vacas magras

Se eu tô sem grana e doente e sem mulher, o melhor é ficar em casa de madrugada escrevendo minhas merdas e tentando terminar aquele filme do Abel Ferrara em que sempre acabo pegando no sono. E não que o filme seja ruim. Muito pelo contrário, é só azar mesmo. Meu fígado briga comigo ali embaixo. Ei, seu filho da puta, ele diz, eu ainda sou novo e tô firme e forte, manda bala nas doses de Drurys. Ele não é exigente, ele podia pedir Natu Nobilis. Tento explicar prele que são apenas tempos de vacas magras. Que nós dois precisamos de tempos assim. Ele não se convence direito. Nem eu. Sigo escrevendo minhas merdas entre um episódio e outro de Curb Your Enthusiasm.

Esses dias um leitor dessa bagaça veio falar comigo no Google Talk. Ele falou que tava em casa com o pai dele, fritando corações de galinha e bebendo cerveja, ele falou que tavam escutando Joaquín Sabina e que mostrou o meu texto, Alguns Esclarecimentos que eu não devo a ninguém a não ser a mim mesmo, pro seu velho e ele curtiu. E eu lembrei do dia em que escrevi esse texto, foi outra madrugada dessas, de vacas magras, de ressaca moral e física, de supercílio com pontos. Eu sou caipira o suficiente pra achar uma imagem bonita um cara bebendo e fritando corações de galinha com seu pai e escutando letras matadoras do mestre Sabina.

Também tem essa leitora que diz que se masturba lendo alguns textos meus. Meus textos não são nada eróticos. Pergunto se ela conhece o Tube8.com e ela diz que sim, mas prefere os meus textos. O que diabos eu posso fazer?
E tem essa outra que é bacana e que acompanha meu blog desde que leu Na minha cama, duas pernas de jazz. E eu também lembro de quando eu escrevi esse conto. Foi um tempo mais tranquilo. Meu fígado recebia doses de Red Label no Jardim Elétrico e conheci aquela menina lá e acabamos no meu quartinho e o resto, mais ou menos, tá ali no texto.

E tem essa mina que eu amo e tá longe e que me mandou poemas fodas do Jack Kerouac que me fazem companhia. E tem essa amiga que quer vir aqui me dar uma mão. Não precisa, mas muito obrigado. Porra, Bandido, um dia tu vai precisar de alguém pra te cuidar e vai morrer sozinho. Que é isso, eu já devo precisar de alguém pra me cuidar, a maioria das pessoas devem precisar de uma porra dessas, eu só não quero isso.

Então eu durmo faltando dez minutos pro filme do Abel Ferrara acabar. E acordo com passarinhos cantando alto. Penso em morrer sozinho. Penso no nada magnífico que talvez pinte depois da morte. Em não escutar os passarinhos. Mas eu simplesmente não tenho a menor vocação pra suicida. Sou tão babaca que nem isso eu tenho. Como me disse o Paulo de Tharso, a gente entra numas de seguir “amarrando os cadarços e perguntar ‘Até quando, Deus?'”
E meus cadarços sempre foram mal amarrados pra burro. Eu nunca soube direito amarrar a porra dos meus cadarços. Imagine uma corda em volta do pescoço.

Aí eu abro no Antigo Testamento e a porra do Eclesiastes já sabia disso tudo. Esse velho papo da tristeza que a ciência traz repetido e repetido e repetido com o decorrer dos anos até chegar nos episódios de House.

Prefiro pensar em garotas tristes que se masturbam enquanto leem. Em caras que curtem um momento com seus pais escutando Pacto entre caballeros. Naquela garota de uma noite só que tinha pernas de jazz e teve a feliz ideia de me convidar pra comer pizza em cone. Eu nunca vou comer uma pizza em cone. Isso me lembra, involuntariamente, do quão tristes e sem sentido os meus olhos são. Droga, ela tinha ideias felizes demais pra não ser uma noite só.

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4 Respostas to “vacas magras”

  1. arnaldo Says:

    outro dia vi um carro velho com um adesivo que dizia “TODOS QUEREM IR PRO CÉU, MAS NINGUÉM QUER MORRER”. mas esse papo de suicídio é uma coisa bem nada a ver. é melhor morrer vivendo. bebendo cerveja e comendo coração de galinha. e essa coisa dos cadarços aí é uma ótima maneira retratar a coisa. já disse aqui noutro comentário que ‘o capitão saiu para o almoço e…’ é dos meus preferidos. isso me faz lembrar da garota que me levou o documentário sobre o crumb e eu nunca vi porque áudio e vídeo nao estão sincronizados e eu que nao entendo nada dessas coisas de computador me sinto um idiota ao abrir o filme em dois programas diferentes pra acertar o tempo do áudio de um com a imagem do outro. é idiota, eu sei.

    aqui em curitiba essas pizzarias de cone devem ter falido: nunca mais vi. e quando via nao sentia vontade de comer. pelo jeito bem pouca gente sentia.

    é uma merda amar uma mulher que tá longe, mas podia ser pior, velho.

    outro dia te elogiaram por aqui, uma amiga do bortolotto, lá de londrina, que tava na cidade e eu conheci num bar.

    abraço, velho.

    • brunobandido Says:

      Pelo que me contaram aqui esses dias a pizzaria em cone daqui fechou também. Mas eu nunca tinha se quer visto ela. E, bem, beber do jeito que bebo não deixa de ser uma maneira bem lenta de suicídio. E dessa eu não abro mão.

      Abraço, brother.

  2. adriana godoy Says:

    Ei, Bandido…porra! Que texto bom, cara!
    Não me masturbo lendo seus textos, mas eles me dizem que ainda vale a pena alguma coisa. Beijo

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