trabalho de carga

Há algo errado no abismo do que eu podia ter sido e não rolou. A carga dos caminhões fica mais pesada conforme eu vou carregando uma por uma, a última, mesmo que menor, é a mais sofrida de todas. E tem um prazer que significa alívio e que vem logo depois de esfregar as mãos e tirar o pó das calças jeans – assoprar fumaça pela madrugada de 4 graus célsius. Um programa evangélico é a única estação que pega no rádio nessa altura da noite. Ontem, o pastor contava sobre Nabucodonosor e eu fiquei atento, a tempo de destruir os muros da cidade girando a chave na ignição e esquecendo do freio. O único livro comigo é um Noites Brancas do Fiódor que encontrei por aí. Talvez ele seja bacana, mas não consigo passar da sétima página. Vai chegar o dia em que tudo que vou precisar será a sétima página! Amém. Eu sempre lembro daquela frase de sabedoria que vi em Deadwood. “Anunciar seus planos é uma boa maneira de fazer Deus dar risada”. E agora aturo histórias de hospitais e penso na garota, que é algo como uma bela possibilidade deitada em seu colchão. Só tem um sms salvo no meu celular vagabundo. Quer casar comigo agora? Te amo, baby, é o que diz. E é dela. Às vezes eu fico sem sono e leio e penso Vamos sim, garota, é disso que a gente precisa. Então eu fecho os olhos e torço pra que ela não se machuque como se eu tivesse agarrando um terço na mão, mas sem essa. Eu tô no fim do mundo procurando paz, eu não vou encontrar, mas talvez um pouco de equilíbrio. Depois eu resolvo isso. Agora eu queria vê-la preparando um chá pra nossa ressaca e queria morder suas coxas antes e depois da chaleira chiar. Queria me negar a ler meus poemas ruins pra ela. E dizer que sou só um cara disparando jabs e uppercuts na parede do bar mais vazio dentro da minha cabeça. Eu sirvo pra escrever minhas bobagens e pra tocar uns blues do Cazuza no violão quando meus amigos, melhores músicos do que eu, não conseguem lembrar das notas.

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8 Respostas to “trabalho de carga”

  1. Leo Says:

    boa essa em mano

  2. Camila Fraga Says:

    tu serve pruma porção de coisas, pelo visto.
    beijo.

  3. Pedro Pellegrino Says:

    Tava lendo uma reportagem sobre o Grunge, aí o Steve Fisk, produtor do primeiro Ep do Nirvana, o cara citou Deadwood:” a mudança não procura fazer amigos”. Preciso assistir essa série. Abração.

  4. eve Says:

    eu poderia dizer: sem comentários. bom demais, principalmente a parte do nabucodonesor e todas as outras. vou me resumir a: vai te fuder, bruno! caralho!

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