espelhos repetidos

Sonhar com anões assassinos racistas e acordar trancado num posto de polícia em pelotas depois de zerar dois litros e meio de Sir Edwards e não lembrar de absolutamente nada sem carteira e celular nos bolsos pode ser assustador.

Aquela garota me falando que eu tinha que ir pra São Paulo porque a tal da Vila Madalena é demais também pode.

Tenho receio coessa tal de Vila Madalena.

Ai, por que?

Porque todo mundo que conheci e gosta dela acha que Marcelino Freire é um bom escritor.

Nunca li nada dele.

Eu li… umas cinco páginas de um livro dele.

Você é mó preconceituoso.

Tu também, faz só dez minutos que me conheceu.

(não que ela fosse melhorar a sua opinião a meu respeito com mais uma hora sentada comigo, ou uma vida toda – vá lá – muito pelo contrário.)

Little L se questionando sobre por que a gente vive afinal? pode muito bem ser um saco. Não quero saber o sentido da vida, nem a porra do mistério dela, eu tô vivendo e, bem, vou viver até morrer e pronto. Não quero saber porque eu sento aqui e escrevo e reescrevo um conto por duas ou três noites seguidas nem porque ainda escrevo bobagens nesse blog. Só escrevo e pronto. Nunca me deu medo também. Até lamentei quando vi que não sou muito bom nesse negócio de escrita e não sei fazer mais porra nenhuma. Talvez eu aprenda a lavar louça em uma lanchonete do centro sem quebrar muitos pratos. Chegar em casa e tomar um banho e ler Henry Miller ou Tanizaki ou Azzarelo e ficar descansado pra colocar minha mulher de quatro na cama e lamber ela toda.

(do Diário Morto):
Eu a amo sem toque. Não existe amor sem desejo e meu amor por ela é só isso – intenções e possibilidades. Talvez seja o motivo pra que eu a ame mais do que qualquer uma, vai saber. Não posso vê-la roendo suas unhas com os olhos tristes, não posso enrabá-la por trás quando ela estiver preparando algo na cozinha e não posso derramar conhaque em seus seios e lambê-los furtivamente. Ela não pode me ver fazendo a barba, não pode me abraçar enquanto carrego nossas compras em sacolas de nylon e não pode tocar no meu pau. É um jeito diferente de amor correspondido, um jeito ainda mais cruel, eu suponho, muito pior do que o não correspondido.
Será que amar uma pessoa é achar que precisa dela e que se não tiver com ela você está fudido e mal pago, ferrado, na lama e na lona, há dois passos da lápide mais cinza do cemitério mais triste?

 

 E se de repente eu precisar de tudo isso mesmo sabendo que dou mais valor aos meus gibis do Tex do que as minhas paixões. Que enroscado em uma mulher o máximo que posso fazer é tentar apresentar minha solidão pra solidão dela e depois gozar e me sentir ainda mais só e fudido. Estar contigo es estar solo dos veces, o Sabina escreveu. E não dá pra mudar isso porque a solidão e, exclusivamente ela, é o que me fortalece. Me faz querer apenas viver do meu jeito e morrer e pronto. Nada mais. Sem medo e sem choque. Sem contar os anos até que os anjos abram o céu.

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23 Respostas to “espelhos repetidos”

  1. Camila Fraga Says:

    Será que amar uma pessoa é achar que precisa dela e que se não tiver com ela você está fudido e mal pago, ferrado, na lama e na lona, há dois passos da lápide mais cinza do cemitério mais triste?

    acho que sim.

    beijo.

  2. Edy Nunes Says:

    A Vila Madalena é o antro – um dos muitos espalhados por aqui – da futilidade, soberba e mediocridade paulistana. Se você curte aquelas conversas permeadas por cerveja quente em que o foco narrativo é destinado a ver quem ter o maior pau sobre a mesa, corra para lá e seja mais um descolado da turma. Pelo que eu lembro, creio eu que, você é avesso aos núcleos sociais de status e bajulação, como comentou uma vez lá do meu blog. No máximo, deve ter um ou dois bares descentes naquele bairro burguesinho de merda. Não gaste seu tempo na Vila Madalena, Bandido!

