após o sinal, diga o seu nome e a cidade de onde está falando – bandido, montevideo

para Joaquín Sabina e toda uma espécie de bromélias afogadas

No Money to drink. Me falta una mujer, Me sobran seis tequilas, canta o Sabina no disco queu coloquei pra tocar depois do Charlie Parker me acompanhar toda a tarde. Pelo menos tu tá coas tequilas, boludo.
E eu… Fico pensando em Melissa, que corrigia meus constantes erros de digittação com um prazer abismal. E no seu pai que morreu num acidente de helicóptero tentando salvar uma espécie rara de bromélias num pedaço da mata atlântica que foi afogado por causa de uma represa. Quando ficava bêbada, começava a contar essa história e trancava o choro com tremidas involuntárias no queixo. Eu não ficava pra trás, enchia os olhos de lágrima e mentia, meu deus, eu sou um grande mentiroso, dizia que meu pai me culpava até hoje pela morte do meu irmão mais velho Erasmo Carlos – em homenagem ao verdadeiro Rei. Eu vi o Erasmo hoje (o cantor, não meu finado irmão de mentira), na televisão, ele falava sobre o seu belo e último disco, por isso me lembrei de Melissa e de Coqueiro Verde, aquele samba maroto de quem entende rock’n roll. No último dia, pareceu uma eternidade, um cigarro e meio – fico condenado a infinitos erros de digitação para todo o resto da minha vida. É sexta de noite, eu tomo coca-cola e até agora pouco escrevi escutando o jazz do Bird. Faltaram vinte e cinco centavos pra garrafa mais barata de conhaque, a moça não quis me vender e voltei pra casa com dois litros de refrigerante, é bom pra caralho, coca-cola. Mas foi uma sacanagem, 25 centavos apenas… Porra, agora tô condenado a dois kilos de coca-cola e isso estraga os ossos, minha mãe dizia, Melissa também. Troquei o Bird por Sabina, pensei em Erasmo, lembrei de Melissa, arrotei coca-cola, fodeu. Ela me disse,  Poxa, esse teu semestre vai ficar chato. Concordei. Garanti que escreveria alguma coisa em dezembro, hoje me pintou o esboço da parada, Caçando borboletas com aspirador de pó é o título.
No mais, um filme do John Cusack na tv aberta, uma música triste do Fagner na rádio (enquanto tomo banho), redtube ou tube 8, uma amiga que veio pegar uns livros e não quis dar pra mim (ela é uma poeta horrorosa- mas isso é a minha opinião. e tem uma espécie de medo besta que eu fale da poesia dela. me deu um beijo e depois disse Não, bandido, depois tu escreve sobre isso naqueles teus contos. Porra, beibe, eu juro que coloco um nome falso e digo que a tua bunda é grande. Fica pra próxima, bandido, fica pra próxima…),  coessas coisas que vou domando minha soledad, né Sabina? Com teus versos tambien, por supuesto. Escrever, talvez, mas menos, bem menos. Só me considero algum tipo de escritor quando tô sentado escrevendo. Gosto de dizer que escrevo porque tenho que fazer alguma coisa no intervalo das punhetas. Dizia isso pra Melissa, ela ria, tu é um bagaceiro, bandido, um tremendo de um bagaceiro, e seguia corrigindo meus erros de digitação. Portanto, sou muito mais punheteiro solitário vagabundo bêbado bagaceiro do que escritor (e mesmo assim a amiga não me deu por causa de um conto babaca que eu nem ia escrever, que merda que eu sou. e ela tava com uma saia curta, droga, não tá tão calor assim, aquelas pernas bacanas, minhas mãos passeando, ‘tchau bandido’, nem primavera é, quero dizer, uma saia tão curta que talvez ela acreditasse em estupro ou enlouquecer pessoas ou que sua poesia era mesmo uma merda -foda-se a sua poesia, que pernas – ou qualquer coisa do tipo). Desculpem-me todos esses parênteses. (Aliás, fodam-se, coloco o que eu quiser nessa porra). O que eu tava falando? Ah, como sou um punheteiro solitário vagabundo bagaceiro (que merda que sou) e tudo o mais. Um cara assim não tem como levar a literatura a sério (o que não quer dizer que eu possa fazer pirraça com ela – jamais! Jamás, Sabina, no te preocupes, jamás). Apenas as pretensões a la Jack Kerouac é que passam longe de mim. Lembro de um amargo Dylan (o Bob, não o Thomas ou o Dog) falando Felicidade não está entre as minhas prioridades. Ser um grande escritor não tá nas minhas. Apenas escrevo. Só isso. Se eu pudesse acreditar em felicidade, pode crer que ela estaria nas minhas prioridades, não sou lá tão amargo assim, se eu pudesse crer em paz, aliás, eu quase posso (babaca, eu sei), estaria nas minhas pretensões.
Hoje eu vi uma advogada ambiental citando esse velho gaúcho que descobriu mesmo uma espécie de bromélias e morreu tentando salvá-las dos “monstros que constroem represas” – Claro, hoje de manhã eu ouvi essa história, por isso penso tanto em Melissa, é óbvio, pelo conjunto de Erasmo Carlos e Caçando borboletas com aspirador de pó e bromélias extintas afogadas pela represa de Barra Grande, ou qualquer coisa que o valha. Então eu pensei Porra, será que era verdade dela essa história? O cara existiu, pelo jeito. O nome da bromélia é o nome dele, tenho provas concretas disso. Será que era mesmo o pai dela? Tomara que não. Tomara que ela tivesse o conhecimento do causo e tomado para si própria nos momentos de tristeza de bar. Melissa não conhecia direito o Johnny Cash, por isso minha história de culpa pelo irmão falecido e tudo o mais. Mas por que diabos eu supus que ela estivesse mentindo, afinal? Ela tremia o queixo, caralho, tremia o queixo involuntariamente na busca de abafar o choro. Tudo o que eu pensava é que Melissa era uma ótima atriz quando ficava de porre. Que belo panaca. Tomara, Sabina, Ojalá, que ela tenha apenas apropriado-se da história. Mas é mentira que mais de cem mentiras não digam a verdade, tu mesmo cantou isso, Joaquín. Se a moça do mercadinho tivesse me vendido o conhaque, eu estaria lamentavelmente bêbado e, é provável, ligaria prela (pra Melissa, não pra moça do mercado) perguntando a verdade. E contaria que o finado brother Erasmo era uma grande mentira. Que bobagem, ela deve saber que é. Acontece que eu tô bêbado, sim, de tanta sobriedade, por isso, Sabina, seu galego de uma figa, se tu cantar mais um pouco, apenas mais um pouquinho, reze pra que o telefone dela não esteja aceitando chamadas a cobrar.

