bêbado e pós churrasco (bêbado e precisando de afeto)

Nova rotina. Churrasco e depois eu ligo prela lá pela meia noite e pouco – sempre bêbado e precisando de afeto. Pego a velha moto do meu pai na garagem (ela tá cheia de teias de aranha, mas eu nunca limpo), vou pro centro e a trago pra cá. Ela cai fora às onze da manhã e tá tudo certo. Amanhã de novo. Relembrando velhos tempos e coisas assim. Enquanto ela passa a tarde de namoro tomando sorvete na praça, eu fico pensando na sacanagem e dou sequencia aos meus sonhos e planos bestas escutando o Cazuza cantar o primeiro disco do Barão e imaginando bobagens como acordar com sono e ir pra Bahia ou sei lá. Depois coloco um disco do Lynyrd Skynyrd, não consigo escrever porra nenhuma e fico de bobeira na internet lenta, rezando pra que o tempo passe lento desse jeito até depois do carnaval quando começa de novo o trabalho e o caralho todo. Não agüento mais, mas tenho que aguentar. Antes de eu ir embora, ela (outra ela) me disse: ‘eu prometo que vou te aguentar até não aguentar mais’, ela falou brincando porque isso tá numa velha canção que eu escrevi: “E ela não se importa se meus discos, meus gibis, minha bebida/ valem mais que o amor da minha vida/ e se toda a encrenca que eu cavo é procurando paz/ Ela disse que vai me aguentar até não me aguentar mais”. Algo assim. O nome dessa música, se não me engano, é A mulher mais linda da cidade e fala sobre garotas que se entediam e jogam cartas de baralho num chapéu. É a preferida dela. Embora também goste de uma que diz “E tu pode me chamar de vira-lata/ e pode me dizer até mais/ ou me algemar na tua cama todo o fim de semana/ E tu pode dar um soco na minha cara/ ou curar a minha ressaca com chá/ dizer que a gente se ama pros teus pais”. Isso é um refrão de um rock que fede a sexo e escrevi há uns dois anos atrás quando ainda passava três meses direto nessa pequena cidade. Lembro que escrevi o refrão pruma certa garota cabeçafraca que tava vendo Californication demais, embora o resto da letra fosse pra outras garotas passadas, é assim que eu escrevo as coisas, nada muito específico, geralmente. O tempo na cidade pequena é pequeno. Atravesso a ponte e é outro lado da vida e da moeda, lembro da velha balada grudenta do Andrés Calamaro que diz “A moeda caiu pelo lado da solidão” só que em espanhol. E, tenho de dizer, mesmo com ela por aqui e com outra garota que promete me aguentar apesar de todas minhas merdas e truculências, eu juro que me sinto só como nunca, e não sei direito se isso tem alguma espécie de cura. Porra, eu sou feio, burro e fechado e pareço tá numa época de sorte, mas mesmo assim, a moeda segue caindo no mesmo e velho lado. As garrafinhas aliviam, ajudam, mas não passa disso. Os amigos também. E o rock’n roll e os livros que tô lendo (tem um que fala de Deus e outro que a Adriana Brunstein me mandou, ela que escreveu, e é um bocado bacana). Mas nada cura, por supuesto. Amor e foda ainda não cabem no mesmo quadrado. Eu tenho outra música que diz “A minha antipatia não cabe mais nessa cidade/ E essa solidão é pequena demais pra nós dois/(…) Não acredito em felicidade/ e qualquer possibilidade de amar de novo/ não me interessa”. Porque pra mim felicidade não se compra nem engarrafada. Just a little joy. E velhas histórias repetindo e repetindo e repetindo até eu ficar com sono, depois daquela melancolia profunda pós-orgasmo, depois de toda aquela fumaça e comprimidos e canções inventadas e esquecidas consecutivamente. “Eu tenho uma garota/ e ela é a garota mais barra braba da cidade/ não nega boquete/ cura a insônia com radio head” e por aí segue la mierda e já são meia noite e meia e eu saí mais cedo do churrasco pra não atrapalhar os gremistas e tô precisando de afeto, então, tá na hora de usar o telefone, explicar que eu sou assim mesmo, pegar a velha moto do meu pai e tentar não me matar sem querer, de novo.

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5 Respostas to “bêbado e pós churrasco (bêbado e precisando de afeto)”

  1. Paulo de Tharso Says:

    Pô, véio: Legal o que tu escrevestes sobre o livro do Bortolotto. Ainda não peguei o meu. Outra koyza: Sexo não fede, bro. Tem um perfume e às vezes um cheiro forte.
    Abraços
    Paulo

    • brunobandido Says:

      É um bom livro, e pelo que pude perceber tu é um personagem até meio que constante dele.
      Acho que foi o Pablo Beato que me disse “Às vezes não importa o que você escreve, desde que feda a sexo, mira los rolling stones”. Mas se é fedor ou não, jamais me encomodei coesse cheiro, Paulo, muito pelo contrário.
      Grande abraço.

  2. Mimi Says:

    Obrigado por retratar o que eu estava vivendo no momento que li seu texto no blog!

  3. Adriana Brunstein Says:

    Que honra, seu matador!
    Um beijo

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