tragédias humanas e poema bêbado

Um Domecq depois de algum trabalho. Essa porra quase sempre me faz bem. Fico em casa rodeado dos mesmos livros e quadrinhos – Bukowski mistura Jim Beam com vinho e oferece a bebida para uma ruiva, John Constantine anda jogando poker online e o Tanizaki me enche do prazer que advém de uma boa leitura com os diários de um velho louco e tarado. Abro o facebook, as pessoas comentam um bocado de tragédias humanas por ali. Aquele maluco que atropelou uma porção de ciclistas aqui em Porto Alegre (o que mais me assusta é que se eu dirigisse,provavelmente, pensaria nisso uma hora ou outra – não que eu fosse fazer, mas enfim), o menino coas armas na escola no rio de janeiro, o cara com a arma dentro de um shopping center na Holanda – por onde andam os irmãos Winchester? O Constantine tá jogando poker on line, perseguindo garotas no metrô, resolvendo pendências no Iraque.  Kerouac também buscava mulheres no metrô quando ainda era jovem, depois voltava pra casa e seguia escrevendo os manuscritos de The Town and The City, pelo menos é o que ele conta nos seus diários. resolvo dar uma caminhada, escrever uns poemas fanfarrões, voltar e beber mais conhaque. mandar um torpedo convidativo cheio de álcool e saudade. merdas assim – que me ajudam a continuar, a não empurrar uma bala na minha cabela, a aguentar o trabalho e os trabalhos da faculdade e porras do tipo, pelo menos por enquanto (em alguma altura não será suficiente).

na boa, eu devia ter desistido enquanto era tempo. eu devia ter saltado fora do colégio. o colégio foi a única coisa que eu realmente odiei em toda a minha vida. colégios e universidades ensinam pessoas a serem vencedores cuzões. eles não ensinam nada sobre a angustia, sobre enfermeiras sem família que chegam em casa e não sabem como sustentar o seu próprio silêncio. eles não nos dão boas razões pra que a gente não entre em um supermercado e compre veneno de rato. por isso, nada em colégios e universidades, algum dia, me interessou o suficiente. tive de aprender as coisas de outra forma – conhaques, bukowski, quadrinhos, mulheres que jamais arredam o pé dos bares a não ser pra te oferecer um boquete em algum apartamento pequeno da José do Patrocínio e te mandar embora antes que a filha dela volte do trabalho pela manhã.

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E EU PODERIA MORRER DEPOIS DE ROER OS SEUS OSSOS

Minha belezinha é um diabo de feia.
É assim que eu a chamo – minha belezinha.
Ela se olha no espelho e reclama coisas do tipo
– Essas pílulas deixam os meus seios inchados.
Dou um gole de conhaque e
tudo o que vejo
são seus minúsculos
graciosos peitinhos de sempre.

– Talvez eu pare de tomar, ela diz.
– Não vou gastar com camisinhas porque
teus peitos tão inchados, eu digo
e fico pensando como seria se
tivéssemos um filho e ele puxasse
aos seus pais.

Eu teria que ensinar
algum tipo de luta ao coitado.
E diria merdas do tipo –
Qual é, garoto,
bem que eu queria
que meu pai tivesse me
ensinado a me defender.

O primeiro castigo injusto
que os seres humanos
recebem é
ter pais.
Puxar a eles
é o segundo.

Prefiro não comentar essas coisas
com a minha belezinha.
Ela não costuma entender bobagens assim
Ela entende de sentar no meu colo e esfregar
seu nariz torto
no meu rosto e fechar seus olhos estrábicos
quando aperto com força suas pernas
brancas e magras.

Claro que eu me importo com a beleza,
apenas me conheço o suficiente para não testá-la.
Vejo as mulheres na rua com bundas redondas
sorrisos perfeitos e aposto
que suas risadas inalcançáveis não são
agudas e irritantes como as de
minha belezinha.

Mas quando a gente se deita,
depois de gozar,
quase acredito na sorte
e na paz
com suas coxas
cochilando
bem em cima
da minha barriga.

