tem um vento insano e ele se chama crocodilo

Na quinta ela tava me esperando no bar coaquela cara de coruja sofrida pronta pra destilar verdades absurdas sobre a minha nada sóbria pessoa. Verdades tão contundentes que me fizeram, por quase um segundo, pensar em mudar. Mas claro que isso é bobagem e impossível – mudar, que piada – e daí eu ali bêbado feito um gambá escutando todos motivos cruéis que faziam o maior sentido, ela seguia, e parou, e parecia cansada, realmente cansada, quase sofrida, eu não aguentava mais aquilo, nem ela. Algumas frases canalhas de Joaquín Sabina passavam pela minha cabeça, preferi não falar nada, mas também não baixei a cabeça, a gente dá um poder pras pessoas quando se baixa a cabeça na frente dela, um poder que ninguém no mundo merece. “Tu tem que parar de assistir todos esses filmes do Almodóvar”, eu falei e levantei e fui embora pra casa mais cedo, não era nem uma da manhã ou sei lá, as músicas do Reny soavam na minha cabeça e os julgamentos dela eram tão certeiros que mais pareciam condenações. Acho que entrei na Internet combinei porres pro dia seguinte e dormi com o colchão girando.

 

Trabalhei de ressaca na sexta-feira. E ia pro show de blues e já tava tomando uma dose da garrafa de Jim Beam, que comprei no Uruguai tá acabando lá em casa. Aí ela liga e pede desculpas e diz que se passou ontem a noite, que as crueldades que me falou foram exageradas. É claro que não foram. Eu sou aquilo mesmo e ela parece ter mais medo de aceitar do que eu. “Quando tu bebe, tu lembra o meu pai”, foi o que ela disse. “Tu já reparou que todo mundo que bebe te lembra o teu pai?” Aí eu perdi o horário do show de blues e  bebi em casa e fui num aniversário com o Rodrigo, tava uma merda e fui beber sozinho em outro lugar mais calmo, mas cheio de luzes. Merda de noite.

 

Viajei de ressaca no sábado, a tarde inteira dentro dum ônibus. Chego por aqui e tudo segue o mesmo. Meus amigos antigos tão na cidade. Saio com eles. Bebo pra caralho, o recorde da semana, é sempre o recorde quanto tô por aqui e com meus amigos antigos. Se ela me visse, certamente, eu lembraria o seu pai. Hoje acordei sem ressaca, mesmo com toda a bebida. É triunfante isso, acordei cedo e dei as caras pra rua com ar de vitorioso, mesmo depois de tudo, eu tô aqui, inteiro e intacto, acreditem, apavorem-se coa minha estabilidade, eu quebro bares, destruo imagens estruturadas, arraso com meu próprio coração e levanto em pé, pronto pra tudo isso de novo agora, na mesma velocidade maluca – cortaram os fios do freio e eu não dei a mínima bola pra isso, eu não preciso de breques, engov e alka setzer, eu preciso de verdades arrasadoras que me lembrem a merda que eu sou e que não posso fazer nada quanto a isso, ninguém pode tirar de mim a minha escrotidão. Penso em dar conselhos a ela. Algo como “pô, garota, descarta os discos de jazz e as cartas de tarô e os documentários dublados da discovery channel, ei garota, descarta tudo aquilo que te faz lembrar que tu é triste e que isso não tem cura. E, garota, quem sabe, de repente, só pra testar, me arrasta pela mão me levando pra lugar nenhum, pensando em flocos de neve, ou qualquer coisa do tipo. Volta pros Beatles sem psicodelia, esquece o Roberto, mas continue com o Erasmo – disso eu faço questão – e, depois, só pra testar, me descarta também. Vai ser melhor assim, acredite.” Sim, é nisso que eu penso enquanto caminho. A cidade tem um vento de noventa quilômetros. Árvores caídas pelas calçadas, coisa de louco. Volto pra casa descabelado, “Porra, tem um puta vento lá fora”, eu digo. A minha mãe fala que é sempre assim antes do dia dos finados. Um vento fica por uns dois dias e pára no feriado. Desde que ela é criança é assim. “Dizem que são os espíritos voando por aí no dia deles”, ela disse. Quem sou eu pra negar? Vejo Supernatural e Two and a half man com o meu irmão. Vou almoçar fora com ele e volto. Tento entrar na internet coesse meu notebook estropiado, descubro que não tá dando porque meu irmão desligou o moden. “Eu vou reiniciar pra ver se volta mais rápida”, ele diz, “tá demorando mais que o costume pra carregar os vídeos no Red Tube”, quem sou eu pra negar? Indico o Tube8 (eu prefiro esse), mas ele parece não levar muita fé. Não insisto e caio fora. As coisas tão tranqüilas, mesmo com todo esse vento.

 

 

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11 Respostas to “tem um vento insano e ele se chama crocodilo”

  1. mariel reis Says:

    curti, muito. Bruno tá de parabens pela postagem.

  2. Kleber Felix Says:

    Du caralho Bandido. abraço.

  3. camila Says:

    “eu preciso de verdades arrasadoras que me lembrem a merda que eu sou e que não posso fazer nada quanto a isso, ninguém pode tirar de mim a minha escrotidão”.

  4. Adriana Brunstein Says:

    Coruja sofrida é ótimo!

  5. Adriana Godoy Says:

    “As coisas tão tranquilas,mesmo com todo esse vento.”

    Bandido, gosto tanto de seus textos, me faz lembrar de mim há algum tempo. E vc escreve com tanta propriedade e audácia e joga o vento na cara e isso é bom. Um beijo.

  6. Kleber Felix Says:

    tô vendo se rola pro inicio do ano, mas aquela história que te falei, o “Gatos vadios esperam na esquina” antes.abraço.

  7. maitamb Says:

    putz bruno, fiquei com muita vontade de mandar essa parada prum ex. tenho quase certeza que eu fui ela várias vezes e ele você. que merda.
    mas no fim que massa, tu escreve bem pra caralho.

    • brunobandido Says:

      é normal. garota. chega uma hora em que as mulheres precisam de algo mais do que estirpes como eu (e provavelmente seu ex namorado) têm pra oferecer. coisas como certezas, ou qualquer coisa assim. o importante é não desesperar. um beijo.

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