sobre aquela coisa de verdades inventadas / canções p/ contornar a feiura

eu achei uma espécie de antigo diário meu dentro de algumas pastas que tavam escondidas atrás de uma pilha de livros. foi assim que comecei a escrever, por sinal. quero dizer, não foi assim, escrevia desde uns doze ou treze anos, letras de música, poesias ruins, contos de terror e tudo o mais. mas diários me levaram a chegar mais perto das coisas que gosto de escrever hoje, essas egotrips de um alter ego com ficção no meio e algumas conclusões incertas e quase tristes. é que um dia, enquanto escrevia sobre qualquer coisa (nesse diário) me peguei mentindo pra mim mesmo. meio que mudando umas pessoas, criando outras pra interferir em algumas situações, aumentando reações, coisas do tipo – e então achei essa infidelidade muito mais divertida e comecei a escrever e a evoluir aos poucos nessa coisa de ficção. eu tinha uns dezesseis anos nessa época e desde lá tudo que eu escrevia era mentira em forma de diário, até começar a fazer contos e textos na mesma levada. Tenho um texto que se chama “Canções pra contornar a feiura”, que é meio nessa onda e, lá pelo fim dele, tem até algo sobre essa coisa de inventar histórias falsas que batem de repente enquanto tá se contando alguma verdade (mentiras sinceras e coisa e tal –  é mentira que mais de cem mentiras não digam a verdade, diria o mestre Sabina ). não sei se alguém consegue entender ou se identificar com isso. se não, eu devo ter algum sério problema.

CANÇÕES PRA CONTORNAR A FEIURA

Libros Vencidos é o nome de uma revista cultural uruguaia pra qual eu escrevi algumas vezes. Cheguei a participar de dois ou três eventos organizados pelos seus editores, eram caras bacanas, o grande problema é que essas ocasiões abrigavam sarais de poesia e alguns dos poetas eram verdadeiras malas. Preferia me isolar num canto e tomar o meu trago na penumbra.

Em um dos eventos, li um texto sobre garotas más, eu havia traduzido pro castelhano com cuidado excessivo e o ritmo acabou ficando ainda melhor que o original. Fui bem aplaudido e voltei a me sentar sozinho na mesa do fundo, somando garrafas de vinho Sant’Ana. Chegou a vez de uma jovem poeta dita como revelação uruguaia, Carmela Fuego – o apresentador brincou que, junto comigo, ela era a mais nova dos participantes (a gente tinha 18), Mas o Bandido aparenta 32, exagerou o cicerone e todos riram e me olharam no meio de todas aquelas garrafas, Não quero nem ver quando ele tiver 40, prosseguiu, se é que vai chegar nessa idade, quantos vinhos já foram mesmo, Bandido? E eu apenas fiz um sinal vago coas mãos e torci pra que ele chamasse logo Carmela e todos parassem de me olhar. Sou um bocado tímido nessas situações.

Carmela Fuego era magrinha, com cabelos ensebados, camiseta dos Ramones e bottons pela roupa toda (um deles coa língua dos Rolling Stones, outro, nas calças, com aquela foto do Sid Vicious lambuzado num hot dog). Nada muito diferente de tantas outras chicas uruguaias. Muito bonita, também. Começou seu poema:

Vamos fazer um pacto

Sem cúmplices no nosso caso

Sem aspas na nossa casa

panelas pratos panelas pratos

bloqueiam o nosso ralo

Uns gatos pelo pátio

O aviso de silêncio pros ratos

no sótão.

Não sabia se aquilo era, ou não, um bom poema. Aplaudi de leve e segui com o vinho, outros escritores subiram e leram suas obras e foram aplaudidos e as garrafas na minha mesa se multiplicavam, como que por osmose. Carmela sentou junto de mim e não falou nada. Encarei por um tempo.

Brasileño de la puta madre, ela disse como quem suspira.

Casi uruguayo, eu lhe devolvi.

