sueños de un borracho al sur (tristeza não tem fim)

Strip de uma poetinha porteña ao som de Oasis, eu preferia que fosse Joe Cocker, mas gosto muito de um bom strip pra me importar coa porra dos irmãos Gallegher(?). Aquilo era melhor do que qualquer um dos versos dela. Eu recém tinha lido alguns deles em um livro de bolso com o rótulo de best seller uruguaio num canto da capa e que ela me presenteou coa dedicatória‘‘para bandido: brasileño buena onda (pero no mucho)”. Um garoto de dezesseis anos com a camiseta dos Slash fica falando comigo sobre o seriado Shameless. Carmela chega e corre o guri dali com toda a sua espirituosidade típica de menina cool. Coloca um Jack daniels nas mãos, ficamos algo como cinco minutos em silêncio, um no lado do outro, “acho que a gente só se encontra quando a solidão tá de aniversário” eu digo. Ela ri. Entrega a garrafa toda pra mim, fala algo sobre o Amiri Baraka e sobre o Kerouac, como sempre, exibe suas pernas, como sempre. Os organizadores me chamam. Leio o poema bêbado rouco envergonhado e em portuñol, eles riem quando falo sobre uma garota mostrar as tetas pela webcam, vai entender. Aplaudem como se eu fosse um adestrador de pôneis de circo. Só você, diz Carmela. Eu e um milhão de fodidos apaixonados, eu digo. A poetinha sobe de novo no palco, ela tá endiabrada e indócil, tira a blusa novamente, sento com o Jack Daniels pra apreciar o bis,  não me canso desses falsos deja vus – uns viadinhos começam a vaiar, pedem respeito, dois caras tiram ela do palco. “Está borracha” eles falam como se pedissem desculpas, vai entender. Alimento-me com uns bons pedaços de carne, bebo como um mendigo recém chegado no paraíso, mijo no tronco das árvores, rôo tanto os ossos da costela que o cachorro que sentou ao meu lado só faz roçar nas minhas pernas e lamentar. Entrego um bom osso pra ele e ele sai correndo dali, como se eu fosse mudar de ideia e desistir do presente. Depois volta pra pedir mais. E eu volto pro Whisky e pra Carmela. Ela me conta coisas idiotas sobre uns caras que me odeiam porque falei que não dou muita importância pro Garcia Marquez. Em um momento da noite, achei que eu ía ter que brigar por causa disso, era só o que me faltava, mas eu tava ali, coas minhas mãos pequenas e pernas fortes. Não existem muitos urugaios maiores do que eu. Tem o Lugano, e sei lá. Era como se eu pudesse sentir que as pessoas que passavam por mim dissessem “olha lá, aquele é o cara que não gosta do Garcia Marquez”. O guri da camiseta do Slash volta, conversamos sobre outras séries e ele diz que, se tiver briga, puxa comigo. Sinto cheiro de encrenca. Bad moon on the rising. Acho tudo um bocado ridículo, menos Carmela e a laureada poetinha desmoralizada e o Jack Daniels. Nada de ruim acontece, ainda bem. “Es bueno me quedar en el cumpleaños de la soledad contigo”, ella dice mas o menos así, como mi horrible portuñol me permite reglar. Tomei um gole. Tomo um gole.  Um gole é só o que pode me salvar de pensar em todas as merdas que eu tenho pensado. De todas as paixões. Eu não sou a porra de um cara apaixonado pela vida, como caras de sorte por aí costumam ser. Mas eu me apaixono todas as noites por mulheres distintas e, geralmente, malucas, de acordo com o nível de whisky que segura o meu corpo. A banda do evento chama. Toco com eles Carnaval de Brasil do Andrés Calamaro numa versão bem blues, assim como eu tocava com os castelhanos que surgiram do nada na redenção em 2009. “No son mujeres ausentes, no son cuchillos en los dientes,  no son martes de carnaval de Brasil/ (Las musas no son) canciones urgentes,  no son asuntos pendientes,  no son martes de carnaval de Brasil,  tristeza nao tein fim”. Eles seguem tocando suas músicas próprias e eu caio fora e penso na tristeza, em tirinhans melancólicas do Linier e no espírito mentiroso de Pablo Beato e no seu túmulo abençoado por vinho e orações bêbadas minhas e do ricardo ara que, uma hora ou outra, contaremos no extinto (pero no mucho) língua pop. A poetinha chora em um canto. São um bando de viadinhos, é só o que consigo dizer.

