uma peça de estrada (levada em madrugadas insones) – parte 1

(Caio, cinquenta anos, entra no bar, tira do bolso um par de notas de dois reais amassadas e põe no balcão.)

CAIO – Uma cerveja, por favor.

(O balconista entrega a cerveja. CAIO bebe. PEDRO entra no bar e pára em frente ao balcão.)
PEDRO – Um duplo. Sem gelo.

(Balconista entrega o whisky. PEDRO despeja, em cima do balcão, um monte de moedas de pouco valor. O balconista começa a contá-las.)

PEDRO para caio – Tu não devia beber.

(Caio bebe um gole.)

PEDRO – É sério, tu não tá dirigindo?

CAIO- Eu tô no meio da estrada, não tô?

PEDRO – Eu também… E não tô dirigindo.

CAIO – Por isso cê pediu um caubói e eu fiquei coa cerveja.

PEDRO – Na verdade eu vi tu descendo de um caminhão e…

CAIO interrompe – Cê é do sul. Por que diabos saiu de lá?

PEDRO – Eu não sou de nenhum lugar, cara.

CAIO – O seu jeito de falar me diz que é do sul.

PEDRO – E o teu jeito de falar me diz que é um cara bacana. Dá uma carona?

CAIO – Cê nem sabe pronde eu tô indo.

PEDRO – Desde que não seja pro sul. (toma um gole longo, faz uma careta e bate com o copo no balcão)

CAIO – Tenta ser durão, né?

PEDRO – Eu sou durão.

CAIO – E o que cê faria se alguém roubasse a sua bebida?

PEDRO – Teriam que passar por cima de mim pra roubar minha bebida.

(O balconista pega o copo de Pedro e toma todo o resto do seu whisky. Pedro e Caio olham um para o outro. A luz apaga.
CENA 2
Bad moon rising, do Creedence começa a tocar, luz volta junto com a bateria. Caio dirige e Pedro está no banco do carona com uma lata de cerveja encostada no olho. A música vai baixando o volume para entrar a voz do DJ da rádio.)
DJ SALLINGER – Esta foi mais uma canção para a madrugada e você pode estar confuso, mas deve seguir rumo a qualquer parede./ Escutem, amigos, isso é importante./ Vamos esbarrar nas paredes e rir disso tudo na dor da ressaca./ Eu sou DJ Sallinger direto da rádio BR e o que vai acontecer agora é Paul McCartney and the Wings.//
PEDRO – (desliga o rádio) Mó dor de cabeça.

CAIO rindo – Cê o primeiro cara que eu vejo apanhar de um garçom em todos meus anos de estrada.

PEDRO – Pelo menos tu viu algo novo.

CAIO ainda rindo – Os garçons sempre se ferram, menos com você.

PEDRO – Aquele cara não era um bom garçom.

CAIO – E você é um bom garoto. Bom demais pra isso.

PEDRO – Isso o que?

CAIO – Whisky, brigas, paradouros de beira de estrada…

PEDRO – Tu não me conhece.

CAIO – Eu conhecia aquele garçom e ele era bem ruim de soco.

PEDRO – Eu me levantei, pô! Tô no teu lado, dentro desse caminhão de merda, não tô?

CAIO – Do que cê chamou meu caminhão?

PEDRO – Esquece.

(Pausa)

CAIO – Então, do que cê tá fugindo?

PEDRO – De nada.

CAIO – Pais, futuro, namorada grávida, pecados idiotas. Um garoto como você tá sempre fugindo de alguma coisa.

PEDRO – Eu só tô viajando.

CAIO – Ah é? E Pra onde?

(Pedro abre a lata de cerveja e começa a beber. Ele liga o rádio do caminhão. Toca ‘walk on the wild side’ do Lou Reed. Caio canta um pedaço do refrão. Depois, desliga o rádio)

CAIO – Qual o seu nome?

PEDRO suspira – Pedro.

CAIO – Pedro… Tá na bíblia.

PEDRO – Grande novidade.

CAIO – São Pedro, o guardião das chaves do paraíso!

PEDRO – Tu é mó esquisito.

CAIO – Eu já fui padre, garoto.

PEDRO – No duro?

CAIO – No duro…

PEDRO – Como eu disse, tu é mó esquisito. (dá um gole na cerveja) Por que desistiu?

CAIO – Ah, você sabe.

PEDRO – Pelo jeito não sou eu que tô fugindo de algo.

CAIO – Eu vou até Minas. Quem não disse pra onde vai aqui é você.

PEDRO – Eu tô indo pruma praia, se tu quer saber. Lá na Bahia.

CAIO – Bahia?

PEDRO –  É, numa cidadezinha do litoral, bem longe de Salvador.

CAIO – E o que é que tem nessa praia?

PEDRO – Nada muito diferente do que tem em qualquer praia. Areia, água, gaivotas…

CAIO – Fala sério, garoto.

PEDRO – Meu pai.

CAIO – Ele tá na Bahia?

PEDRO – Ele se amarrava em baleias.

CAIO – Sua mãe é gorda?

PEDRO – Cala a boca… O sonho dele era ver uma baleia.

CAIO – Que tipo de baleia?

PEDRO – Sei lá, acho que qualquer uma.

CAIO – Como assim qualquer uma? Ele devia ter a imagem de uma baleia na cabeça. Tipo a do “free willie” ou a do Moby Dick… Não pode ser qualquer uma. (pausa) Depois eu é que sou esquisito.

PEDRO – É que eu vi no jornal que tem uma baleia encalhada lá no interior da Bahia…

CAIO – Quando cê viu?

PEDRO – Anteontem.

CAIO – Já devem ter tirado de lá.

PEDRO – Cara, eu não sei se tu sabe, mas desencalhar uma baleia não é como desatolar uma vaca ou qualquer merda do tipo.

