já tive sexta-feira melhor

Duas horas pra tirar a segunda via do meu título de eleitor. Faz mais de um ano que perdi o meu, as pessoas perguntam aonde. Como é que vou saber? Só sei que não foi na igreja. Quem mandou eu ir tirar essa merda em cima da hora – é sempre assim, em cima da hora. Uma fila que dava volta na quadra, cercado de velhas chatas e reclamonas. quem mandou elas irem em cima da hora? também tinha um cara que era PM, uma hora ele atendeu o celular e falou bem alto pra todos ouvirem “ah, esse é um laranja dele. segura o guri aí, tô louco pra ter ele na minha frente… é, sei lá, dá bolo pra ele, passeia com ele na praia, não quero saber, daquiauma hora e meia chego aí… valeu Peixoto, tô te devendo um churrasco.” Valeu, Peixoto… frase típica de um PM. Ele seguiu com frases típicas, ao conversar coas velhas sobre como são os presídios falou “Eu levei meu sobrinho pra ficar uma semana lá dentro. Só pra virar homem”. As velhas da fila riam e encheram ele de perguntas. Mas tá dentro da lei isso aí? Tem coisa que tá e coisa que não tá, pra tudo tem um jeitinho. E elas riam, nossa, como o PM era maldoso e simpático. Aposto que seu nome era Fonseca. (Imagino a dupla de brigadianos Fonseca e Peixoto batendo num garoto laranja de alguém). Eu odeio polícia por perto, não que eu faça algo de errado ou carregue armas comigo, simplesmente, não gosto de PM perto demais. Duas horas numa fila coaquele cara foi um tanto claustrofobico. Ainda mais  uma fila pra título de eleitor. Se eu sentisse vontade em votar em algum candidato desses que tão aí… Mas claro que não.