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13 Respostas to “após o sinal, diga o seu nome e a cidade de onde está falando – bandido, montevideo”

  1. Lorena Says:

    CASA COMIGO, BANDIDO! CORRIJO OS ERROS PRA VC!!!

  2. lucas Says:

    porra bandido, que texto monstro, aqui em limeira vc tem uns 3 fãs

  3. Rodrigo Says:

    Tu é um puto, que escreve bem pra caralho! Parabéns, velho. A uruguaya que mora comigo ama o Sabina (eu não curto o som dele, mas as letras são boas mesmo, o cara viveu do outro lado do rio, mesmo), mostrei o texto pra ela, e outro que tu escreveu sobre o Sabina, ela curtiu muito.

    • brunobandido Says:

      Eu não sou um puto, Rodrigo.
      E o Sabina, na minha humilde opinião, é o melhor letrista que existe por aí.
      Bacana que ela curtiu.
      Abraço.
      y un beso para la uruguaya.

  4. Edu Says:

    o dylan disso isso numa canção? qual?

  5. Adriana Godoy Says:

    Bandidaço, vc sabe mesmo escrever…não sei se vc vai se tornar conhecido ou não, mas que vc tem fãs, ah, isso tem. Não conheço Sabina, acredita? Mas vou procurar conhecer. Mais um texto du caralho. beijo

    • brunobandido Says:

      É difícil conhecerem aqui no Brasil, Adriana. Depois que ele gravou com o Fito ficou um pouco mais fácil, mas mesmo assim, não tem muita entrada. Eu gosto. Dá pra achar tudo dele na internet. Beijo.

  6. Lucius Says:

    Não seriam erros de gramática, mesmo?

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