diário morto

Dia 4

Tem essa garota lendo HP Lovecraft na cidade fantasma. A cidade sempre fica fantasma em algum dia no meio da semana.Vejo uns caminhões passando, apenas passando, e imagino bolas de feno desfilando desdenhosas pela avenida central. Quase lembro do Uruguai e de como deve ser bacana fixar residência por lá depois de rodar por aí durante um bom (e melancólico) pedaço de vida. Estou quase certo de que no Uruguai os fantasmas têm direito de ir e vir por constituição. Descarrego umas cargas do único caminhão que se atreve a estacionar e paro de pensar nessas coisas. Ele vai embora, como se rodasse sozinho, sem ninguém atrás do volante. Volto a admirá-la, ela veste preto e é ainda mais branca do que eu, e seus olhos são pretos e cabelos também. Demoro pra perceber que ela própria não é uma assombração, não das mortas, pelo menos. Eu nunca li tanta coisa do HP Lovecraft, a última foi um conto que não deve ser lá muito significativo na sua obra – algo sobre ladrões de túmulos e cães de caça.

Dia 7

 

Reli todo um livrinho do Bukowski ontem de noite e depois voltei pro Mario Benedetti, este finado velho tranquilo de Paso de Los Toros. Dormir nunca foi tão complicado. Assisto o último episódio de Mad Men e agora só em março de 2012 que a série volta. Minhas costas não doem como nunca, ainda bem. De tarde, eu tomei um café com a garota que lê Lovecraft. Seu nome é Marina e o livro pertence ao seu noivo – vinte e três anos mais velho do que ela. Ele é escultor, mas vive de arrendar imóveis que herdou. Pelo que Marina me disse, o ‘velho’ não sai muito de casa. Todas tardes de sol ela senta na praça e fica lendo algum livro, como quando a vi há uns três ou quatro dias atrás – mesmo assim sua palidez continua. É bonitinha com todo esse lance de gótica que caga pro gótico. Mentiria se dissesse que não fiquei pensando em fuder com ela enquanto tomava meu café preto sem açúcar. Ontem, antes de finalmente pegar no sono, também pensei nisso.

 

Dia 10

 

Não teve sol nessa tarde mas Marina foi ler na praça. Passou pelos caminhões e por mim e deu oi. Depois que acabei com tudo ela já não tava mais lá. O que disse pra ela ontem talvez não tenha pegado bem. Mas afinal ela me cumprimentou e de vez em quando trocamos olhares. O Cláudio me contou que o tal escultor é viúvo de uma das mulheres mais doces que a cidade já conheceu. Pedi mais detalhes sobre a defunta e ele apenas sorriu e disse Ela era doce, rapaz, muito doce. A cidade tem várias histórias de assombrações. Cláudio adora contá-las – mas nada a ver coa defunta que era doce, rapaz, muito doce. Hoje fiquei bêbado no bar e comecei a contar uma das lendas de Cláudio para umas velhas bêbadas que me faziam companhia. Elas já conheciam a história. Disseram, inclusive, que não era lenda. Eu ri um pouco, paguei minha última dose e voltei caminhando pra casa.

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