e ela acabou a garrafa e retocou o batom e me lembrou que os deuses também são perdedores

bêbado pra burro

Fico em casa de noite escutando Lynyrd Skynyrd e bebendo o vinho tinto seco de mesa mais barato que encontrei. Escolhi o vinho pra não me matar mais uma vez com o conhaque de sempre (e depois dizem que não me cuido. Hein?), pelo menos essa noite não. A notícia de que não trabalho na segunda-feira vem na hora certa e a mensagem de celular prova que há loucos no mundo, pelo menos uma distante e feliz mulher que, além de  sentir a minha falta, arranja um tempo pra escrever isso nas teclas do seu telefone pré-pago. Isso seria só mais uma bobagem sem a menor importância na maior parte do meu tempo, mas com o vinho e tudo o mais até que caiu legal. A escola de samba faz uma festa de arromba há alguns quarteirões daqui e o vento traz a música intragável pela janela, eu olho pela janela – oitavo andar e Eu bem que poderia ser um suicida, é o que penso – mas não sou e amanhã não trabalho e nem terça e tem uma garota longe e feliz e, mesmo assim, sente minha falta e quase posso imaginá-la em algum lugar confuso dentro dessa garrafa e ainda por cima daqui há seis dias eu vou tá em montevideo directo del Pilsen Rock assistindo um dos mestres compositores do rock argentino que bradou a verdade absoluta dos perdedores que não costumam jogar a toalha mesmo que acabem a madrugada coa cara na lona sem nenhum romance de Raymond Chandler pra contar a história, como disse meu personagem DJ Sallinger – enfim, a frase que eu queria citar é ‘somos feos pero tenemos nuestras canciones’ e ela é do Calamaro. Um dos outros motivos preu também tá em casa nesse feriado gigante – não gastar dinheiro e o melhor jeito de não acabar com o pouco dinheiro que tenho é não fazer porra nenhuma e não é qualquer um que consegue não fazer porra nenhuma, nem eu consigo direito, consegui na sexta e ontem, mas hoje tive que ficar bêbado, por exemplo. Voltando ao assundo, não é só o Calamaro que vai ter no Pilsen, tem outras bandas legais também como Los violadores, Las Pastillas del abuelo y mais uma porção de grupos argentinos e uruguaios e tudo parece encerrar com The Queens of Stone Age, que eu tô pouco me lixando preles. No duro. Com exceção desse maravilhoso roquenrol del plata me bitolei no rock antigo e sincero e não abro mão disso, de ser burro e alienado nesse tipo de merda. Não vejo mal nenhum nisso. Conheço o que é novo, às vezes, muito mais do que quem realmente gosta do Novo. É que involuntariamente eu volto pras minhas crenças e não preciso escutar queens of stone age ou qualquer hypismo dos anos dois mil se encontro o que preciso em tantas coisas maravilhosas que vão de Stones, Creedence, Lynyrd, Doors, Lou Reed, Ramones até Chuck Berry e Johnny Cash, Elvis e Dylan e L. Cohen e V. Morrison e Waits até os três King’s do Blues e todo o resto do blues e o jazz do Miles Davis e do Bird e do Mingus até Billie Holliday e Nina Simone e Etta James até Marvin Gaye e Elton John até Sinatra e até Cazuza e Celso Blues Boy e Erasmo Carlos, por que não?
E ainda tem tanta coisa mais e é o início e é o fim e são só os meus gostos (mas, porra, se isso não é um bom gosto, não sei o que é). Agora pouco tava falando com dois amigos que gostam um bocado desse rock da última década que veio na onda The Strokes/Jack White e eles não entendem porque o Kings of Leon pararam de fazer seus velhos sons por uma música mais melodiosa e grudenta e radiofônica, bem, eu entendo perfeitamente. E também não condeno os caras. Eles não são bitolados e gostam de dinheiro. Talvez seja fácil pra mim falar isso por eu nunca ter curtido o som deles como curto todo esse passado que citei, mas talvez também não, porque eu desprezo fases de artistas que eu curto um bocado – o final de carreira do Elvis, por exemplo, (pra pegar um dos citados aí de cima), mas mesmo assim entendo tudo aquilo. E é claro que meus amigos entendem e isso foi só um modo de falarem com um pouco de decepção por gostar, assim como eu, de música pura e sincera e tudo o mais. Vai ver eles são bem mais radicais que eu, que até simpatizei coa balada melosa do Kings of Leon, embora nunca vá colocar no meu mp3 nada parecido, assim como simpatizo com algumas músicas do Fábio Junior e do Vinicius de Moraes ou seja lá de quem for, mas nunca vão me ver colocando elas pra tocar porque só não me dizem o que quero ouvir e pronto. Sigo escutando Lynyrd Skynyrd e acabo a segunda garrafa de vinho e penso em escrever pressa garota longe e louca a ponto de sentir falta de mambembe pessoa como yo, mas tudo o que escrevo são coisas como o meu vício falastrão em um whisky que não posso pagar e coisas assim e sei que ela até curtiria ler essas merdas mas não perto o enviar dessa vez, apenas reviro todas as roupas jogadas na procura de um tênis pra matar essa aranha que desceu de uma teia lá do teto e parou do meu lado, um pouco acima da minha cabeça, pendurada, e parece ler todo esse monte de bosta que tô escrevendo – por supuesto que vou esmagá-la e acabar com suas dezenas de olhos miúdos e oito patas, não só porque eu não sou muito tolerável com aracnídeos, mas porque ela tem a audácia de rir da minha cara – Saca só sua aranha de merda, eu lhe falo coa língua roxa e os dentes roxos e os olhos vermelhos, Aqui em cima desse oitavo andar só eu é quem rio da minha própria cara. Plaft, splash e a teia segue pendurada e, sem a aranha (que  ficou grudada em uma das solas), mais parece uma inofensiva e simplória baba de boi dessas que saem voando por aí em dias de vento no verão.

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4 Respostas to “e ela acabou a garrafa e retocou o batom e me lembrou que os deuses também são perdedores”

  1. Adriana Godoy Says:

    Ei, Bandido, legal esse texto. Eu, como uma sujeita bem mais velha que vc, talvez pudesse até ser sua mãe, também fico ouvindo os caras que gosto. Stones, Dylan, Joplin, Miles Davis, João Gilberto e Tom, Lou Reed e uma porrada de outros e Erasmo é um dos caras bons que se manteve sempre fiel ao rock de uma forma ou de outra. Não viajei também, tenho um trabalho de revisão pra fazer e o vizinho coloca um sertanejo na maior altura, daqueles de fuder, de arrebentar qualquer esperança aí´tenho que por um Stones no talo. É tipo uma disputa esquisita. Se tivesse no oitavo andar, ficaria meio tentada a pular…Pelo menos vê se toma um vinho decente, no feriado vc merece, né? Desculpe esse comentário longo, mas saiu assim. Beijão.

    • brunobandido Says:

      Vinho decente… pô, nunca tomei um. pra mim esses são decentes, acho que eu até estranharia se eu tomasse um vinho decente de verdade. e o tamanho do comentário não é problema, adriana. um beijo.

  2. Camila F Says:

    Já aguentei pelo menos uma vida inteira sem fazer nada.

    • brunobandido Says:

      até que levo jeito pra isso também. mas eu sou uma péssima companhia pra mim mesmo e eu sempre me dei bem com más companhias, seja lá que merda isso queira dizer.

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