C’est la Vie ou (Simplesmente difícil)

É difícil encontrar sentido às quatro da manhã no bar com a cerveja mais quente da cidade.
Mark Lanegan cantando Don’t forget me numa surpreendente e agradável escolha do dj da rádio do interior.Nem em Porto Alegre os filhos da puta tocam isso, eu pensei, e tive até vontade conhecer esse cara, pagar uma dose pra ele – pode parecer carência, mas é apenas o poder de uma boa canção no momento certo. Eu tava pateticamente acabado e não tinha nem mais dinheiro pra pagar outra dose pra mim. Contei umas moedas e pedi uma maldita lata morna de skol. Tinha essa mulher descalça que às vezes saía pra fumar e me olhava com cara de ‘o que diabos esse guri tá fazendo aqui?’. Tinha esse cara que ficava atrás do balcão, talvez o dono do bar, que parecia mais deprimido do que qualquer camarada que tá dormindo embaixo da ponte. Uma hora eles se confrontaram por algum motivo. Ela recolheu sua bolsa, calçou seus sapatos de salto alto e me disse ‘Vâmo guri, me leva pro hotel?’, daí dei um gole na minha cerveja, “ahá, eu conheço essa chave, ela é do hotel”, falou com a voz arrastada de mulheres bêbadas, gabando-se por sua correta suposição. “Não faz isso, ela se passou hoje, vai te meter em problemas”, disse o dono do bar. Que mulher não nos mete em problemas? pensei. “Não vou fazer nada”, eu disse pro cara. Então ela soltou uma risada maluca e caiu no degrau da porta. “Tchê, ela mora aí dobrando, na casa verde, tem dos filhos. Leva ela ali, por favor?”, dei mais um gole, o último, “Então cuida aqui que eu levo”, ele disse. “Deixa que eu faço isso”, respondi. A mulher tava na calçada, chorando por ter quebrado um sapato com a parte de um salto na mão. Ela me deu a chave, abri a porta pra ela e entrou cambaleante deixando a porta aberta. Tinha luz de TV em um quarto. Ela passou reto pra outro através de um corredor. Suas costas eram tão bonitas quanto a frente – uma bela de uma bunda. Fechei a porta, voltei pro bar e ele me entregou mais uma skol “por conta da casa”. Poderia ser uma dose, mas a casa verde era mesmo tão perto dali que nem pensei em fazer a oferta. O cara me olhou com seu semblante deprimido e deprimível, suspirou e falou “é a vida”. Malditos franceses. Não gosto quando as pessoas falam isso – elas sempre tão cobertas de razão, mas, mesmo assim, acho que não falar nada é melhor e mais efetivo. O silêncio é um sinônimo perfeito e necessário para “C’est la vie”. Ficamos nós dois, quietos, o dj me desencantou colocando uma música chata do Skank. Pedi pra baixar o volume.
É simplesmente difícil encontrar algum sentido às cinco da manhã no bar com a cerveja mais quente da cidade.

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6 Respostas to “C’est la Vie ou (Simplesmente difícil)”

  1. Camila Says:

    é dificil encontrar sentido em qualquer horário. e até mesmo com cervejas geladas. esses caminhos são duros pra diabo. talvez as coisas nunca façam sentido. mas a gente sempre espera por ele. duma forma ou outra é isso aí.

  2. Pedro Pellegrino Says:

    E aí, Brunão, pode dar Grenal nas quartas,hein, o bicho vai pegar! Abraços!

  3. Diego Moraes Says:

    Gosto pra caralho desses teus textos velozes e cheio de aspas. Três horas da tarde é a hora perfeita pra tomar uma Brahma morna. abraço.

  4. Thiago K. Says:

    O cara ter a perspicácia pra tocar Lanegan numa rádio, putaqueoparil. (Afinal, qual era a rádio, hehe?) Mas depois veio o Skank…

    Nunca dá pra baixar a guarda completamente, enfim.

    • brunobandido Says:

      Do caralho, né Thiago?
      Era só uma rádio fudida ligada num bar fudido do interior. Ou o cara colocou por engano, ou foi mais mágica do que perspicácia.
      E, não, nunca dá pra baixar a guarda.

      Abraço.

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