um sobrenome de peso e nariz empinado, não importa se os cobradores passem o dia batendo em suas portas, elas têm o carro do ano e viajam nas  férias de verão pra Punta del Este e, em julho, vão à Bariloche – lugar argentino medíocre que riquinhos sudacos sonham ser Aspen. Sempre tem um ponto negro em lugares magníficos por natureza e história existencialista. Um lugar onde burgueses granfinos transformam em parque de diversões com forte mercado imobiliário e turístisco para os seus próprios umbigos. Bariloche é isso na Argentina,  Punta Del Este é isso no Uruguai e Gramado é isso aqui no Rio Grande do Sul, cada um com suas devidas proporções, é claro. Mesmo que minha família não estivesse na categoria, todo esse meio era muito presente, eu não tinha pra onde ir e tava velho demais pra brincar de Forte Apache. Por isso me rebelei. Sei que meus pais jamais mereceram o filho que tiveram, mas não posso fazer muita coisa em relação a isso, a não ser amá-los e tentar, sempre, me distanciar deles, pra que as coisas não piorem um bocado.

Viega Alvarez, t-bonner e eu (num tempo em que só deixava me chamarem de Maradona)

Acontece que T-Boner e Viega também se rebelariam uns anos depois. E contra mim! Decidiram desprezar meus serviços de cafetão. Um cafetão com dezesseis anos é inadmissível dizia T-boner. Se não fosse por mim tu taria dando o cu de graça até hoje, eu contra argumentava, mas Viega tentou me acertar uma facada no estômago e, apartir dali, cortamos relações. Além das relações com Alvarez e T-Boner, cortei minha cabeleira horrível, me livrei do pó, esqueci a história do Maradona e, agora, deixava que me chamasse de Bandido, Bruno Bandido, e passei a gerenciar uma bicha velha dona de um boquete que conquistou os chefes de família hig-society (de sobrenomes de peso). Bold Joy, era o seu nome de guerra, e me deu dinheiro o bastante pra conseguir ir trabalhar em Montevideo. Lá foi o auge da minha carreira de jovem cafetão, fechei contrato com Texas Alexander, um viado de roupas e trejeitos escandalosos, que

sem mullets, com Bold Joy à direita.

tinha como sonho atuar em filmes pornográficos. Acontece que, pra sorte minha e de Texas Alexander, eu bebia com um cara que era câmeraman de filmes eróticos, o Ziño. Conhecia ele há muito tempo, desde a sua internação no Cuarto Blanco – o cara era um viciado em anfetaminas que, assim como eu, recuperado dos problemas com drogas, tentava a vida na capital uruguaia.
Consegui um teste pro Texas, através de Ziño. Ele passou e ganhei uma bolada de 50 mil pesos castelhanos, o equivalente a 5 mil reais, na época. Texas, apesar de ser uma bicha louca, jamais havia dado a bunda e tinha uma esposa – o que, vamos convir, é um tremenda viadagem – ser viado e não dar a bunda, donde já se viu! Clarilda, sua mulher, era brasileira e concordava coa minha toeria. Presenciei, em certa feita, um hilário momento de discussão entre o casal: “Cala a boca, seu gay. Cê é tão gay que não dá o cu. Nunca vi uma coisa dessas. Acredita, Bandido? Não dá o cu e me come, ainda por cima!”

Vocês, leitores, podem pensar que ele não era viado, mas acreditem, ele era (basta olhar na foto abaixo). O engraçado é que nos seus filmes pornôs, todos de teor heterossexual, Texas era um verdadeiro caubói texano. Muito do macho e durão. Um dos melhores atores que já vi por aí. Tudo bem, nada impossível, sendo que o Reynaldo Gianechinni também faz papel de macho em algumas novelas. Mas no mundo pornô é outro negócio e Texas tem a cara mais malvada do mundo quando come um cu de mulher.

