texto mal escrito pra burro esse. foda-se. (sobre dormir cedo, livros roubados, literatura e aquele colorado que só dá pra clientes colorados)

Não que eu não goste de dormir, adoro dormir. Mas amanhã tenho que acordar às seis da madrugada e é esse o horário que eu gosto de começar a dormir. Daí fico tentando dormir cedo e é uma merda. Leio essa história do X-Men desenhada pelo Milo Manara. Acabo com ela e leio a entrevista com o Milo, e o prefácio do Quesada e todas as preliminares do gibi e converso despretensiosamente na internet e fico pensando no que vai acontecer quando o Cash descobrir que foi um vampiro quem matou o magnata das represas. Foi um longo dia de chuva e eu devia tá cansado, mas tudo o que eu queria era beber e sair e, na boa, isso seria o melhor pra mim.

Assisti o primeiro tempo do jogo do Inter com o Rodrigo Corcel lá no centro depois que caí fora do trabalho, ele não pode beber e eu não bebi também por sei lá o motivo. Ele não gosta tanto de futebol como eu (bem que faz), então eu mal assisti o jogo porque o cara não calava a boca, aí no intervalo eu disse ‘Brother, vou embora porque quero escutar o segundo tempo sozinho pelo rádio’. Escutei. Foi uma goleada não mais que obrigatória. Antes, eu tava comentando com o Rodrigo sobre um conto do Marcelo Mirisola que tem um gaúcho, comparsa do narrador, que é um garoto de programa colorado que só aceita clientes colorados e tem toda uma tiração de sarro genial, que é muito mais do que uma tiração de sarro (e eu nem sei como chamar agora). Tem um bocado de cara afetado com sua gauchice que não ia gostar nada de ler esse conto. Não lembro se é do livro O Herói Devolvido, acho que sim. Deu vontade ler de novo. O Rodrigo me deu uma carona até o meu apartamento pra pegar o livro emprestado e eu não encontrei ele. Tudo bem que tava sem energia elétrica, mas desconfio que tenham me roubado. Alguém tem me roubado livros, venho desconfiando faz tempo.

Ladrão que rouba de ladrão, eu poderia pensar, mas porra, na época que eu roubava livros era sempre da droga de uma livraria com uma rede enorme espalhada por todo o país. Era difícil roubar livros dela. Era dentro de um shopping center, na maioria das vezes, e tinha boca de lobo e o caralho. Mas eu roubava e era muito bom nisso. Roubei verdadeiros catataus dela. Seria muito mais fácil furtar de amigos, ou sebos ou antigas bibliotecas, mas não, eu tinha esse caráter torto de bandido otário. Claro que não me orgulho disso. Há muito parei coessa coisa, pra deixar bem claro. Também não me orgulho de ter parado. Só acho que errei em roubar tudo aquilo de livros e HQ’s. Foda-se. Eu tinha um parceiro que tinha ainda mais caráter torto de bandido otário do que eu. Ele só roubava livros de autores mortos. Eu não. Roubei de autor nacional e vivo. Entre eles, que eu me lembre: um do Bivar, um do Marçal Aquino , uns dois do Lourenço Mutarelli (Jesus Kid e Natimorto), e três do já citado Marcelo Mirisola (O homem da quitinete de marfim, Joana a contragosto e Animais em extinção – e esse foi o último livro que roubei, acho que eu tinha uns dezoito). Sinto que devo presses caras. Na verdade, eu devo. Legalmente, inclusive. Mas o que quero dizer é que são todos livros muito bons.

Eu era uma ladrão que sabia escolher bem as coisas. Descobri Mutarelli e Mirisola nas estantes, lendo orelhas e contracapas, o Aquino eu já tinha ouvido falar, mas não tinha lido. E eles realmente me fizeram bem com seus livros. Pelo menos eu dei os livros do Mutarelli pra Alice Castiel e ela também se amarrou e emprestou pra uma pá de gente. Nunca mais vi eles e um monte de pessoas descobriram o cara. Não que isso me redima, mas é alguma coisa.

