e um texto “antigo” que achei por aí

TODO MUNDO JÁ CONHECE ESSA EPÍGRAFE (que, na verdade, é uma dedicatória do próprio autor)

“Para Linda King, que um dia me proporcionou e um dia há de me privar”

Pero como é linda, não?
Às vezes, quando me apaixono por uma mulher (quase todas as noites), penso nela. Foi do primeiro livro do Bukowski que eu li, com 13 ou 14 anos,numa edição da década de 80 da L&PM, achei no armário de um primo atrás de um bocado de livros de psicologia (que ele estudava). Crônicas de um Amor Louco, isso sim é que é psicologia.

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E achei esse texto (de ficção) sem título no meio de uns rascunhos. Gostei da assinatura dele e fiquei lembrando o inverno maluco que eu tive com 18. Que puta inverno triste e estranho foi aquele. Claro que eu me divertia também, mas era só uma aura maldita de fim de noite durante todas as noites. Bacana que eu já sabia que ele era exatamente assim mesmo naquela época. Três anos depois eu leio ‘nesse desolado julho’ e apenas balanço a cabeça. Nunca me iludi muito com esse tipo de coisas. E ainda não consigo dar um título pro texto.


Segundo ela, eu cheirava igual ao seu filho. Qual o perfume? perguntou. Cognac, eu disse como quem fala francês. Conhaque? ela riu, Ah, meu menino nunca foi tão decente quanto imaginei que ele poderia ser, concluiu triste – eles nunca são – e então eu apaguei o cigarro no criado mudo e lhe fiz carinho no rosto e passei a mão pelos seus cabelos. Ela me beijou esfregando suas coxas em mim, enfiou-se por dentro das minhas cuecas e agarrou o meu pau com força. Parecia mais excitada do que antes. Cresci rápido e fizemos amor, ou algo muito próximo disso.

Sabe, ela disse , meu filho era escritor. Você gosta de ler, não é? Ele passava as noites batendo forte na máquina. Você escreve?
Não.
Você aparenta ser um menino que escreve. Eu podia te dar a máquina do meu filho, mas ela ficou na casa da namorada dele.
Existem computadores hoje em dia, de qualquer forma.
Meu marido odiava o barulho da máquina.
O que aconteceu com ele?
Foi embora, não lembra que eu contei?
Tô perguntanso sobre o teu filho.
Leucemia – ela disse. Pensei em acariciar novamente o seu rosto, mas apenas fui ao banheiro passar uma papel higiênico no pau. Tem cerveja na geladeira, ela gritou, dei uma mijada e caminhei até lá. Havia um punhado de livros espíritas e alguns de história do Brasil numa estante que acompanhava todo o trajeto do corredor. Provas de colégio em cima da mesa prontas pra serem corrigidas. Quem se importa com provas? Peguei a cerveja e sentei por ali. Achou? ela gritou novamente. Tinha a voz fraca. Aham, eu respondi e segui bebendo. Não demoraram pros seus passos barulharem no corredor. Eu disse pra pegar a cerveja pra gente, não ficar aí bebendo sozinho, reclamou sorrindo. Pedi desculpas.
Às vezes eu acordava pra tomar uma água e meu filho tava assim – ela continuou – sentado no escuro, no meio da cozinha sem fazer nada.
Ele devia ser um bom garoto, eu disse.
Ele parecia uma assombração.
Vai ver ele só sabia das coisas.
Você não sabe sobre isso.
Tem razão.
Depois ele foi morar com uma negrinha. Ele era bonito, sabe. Tinha um monte de menina melhor pra namorar. Não precisava.
Tu dá aula pra negros?
Tem poucos no colégio onde leciono.
Ainda bem, eu falei sem sorrir e ela nem entendeu meu tom de ironia. Calou consentindo, sentou no meu colo e pegou a cerveja – livros espíritas, uma brahma solitária na geladeira e aquele racismo escrachado de Programa do Ratinho, quanto absurdo tinha dentro daquela mulher. Me deu um beijo úmido de cerveja e depois falou que ia botar uma música pra gente dançar.
Gosta de Milton Nascimento?
Respondi que não e daí ela botou um Tim Maia, sem me questionar sobre esse. Vem, vâmo dançar, ela disse. Eu não danço, respondi, e segui sentado bebendo cerveja. Essa música é tão triste, você parece tão triste, nem assim quer dançar?
Não.
Então o que você quer?
Acho que eu vou comprar mais umas cervejas naquela AM/PM.
Vai pelado?
Não.
Vou tomar um banho enquanto isso.
Tudo bem.
Quer dinheiro?
Pode ser, eu coloco o mesmo valor que tu e volto com elas pra gente beber, garanti. Ela enfiou a mão dentro de uma cerâmica qualquer e tirou uma nota de dez reais, eu só tinha cinco, fui ao quarto pegar minhas roupas.
Você não vai voltar, né?
Vou.
Duvido, ela disse e eu vesti minhas calças sem falar mais nada.

Quando voltei, o chuveiro tava ligado. Separei uma lata pra mim e guardei as outras na geladeira. Caminhei pelo corredor e abri a porta do antigo quarto do seu filho. A cama estava cheia de tralhas em cima, os móveis abertos e vazios. Ficou tudo na casa da negrinha, eu pensei e ri um pouco e fucei os livros que tinham por ali.  Um Camus, um Borges e um monte de Kafka. Até gosto do Franz K, mas nunca confio em escritores que são fãs demais da sua obra. Li umas folhas amarelas com poesias escritas a mão. Muitas ruins, algumas razoáveis. “Deus se distrai/ Contando nos dedos/ Policiais/ Que lêem Rex Stout”, achei essa bacana, mas tava escrito “INACABADA” logo a baixo. Voltei pra cozinha, ela continuava no banheiro. Decidi esperá-la de novo bebendo sozinho no escuro, como uma assombração. Tive um cochilo rápido na segunda cerveja. O barulho do chuveiro tinha cessado, caminhei pelo apartamento, bati na porta do banheiro – tá tudo bem?
Pensei que você não ia voltar, ela disse.
Faz tempo que eu voltei.
Acho melhor ir embora.
Tá tudo bem?
Vai embora, por favor, ela disse coa voz embargada e antes que eu falasse qualquer coisa ela gritou pra que eu fosse embora mais uma vez. Peguei outra cerveja e deixei três latas na geladeira. Faltavam algumas horas pra que a linha de ônibus intermunicipal do meu interesse passasse. Olhei pra dentro da cerâmica procurando um dinheiro pro táxi, não encontrei.  Caminhei pela madrugada, a cidade fria, professoras de ginásio tristes trancadas no banheiro, tranqueiras imortais em quartos falecidos, quantos policiais devem ler Rex Stout? Fiquei bolando finais praquele poema, nenhum me agradou, talvez ele não fosse lá tão inacabado assim.

bruno b,
nesse desolado julho de 2008.

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8 Respostas to “e um texto “antigo” que achei por aí”

  1. Mel Says:

    hahaha
    Tu adora enfiar mulher racista nas tuas histórias…

    Como ta o braço?

  2. Mel Says:

    Pra outra? Nãããão.
    Quer ver Malditos Cartunistas na terça-feira?

  3. kleber felix Says:

    Du caralho man, nem dá pra falar muito. abraço

  4. ana portoalegre Says:

    cinematográfico como sempre!
    bjos

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