(bêbado e sereno às 7hAm, ou) Sobre aquele veneno que matou o Van Gogh

Às vezes eu fico procurando na cidade alguma coisa que me deixe chocado, desesperado, que me faça roer a carne dos próprios ossos e amar e fingir que amo qualquer coisa que coce e morda. Escrever um texto do mal sobre coisas do bem. Qualquer forma de adição. Me drogar no beco mais perto da tua casa não é tatear no escuro, desconstruir calabouços filhos da puta cheios de coragem paralisada. Nossa, como você é viado, você diz, Coragem paralisada é só um punhado de covardia. Você diz, você diz. Você diria.  Eu nunca fiquei chocado com nada. Eu não entro em desespero. Eu sou a porra de um nada que caminha e chora escondido nos finais dos filmes de luta que insisto em rever – uma série de repetições que me emocionam, solidão mais solidão, a gente dividindo o colchão de solteiro. Você diz, você diz. E entra no meu apartamento fechado pra sempre e ouve meus protestos quanto a abrir a janela e fala que Van Gogh morreu devido a complicações por causa de um veneno que lugares bem fechados por muito tempo produzem. Falta de ar puro ou sei lá.  “Não só o Van Gogh, vários artistas famosos e malucos e, de certo, não-artistas malucos – como você – morreram por causa disso, enclausurados em casa, persianas pregadas”.  Eu sempre desisto de procurar na cidade e me tranco aqui – sem desespero e sem choque. Gibis velhos do Bonelli, conversas bobas através da internet, onde é que eu e o mundo fomos parar?

Então você senta e fica imóvel, eu olhos pras suas pernas, imóveis, e chego a pensar que nunca mais vão se mover. Aí você sai do pensamento profundo e me olha e mexe as pernas só um pouquinho, desgruda umacoxadoutra, e volta a ficar completamente paralisada. Corta o meu barato. Fico lembrando que quando eu era criança e via minha mãe dormindo e sempre pensava que ela podia tá morta. Daí eu tentava escutar seu coração e não conseguia, até que ela fazia algum movimento, ou respirava profundo e tudo de volta ao normal. Minha mãe era perfeitamente saudável. Não dava sinais de que podia morrer sonhando a qualquer momento ou merda do tipo, mas mesmo assim eu sempre pensava nisso. Uma vez eu fiquei horas e horas olhando e ela simplesmente não se mexia nem respirava forte, tentei achar seus pulsos e nada, daí eu coloquei meus dois dedinhos de criança bloqueando suas narinas pra ver se sentia algum sopro de respiração. Senti, ela acordou no susto e perguntou que merda eu tava fazendo. Não falei nada, deixei que praguejasse qualquer coisa e voltasse a dormir. Fico imaginando se ela chegou a pensar, nem que por um momento apenas, que eu tentei tirar o ar dela ou algo do tipo. Há a possibilidade d’ela ter sentido um segundo de medo, quem sabe até mais! Finalmente você fala e acaba com meu silêncio. Eu respondo que só quero ficar quieto por mais uns instantes. Cê levanta as suas saias em direção a cintura e a calcinha é azul. Eu sei que você sabe, foi você que levantou as saias pra mim e foi você que escolheu a cor da calcinha, não preciso escrever isso pra você mesma nem pra nenhum vagabundo que, de repente, vá chegar até aqui de algum jeito – mas é que depois de tanto tempo, cê ainda reclama que não sabe o que eu sinto.

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19 Respostas to “(bêbado e sereno às 7hAm, ou) Sobre aquele veneno que matou o Van Gogh”

  1. Mauricio Bach Says:

    Dae Bandido, faz tempo q num te escrevo nada, mas vai uma dica ae, no canal Space nesse sabado(12/02) a partir do meio dia vai rolar um especial de filmes de boxe, pela propaganda acho q ja assisti todos, mas filmes de boxe sempre é bacana.
    e vc escreveu do Hunter Thompson, ainda num li nenhum livro dele, qual vc me indicaria pra começo?
    e vc tem o Gutemberg Blues do Bortolotto né?
    temos que conversar sobre esse livro.
    falow. Abraço

    • brunobandido Says:

      Eu não tenho canal space. Mas vou procurar algum brother que tenha. Valeu a dica. Cara, tem o Medo e delírio em Las Vegas, o mais famoso, e um muito bacana que ele fez sobre os Hell’s Angels e que nem é tão gonzo, meio que precedeu o gonzo, mas é foda. Ele apanhaou afu pros caras. Li sim o Gutemberg. É foda. Grande abraço.

  2. Camila F Says:

    Não-Choques e desesperos. Incrível que eu entenda dos dois com tão perfeita ordem. O primeiro paragráfo desse texto tá incrível, flui de uma maneira muito diferente. Achei lindo, não sei. Não que o segundo esteja ruim, mas o primeiro é de tirar o folego. Beijo.

  3. Paulo de Tharso Says:

    Você sabe como balançar os neurônios, velho. Seremos os últimos a kaminhar com a bandeira tri-colore dos legionários. Um pedaço do vermelho, um outro azul e um branco, dentro da jaqueta de kada hum e uma bala no rifle, kazo sejamos cerkados pelo inimigo.
    Abraços

  4. Pedro Pellegrino Says:

    Matou a pau com esse texto!

  5. adriana godoy Says:

    Bandido,seus textos são fodas. Adorei. beijo

  6. helena hutz Says:

    Tchô falar. Eu achei o meu livro do Artaud. Agora tenho dois, já que tu me deu. Quer que eu devolva? Beijo.

  7. helena hutz Says:

    Claro, quando a gente se “pechar” (???)!

  8. Camila F Says:

    Digamos que foi um bom aniversário, mas a comemoração no sábado foi bem melhor! hahaha.

  9. Sérgio Says:

    Do caralho!

  10. ricardo ara Says:

    boa velho!

  11. Mauricio Bach Says:

    vc nem escreveu mais nada e ja chegou o Medo e Delírio em Las Vegas, vou ver qual é.

  12. Gabriel Daher Says:

    Porra, muito bom.
    abraço, bandido.

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