Se um dia eu entrasse num bar e topasse com algum deles teria a hombridade de mandar o garçom levar uma dose de whisky em suas mesas e cair fora dali (talvez um duplo pro Mirisola, já que foram três, embora O Homem da quitinete… e Animais em extinção não sejam seu melhores, todos merecem muito mais do que um duplo). A verdade é que eu devia pagar uma garrafa inteira presses caras e pra tantos outros escritores vivos ou mortos. Junto com o rock, o cinema, os quadrinhos e a bebida eles salvaram a minha vida. Por isso que eu tô sempre escrevendo que isso tudo vale mais do que uma grande mulher e um grande amor. E, pelo jeito, vou seguir escrevendo até cansar porque quase ninguém parece entender uma coisa simples como essa.

Também tem outra história de roubar livro. A única vez em que roubei de uma biblioteca. Isso sim foi uma verdadeira mancada. Mas a verdade é que o livro tava escondido e destruído e, quando eu o segurei na mão, a capa caiu e o miolo se dividiu em dois. Não podia alugar ele, só ler no lugar. E era a porra de uma biblioteca de universidade cheio de gente idiota. Quando a capa (que tem o código de barra que apitaria quando eu tentasse sair com o livro) caiu, foi como se ele me pedisse pra ser roubado. Quer dizer, não foi não, mas eu pensei assim no momento. E quando disse pro ricardo ara já arrependido ele pareceu concordar. Provavelmente iam jogar o livro fora, era o Abacaxi, do Reinaldo Moraes, o melhor escritor brasileiro na minha humilde opinião – e olha que só falei de cachorro grande nesse post.

Foi o primeiro livro que li dele. Mas, porra, se mais um ou dois caras pegassem esse livro na biblioteca, provavelmente, não iam se arrepender. Caguei mesmo. E pra quem não conhece Reinaldo Moraes, ele tem dois romances ainda melhores que o Abacaxi: Tanto Faz e Pornopopéia. Esses dois eu comprei quando já não roubava mais (acho que o Pornopopéia eu ganhei, na verdade). Sugiro que todos comprem, por sinal. Lembro que na época que eu tava lendo o Pornopopéia, o Mário Bortolotto teve aqui fazendo uma oficina e contou que era amigo do Reinaldo Moraes em alguma conversa com o Diones Camargo sobre o Raymond Carver. Eu ainda não tinha lido o Tanto Faz e ele disse que era esse que eu tinha que ler. Depois eu falei em Mutarelli e ele falou que era amigo desse também. Cara de sorte, eu pensei. Isso que depois li no blog dele que também era amigo do Mirisola. E do Bivar. Eu ainda não tinha descoberto a literatura do Bortolotto, depois só percebi que ele também é um escritor do caralho. Mas na real sorte é ser um fodido desajustado e descobrir todos esses livros, é como a primeira vez que um jovem solitário descobre Bandini, como quando Charles Bukowski era jovem e descobriu o Bandini (leiam a história dele com o fante em Cadernos manchados de vinho, tocante!), ou quando um guri de 14 anos ganha um novo amigo chamado Holden Caufield, ou como quando eu tinha 14 e além do Sallinger e de Misto Quente descobri Os Malditos do Paulo Wainberg, um dos livros mais bacanas que já li. O prazer dessas descobertas é o melhor da literatura, emociona mesmo. Faz até um certo tempo que isso não acontece comigo.

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8 Respostas to “texto mal escrito pra burro esse. foda-se. (sobre dormir cedo, livros roubados, literatura e aquele colorado que só dá pra clientes colorados)”

  1. Camila Says:

    bom, o melhor de tudo é que os velhos escritores sempre emocionam de novo. não importa quantas vezes tu leia o 1933 foi um ano ruim ou sei lá o que mais. Sempre dá pra acontecer de novo.