CAIO – Calma, garoto. Tanta animosidade por causa da droga de uma baleia. Só tô dizendo que a gente tá bem longe do nordeste.

PEDRO – E os nordestinos tão bem longe de conseguir levantar uma baleia.

(pausa)

CAIO – Acho que se for uma baleia tipo a do ‘Free willie” é mais fácil desencalhar do que as outras. (Pedro não fala nada, balança a cabeça e continua com sua cerveja) Sabe, garoto, juro que costumo respeitar o silêncio. Eu gosto dele. É que algo me diz que cê tá metido em encrenca.

PEDRO – E se eu tivesse? Quem foi que disse que tu poderia me ajudar?

CAIO – Eu te ajudei coaquele garçom, não ajudei?

PEDRO – Ele nem era um bom garçom.

(Pedro liga o rádio. Sweet Geórgia, do Ray Charles. Escutam a música em silêncio por um tempo. Caio batuca no volante, Pedro toca bateria imaginária nas próprias pernas)

PEDRO – Que santo é esse no para brisa?

CAIO – São Miguel Arcanjo. O guardião das chaves do abismo!

PEDRO – Não é pra São Cristóvão que os caminhoneiros rezam?

CAIO – Pode ser… Minha mãe gostava do São Miguel. Ia me colocar o nome dele, só que meu pai não deixou.

PEDRO – Por que?

CAIO – Ele preferia Caio.

PEDRO – Caio… Não tá na bíblia, tá?

CAIO – Pode crer que não.

(pausa)

PEDRO – O que tu carrega nessa carroceria?

CAIO – Pensei que cê não queria conversar.

PEDRO – Pensei que tu respondesse as coisas, além de ficar perguntando.

CAIO – É esterco.

PEDRO – Esterco? Então é um caminhão de merda mesmo.

(Sobe som – Sweet Georgia)

CENA 3

(XERIFE, quarenta anos, está sentado assistindo televisão. Pode-se escutar os diálogos de um western dublado. ALICE, vinte e cinco anos, entra no palco enrolada em uma toalha de banho)
ALICE – Tem certeza que posso passar a noite contigo? (Xerife não fala nada e não desgruda os olhos da tv. Ela pára ao lado dele) O que tá assistindo? (pausa) Hein, o que tá assistindo?

XERIFE – Televisão.

ALICE – Posso te contar um negócio?

XERIFE suspira – Eu sabia que aquela foda não ia ser de graça.

ALICE – Tu não é muito gentil.

XERIFE – Bacana. Era isso que tu ia me contar?

ALICE – Não, tipo assim, antes deu sair de casa, minha avó adoeceu. E ela é bem velha, saca? E agora eu tô nessa estrada e não tenho nem dinheiro pra ligar pra casa… Saber se ela tá bem. Sinto uma agonia. Sei que é o preço que pago por viver assim. Só que, imagina, ela pode até ter morrido e eu nem sei.

XERIFE – É isso que as avós fazem, não é?

ALICE – O que?

XERIFE – Morrem.

ALICE – Ai. Olha, se tu quiser que eu vá embora, é só dizer.

XERIFE – A gente vai repetir aquilo tudo mais tarde, não vai?

ALICE – Pode ser.

XERIFE – Então só quero que tu compre um vinho.

CENA 4

(Caio toma um gole no gargalo de uma garrafa de whisky, que está pela metade. Passa a bebida para Pedro)
PEDRO – Então, padre, foi uma mulher, né?

CAIO – Fiquei nove anos casado, garoto. Osana, o nome dela. Tá na bíblia. Uma mulher e tanto. O pai dela era músico e ensinou gaita prela. E se você tem uma mulher que toca qualquer instrumento de sopro, cê tem vários motivos pra ficar satisfeito (cutuca o ombro de Pedro com o braço). Fora de sacanagem, garoto, uma das coisas mais bonitas do mundo era quando a gente tinha uma briga.

PEDRO – Bonitas?

CAIO – Osana gritava um bocado e então parava de uma hora pra outra, respirava fundo e se trancava no banheiro. Ela não soluçava um choro chato, como o resto das mulheres, apenas tocava a sua gaita. Eu me sentava escorado na porta e ficava ali, imaginando Osana lá dentro, sentada na privada com os olhos cheios de lágrima e dichavando um puta solo blues. (Caio leva as mãos na boca, em forma de concha, e solfeja um blues. Pedro toma um longo gole do whisky.)

(CONTINUA UMA HORA QUALQUER)

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11 Respostas to “uma peça de estrada (levada em madrugadas insones) – parte 1”

  1. Paloma. Says:

    Li rapidinho. Espero que tenha chegado a “hora qualquer”!!!

    • brunobandido Says:

      preciso de mais uma madrugada sóbria pra terminar isso aí. já sei como vai ser, já sei os tipos e diálogo, quando eu sentar e escrever, vai chegar essa horra qualquer, Paloma.
      Um beijo.

  2. Murilo C Says:

    sensacional. tb espero a hora qualquer

  3. Juliana Gola Says:

    gostei pra cacete disso.

  4. diego moraes Says:

    Aì sim… nesse estilo eu Manjo. ando escrevendo um bocado desses tipos. abração.

  5. Rocha Says:

    Muito bom! Espero ler o resto em breve.

    • brunobandido Says:

      como eu disse ali em cima, Rocha, quando eu escrever, se eu tiver saco pra escrever, posto aqui… Não tenho muito mais saco pra escrever no formato de peças pq me dá vontade montar e eu nao saco nada de teatro e ngm quer montar esse meu tipo de vagabundagem, até porque não saco nada de teatro, afinal!
      grande abraço.

  6. Adriana Godoy Says:

    Então, estamos esperando…Bom de ler. Bj

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