Entendo… Nasceu do lado errado do rio, ela disse. Era exatamente aquilo, bebi um gole e silenciei.  Então, las malas muchachas te agradam? perguntou de um jeito blasé de jovem poeta rock’n roll moderninha e cool demais para um porre (o que dirá para um boquete).

Todas as garotas são boas, respondi.

Não é o que fala o teu poema.

Cê não entendeu meu poema, retruquei.

Há, Há, Há, Bruno Bandido, o fato de não gostares das pessoas, não te torna menos caipira, ela falou cool e cruel.

Isso mesmo, Carmela. Sou só um caipira que leu meia dúzia de livros errados e já apanhou prum tabuleiro de xadrez.

Nem tão sincero, nem tão brutal.

Bem, talvez eu tenha lido as coisas certas.

És engraçado, Bandido, muy gracioso, ela disse. Perguntou se eu tinha gostado da sua poesia. Eu não queria ter que responder a uma pergunta dessas – falei que curti a parte do caso sem cúmplices e ela abriu um sorriso (não muito largo – um sorriso cult) e levantou o dedo indicador ao garçom e o girou trezentos e sessenta graus e ele lhe trouxe uma dose de gin, com algumas pedras de gelo (um jeito bastante cool de pedir uma bebida, vamos convir). Senti um leve movimentar de dentro das calças naquele momento. Bandido y Carmela, uma boa dupla de jovens estranhos, por sinal. E eu queria tudo aquilo, desejava que ela me levasse pra sua casa uruguaia, me desse banho e me deixasse dormir por ali, no meio de suas pernas. Que gana, Carmela Fuego, que gana eu tive de te foder inteirinha. Sei muito bem o que é ter gana de foder uma garota. Já vivi muito, muito mesmo, esse tipo de situação. Acho que tive gana de foder mais garotas do que o Renato Portaluppi e o Gene Simons, realmente, foderam. E pode botar uma turnê do Led Zepelin nessa soma também, eu me garanto.

Sant’Ana, Carmela suspirou (é do tipo que fala suspirando), até que é um bom vinho.

Abanei a cabeça e segui lhe encarando, nunca desejo dizer muita coisa presse tipo de mulheres.

Tens namorada?

Não, e você?

Não.

Pensei que tu tivesse uma, impliquei.

Uma?

Sim.

Eu saquei o teu tipo, Carmela falou enquanto mexia nos cubos de gelo do seu copo com o indicador. Aliás, pelo que tu escreves, ela disse, pensei que eras um cara muito bonito.

Pelo que eu escrevo? Que merda. Isso é uma ofensa, muchacha. Se eu fosse ‘muito bonito’, não perderia meu tempo escrevendo, ou participando desse tipo de eventos.

Ah é? E o que farias?

Foderia com garotas bonitas por aí, roubaria bancos, sei lá.

Não me entenda mal, até que tu dás para o gasto.

Tu também, eu falei. (Na verdade, ela dava mais que pro gasto)

Sabe, estou triste.

É mesmo?

Sim, muito triste, o meu cachorro morreu.

Eles morrem, não é?

Morrem…

Ficamos quietos por mais algum tempo, coloquei os fones do meu mp3 no ouvido, tocava Frank Sinatra, ainda podia escutá-la caso falasse alguma coisa, se não, ficava com It never entered my mind na cabeça, quase que um paradoxo… quase! A poetinha não era de todo o mal, pelo menos, não queria diálogos sobre literatura espanhola ou qualquer coisa do tipo – ao lado do botton dos Stones, tinha outro, era uma foto de rosto de Garcia Llorca em um fundo rosa choque. Saquei o teu tipo, Carmela &

Assim como no cinema, acendi um cigarro.