    • brunobandido Says:

      Novos ou velhos, emocionam sim. Mas aquele prazer da descoberta não rola mais, aquilo é o melhor que tem.
      Particularmente, não acho o 1933 grande coisa. Pra mim o melhor dele é Pergunte ao Pó. E o mais emocionante é Espere a primavera, Bandini.

  2. Camila Says:

    Uma hora tu acha um, essas descobertas sempre são bem por acaso. Faz um tempo também que não acho um assim. Dia desses eu vi um dum Luigi Pirandello que parecia muito bacana, tinha umas frases legais. Mas custava 68 paus e eu ainda não tenho sua velha manha de roubar livros em grandes livrarias haha. Ah, eu acho o 1933 muito lindo, sei lá, eu gosto daquele final triste pra caramba. Ainda não li o Espere a primavera, Bandini. Mas vou comprar logo mais, tá vendendo ele junto do Pergunte ao pó por 10 paus. Pena que já tenho o Pergunte, mas tá tranquilo.

    • brunobandido Says:

      Espere a primavera é bem mais bonito que 1933. Tá valendo esses dez mangos, vende o pergunte ao pó num sebo depois. Um dos últimos que eu descobri e achei foda foi o Tanizaki, descobri lendo umas crônicas do Mirisola, inclusive.

  3. Gabriel Daher Says:

    Também prefiro o “Espere a primevera” ao “1933”, mas acho ambos belíssimos, e comparar Fante pra mim é algo muito complicado, já que o cara é meu escritor favorito. Comigo aconteceu um lance parecido com o Abacaxi. Achei na biblioteca pública de Londrina, esquecido e enfiado no meio de um monte de outras coisas que ninguém deve mexer há um tempão. Mas o estado de conservação dele era até que bom, então li com cuidado e devolvi, esperando que algum outro maluco tenha a sorte de pegar esse livro lá. No catálogo constavam outros dele, do Mário, do Piva e de uma cacetada de outros grandes escritores, mas algum larápio passou a mão e impediu que mais gente lesse, uma pena. E outro amigo do Mário Bortolotto que eu também acho um puta escritor é o Marcelo Rubens Paiva. Bacana ler esses caras e poder encontrá-los nos botecos aqui de São Paulo, mesmo não trocando ideia e nem sendo incoveniente de ir lá pentelha-lós. É só bacana sacar que o que eles escreveram é mesmo real.

    • brunobandido Says:

      Eu gosto do 1933, mas acho um livro menor em valor literário perto dos outros, mas é bonito pra burro mesmo, o Fante é foda. Tu leu esse conto do bukowski que eu falei, sobre o fante?
      Pois é, roubar de biblioteca é imperdoável.
      E o Marcelo Paiva eu sempre leio as colunas dele e tudo, mas da literatura, os que li, não gostei muito não.
      Grande abraço.

  4. Gabriel Daher Says:

    Ainda não li esse conto não cara, mas vou procurar. Andava meio sem grana até pro cigarro, mas agora volto pra vida de proletariado e vou voltar a comprar os lances. Tem um poema muito bom do velho Buk pro Fante também, chama só “Fante”, não sei se você já chegou a ler, mas se ainda não dá uma procurada rápida no google que vale muito a pena. Eu tô lendo o primeiro do Rubens Paiva agora, e primeiro dele que eu leio também, Feliz Ano Velho, tô curtindo bastante. E porra, te agradecer aqui por aquela aula de rock argentino. Peguei o “Hermanos de Sangre” dos Viejas Locas e não consigo parar de ouvir, bom pra caralho.
    Abração, bandido!

    • brunobandido Says:

      Esse poema, Fante, é do caralho mesmo. Assim como “Hermanos de Sangre”. Alguns discos do Intoxicados também são bacanas. Se é que posso aconselhar, tente começar pelo Buen Día, acho que o primeiro deles. Tem rocks e letras bacanas como Mi inteligencia Intrapersonal e Quieren Rock. Grande Abraço.

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