Perdón por la tristeza

“Não sei o que tá acontecendo comigo, ontem eu tava tão bem e hoje tô tão cansado e indisposto. É como se eu fosse o Benjamim Button só que ao contrário” (Michael Scott)

Aniversários pra mim não fazem a menor diferença. A única coisa é que antes eu realmente me empedrava com algum produto nem tão habitual nesses dias específicos. Mas ontem eu só comprei uma garrafa de conhaque presidente e bebi durante a tarde depois que fui ao cinema assistir um filme independente americano com o Paul Dano no elenco. De noite bebi com o Couto sem tocar muito no assunto. No sábado a troca de horário me ajudou e pude beber mais coa rapaziada antes de chegar a segunda meia noite. Eu já ia fugindo antes da primeira, mas o Rodrigo Corcel tava chegando no bar e me pegou em flagrante, “Não precisa sair agora, bandido, quando der meia noite volta a ser onze horas”. Eu nem sabia que o horário ia trocar, então me sentei coa rapaziada e tomei mais umas antes de cair fora sem ninguém perceber. Vim pra casa e fiquei olhando Lights Out, uma série norte-americana com todos os clichês do boxe:

Pugilista com 40 anos, ex-campeão do mundo (ainda chamam ele de Champ, na zona em que vive e tudo o mais), diz que perdeu o título injustamente, a mulher fez ele prometer que ia parar, o cara esconde um problema no cérebro (só uma filha sabe e ele pede segredo), a academia que administra com seu velho pai e seu irmão (empresário garanhão e corrupto) está indo a falência, ele faz serviços de leão de chácara pra conseguir sustentar sua família no nível classe média que eles vivem, vive em constante conflito entre voltar a lutar ou não, além de treinar um jovem promissor e arrogante que pensa muito em dinheiro e que cai nas jogadas políticas e gananciosas dos empresários do esporte. Acho que não faltou nada. Isso que eu só assisti três episódios. Eu gosto. Poderia ser melhor usando tudo isso. Pode melhorar, pelo jeito. Mesmo assim é uma boa coisa pra se olhar bêbado e com insônia num aniversário.

Foi o Plínio que mandou eu ver essa série. Eu tava bebendo com ele sábado de tarde lá no Café Abc. Eu só bebo de tarde quando tô com o Plínio ou em ocasiões especiais. Não é a minha praia. Mas ele faz aniversário um dia antes de mim, e fez 50 anos naquele dia, tava mais triste do que o normal. Ficava me falando que eu já era da quinta geração de amigos dele, que todos casaram e se aquietaram e isso acontece gradualmente com todo mundo e ele, mesmo com filha e mulher, segue na boêmia. Não o culpo. Nem ele nem os amigos que se aquietaram. Ele culpa os caras, eu tava bêbado e tentei convencê-lo do contrário. Quase consegui. Também cantei pra ele uma canção do mestre Joaquín Sabina que combinava coa ocasião. “A mis cuarenta y diez / cuarenta y nueve dicen que aparento…” È a mesma que diz ‘perdón por la tristeza’.

Encharcado de bourbon, me despedi. Recusei gentilmente o convite pra jantar coa sua esposa e família e fui beber coa rapaziada onde uma garota, que eu não conheço mas tava na nossa mesa, me alertava que o Kurt Cobain fazia aniversário no mesmo dia que eu. Era mesmo em tom de alerta que ela falava isso. Eu devia alertá-la por saber uma coisa dessas? Foda-se o Kurt Cobain, eu disse, naquela altura era só o que eu conseguia falar, ela riu, me convidou pra ir num show de uma banda de ‘rock’, recusei, ela me deu o telefone e saiu. Disse que eu ligasse prela no domingo, pra receber meu presente de aniversário. Foi isso mesmo o que ela falou. Pra receber teu presente de aniversário. Faltou só molhar os lábios – mas pra mim era como se tivesse molhado. Não lembro se eu ri ou se eu falei ‘foda-se o meu aniversário’. Era uma garota bem bonita. Pegou meu celular vagabundo, perguntou se ele tinha a mesma idade que eu e escreveu Kênia e o seu número. Kênia. Assisti o espetáculo de sua saída. Depois voltei pra casa bêbado pensando nas suas pernas e nas minhas férias e na possibilidade de eu ir pra minha velha cidade rever velhos amigos nessa semana. Acho que vou amanhã. Talvez eu ligue pra garota quando voltar. Ontem nem pensei nisso e agora eu vou almoçar arroz com galinha na casa da Gabi. Adiós.

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4 Respostas to “Perdón por la tristeza”

  1. adriana godoy Says:

    Bandido, vc faz dia 20/02, e o Kurt também. O meu foi ontem, dia 21. Então, foda-se pras nós todos, mas continue escrevendo. Sobreviver mais um ano tem que comemorar, mesmo que pelo contrário. Um brinde a você, um brinde a nós! beijo

  2. Ana Cristina Says:

    Véio, vc escreve pacas!!! Parabéns!!! Gostas de Caio fernando de Abreu, Clarice???
    Abraços.

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