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13 Respostas to “sueños de un borracho al sur (tristeza não tem fim)”

  1. Nos olhos dos loucos Says:

    Em certos momentos, independente do ambiente, se tivermos uma garrafa de Jack Daniels em punho, a atitude mais viável a se tomar é filtrar o restante e se concentrar – com avidez, óbvio – no whisky até a sua última gota de sabedoria ser esgotada.

  2. Nos olhos dos loucos Says:

    No meu caso, quase nunca a garrafa é Jack Daniels. Quando uma garrafa dessa passa na minha mão, nada é mais importante que um belo trago displicente. É melodramático isso, eu sei, mas quando se é assalariado e há a necessidade de se acostumar com o Passport da padaria ao lado, ou quando os colegas inventam em estragar um simples Red Label com energéticos, refrigerantes ou afins, tudo se explica sem exageros.

  3. Adriana Brunstein Says:

    Uma briga por causa de Garcia Marquez é algo melhor que qualquer coisa que ele tenha escrito.

  4. Rocha Says:

    Brigar por causa de gosto literário é foda!! hahaha
    Eu gosto do Garcia Marquez..Mas, gênio?? Porra.. foda!!! nÃo aguento mais ouvir essa palavra. Todos são gênios..tudo é genial… Estes dias eu tava conversando com uma guria no bar e ela deve ter dito umas 50 vezes a palavra genial.. Eu nÀo contei, deconfio que tenha sido mais.. rsrsr
    As pessoas não tem mais senso critico..

  5. Camila Says:

    Genial, hahahahahaha.

  6. Ademar Says:

    Como o Rocha escreveu aí em cima, gosto é gosto.

    Pra mim Gabriel é gênio, Cem anos de solidão é fantástico (ambíguo isso).

    Você na minha opinião escreve muito bem, porém não é gênio.

    Talvez, quem sabe, daqui uns 40 anos você possa escrever seu Cem anos de solidão e se tornar um gênio para alguns. Tem tudo pra isso.

    Sei, você vai me dizer que não teria saco pra escrever um cem anos de solidão, tudo bem, manda ver no seu Pornopopéia ou Na estrada ou um Bukowski qualquer (Bukowski qualquer no melhor sentido).

    P.S: Você que está mais perto da Argentina poderia postar mais bandas de rock and roll, bem bacana algumas que você citou por aqui.

    Até mais.

    • brunobandido Says:

      Acho que ele é só um contador de histórias que não me interessam. Conta elas bem e tudo o mais, mas nada que eu goste muito ou ache genial mesmo.

      Eu não sou gênio nem nunca vou ser, Ademar. Escrever minhas merdas é só uma coisa com que eu posso sempre contar.

      Acho que Pornopopéia é muito mais rico literariamente em forma e narrativa do que qualquer livro do Garcia Marques, pelo menos dos três ou quatro que eu li, incluindo o Cem Anos. Alguém pode gostar menos, outro pode gostar mais, mas que é mais rico é.

      De vez em quando vou citando algumas bandas sim. Bacana que tu gostou. Tem várias legais.

      Grande abraço.

  7. adriana godoy Says:

    Bandido… essas divergências são boas. Gosto disso. Gosto do Garcia, gosto docê, odeio Paulo Coelho, vou ler Pornopopéia, o velho Buck tá na minha lista dos preferidos, A estrada é um puta livro, nosso lar é um dos piores filmes que tive coragem de assistir…Gosto do que escreve. beijo

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