Esses dias deixei a tv ligada num debate, tem coisa mais inútil que um debate? Eles fazem perguntas que não tem muito a ver com o tema sorteado e os outros respondem coisas que não tem porra nenhuma a ver coa pergunta. O Serra é um fiasco semi-vivo, meio zumbi meio personagem malvado dos Simpsons, jamais votaria no Serra – não concordo com algumas leis fascistas de São Paulo. Ele também é a favor do Ato Médico. Eu não sei o que é isso direito, mas não me aprece nada agradável.
A Dilma, pelo menos no debate, foi opaca, confusa e despreparada. A Marina, além de evangélica, politicamente correta e o caralho, tem uma coisa que jamais me faria votar nela – A mulher sabe que vai perder, mas finge fervorosamente que ainda acredita numa virada. E o Plínio, porra, esse foi divertido ver. O cara é engraçado porque sabe que não tem a mínima chance e então pode fazer seu showzinho. Sigo sem a mínima vontade de votar em alguém. Pra governo do estado, então, nem se fala.
Gostei de política quando tinha dezesseis anos. Assim como escutei um ou dois cds da Legião Urbana com catorze e admirei discursos do Gabeira. Tudo bem, se eu tiver muito desesperado por uma cerveja posso sentar com alguém e conversar sobre isso na mesa de bar. Mas acho que prefiro, até, sentar com um poeta mala do que com um partidário fervoroso. Sei lá. É briga feia. Quando me dizem “vou te apresentar um amigo meu, ele é poeta, tu vai adorá-lo”, sempre fico com o pé atrás e quase sempre tenho razão de ficar. Nunca me disseram “vou te apresentar um amigo meu, ele é candidato a vereador pelo PSol”, mas eu pensaria o mesmo se acontecesse. Enfim, eu não ia tirar o título, ia apenas justificar o meu voto aqui em Porto Alegre. Acontece que pra isso também precisa de título, só a identidade não serve, senão é multa. Bela democracia.
Depois eu já tava atrasado pro trabalho e corri, fez uma sexta-feira bonita de sol lá fora e fiquei seis horas dentro de um prédio antigo com ar condicionado encanado – isso não é vida pra mim.  Não mesmo. Chegando em casa, o cara lá de baixo falou “Tu que tá morando no 801?”  Sim. “Ah, tem um oficial da justiça vindo toda hora atrás de ti, aqui.” Puta que pariu, eu pensei, Por que um oficial de justiça? Será que eu tenho a porra de um filho? Por que ela, seja lá quem ela for (embora uma ou duas hipóteses tenham passado pela minha cabeça), não falou comigo antes de colocar um cdf terrivelmente sóbrio na minha cola? Talvez eu votasse pelo aborto, mas não ia empurrá-la da escada nem nada do tipo. E agora o que eu vou dar pra alguém? Meu computador e a garrafa de Dreher? É só o que é meu, junto dos livros, discos, roupas baratas e um violão fake folk com cordas enferrujadas que custou noventa e nove reais com noventa centavos e que comprei, há quatro anos, quando cheguei em Porto Alegre (as cordas ainda são as mesmas, por sinal). Não vou dizer “pode levar” pra nenhuma dessas coisas. Aí o cara me mostrou um papel que ele deixou e dizia Silveira. Inda bem, Silveira é o pilantra que morava aqui antes de mim, acho que é um coça saco do deputado Zambiazi ou coisa parecida. Consigo imaginá-lo no meio da política, meio capanga meio mafioso bagaceiro, um toque de leão de chácara. Aposto que o chamam de Silveirinha. Seguido recebo cartas e procurações endereçadas ao filho da puta.
Agora eu chego em casa e vou ficar por aqui. Até ia sair pra beber mais tarde, mas o filme As Confissões de Henry Fool tá pedindo pra ser visto e, talvez, eu me durma depois de dar uns talagassos na garrafa de Dreher. Também tenho que entregar um texto sobre o livro No rastro de Chet Baker na segunda-feira pra revista Libros Vencidos. Pra isso eu tenho que acabar o livro e não tô nem na metade. Mesmo assim parece ser bacana, um romance policial onde o detetive também é pianista de jazz. E ainda tenho que revisar um conto pra entregar dia 21 (acho que é terça). É um conto sobre um período da minha infância/início de adolescência, e se passa numa cidadezinha uruguaia arrasada pela crise do princípio dos anos 2000, conta uma situação nessa cidade – claro que tem muita ficção, mas nada muito longe da minha realidade ou das minhas memórias. Foi bacana escrevê-lo e lembrar duma porrada de coisas. Se chama Feliz Natal Na cidade Fantasma e enquanto eu o criava me deu vontade seguir com o texto e fazer logo um romance inteiro, aí acabei achando aquelas quatro páginas um pouco rasas no final. Por isso vou me empenhar em revisá-lo bastante. Acho que ele tá uma merda, agora, uma grande merda incapaz de ser aceita. Pelo menos, escrever sobre o livro e o conto e ver o filme “…Henry Fool” e os filhos que não tenho e o Dreher me deixam um pouco satisfeito. O problema é o resto.

Anúncios

4 Respostas to “já tive sexta-feira melhor”

  1. pedro domecq Says:

    alo bandido

    a multa por não votar custa R$ 3.50. deixei juntar as tres ultmas, desarmamento e o último turno e returno, fui na justiça eleitoral e peguei uma guia de R$ 10,50, estou pronto pra próxima.

    • brunobandido Says:

      pocha, não sabia que era tão barato. se bem que nem tão barato afinal. não devia existir essa multa e custa o preço de uma dose de dreher aqui em porto alegre.

      abração.

  2. eve Says:

    bom, de qualquer jeito, acho que o título você ia ter que tirar mesmo. agora, que vale a pena sacrificar uma dose de dreher, ainda que injustamente, pra se safar dessa palhaçada toda, ah, isso vale… tô no mesmo esquema do pedro domecq e respiro mais aliviada ficando fora dessa coisa que chamam de cidadania e que nada mais é do que colocar no poder – e que poder – criaturas muito bem intencionadas. o problema é a intenção. até hoje não sei qual é e em favor de quem. mas deve ser muito boa, pelo esforço que fazem pra conseguir voto, obrigatório. peixotos e fonsecas me dão engulhos, tanto quanto velhas reclamadeiras . bom mesmo é ver você escrevendo, muito.

  3. Murilo C Says:

    foda ne… vc ai lendo paradas do Brizola, eh compreensivel q os candidatos de hoje parecam lixos.

    e a grande sensacao aqui em SP eh o Tiririca…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: