Sobre os acidentes do cruzamento na esquina

Na esquina da quadra onde moro, tem um cruzamento em que as pessoas costumam se acidentar com seus carros. Geralmente são batidas e estrondos não muito enormes, mas que causam barulhos e confusão – ninguém costuma sair morto nem nada do tipo. Eu vou até a janela e fico olhando lá embaixo. Um dia desses foi um táxi que entrou com tudo na quina de uma casa, não sei como aconteceu – sempre tendo a pensar que a pessoa tava bêbada nessas batidas de um carro só. Outro dia, ouvi o apito da freada e o breque. Quando fui à janela, havia dois carros amassados, um pela lateral e outro na parte da frente, não faço a mínima ideia sobre a marca daqueles automóveis, não entendo dessas coisas (sei que não eram fucas, e só), apenas uma mulher em cada carro.

O que houve? ela me perguntou.

Mais alguma batida idiota, eu disse.

Como foi?

Sei lá. eu nunca sei como foi, só vi quando já tinha acontecido, afinal – e não sou do tipo que assiste essas coisas pela fofoca, como bolo de porteiros e donas de casa que se juntam ao redor dos estragos, também não entendo nada de física automobilística pra detalhar o acidente com base na posição e no estrago dos autos.  Assisto daqui do oitavo andar e os meus olhos deixam de me dar informações conforme me perco em outros pensamentos quaisquer. O que eu podia dizer era que um bateu de frente na lateral do outro. E que eram duas mulheres, uma em cada volante, sem passageiros. Uma das mulheres saiu do seu carro antes que eu começasse a observar, era meio velha e não tirava as mãos da cabeça – o que me fez pensar que a outra (até então não sabia o seu sexo) havia se machucado, pois seguira dentro do veículo. Porém, depois de uns minutos, saiu normal e conversou qualquer coisa com as pessoas. Falei uma versão resumida disso tudo a ela.

Ham, só podia ser com duas mulheres, ela falou. Achei engraçado ter sido ela quem falou isso. Eu segui na janela e ela seguiu deitada lendo qualquer livro meu que tava por cima da cama – acho que era o Holliwood do Bukowski, porque ele podia mesmo tá ali por cima e, principalmente, porque ela falou Bacana, essa mulher do Chinaski.

(Eu prefiro não acreditar na Sarah (a mulher do Chinaski). Tudo bem que é legal pensar que há mulheres que nem ela por aí, ou que se você for um escritor genial e se foder por anos a fio e perder o grande amor da sua vida, pois ele foi morto por causa da bebida – lá na sua velhice, quem sabe, você receba dos céus, ou sei lá de onde, uma esposa assim. Como disse, prefiro acreditar que não. Sou um bocado cético nessas coisas. Como escrevi, faz pouco, no prefácio de um livro do Kleber Felix, sou só um vagabundo de vinte anos que nem acredito nessa coisa de felicidade e que não me convenço de que ejaculação e amor caibam na mesma trepada. Prefiro me manter desse jeito – algo saudável eu tenho que manter nessa vida, no final das contas. Portanto, não me dou ao luxo de muitas esperanças. Aliás, como escrevi no mesmo prefácio (…)Ser um fudido é um bocado difícil, ser um fudido com esperança, então, é a mais pura fossa…)

Faz pouco que deu outro acidente na esquina lá embaixo. Eu recebi, pela tarde, um salário a parte por uma atividade extra que fiz no trabalho e, então, comprei duas garrafas de conhaque e um fardo de latas de cerveja, além de salsichas e ketchup pras minhas miojos. O que fiz foi pegar uma lata de cerveja pra assistir os desdobramentos desse acidente – tava quente (a lata, não os desdobramentos), acontece que eu havia chegado em casa e apenas deixei as garrafas e o fardinho no chão, não coloquei a cerveja pra gelar nem nada do tipo. Mas nem esquentei em bebê-la fora do gelo, eu realmente achei que devia tomar uma cerveja, não o conhaque, enquanto assistia o acidente.
Nada sério, como de costume. Dois carros (que não eram fucas), um na horizontal acima do limite permitido, outro na vertical e plaft. Hoje era um garoto no auto preto e uma mulher e sua filha no azul. Depois não sei direito o que se sucedeu, comecei a pensar e parei de prestar atenção. Algo como quando eu tava de férias, no mês passado, e fiquei uns dias na casa dos meus pais. Eles têm uma lareira lá, fazia muito frio, daí eu cortava lenhas e acendia fogo todos os dias. Eu me amarrava naquilo. Não em fazer o fogo nem pegar toda a droga das lenhas, eu curtia, depois, quando a fogueira era alta e eu ficava olhando pra ela e vendo toda a madeira virar brasa e colocando mais tocos pra que isso acontecesse mais uma vez e, de repente, era tão automático que eu não dava a mínima bola pro fogo. Não sei se consigui explicar. Foda-se, eu não queria explicar, só me veio, agora, uma vontade de escrever isso aí.

Parei de pensar quando o vizinho do lado deu um grito, de comemoração, suponho – olhei pra baixo e a polícia já iluminava a fachada do prédio com suas sirenes, a mãe e a filha falavam algo prum guarda, o guri do outro carro tava sentado no capô. Depois, fui me dar conta, que o grito do cara que mora ao lado, talvez, fosse um gol do Neymar ou do Pato na seleção do Mano Menezes, estranho. Não vi o jogo. Na verdade, cago pra seleção brasileira desde 98, quando nas quartas-de-final (acho que foi nas quartas), resolvi torcer para a Dinamarca contra os canarinhos, sem nenhum motivo aparente – eu não precisa de motivos com oito anos de idade. Os dinamarqueses perderam, o que não me abalou em porra nenhuma, pra dizer a verdade.
Parei coa janela e com o acidente, olhei pro colchão e me atirei e acho que dormi por uns vinte ou trinta minutos. Tudo bem que a Sarah não exista, mas, pelo menos, Ela podia tá  por aqui, perguntando sobre a batida ou qualquer merda do tipo, perguntando e perguntando e perguntando  todas as merdas que ela costuma perguntar. Talvez ela dissesse que a culpa da batida foi da mãe que dirigia ao lado da filha e, não, do garoto. Eu abriria um certo sorriso frio. Hoje, não sei se pela cerveja quente, não me importaria em responder.

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Uma resposta to “Sobre os acidentes do cruzamento na esquina”

  1. Lalo Arias Says:

    Legal, Bruno. Mais um texto matador.

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