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28 Respostas to “tragédias humanas e poema bêbado”

  1. kleber felix Says:

    du caralho man. abraço

  2. kleber felix Says:

    Vai rolar, amanhã eu vou saber se mês que vem ou um pouco mais.

  3. Camila Says:

    “O primeiro castigo injusto
    que os seres humanos
    recebem é
    ter pais.
    Puxar a eles
    é o segundo”.

    esse poema tá bom pra cacete, bruno.

  4. Rocha Says:

    “o menino coas armas na escola no rio de janeiro, o cara com a arma dentro de um shopping center na Holanda – por onde andam os irmãos Winchester?”

    Bandido, que du caralho este trecho?? baita texto, rapá!
    abração!
    p.s. acabei de te add. lá no facebook!

  5. Rood Says:

    os irmãos Winchester devem estar caçando algum anel pros lados do Japão… cara vc tem acompanhado a última temporada? é impressão minha ou os caras tão fudendo com a série. Muito bacana o blog, sempre ótimos texto. Grande abraço.

    • brunobandido Says:

      O criador da série caiu fora, ele sempre disse que o planejamento dele era só 5 temporadas. Já foderam com o episódio final da 5ª porque ía continuar e essa tá bem fraquinha mesmo.
      Abraço.

  6. Nos olhos dos loucos Says:

    E a coragem para largar tudo? E o medo? É complicado ter a audácia necessária para sair por aí e ser um beatnik selvagem. Desprezar os conceitos de formação impostos. Enquanto ao poema, é um bom poema, sim, Bandido.

    • brunobandido Says:

      Da minha parte, nunca quis ser um beatnik selvagem. Acho até que eles vangloriam muito a fossa, no caso deles é uma espécie de opção voluntária demais, ou sei lá. Só pra deixar claro que sou mó fã da literatura dos caras, principalmente, Kerouac. Eu devia ter tido coragem de abandonar o colégio, mas eu era só um garoto que ainda esperava por algumas coisas.Isso não passava muito na minha cabeça. Eu queria mesmo era sair de casa e pra fazer isso era melhor não largando o colégio. Hoje em dia eu tô enredado nuns compromissos pelos quais dei minha palavra, depois que isso acabar (e tá quase) foda-se a formação de impostos.
      Grande abraço.

  7. Nos olhos dos loucos Says:

    Quando digo beatnik selvagem, me refiro de forma romântica. Até porque, creio que seja mais difícil, ainda mais no Brasil, tomar certas decisões sociais como os escritores beats fizeram nas décadas de 50 e 60. Também sou fã da literatura dos caras, meu TCC da faculdade teve como título “O efeito libertário da Geração Beat sobre paradigmas textuais”. No meu caso, acho que não tenho coragem para ser um beatnik, estou mais pra um estilo de vida “Bukowskiano”. Só quero ter um lugar pra mim, morar sozinho o quanto antes, pagar o aluguel e tomar a minha cerveja e meu vinho barato em paz. É interessante ler seu blog, pois pelo que eu vejo algumas referências são iguais as minhas. Vejo anseios parecidos com os meus. Não sei qual é a sua idade e tal, mas creio que somos jovens, apenas jovens solitários.

    Grande abraço também, Bandido.

    • brunobandido Says:

      Enfim, nunca desejei ser um beatnik de qualquer forma. Embora admire muito eles.

      Às vezes é bom mesmo ler quem fala a mesma língua que a gente.

      Tenho 21 anos, Edson. Sou apenas um jovem caipira e solitário.

  8. Mariel Reis Says:

    Belo poema, Bruno. Um bom poema não tem escola. Aliás, um poema ou é muito bom ou é ruim. Este é bom. Chegou o livro para você?

  9. marianeemilia@gmail.com Says:

    Bruno esse poema é seu?

  10. carlamarti Says:

    Puta poema, brother… Passa tudo, du caralho mesmo. Felicitaciones.

  11. lili Says:

    massa tudo isso, bruno.

    eu tb odiava a escola… a faculdade não acho tão ruim, embora eu as vezes sinta um pouco de inveja das pessoas q conseguem se engajar mais no espírito da coisa.

    curti o poema, tinha passado aqui outro dia e lido e pensado q era do bukowski.

    abraço.

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