O MAIS LONGE DE UM DISCO DO JARDS MACALÉ QUE A GENTE PODE CHEGAR (ou seria Van Morrison?)

Lady Lu entra no apartamento e encara minha ressaca e estranha a limpeza do ambiente. Ainda não conhecia o meu novo e futuro ex-lar.
Tu deixa aqueles porteiros te abrirem a porta? ela pergunta.
Eu disse que eles não precisam e ficaram bravos comigo. Acho que sou antipático até quando faço alguma gentileza, eu falo e olho sua beleza sentar no sofá – ainda joga com os cabelos, ainda é bonita como sempre vai ser. Uma mulher com um bom par de olhos jamais perde a beleza. Tem escrito muito? Lady Lu me pergunta. É claro que não, olha o tamanho dessa tv, eu fico vendo filmes aqui o tempo todo. E fico triste pra caralho. Mas é muito bom assistir um filme nessa tv.
É isso que eu chamo de tela. Quantas polegadas tem?
Sei lá.
Eu assisti um do Cassavetes no sábado, A morte de um bookmaker chinês.
Já vi.
O que tu tem assistido?
Ontem eu vi os dois De volta para o futuro. Me dormi na hora do terceiro, antes dos caras do ZZ Top aparecerem, que pena, daí acordei de novo e fiquei vendo um episódio qualquer de House. O House é ainda mais triste do que eu, mas isso é porque ele é um gênio.
Sento ao seu lado e bocejo e ela ri da minha cara de nada. Carrega uma HQ do Calvin e Haroldo e aquelas pernas que sempre chegam e trazem de volta o meu estado de espírito. Eu gosto de pernas e de bundas e de olhos e, não é o caso de Lady Lu, mas é muito difícil eu achar uma mulher feia mesmo que ela não tenha grandes qualidades nesses atributos. Lady vai ao banheiro e olha o quarto onde eu durmo e faz um pequeno fiasco disfarçado de piada sobre o péssimo estado dele. É isso que eu chamo de bagunça, dá pra ver que é aqui que tu passa a maior parte do tempo, ela diz e deve tá se referindo a todas as latas de cerveja amassadas e a garrafa de Dreher pela metade e o vazio que aparece por trás do rótulo de Jim Beam. Pena que o Jim Beam acabou, ela ronrona e É, eu e o meu fígado sentimos saudade, respondo e daí levanto e vou em direção ao quarto, ela tá parada na porta, sempre fica linda parada na porta do meu quarto, mesmo que nunca tivesse sido esse o meu quarto, sempre fica linda parada nas portas e olhando pra mim – Ela é bonita demais e esperta demais. Só isso. Claro que não foi o que ela disse quando deixou de me aguentar. Não lembro bem quais foram as palavras, mas deve ter culpado a bebida e o ritmo que eu levo a vida e o jeito angustiado e quieto e quase católico pelo qual me culpo por tudo isso. Elas sempre usam essas coisas como desculpa. Isso funcionava quando eu era um panaca e não sabia que se aparecesse aquele personagem idiota do Adão Iturrusgarai – o Homem Legenda, ou algo assim, ele diria “Eu achei um cara mais bonito e com muito mais convicções do que tu” e sairia rindo e voando por aí, pronto pra aparecer em mais uma tirinha ridícula e sem grande criatividade na Folha de São Paulo, enquanto Lady Lu viraria as costas e iria embora tentando ficar ainda mais aborrecida, mas logo se enroscaria nos braços convictos de um carinha cheio de poder. Bem, eu finjo que acredito nessa história de bebida e tá tudo certo tanto pra um quanto pro outro. Havia algo de romântico na época em que eu acreditava que as mulheres realmente me largavam por causa da bebida. Acontece que se eu não virasse amigo do fracasso, eu seria tão pateta quanto um fiscal do IBGE que caminha de porta em porta enquanto a esposa dá pro cunhado ou algo assim. Algo parecido com qualquer tipo de homem desses que dividem os ônibus circulares coa gente todos os dias. Acho que eu tenho uma ou duas latas na geladeira, anuncio. Lady Lu diz que prefere o conhaque. Gosta de se fazer de durona quando tá comigo. Gosta de parecer a garota mais malvada da cidade. Na real, claro que ela tá querendo dar pra mim e claro que não precisaria fazer todo esse jogo, porque é claro que eu tô na fissura desde que ela bateu na porta e é claro que a gente ainda finge que é amigo pra facilitar essas recaídas de vez em quando, então, quando um ou outro aparece dando oi e perguntando da vida, isso é mais do que uma primeira intenção. Ela joga e banca a cena tentando deixar a carência um pouco mais digna – o