Com Texas Alexander (mais viado que nunca) e sua esposa Clarilda, (ambos à minha direita) no set de filmagem de Los Romepedores Del Cullo

Um ano depois, quando eu não trabalhava mais nessa área e já cursava faculdade no Brasil, fiquei sabendo que Texas Alexander tentou estrelar um filme de teor gay. Pomo de Adão, era o nome. De acordo com um e-mail que recebi de Clarilda, a coisa não deu muito certo: “Bandido, vc precisava ver. Ele tinha que chupar a piça do cara e não conseguia de jeito nenhum. fazia cara de nojo só de encostar o lábio nos bagos do ator. O Michelline (diretor) correu com ele do set. Como é que pode, Bandido? Aquela bicha loca me chupa todos os dias!” Escreveu minha amiga Clarilda.

Pois bem, depois de garantir a presença de Texas Alexander em toda a franquia do filme “Los rompedores del cullo“, voltei para a casa dos meus pais, totalmente livre de drogas ilícitas. Passei três meses com eles, assistindo jogos do Colorado e bebendo com amigos de infância e, então, decidi vir pra Porto Alegre cursar faculdade. Como gostava de escrever, pensei em jornalismo – o que é uma tremenda babaquice – não caiam nessa, garotos que gostam de escrever!

Li em um livro do Marcelo Mirisola, não lembro qual, onde o personagem cursava faculdade de direito, mas queria mesmo era ser garçom. Já senti o mesmo. Às vezes, me pego aqui, escrevendo artigos babacas ou trabalhando no setor de comunicação e rádio-escuta do Estado do Rio Grande do Sul, e penso que tudo o que eu queria era estar em algum lugar do interior castelhano, atrás de um balcão, fritando batatas e vendendo cerveja. Teria uma esposa castelhana, que trabalharia como enfermeira ou professora ou qualquer coisa assim e teria calos nos pés e tomaria Pomelo com Gin e comeria chivitos e escreveria grandes romances vagabundos. Teríamos filhos e eu os levaria em todos os jogos de domingo do Peñarol.

Como isso não vai acontecer, tenho corrido pra acabar logo essa minha temporada no inferno. E tenho juntado o dinheiro que o Estado me paga pra ficar em um prédio do centro, preso durante seis horas numa sala com ar condicionado encanado, jogando emulador de Nes naquele computador horroroso que é fornecido pros funcionários. Depois que acabar essa bagaça, como não tenho mesmo onde ir, viajarei pra qualquer lugar, atravessarei a BR116 que acaba onde nasci, na fronteira com o Uruguai e começa em Fortaleza Ceará. Farei o caminho contrário, não sei em quanto tempo, sete meses ou oito anos, tanto faz – de cidade em cidade até não aguentar mais, as principais capitais do país, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife,  a beirada de Minas Gerais e centenas de cidades malucas de interior do país inteiro – botecos infalíveis, puteiros tristes, ladrões vagabundos, brigas de bar, mais algumas gonorréias e coisas assim. O tempo todo escrevendo minhas bobagens e pedindo carona e dormindo dentro de alguns ônibus que apenas seguem e seguem e seguem – talvez eu tente alguns bicos de garçom durante os veraneios no litoral.

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27 Respostas to “20 anos de nada – um post autobiográfico, sem nenhum compromisso com a verdade e, tampouco, com a mentira”

  1. Murilo Says:

    mto bom o post. Mas, so pra ser chato, Pernambuco é um estado, cuja capital é Recife.

    • bb Says:

      tu tem razão, escrevi na correria e deixei passar. depois dizem que essas coisas destroem nossos neurônios e nao acredito.

  2. Jana Says:

    Hit the road, Jack.

  3. Anônimo Says:

    Grande Bandido:

    Dei boas gargalhadas, Brian wilson quando criança é foda… abraço.

  4. diego moraes Says:

    Grande Bandido:

    Dei boas gargalhadas, brian wilson quando criança é foda e a fotografia com o fundo da Brahma parece póstuma. abração, vou ler pornopopéia: 45 paus. desgustarei com calma. quase uma página por dia. valeu.

    • brunobandido Says:

      Póstuma, com certeza.

      E como já te disse, pornopopéia é fudidaço. Duvido que tu consiga ler só uma página por dia, e, se conseguires, vais ler uma grande sacada por dia.
      Grande abraço.

