perdido na tradução

Vinte pras sete da manhã e a chuva lá fora, e uma música do Roxy Music que não sai da minha cabeça. Mais do que isso, não há nada. ela diz, numas de Tá, e daí? O que é que tem de mais? É uma das músicas, por sinal, que o personagem do Bill Murray canta no karaokê japonês em Lost in Translation, da Sofia Coppola. Tudo a ver com o cara. Acho o título desse filme muito bom, Perdidos na tradução,  e é claro que a distribuídora brasileira se perdeu na tradução e colocou um ridículo Encontros e desencontros. Fora isso, penso em umas coisas que vi ontem e lembro de uma frase que li nessa semana – “A afetação é a musa do século21”. Ela tá no meio de uma das grandes sonatas elétricas desse maravilhoso livro de poemas, do Mário Bortolotto, com nome de literatura b e western do Anthony Schaer Um bom lugar pra morrer.  Falando em literatura, tem essa frase do Philip Roth – a respeito de Céline – que o Marcelo Mirisola publicou na sua última crônica no Congresso em Foco“Na França, meu Proust é Céline. Mesmo se seu anti-semitismo o torna um ser abjeto, intolerável, trata-se de um grande escritor – para lê-lo, porém, devo deixar em suspenso minha consciência judaica. Céline é um grande libertador: sinto-me chamado por sua voz.” Afudê. É bacana isso, da importância dos preconceitos, ou ideologias, de cada artista serem partes escenciais em sua obra e foda-se o politicamente correto. E foda-se o novo Capitão Nascimento, que de acordo com o Mirisola, votou na Marina. (Aliás, o Wagner Moura fez campanha pra Marina em horário eleitoral, Roda Viva e tudo o mais. Por que será que o Tropa de Elite 2 foi adiado pra depois das eleições?) Voltando à literatura, comecei a ler Céline por causa de outros escritores que eu lia e gostava citarem tanto ele (como Bukowski e Kerouac). Foi assim que descobri quase tudo, por sinal. Procurando referências das referências. Me interessando por esse tipo de coisa. Os perdedores costumam ter tempo pra isso, acreditem. E é isso que sou. Nada mais do que um grande perdedor. Se não fosse, vocês acham que eu taria escrevendo essas merdas com bafo de conhaque às sete horas da manhã? Vocês acham que eu descobriria o Céline? Ou o Kerouac e o Bukowski? Ou as crônicas do Marcelo Mirisola? Nem a pau. Nasci e cresci numa casa sem livros e numa cidade sem livraria. (o único livro que tinha lá em casa era de madeira e oco por dentro, uma espécie de esconderijo pra guardar jóias – hah, eu me acabo com isso. os únicos livros que tinham pra vender na cidade era em uma banquinha no centro chamada Allan Kardec. Imaginem. Só aquelas coisas de violetas na janela e tudo o mais) A biblioteca me ajudou um pouquinho. A internet me ajudou muito. O fato dos meus pais me pagarem uns livros também. Agradeço muito. À internet, aos meus pais e ao meu fracasso como pré-adolescente. Se eu fosse um garoto descolado: a cidade – que não tem livros – tem um bocado de prendinhas putinhas dispostas a andar com o primeiro cara que aparecer balançando a chave de um Chevrolet no dedo indicador. Eu sempre me neguei a qualquer oportunidade que me levasse a esse tipo de coisas. Nunca dancei nas festas, nunca cogitei tirar carteira de motorista e recusei – grossamente – um convite pra ser par de debutante (ah é, lá também tem bailes de debutante – embora as garotinhas que debutem já tenham dado pra todos caras de chevrolet, mesmo assim elas vão lá com vestidos caros e bundinhas rodadas e se apresentam à sociedade). Depois querem que o país evolua socialmente (ou melhor, os poderosos não querem). E enquanto houver essa classe média falida, com cabeça fechada e cheia de pose, o Brasil vai continuar a mesma merda com meninas pobres se fodendo com métodos precários de aborto, neguinho morrendo por causa de tráfico em morro (isso também podemos botar na conta dos universitários maconheiros e do Papa, por que não, né, antigo Nascimento?) e por aí vai . Falando nisso, um robô tucano me acordou esses dias pelo telefone. Me acordou e começou a falar mal da Dilma. Eu sei que não se deve pensar assim, mas eu quase decidi ir votar na porra da Dilma, depois disso, gritei ‘Viva o Aborto” pro robô tucano e ele se quer me deu ouvidos. Desliguei na cara dele e fui ver mais um episódio de Sons of Anarchy. É o melhor que um perdedor pode fazer depois disso tudo.

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13 Respostas to “perdido na tradução”

  1. Camila F Says:

    Eu sei que existem crianças deslocadas, só me identifiquei.

    Nem saquei esse texto ainda, logo mais leio.

