rock’n roll y fiebre

Foi bacana acordar de madrugada pelo calor e assistir O Espantalho (aquele com Gene Hackman e Al Pacino). Gosto um bocado da primeira cena desse filme. Ela já dita a personalidade dos personagens, e tudo o que eles podem vir a fazer, quase sem nenhum diálogo e com muito silêncio. É bom topar com uma cena dessas quando a gente tá meio que desolado. Como esses dias quando eu abri uma revistinha na casa de uma amiga e achei esse poema aqui:

Poetas moram dento de seus poemas

Um saxofonista tirando à tarde a canção
que tocará à noite.
Poetas moram dentro de seus poemas.
Alguém nadando no mar quando a gente
perde de vista.
A cantora exaurida subindo as escadas
como os sapatos de salto numa das mãos.
Onde se mede a febre da cidade.
Ouvindo até quase não suportar a faixa
mais linda do disco.

 (Marcelo Montenegro)

A tarde não foi um desastre total. Minha amiga não quis dar pra mim e, então, só ficamos assistindo Rain Man na Sessão da Tarde, mas depois eu levei a revistinha embora. Miroir é o nome dela (da revista, não da amiga). E também tem um outro poema muito bacana do Marcelo Montenegro chamado velhas variações sobre a produção contemporânea – longo o suficiente preu ter preguiça de copiá-lo aqui, comprem a revista, ou sei lá.

Gosto quando encontro bons poemas, porque realmente acho poucos poetas bons. Mantenho alguns por perto – como e.e cummings, Dylan Thomas, Bukowski,Gregory Corso, Allen Ginsberg, Frost, e alguma coisa do Ferlinghetti – mas ainda são poucos perto das dezenas de escritores de romances e quadrinhos que carrego comigo por aí. Teve um tempo em que eu lia Rimbaud com mais freqüência também – sei lá. Na verdade, eu comecei a me afastar da poesia quando cheguei em Porto Alegre e as personas da maioria dos poetas da província me pareciam chatas e afetadas – e não dá pra distanciar o poema do escritor quando o cara faz aquele tipo Carpinejar lifestyle e parece querer chamar mais atenção do que a própria poesia, ou ser a poesia ou qualquer merda do tipo, certo? Não sei, claro que é tudo bobagem minha, mas a poesia me parecia algo mais agradável quando eu morava numa cidade pequena onde não existiam poetas. Na real, os afetados não são o meu tipo de poeta. Nem os concretos, nem os que só jogam com palavras sem dizer coisa nenhuma. Gosto do Torquato Neto e gosto do Tavinho Paes e gosto do Roberto Piva e daqueles que se fizeram no meio do rock nacional como Bernardo Vilenha e Alvin L.

O negócio é que vibro quando descubro poesias como as do Marcelo Montenegro numa revista que folheei por tédio, malucos que medem “toda a dignidade humana num abraço tímido” e escrevem versos sobre caras que empurram o filho no balanço com uma mão e equilibram o cigarro e uma lata de cerveja na outra.
Olé!

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12 Respostas to “rock’n roll y fiebre”

  1. Mário Bortolotto Says:

    Grande Marcelo Montenegro. Que bom saber que os poemas dele andam circulando por aí e fazendo bem pra outros amigos espalhados pelo país. A revista “Miroir” é editada pela Priscila que é outra amiga nossa. Grande abraço.

    • brunobandido Says:

      Muito bom os poemas dele, eu já devia ter ido atrás do livro dele. Vou ir. Não conhecia essa revista, inclusive tem aquele texto bacana teu lá sobre a Helena Ignez. Deve ter ficado bom esse filme também. Faz tempo que eu espero por ele.
      Abraço.

  2. Diego Moraes Says:

    Entendo bem: na minha terra tem uma velharada que pensa que é Monumento de praça pública ou nome de Escola e esquecem que o mais importante é a poesia e as vezes empata a foda de novos poetas. é o caso do Fantasma “Thiago de mello” que está há pelo menos quarenta anos declamando o mesmo poema:”estatutos do homem” e nega-se a reconhecer a nova cena.

    Escritor que vive falando de imortalidade já está morto.

    valeu.

  3. Adriana Brunstein Says:

    Totalmente dispensável e redundante elogiar teus textos, mas tiradas como “Carpinejar lifestyle” são impagáveis.
    Um beijo.

  4. Sérgio Says:

    Muito foda o poema. Muito foda “O espantalho”. Vi esse filme há séculos, deu vontade de rever. Abraço.

  5. roberto Says:

    e do leminski, tu não gosta?

    • brunobandido Says:

      gosto. não sou daqueles superfãs. acho alguns poemas dele bem bacanas e outros mais ralos. as vezes me parece melhor publicitário que poeta, aliás, acho que o leminski teve a manha de transformar publicidade em poesia. e talvez isso seja um mérito, não é?

  6. Camila F Says:

    minha mãe viajou há pouco tempo e encontrou o Al pacino, tirou foto e as porras que inveja dá um pouco
    edaí.

  7. marcio santana Says:

    Diego Moraes fala muito de vc por aqui, gosta do que tu escreves, inclusive falou do seu blog NO qual resolvoi dar uma olhada. também escrevo, se puderes dar uma coinferida no meu blog, ele tem um nomezinho afrescalhado assim como seu autor, mas é sempre bom manter contatos com outros escritores…
    se pintares por lá, meu nobre bRUNO, deixa um comentariozinho…
    abraços e parabéns pelo espaço.

    marcio-santana.blogspot.com (O LEQUE)

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