peça do Diones / sonhos famintos, yamandu costa e o finzinho da série do hulk

Amanhã começa uma peça escrita pelo Diones Camargo, que só vai acabar no domingo (pelo que eu entendi). Mas não se assustem, tá mais pruma mini-série – que não precisa ser vista na íntegra – do que pra espetáculo à la Zé Celso (pelo que eu entendi). É isso, né Diones?
Amanhã eu saio às sete e meia do trampo e vou pintar lá se ainda tiver ficha. Senão, vou ficar só na de sábado e domingo (pós-grenal quase certo que, infelizmente, dá grêmio – yes, sou um pessimista esportivo. colorado, afinal).  Taí o cartaz da bagaça (ou flyer, como queiram):

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Ligo a tv e tá passando um programa no canal daqui de Porto Alegre. É um talk show cultural. Qualquer coisa pode ser um talk show cultural hoje em dia – mas tá tudo bem. Encho uma garrafa vazia de água da torneira e fico assistindo. Um casal de atores ou dançarinos promovem suas peça por lá, ‘é de um dramaturgo americano, off Broadway” o cara diz, ‘sim, ele não era, digamos, muito aceito”, completa a mina. Ela diz que a peça deles é muito audaciosa. Na minha cabeça estúpida e quadrada, um artista jamais pode dizer coisas assim sobre sua própria arte. Esse tipo de merda é dito quando uma pessoa vê a obra e fala suas próprias merdas sobre as merdas que o artista quis passar com o seu trabalho. Mas isso é só o que penso, não é nada de mais mesmo. Ou cês vão levar a sério um  jovem estúpido e caipira que escreve três vezes a palavra merda na mesma frase?(e duas delas no plural! como sou audacioso, minha nossa, não gosto nem de pensar). Deixo os atores conversando coa apresentadora sequelada pela maconha e vou ao banheiro, miro o vaso e coloco dois dedos na goela. Volto pra tv e pra água. Agora o entrevistado da vez é um músico – sobrinho do mestre do Yamandú Costa (é assim que se escreve?) Peraí – pausa pra contar um causo sobre o Yamandú Costa – Conheço dois caras que tavam tocando num bar em Pelotas uma vez. Aí chegou um gordinho e pediu pra tocar violão na pausa deles, eles não costumam deixar que essas coisas aconteçam, mas naquele dia eles tavam cansados e queriam tomar uma dose em paz e deixaram. Foi quando o gordinho sentou e começou com o instrumento. Puta que pariu! reclamou um dos músicos. Esse gordinho com síndrome de down tá destruindo o meu violão! Bem, um ano e meio depois, Yamandú tava ganhando vários prêmios de melhor instrumentista por aí a fora. – Ok, fim da pausa, pegaram a moral da história? eu não. Desligo a tv. Toca um tango imaginário dentro da minha cabeça e eu adormeço sentado, como um retrato mais jovem do meu pai “assistindo” Domingo Maior depois de comer um cheese acebolado. O celular toca. É Suzzie quem fala. “Porra, bruno, que história é essa de que tu comeu uma grávida?” Pois é, eu respondo, que boa moça não seria, hein? “Que boa moça! Exatamente o que fico penando… É sério, por que tu fez uma merda dessas?” Porque ela era uma garota até que bonitinha e quis dar pra mim, não é sempre que isso acontece. (e não é sempre que sou grosso assim coas mulheres). Acho que Suzzie percebeu que é um verdadeiro abuso da minha parte ser assim com ela e desligou na minha cara. Logo ela que curtia o meu jeito carinhoso e minha disposição pra usar minhas ótimas mãos massageando os seus ombros e pescoço. Por que diabos eu tô sempre estragando tudo? Vai saber? O que eu vou fazer quando não tiver mais nada pra fazer aqui? Seja na vida ou seja nessa puta cidade… Alimento sonhos de pegar a estrada, isso tudo em algum lugar lá dentro da minha cabeça – à esquerda dos tangos imaginários (e argentinos) e duas portas depois de um cardápio repleto de celebridades gostosas e ex-trepadas que amo, que vocês sabem muito bem pro que é que elas servem. Bem, e aí eu fico triste, tão triste como esse poema da Beatriz Provasi que li há uns minutos atrás. Tem essa coisa nele de precisar muito fumar  e não ter um isqueiro e aí ficar ali, precisando muito com o cigarro no meio dos dedos. Triste pra caralho isso. Como essas pessoas que até tem isqueiro e tão no meio da calçada e o vento não deixa a chama prender, daí elas ficam por alguns minutos simplesmente tentando ou fazendo planos de barrar o vento, até que desistem, ou são interrompidas pelo ônibus certo que depois de um tempão resolveu chegar. Acho que fui eu que escrevi que existe um tipo de solidão que invade a minha casa de noite e apaga cigarros no meu peito (Talvez alguém já tenha escrito algo do tipo, acredito que sim, é muito simples, mas só lembro do texto em que eu mesmo escrevi isso daí.) Enfim, é foda essa solidão e essa tristeza e todas essas coisas que fazem a gente não ter a mínima ideia praonde ir. E aí eu lembro de um poema de outra garota, a Camila Fraga, que diz algo do tipo “nasci muito longe do mar pra ser alguém feliz/ cresci muito perto do asfalto pra ser feliz”, e os dois versos me fazem o maior sentido, mesmo literalmente – sem metáforas nem nada. Me criei morando há três metros da BR116 – do fim dela, por sinal – na casa onde meus pais e meu irmão ainda moram até hoje.

Talvez por isso os sonhos famintos de cair na estrada. Por algum motivo estranho, na minha cabeça estúpida (e lá vem ela de novo), acredito que a melhor saída pra quem não sabe praonde ir é pegar a estrada. Talvez pelos livros que li cedo demais. Talvez pelo Hopper no filme do Win Wenders. Talvez por causa daquele estupendo final da série antiga do Hulk, que eu assistia quando criança, com o Bill Bixby caindo fora depois de tudo – mala na mão e asas pretas e a musiquinha tocante pra burro chorar. Isso é uma das coisas que marcam a fundo a cabeça de uma criança caipira deslocada solitária. Pode crer que sim.

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7 Respostas to “peça do Diones / sonhos famintos, yamandu costa e o finzinho da série do hulk”

  1. Mariel Reis Says:

    Bill Bixby, era o cara – o Dr. Banner – que se mandava com a musiquinha e tudo. O Lou Ferrigno era o Hulk – a transformação do Banner.

  2. Mário Bortolotto Says:

    Marcelo Montenegro tem um poema onde ele comenta o David Banner indo embora no final dos filmes do Hulk.

  3. bb Says:

    Pô, bacana. Sabe qual é o nome?
    Abraço.

  4. Camila F Says:

    Crianças deslocadas. haha.

  5. Mário Bortolotto Says:

    Não sei o nome, mas não está no “Orfanato Portátil”. Deve estar nos arquivos do Blog.

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