  3. Diego Moraes Says:

    Troço bonito pra caralho. Solidão Azul.

  4. F. Reoli Says:

    Em questão de Vila Madalena, Bandido, o Mercearia às segundas ou terças. E só. Grande abraço.

    • Celso Augusto Torrano Says:

      Nem o mercearia eu curto, nem de segunda, nem de terça. Só pelo fato da locadora e dos livros que tem lá. Conheço o bairro pacas, antes de morar aqui. e mesmo morando nessa bosta, com um aluguel muito barato pra região, há onze anos, prefiro o largo da batata dos meus sonhos, a parte negra, nordestina e suja, com seus risca facas, inferninhos, botecos sujos, casas do norte, que dão o verdadeiro sentido do que é um bairro de passagem da região Oeste paulistana, o de Pinheiros, e tou caindo fora daqui pro Centro, bandido.

  5. Ademar Says:

    “Chegar em casa e tomar um banho e ler Henry Miller ou Tanizaki ou Azzarelo e ficar descansado pra colocar minha mulher de quatro na cama e lamber ela toda.”

    Grande. Palmas. Final matador. Dei até aquele sorrisinho fácil e pensei: “porra, é disso que eu falo quando quero literatura marginal”.

    São esses lances que procuro nos livros e são difíceis de achar.

    Bela frase.

    • brunobandido Says:

      são dificieis até porque ‘lamber ela toda’ é um puta erro de gramática, né ademar? mas tem uns bons escritores aí muito melhores que eu e em livros – Henry Miller, Tanizaki, ou hq do Azzarelo e uma penca de marginais ou não, tu deve saber.
      grande abraço.

      • Ademar Says:

        Cara, digo final matador pelo arrepio da frase, pelo sentido dela. Com ou sem erro de gramática.

        E é esse o grande problema, são sempre os mesmos bons escritores que escrevem (graças a Deus) as mesmas coisas.

        Gostaria de encontrar mais deles.

        Gostaria de encontrar mais Bukowski, Miller, Bortolotto, tu deves enteder o que eu falo.

  6. Adriana Brunstein Says:

    a esquina da mourato coelho com a página 6 do marcelino é uma bela encruzilhada.

  7. arnaldo. Says:

    es la soledad al cuadrado.

  8. Anônimo Says:

    puta merda.. pior que marcelino é considerado um bom escritor mesmo… foda.. tb acho uma merda… e ele tem aquela pose de “escritor” saca? é ridiculo..
    grande abraço!

    p.s. praça roosevelt infinitamente melhor que a vl. madalena..
    tem o mercearia são pedro na vl. madalena que é legal.. e só

    • brunobandido Says:

      cara, eu não tenho saco pra ler um monte gente dessa ‘geração’ do marcelino, mas sei que tem uns bons, mesmo que eu não curta uns sei que escrevem bem.
      claro que só li o começo de um livro do freire, mas o começo que li não é nem só que eu não curta, é ruim mesmo – na minha opinião. e minha opinião não vale porra nenhuma, é só o que eu acho. abraço.

      abraço.

  9. Fredy Durke Says:

    o problema do tio marcelino é a alcunha de agitador cultural
    leia-se paquita
    rubem facaseca disse “escritor tem que escrever e ponto final”.
    nunca li nada porque nunca caiu um livro dele na minha mão e isso acontece
    ele parece ser um cabra sussegado, na dele, com sua bolsinha de couro a tira colo e um silêncio nos passos
    a gente compra cigarros na mesma fila da padaria quase todos os dias
    e sobre a vila madalena
    não importa o bairro aonde você esteja
    a merda é sempre grande e fede
    e não importa o que as outras pessoas fazem com seus respectivos cus
    e não importa aonde você esteja, aquela história de que somos sempre estrangeiros/
    nenhum bairro é maior que nosso coração, fígado e capacidade de fazer na ficção uma vida melhor, mais cruel.
    sei lá, o que o diego disse, solidão azul.
    barra pesada.

  10. Chester Says:

    Parabéns pelo blog Bandido! Queria aproveitar e apresentar o blog que acabei de criar…

    http://comopresosemfugaameianoite.blogspot.com/

    Abraço!

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