  2. montenegro Says:

    hummm… a música do roxy music não seria “more than this” ?.Pô, é um clássico… abraço

  3. Caio Montenegro Says:

    No Rio, a galera só consegue olhar para o problema do tráfico, ao invés do da milícia, que agora é o problema principal, pois já é um modelo de máfia nascendo.O filme foi bom por mostrar o outro lado da moeda, o controle territorial da banda podre da polícia.A galera esquece que sempre atrás do crime, existe a conivência da parte suja da polícia, que resolveu acabar com os intermediários, traficantes, e ela mesmo exercer o controle territorial das comunidades carentes.O filme é bom, por mostrar isso.Os traficantes são uns fudidos, tão lá para morrer, é isso que aquele militante de esquerda no filme quis dizer.O foda é essa parte podre da polícia , que tem o respaldo do estado( são servidores públicos e exercem “a lei”) para fazerem merda.O tratamento de combate, tem que ser o tratamento de máfia, porque o é. Daí, o filme ser meio parado e calcado em escutas de telefone.O “sistema ” é isso aí, aludido o tempo todo no filme: o uso das prerrogativas do Estado, para fuder com tudo: cometer todos os crimes possíveis e ser inimputável (como já é em Brasília, só que agora com fuzil na mão e jogando diretamente os corpos na vala) . O Rio de Janeiro e o Brasil são isso hoje.Quer se queira ou não, isso só se resolve com uma atitude política por parte das pessoas através do voto e do conceito de cidadania.Abraço

    • brunobandido Says:

      Eu sei disso, Montenegro. O filme é bem feito e tudo o mais. Mas EU, como fã de cinema, acho o primeiro melhor. E acho que eles botaram essa politicagem massiva toda e justificada pra mídia achar bonito. Não tô falando que o discurso político do filme é errado ou algo assim. Tô falando que preferia assistir o capitão nascimento com faca na caveira batendo em maconheiro. Não que eu seja um dos babacas que o elegeu a herói nacional. Só que acho melhor ver uma carnificina sem culpa. Aí é que tá. Tá cheio de culpa e desculpa esse tropa de elite 2.

  4. caio montenegro Says:

    É, entendi o que você quis dizer: o filme descamba para um “moralismo” de fachada, soando hipócrita e “politicamente correto” muitas vezes, parecendo forçação de barra. Mas cara, isso é devido ao estilo de direção do Paadilha, que não”entra” no filme, não toma partido, apenas conta uma estória através de um viés, que esbarra na mentalidade médio classista.Sei que é foda, mas acho que o cara não tinha outra opção para contar essa estória.Pô, esse é um assunto tão polêmico e dramático, que não dá para simplesmente fazer um filme policial, tipo chuck norris, como tropa 1.O cara, quando toca num assunto destes, fica entre acruz e a espada, o cara vai ser criticado sempre: ou pelo tema, ou pelos governantes, ou pelo politicamente correto, ou pelo esquerdistas, ou pelos direitistas etc. o cara sabe que quando faz um filme destes, vai apanhar, vai ser criticado. Essa “visão”, foi a forma que ele encontrou para mostrar essa situação, talvez seja meio bundinha ou “cuidadosa”, mas o filme visa cumprir um objetivo: alertar para a predominância direta do crime no Estado, pelos caras que usam a lei para serem inimputáveis, agora não mais no escritório, em hotéis 5 estrelas, mas nas ruas e de fuzil na mão.Abração

  5. eve Says:

    Bruno, tô muito a fim de ler o teu “Guia Subterrâneo pra Relações Arrasadas”. Como eu faço?

  6. brunobandido Says:

    ele nem existe por completo e de fato, eve. são só uns contos que eu tenho juntado. beijo.

  7. caio montenegro Says:

    Gostei do texto do Mirisola, também. Mas também acho que o Padilha não perdeu sua assinatura, que é não tomar partido de nenhum lado, não se meter na estória, vide outro fime dele “Garapa”. Ele fez a mesma coisa nesse filme, que não é tomar partido e não fazer concessões. Como Pasoline e Céline, nunca comparando a obra destes com Zé Padilha, claro, mas sim em termos de integridade.Abraço

    • brunobandido Says:

      não acredito nisso de não fazer concessões. só pelo jeito que tu decidiu fazer algo, já é expressar alguma coisa e tomar algum partido. mas isso é um bocado chato pra se ficar discutindo, não é não. prefiro o papo sobre roxy music.

  8. montenegro Says:

    Aí, Bandido, achei maneirão, segue embaixo a tradução, para ler acompanhado de Roxy Music, abraço:

    Hur skall inte dem

    Som inte kan blunda mot ljuset

    Av brist på ögonlock

    Inte även i nattens mörker

    Se ett outhärdligt ljus?

    Ljuset av smärta

    Som är av kärlek

    Så som av näktergalen förvandlat

    Till strupljud, sång, kallelser

    Inbillade gnistor, önskningar

    I en evig natt?

    Como podem aqueles

    Que não conseguem fechar os olhos para a luz

    Por falta de pálpebras

    Mesmo na escuridão noturna

    Ver a claridade insuportável?

    Luz de dor

    Que é a do amor

    Como o rouxinol transformado

    Em estridência, música, chamado

    Fagulha imaginada, desejada

    Em uma noite eterna?

  9. montenegro Says:

    Ah, esse poema tá no blog do Jorge Cardoso, linkado no blog do Mário Bortolotto.

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