Comecei a contar a ela uma história de infância. Sobre um vizinho aposentado, que eu tive – o velho tinha um galinheiro no jardim. No verão de 1999, o seu sobrinho da capital foi visitá-lo e nos tornamos amigos, ambos com nove anos. Fumávamos cigarros, brincávamos de Forte Apache e coisas do tipo. Eu ficava no lado dos guardas e xerifes, protegendo o forte, caçando índios e fingindo cortar seus escalpos vermelhos. O garoto tinha a missão de esconder os apaches e armar ataques contra minha base no meio de uma madrugada imaginária. Passamos assim umas quantas tardes, quando, em um dia qualquer, ele me levou à casa do seu tio. Apostou comigo que eu não conseguia pegar os pintinhos recém nascidos de dentro do galinheiro. As galinhas vão te atacar, ele disse. Despejei um saco de milho no jardim e deixei que todas elas saíssem pra comer, então, entrei no galinheiro e tirei dois pintos de lá. O garoto os colocou em uma caixa de sapatos e entrou correndo pra dentro de casa, segui. Nunca havia entrado naquela casa, era simples, com quadros do Carlitos em preto e branco pregados na parede e coisas assim. Na cozinha, havia um forno a lenha, ele tava aceso. Minha tia deixou bastante madeira lá dentro pra aquecer a casa, eles só voltam tarde da noite, o garoto contou e então pingou umas gotas de água na base do forno e elas evaporaram em questão de segundos. Depois, começou a catar panelas e armações, que a gente usava no Forte Apache, pra cercar a chapa do fogão. Não me falou sobre a sua ideia até terminar o cercado e depois retirou os pintos da caixa e os colocou ali em cima.

Meu deus, exclamou Carmela.

Sim, eles não podiam sair dali por causa da cerca e, tampouco, conseguiam voar, daí só batiam as azas e davam pulinhos coaquelas patinhas minúsculas piando desesperados. Hah, esse guri era louco. Um mini-Hitler ou coisa do tipo. Imagina o que ele faz nos dias de hoje… Deve cursar odontologia ou qualquer coisa que o valha.

Carmela ficou calada, um pouco confusa, eu acho – parecia não saber o que comentar. Acabou com o gin e perguntou o motivo de eu ter contado aquilo prela. O motivo? Sei lá, não sabia nem porque tinha inventado aquela história, talvez porque o cão dela tenha morrido, ou os gatos no jardim de sua poesia – meu tio matava os gatos da vizinha há uns dez anos dali – não sei, alguma espécie de associação maluca na minha cabeça. As pessoas costumam inventar coisas baseadas em associações malucas, gosto de pensar em como me surgem algumas mentiras. Nessa história, por exemplo, me ocorreu há pouco (enquanto escrevia) que eu e o garoto tínhamos ambos nove anos, eu e Carmona, por alguma coincidência, fazíamos aniversário no mesmo dia e a gente tava prestes a completar dezenove – quero dizer, pode ter vindo daí, ou não, a gente nunca tem como ter muita certeza.

Nessa altura, o sarau já havia acabado e todos conversavam em mesas distintas, olhei em volta, os editores da Entre Libros me fizeram sinal de positivo e piscaram o olho – são caras legais, mas pertencem ao tipo dos que piscam o olho. Os uruguaios também se cumprimentam, entre homens, com um beijo na bochecha, é a única coisa que me incomoda na cultura deles, na verdade. Sempre tinha que desviar, estender a mão de longe e manter uma distância, nada de mais; tenho uma lista inteira de coisas que me incomodam na cultura do Brasil, por exemplo. Voltei à Carmela.

Por que eu contei? Sei lá. É meio engraçado, não é?

É meio doentio, ela disse.

Ééé, cê tá coberta de razão. Doentio, essa é a palavra! concluí e girei o dedo no ar numas de pedir mais vinho ao garçom.

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2 Respostas to “sobre aquela coisa de verdades inventadas / canções p/ contornar a feiura”

  1. WS Says:

    Estrutura textual sensacional…

    … Mas, porra bandido, você não comeu a Carmela?

    Dos seus textos, que eu me lembre, você só conseguiu faturar a garota sem braço.

  2. brunobandido Says:

    eu não comi aquela mina sem braço, pelo menos não que tu saiba, afinal é um texto de ficção. mas se fores contar, o placar tá 2 a 1. Pernas de jazz, teve mina comida, sem braço tb, e esse não. e ficaria estranho se tivesse, sendo que não precisa disso pra dizer o que quero.
    abraço, meu chapa.

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