o rock’n roll e as mesmas bobagens de sempre

Fico tocando minhas músicas vagabundas no violão. Tem uma, que fiz com meu amigo Careca, que sempre curto tocar, é como uma homenagem a ele, que faz tempo que eu não vejo (não tem a ver com saudade, é só lembrar do cara e pensar numa espécie de reverência. Sou fã de alguns amigos, mas já escrevi que ‘esse negócio de saudade deve ter alguma relação direta com meu pau, sendo que nunca sinto saudade dos meus amigos – apenas de algumas mulheres’). É um rock ingênuo de adolescente que reclama da namorada e da carreira solo do Frejat – ‘ela fica ali parada escutando as baladas do Frejat’.  A gente fez essa música no único verão em que eu não trabalhei desde que comecei a morar em Porto Alegre. Eu tava aqui na capital e não tinha trampo então voltei uns dois meses lá pra fronteira e fiquei bebendo e tocando rock’n roll com velhos amigos. Eu tinha uns dezesseis ou dezessete anos (o Careca devia ter uns 26) e foi quando comecei a ser chamado de bruno bandido entre shows históricos no uruguay e porres de conhaque na sala em que o Careca morava. Era só isso, uma sala e um quarto com uma geladeira velha (que ele pegou do brick do Troll It, um amigo nosso), e era uma espécie de bunker do rock’n roll de lá. Nós sempre fomos os idiotas da cidade e era lá que a gente ria das mesmas idiotices de sempre e faziamos nossas músicas bêbados de qualquer venêno que uns trocados pudessem comprar. O careca conseguiu uma grelha de meio tonel cortado e a gente fazia churrascos dentro da casa dele mesmo. Montávamos os instrumentos, chamávamos os amigos e algumas garotas malucas que conseguiam aturar essas coisas, comprávamos salsichão e ficávamos tocando nossos rocks e bebendo drurys com os olhos ardidos daquela fumaceira toda do churrasco lá dentro. Em algumas noites a casinha enchia tanto que mal dava pra caminhar. Em outras, era só eu e o Careca ( e às vezes a Melissa), nós éramos os únicos que bebíamos todos os dias, e nessas noites em que festas ou putarias não aconteciam, a nossa tristeza se espreguiçava com mais tranquilidade e nós dividiamos umas garrafas e o careca tocava qualquer nota no violão e eu fazia alguma letra qualquer. Depois comíamos um cachorro quente no trailer do Amarildo e pronto. Eu passei os dois meses bebendo o que fosse possível e comendo um cachorro quente do Amarildo por dia. O careca me pagou vários cachorros quentes. Eu dei meu baixo antigo pra ele e até cobrei, mas bem, ele deve ter pensado que os cachorros quentes correspondiam ao pagamento e foi isso. Era o único trailer de lanches aberto nas madrugadas e o pior lanche da cidade. A gente sempre ficava alugando o Amarildo, tirando sarro dele, isso porque ele levava na boa, é claro. Aí quando todo mundo tinha cansado de fazer piada com ele, eu parava e dizia Ei, Amarildo, vâmo falar um troço sério agora, há quanto tempo tu tá trabalhando aqui? Ele respirava aliviado e dizia Acho que já fazem uns seis meses agora. Seis meses e tu ainda não aprendeu a fazer cachorro quente? eu perguntava e a gente ria de novo, sempre da mesma bobagem. Não há nada que eu espere de velhos amigos a não ser seguir rindo das mesmas bobagens e fingindo acreditar que essa coisa de rock’n roll faz algum sentido.

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11 Respostas to “o rock’n roll e as mesmas bobagens de sempre”

  1. eve Says:

    deixar a tristeza se espreguiçar com mais tranquilidade foi bacana, bruno. amarildos e bunkers também.

  2. Diegopitu Says:

    Piadas repetidas e amigo fiéis são sempre uma boa pedida!!

  3. Jéssica Says:

    Massa!
    Qnd for pra la me avisa? Quero um perfume do Uruguai.

  4. Edy Nunes Says:

    “Shows históricos no uruguay…” Dever ter sido realmente um momento bacana da tua vida, Bandido.

    Abraços, cara.

  5. ara Says:

    porra velho. foda

  6. kleber Felix Says:

    às vezes amigos são melhor que buceta. Estranho mesmo esse negócio de saudade

  7. Alyssa Rupalanite Says:

    Mas eu percebo q vc está em outro momento da sua vida e realmente precisa ampliar seus horizontes se quiser continuar escrevendo, vou te acompanhar em qualquer canto q vc escrever.

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