o blues que lázaro foi esquecendo

Todos somos ladrões, ela me diz e então se ajoelha e fecha os olhos cruza os punhos reza e roga pra que eu seja pego – coa mão na massa, inclusive. O que eu posso fazer? Ela se preocupa comigo. E tem um escapulário. Se deita depois da oração e gosta que eu durma enrabando, bem, o seu rabo. Coxas e tudo o mais. Sem problemas, big boss. And a little rain never hurts no one, o Tom Waits sussura em seus ouvidos, Máquina de Ossos, enquanto arrepio o seu pescoço. A garota tem a sua tristeza, posso sentir isso só de enrabá-la, a sua melancolia é uma inquietude que já nasceu velha. Fala sobre aviões e do formato das nuvens, fumaça sobre a água, shows do Frank Zappa – o cara era inteligente, mas que puta música bem mala sabia fazer. A lua, só faltava ela falar da lua. Tendo a lua aquela gravidade que o homem flutua, merecia a visita não de militares, mas de bailarinos, ela cita. Nunca fui coa cara do Hebert Vianna. Não entendo nem os militares nem a droga de um ballet. Já namorei uma bailarina e acho que nem ela entendia todas aquelas coisas. Já bebi com muitos milicos que também não entendem direito os seus sentidos. O Sal da Terra e coisa e tal, vocês sabem. Uma vez, meu amigo caminhando de farda no centro da cidade depois de um fim de semana de plantão no quartel e mais quatro noites na prisão por beber em serviço e levar sua namorada (que também era bailarina, vejam que coincidência!) pra dentro da guarita onde ficava, me dizia inconformado “Eu não entendo porque mandam a gente fazer tanto esforço, Bandido. Parece até que tão nos treinando pruma guerra.” Eles tão treinando vocês pruma guerra, disse a garota bailarina, não a minha garota, a dele – a minha apenas sorriu.
E, por sinal, a dele entendia o sentido das danças e tudo o mais. Não que eu me importasse com isso. Ballet não é coisa pra brasileiro. Numa apresentação delas, os malucos ficavam gritando Dale Gostosa. Meu amigo, o do serviço militar obrigatório, ficou puto e trocou socos com um deles. Eu separei. Eles dois eram até amigos e acabaram a noite bebendo e conversando sobre as vantagens sexuais de transar uma bailarina, coisa assim.
fiquei quieto
concordando com
sorrisos discretos
Double sense. Chumbo grosso, chapa quente. Vendo hoje em dia, me parecem bons tempos. Nós éramos dois malditos andando pela cidade com uma bailarina pra cada um. Bailarinas estudantes do ginásio, colégio particular, seja como for. Garotas de boas famílias – elas bem que podiam ler a tradução de Like a Rolling Stone – papai e mamãe que nos detestavam. Não parece nada mal. Mas não era o que eu achava naquela época. Eu não aguentava mais a cidade e qualquer espécie de relação, eu não aguentava as palavras cidade e relação. Injustiça. Meu problema nunca foi coa cidade e, sim, coas pessoas que vivem nela. Enfim, eu tocava baixo e tinha inúmeras bandas de garagem com instrumentos horríveis e baratos. Eu lia o Livro do desassossego no jardim de grama alta que jamais foi cortada. Malditas formigas. Hippies, seus bobos, já dizia aquele rockeiro argentino. Eu não aguentava mais um monte de coisas e ficava quieto, sempre quieto, como um gato a espreita de algo que ainda não sabe direito o que é. É ruim não saber pronde ir e saber que não dá mais pra se ficar onde está. É o tipo de coisa que faz o homem virar eterno perdedor. Quero dizer, ninguém vai encarar tua fossa e dizer Brother, levanta-te e anda – e pronto,  pá pum!, cê tem um destino, uma donzela pra salvar, keep walking and win, live and let die. Como foi que o Lázaro morreu? Alguém sabe?
Naquela época eu fiz um rock que começava assim: “Eu não tenho mais onde enfiar a minha antipatia/ E essa solidão é pequena demais pra nós dois”. Era uma canção sobre amores inconvenientes, uma canção que dizia que o erro de um bom filho é o fato dele sempre voltar para casa. Poderia ser um folk, eu acho. Poderia. Acho que sim. Mas eu tava falando sobre as orações dela e sussurros do Tom Waits. Dela acariciando o meu pau e perguntando se eu sou judeu. A guria se levantou e foi preparar um sanduíche. ‘Quer um?’ Pode ser, mas lava bem essas mãos. Levantei e a gente comeu assistindo o Chapolim Colorado. Durante o dia, ela limpava os ouvidos com a unha de algum dedo qualquer e limpava a unha esfregando os farelos de ceira na calça de ginástica. Boas pernas. Aquilo me dá um puta de um tesão. Louco? Que se foda – e ela’inda tem um escapulário. Agora, a gente quer ir no cinema mais tarde. Ela quer ver Amor por contrato e eu 72 horas, nenhum deve ser grande coisa, eu não gosto do ator de 72 horas, mas até que gosto do ator do outro filme, de qualquer jeito, melhor gastar esse dinheiro em uma garrafa de vinho. Aquela coisa de sentar no tapete com línguas e dentes tintos. Até parece que a gente se ama. Pruma mulher me amar tem que ser maluca ou cega e talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

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2 Respostas to “o blues que lázaro foi esquecendo”

  1. Fábio Reoli Says:

    Essas minas ainda fazem um blues valer a pena.
    Du caralho, Brunão.
    Grande abraço.

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