Canções pra tocar no inferno

Todos sabemos que o Língua Pop sempre foi tomado por um enorme descaso da parte dos seus editores – que se resumem a Eu mesmo e ao meu comparsa ricardo ara. Eu tava escrevendo um texto sobre o novo livro do Mário Bortolotto pra próxima edição, mas como sei que ela só vai surgir quando o livro já não for novo (ele tá sendo lançado agora), nem me dei ao trabalho de finalizá-lo. Mas vou publicar por aqui o que eu já venho pensando sobre a bagaça:

O Livro é DJ – Canções pra tocar no inferno.

A parada começa com Stand by me, uma mulher sexualmente abusada e cerveja quente. Vocês leram o título, as canções aqui são pra tocar no inferno. Tem um cara que leva um cd do Ivan Lins pra tocar no motel. E se você for escroto e esperto o suficiente vai conseguir rir disso tudo – talvez a graça venha vestindo aquele jeans branco cheio de nódoas de lama, mas tudo bem.

Trazer o riso junto da culpa faz parte do mojo de Mário Bortolotto tanto quanto criar tensão faz parte da pegada de um Sam Packinpah. Não interessa se é conto, dramaturgia, poema, romance ou banda de blues. É tudo Bortolotto e ele é escritor – um escritor rock’n roll pra caralho, diga-se de passagem.

E eu me referi a ser escroto e inteligente – é assim que eu vejo os protagonistas desses contos. Malandros nada macunaímicos cheios de referências b’s, ou malditas, e uma espécie de solidão contemplativa. Diálogos rápidos e rasteiros carregados daquela espirituosidade cínica à la Philip Marlowe.

Cardan, o alter-ego do escritor já conhecido pelo romance Baganas na chuva, está de volta em alguns contos. Parece mais maduro, na verdade. Claro que a maturidade para um cara como ele passa muito longe de convenções como família constituída e emprego fixo. É um tipo de tranquilidade de quem já viveu muita merda pra ficar invocando desespero. A vida não é um jogo nesse livro, pra dizer a verdade, acredito que a vida não seja um jogo em lugar nenhum – mesmo assim, quem disse que não existe profissionalismo no lado selvagem? Só sobrevivem os profissionais, aliás. Pague pra ver.

Os temas seguem os mesmos. Quem conhece a escrita de Bortolotto sabe mais ou menos o que vai encontar. Isso é bom. Porque esse cara leva uma sinceridade absurda na sua literatura – e eu não tô falando de verossimilhança. Eu tô falando de alguém que vê poesia em um cara triste bebendo conhaque em copo de plástico pelas calçadas e tem a manha de roer o seu coração com isso. Emocionar coa simples imagem de um garoto solitário escrevendo uma frase certeira de David Goodis na parede do inferninho vazio esfumaçado. Divertir com casos sobre mulheres ou amizades que poderiam ser ouvidas como velhas piadas, antigas histórias, numa mesa de bar. E, ainda, surpreender com o belo O Evangelho segundo Madalena – dividido em três contos sobre os caminhos cruzados de um massagista ex-pugilista e três Copas do Mundo de futebol – talvez o melhor momento do livro.

O escritor escocês Robert Stevenson, ao comentar sobre o sucesso de A Ilha do Tesouro, falou: “Alguma coisa eu devo ter feito errado.” DJ – Canções pra tocar no inferno passará longe dos Best Sellers (que pena!). Bortolotto fez tudo certo. A bagaça é muito bem escrita e há um retumbante bom gosto página por página. É literatura que parece vir de um delta do Mississipi. Dos cadernos mancados de vinho de Charles Bukowski e Jack Kerouac. Do jazz, das garrafas de whisky e bares insuportáveis, bares suportáveis, demônios, santos, fossas, fodas, mulheres e amigos. Não há errado nem certo nessa história, há o jeito em que as coisas são e há um caminho honesto que se pode seguir. Ainda bem.

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4 Respostas to “Canções pra tocar no inferno”

  1. Eliana Says:

    Oi! Esse livro tem nas livrarias? Onde compro ele?

  2. Mário Bortolotto Says:

    Valeu, Bruno. Gosto da maneira que você vê (lê) o livro. Grande abraço.

    • brunobandido Says:

      Eu que agradeço, Bortolotto. Teus livros, peças e os antigos textos do teu blog sempre me proporcionaram uma espécie de ajuda (ou algo muito próximo disso). Abraço.

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