Expresso Oriente

Essa semana teve show do Júlio Reny aqui em Porto Alegre. Ele não toca tão assiduamente, mas sempre que rola algo eu dou um jeito de ir sacar suas canções de amor delicado, tristeza, fugas, garotas boas, garotas más e tiros certeiros. Tem todo aquele lance de sinceridade do autor, de composições autobiográficas, que fazem os shows do cara terem uma aura densa pra burro. “Eu escrevi essa música há vinte e cinco anos e ela ainda diz tudo que eu quero dizer pruma garota”, ele fala e começa a tocar Expresso Oriente. E depois ele invoca o Gordo Miranda e uma conversa que tiveram pra falar disso mesmo, que suas canções entregam todo o seu romantismo, e aí ele toca Segundo Fim, que é uma música mais recente onde ele diz “Sou uma canção triste do Roberto”.  Só o Reny pode se descrever como uma canção triste do Roberto Carlos e fazer isso soar transcendente pra burro.

Nesse show ainda teve uma puta surpresa. A única música que ele costuma tocar ao vivo do seu primeiro disco, de 1983, é Cine Marabá. Na entrevista que ricardo ara e eu fizemos com ele pro Língua Pop, ele diz que aquele disco tem muitas longices. Mas acontece que a música Uma tarde de outono de 73 vai tá no próximo filme do Carlos Gerbase e ele resolveu tocá-la só no violão e na guitarra do Oly Jr. Essa música é escancaradamente autobiográfica, ele fala do seu primeiro beijo, que foi dado quando tava internado num hospício durante a adolescência.

Eu não me lembro bem mas foi numa tarde de outono de 73

Eu estava sentado num pátio e me agarrava ao sol com todos as minhas forças

Enquanto alguém com olhos sem vida me dizia

No hospital você tem todo tempo do mundo

ele nunca toca essa porra ao vivo, e ver ele cantar isso foi do caralho. Dá pra ler a letra toda e conhecer direito essa história de internação na entrevista do Língua Pop, aqui.

E então eu fiquei lá, entornando doses de whisky e vendo isso tudo, e saí de lá e bebi cervejas, e o Julio escreveu Expresso Oriente há vinte e cinco anos – uma canção de fuga e amor, e provavelmente se eu tiver vivo daqui a mais vinte e cinco anos eu ainda vou acabar madrugadas bêbadas atirado num colchão, ao lado de uma mulher dormindo, e pensando nos versos de Expresso Oriente: “Nossos sentimentos são como anjos e demônios /Você pode evitá-los mas não poderá fugir pra sempre /…/ Então encoste a cabeça no meu colo/ e descanse os seus problemas/ e me entregue os seus problemas”.

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E aqui ele tocando um de seus clássicos no programa do Leo Felipe:

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3 Respostas to “Expresso Oriente”

  1. adriana godoy Says:

    Bandido, interessante esse lance. Não conhecia esse cara e já gostei das tiradas dele. “Eu estava sentado num pátio e me agarrava ao sol com todos as minhas forças” e as outras também.

    Forte, cara.

    Beijo

  2. Sérgio Says:

    Gosto muito do trabalho do Julio Reny. Na verdade, acho o melhor compositor do rock brasileiro. Queria muito vê-lo tocando em São Paulo. Acho que ele deveria ser mais conhecido por aqui. Agora que você disse que até por aí os shows dele são raros acho que não vai rolar, né? Grande abraço. O blog tá do caralho.

    • brunobandido Says:

      E aí, Sérgio, acho mesmo muito difícil. Ele é pouco conhecido aí em cima – infelizmente – e até aqui, a geração nova, não conhece muito ele. ELe também já cansou de fazer esforço pra subir e tudo. Então, é melhor tu visitar o sul, brother. Abraço. Concordo contigo, o melhor compositor de rock no Brasil.

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