  5. Pedro Pellegrino Says:

    haha, belo post, e chupa bicharada! hahahaha, parabéns colorado!! Abbraccio.

  6. pedro domecq Says:

    Alo bandido!
    Ja morei em Fortaleza e na saída da cidade tem uma placa transversal sobre a BR 116: JAGUARÃO 4400 KM. Ja comprei uns Jim Bean la em Rio Branco. A BR 116 corta e expõe todos os constrates do Basil. Quando passar pela beirada de Minas Gerais, ta convidado pra tomar uns chumbos por aqui. Salutos Colorados!!!!!!!!!

    • brunobandido Says:

      Jaguarão 4400 Km é muito bom, né bicho?
      Isso é maior que a Rota 66 americana.
      Porra, já tivesse em Rio Branco… O Jim Bean é barato naqueles free shop mesmo, mas o bom mesmo da cidade tá nas ruas por de trás daquela onda toda.

      Grande abraço

  7. Adriana Godoy Says:

    PQP! Um tremendo texto…Kerouac bateria palmas. Porra! Demais. Adorei, Bandido Maradona. Beijo

  8. Cidah Duarte Says:

    To Passada , Bandido! se esse post tivesse 100 págs, eu leria sem parar e sem sentir… sabe que por inlfuência tua eu to pensando em ir a Argentina e ao Uruguai final do ano? rs… parabéns!
    Beijo!

  9. Pedro Pellegrino Says:

    Pode crê, puta injustiça, e o Tinga estava jogando muito! Bruno, você parece uma mistura de Peter Doherty com Sam Riley, o ator que fez o Ian Curtis no filme “Control”.

    • bb Says:

      um monte gente diz q sou parecido coesse tal de Pete. e muitos outros dizem que com o Keane. tanto faz…
      sabia que esse ator do Control vai interpretar o Kerouac no on the road? Nada a ver. Enfim, esse filme vai ser uma bosta mesmo…

  10. diego moraes Says:

    Bruno:

    Também lembra o Orson wells.

  11. Gabriel Daher Says:

    Fazia um tempo que não comentava aqui, apesar de estar sempre lendo, mas esse não tinha como deixar passar. Puta texto cara, genial! A parte sobre vender cerveja e comer chivitos, ver jogos do Penãrol e escrever romances vagabundos no Uuruguai é tudo o que eu senti e tudo que eu sempre quis fazer quando meti os pés sozinho em Montevideo e enchi a cara de Patrícia numas esquinas estranhas conversando com uns malucos sobre cocaína barata e Ramones. E em relação a viajar pelo Brasil, se quiser vir pra Londrina tá mais do que convidado cara. Pode ter certeza que vai ser muito bem recebido e vai ter um pico pra ficar.
    Grande abraço!

    • brunobandido Says:

      O uruguai nos faz pensar nessas coisas, Gabriel Daher.
      Londrina não tá na br116, mas seria panaquice da minha parte se não me permetisse a certos desvios.
      Abração.

  12. Anônimo Says:

    com planos como esses fica mais fácil enfrentar o inferno. abraço brother.

  13. kleber felix Says:

    Me fez lembrar de “A balada do perdoder” do Marcelo Nova “Parado em frente a porta do paraíso, mas sem vontade de entrar”com planos como esse fica mais fácil atravessar o inferno. abraço brother.

    • brunobandido Says:

      E aí Kleber, escrevi teu prefácio ontem a lápis enquanto viajava. Vou passar pro computador amanhã, revisar e te mando. Foi mal a demora, tu devia ter me dado um tempo limite. Grande abraço!

  14. Kleber Felix Says:

    Legal Bandido, me manda aí. abraço

  15. Sandro Rocker Says:

    Puta texto, Bandido!!! E cara, o lance é esse, a estrada…pra onde vai levar? Sei lá…o barato é cair nela!Abraços!!!

  16. Fabiana Says:

    Muitas verdades ditas de maneira não ofensiva, através de incursões honesta na mentira. Bruno Bandido, tu escreves muito bem. Li como se estivesse tomando sorvete com calda quente. Grata!

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