que é um bocado ingênuo, vocês vão convir, mas o lance consiste em enganar a si mesmo e não ao outro. Tudo bem, vai ver ela só tá a fim de beber conhaque vagabundo no gargalo como nos velhos tempos – vai saber se esses carinhas de convicções dão tais liberdades a uma guapa de ricas pernas e graciosa bunda. Vai saber se eles não oferecem um certo tipo de constrangimento em troca de diversão. Ela bebe e eu bebo e nos beijamos e, porra, concordo com o Bukowski e com o Cazuza nesse ponto, o beijo é sempre mais íntimo do que o sexo, fico de pau duro com um beijo e é isso, a gente fode umas três vezes entre longos beijos úmidos e acordamos no outro dia molhados e melados e prontos pra mais alguns beijos e, quem sabe, uma foda rápida no chuveiro. Ela anda nua pela casa, escuto seus pés descalços no banheiro, olho sua calcinha no chão, desconheço, é nova, pego a calcinha, cheiro, admiro por um segundo ou coisa do tipo e volto a me atirar sobre a cama.
Não tem perigo de alguém entrar pela porta? ela pergunta.
Acho que não, eles costumam avisar quando vêm.
E se eles avisaram ontem de noite, por e-mail ou sei lá, que iam viajar… E se te mandaram uma mensagem da estrada? Onde tá o teu celular? Porra, a casa é deles, não precisam ficar avisando, só precisam abrir a merda da porta
Por que tu tá preocupada com isso?
Porque eu tô pelada, ela diz e dá a descarga e acho que nem ela sabe o que tá falando. Levanto e pego uma lata e fico bebendo. O que tu vai fazer hoje? ela pergunta. Digo que não tenho planos e admiro aquela imensa tela de tv e os dvd’s gravados espalhados pela casa. O dia tá lindo lá fora e eu nem ligo pra isso. Ela relembra alguma história engraçada de antigamente e ri um bocado e eu falo qualquer coisa que a faz rir ainda mais, gargalha e diz que tem certeza que a gente se amava um bocado e para coas risadas e parece meio triste agora e pergunta se eu tenho ideia do número de vezes que escutamos o Moondance do Van Morrison no escuro do quarto. Eu mando um gole. Sabe, ainda bem que as coisas não acabaram contigo lavando nossos pratos aos prantos como uma espécie de Kate Winslet naquele filme Revolutionary Road. Na verdade, não é bem isso o que eu digo, mas é algo parecido e ela me olha e fala O problema é que ainda não acabou e ela tá certa.
Eu vi um brinco perdido no teu quarto, é de uma guria legal?
Ela é bacana. Jammie. Mais nova do que eu.
Sério? Isso é o que eu chamo de um milagre.
Pois é. Ela estuda ciências aeronáuticas na PUC.
Aeronáuticas? Tipo, pra pilotar avião?
Acho que é.
Acha? Ela nunca te disse?
A gente não conversa muito, quer dizer, a gente fala sobre umas séries americanas de tv e ela me conta coisas idiotas sobre templos budistas e histórias do seu irmão.
Hah, o irmão dela é monge?
Não. Acho que ele é retardado. Mas não prestei muita atenção. Jammie é uma boa garota.
Não vai me oferecer a cerveja?
Eu só tenho duas latas, respondo e Lady Lu rouba a bebida da minha mão e toma um gole mínimo e devolve e se veste devagar, meu pau se anima um pouco com ela vestindo a calcinha, as pernas peladas, a falta que elas me fazem no inverno, os delírios quentes que elas me proporcionam quando volto pra casa sozinho com conhaque transpirando na pele em uma noite escaldante de janeiro – é quase dezembro, sigo mandando a cerveja. Assisto calado ao espetáculo de sua partida.

 

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7 Respostas to “O MAIS LONGE DE UM DISCO DO JARDS MACALÉ QUE A GENTE PODE CHEGAR (ou seria Van Morrison?)”

  1. Helena Hutz Says:

    Tô indo praê, einh? Dia 10, hope so! Meu, me linka no Língua Pop (nunca pedi algo do tipo, mas entrei hoje por acaso e quis ler linkada – pronto, falei!).
    Um beijo e inté, nos vemos!

  2. Luciane Says:

    Oi Bruno, fiquei um tempo sem ler seu blog, mas hoje com saudades voltei … leio vc quando fico um pouco triste, nem sei bem porque, mas é isso… adorei esse post. Até mais!

  3. Sandro Rocker Says:

    Legal ter voltado aqui e deparar com um ou outro texto seu…Forte abraço!

  4. Adriana Godoy Says:

    Bandido, gosto de vir aqui e nunca me decepciono. Bom te ler mais uma vez. beijo

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