bons filhos da puta II

Tu parece ter preguiça de falar, mal abre a boca pra soltar as palavras e ainda tem essa voz fudida. Tu já gritou alguma vez? ela perguntou.
Uma vez teve um jogo emocionante do Inter, eu disse.
E tu gritou Gol?
Não, gritei algo como ‘Quebra ele!’ ou ‘Bate nas pernas desse filho da puta’.
Tu é cínico, ela disse, muito cínico, e teus olhos são tristes, um bêbado bochechudo de olhos tristes. Ahahahaha.
Será que valho alguma coisa no mercado negro?
Quase nada, ela falou e seguiu rindo e analisando meu silêncio enquanto eu bebia meu conhaque compulsivamente. Sabe, se tu não tivesse sempre coesse copo ao alcance da boca, e não tivesse olhado pra, no mínimo, cinco bundas que passaram por aqui e conseguisse ficar um minuto sem olhar as minhas pernas, eu diria que tu podia ser um monge ou sei lá.
Bebida, bundas e pernas. Se é assim, nunca vou ser um monge.
Tudo bem, mas faz mais sentido do que parece.
Só por que eu tô quieto?
Sei lá, tu é todo tranquilão, a gente tem amigos em comum, eu sei que teu mundo tá desabando faz um tempo, eu sei que tu é cheio de merda, e tu tá aí, quieto, olhando minhas pernas, todo tranquilão.

Ela não sabia das coisas. Não sabia que se tirasse suas pernas dali, talvez, eu arranjasse encrenca com o primeiro mala que se pendurasse na minha mesa. Mas ela achava que sabia das coisas e o que ela sabia é que tinha belas pernas. Uma mulher com belas pernas na minha frente, até certo ponto, pode se dar ao luxo de achar que sabe das coisas. Os olhos dela também eram tristes, seu sorriso era real mas quando acabava parecia ser algo muito passageiro. Como o sol que às vezes dribla as nuvens e aparece por uns cinco minutos numa tarde nublada. Merdas do tipo. Ela colocou as pernas pra baixo da mesa, o que me deixou puto por uns dois segundos, até ela começar a esfregá-las em mim.

O namorado dela chegou com uns amigos, de repente, de surpresa. Eu não sabia que ela tinha namorado. Ela fez uma cara de sacana, como se tivesse fazendo algo errado, e talvez estivesse lá dentro dela e  – a não ser as leves roçadas de pernas – ainda não tinha posto nada muito errado pra fora. Provavelmente se o cara não chegasse a história seria outra. A vida tá sempre me mostrando que eu não devo confiar em mulheres. E não é machismo. Apenas não tenho motivo pra querer confiar em homens. Se eu me envolvesse com homens, provavelmente, não confiaria neles também. O namorado parecia um cara bacana. Ela pediu licença e o abraçou e o beijou e ficou conversando com ele o os amigos. Eles pareciam ser muito engraçados. Ela ria pra burro. O namorado não olhava os olhos dela quase nunca e quando olhava parecia não perceber muita coisa. Tem gente que tem a manha de deixar a tristeza só nos olhos, tem gente que a transforma em enfeites de natal. Eu segui bebendo, olhando pra eles, pra outras bundas e pras pernas dela. Os amigos do namorado dela iam ao banheiro e trombavam na minha mesa achando que aquelas trombadas eram verdadeiros ataques à moda Pearl Harbor. Eu apenas encarava o rosto deles, dava um gole, eles desviavam o olhar. Enquanto não me convocassem pra guerra ou derrubassem a minha bebida, eu ficaria ali, intacto, como se filhos da puta também hibernassem.

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16 Respostas to “bons filhos da puta II”

  1. adriana godoy Says:

    Bandido, essa mulher é uma sacaninha mesmo, né? “eu ficaria ali, intacto, como se filhos da puta também hibernassem.”

    Cada vez melhor, cara. Gosto muito de vir aqui e encontrar essas preciosidades. Beijo

  2. brunobandido Says:

    pra mim, todas mulheres são. e eu gosto um bocado de todas. um beijo.

  3. Edy Nunes Says:

    Tu é um cara certeiro, Bandido. Gosto muito disso.

    “…eu sei que teu mundo tá desabando faz um tempo…”

    “A vida tá sempre me mostrando que eu não devo confiar em mulheres.”

    Estes dois trechos acimas me pegou de jeito. É algo similar nesta minha conturbada e diária vivência que, constantemente, tento me esquivar de um lado para o outro com um jogo de pernas exausto e sem coordenação. O resultado é sempre o mesmo: um nocaute contundente da talentosa vida sobre mim. Ando desacreditado com um bocado de coisas. E isso não é lá muito inteligente e confortável nos dias de hoje.

    Baita texto, cara. Abraços.

  4. Maria Eduarda Says:

    Tem gente que tem a manha de deixar a tristeza só nos olhos, tem gente que a transforma em enfeites de natal.

    Lindo isso, Bandido.

  5. Diego Moraes Says:

    Eu sou teu fã pra caralho Brunão. Que texto foda, brother.

  6. lucas adabo Says:

    muito foda o texto..

  7. rocha Says:

    tenho que reler amanhã.. to bebado..

  8. rocha Says:

    eu li agora pouco bebado e achei uma merda.
    aí eu reli nde novo , um pouco menos bebado.
    e também achei uma merda.

    e pá.. te leio e gosto, na maioria dos textos.
    mas, desta vez, achei uma mer5da, bandido.

    saca, né?

    grande abraço!

  9. MIriam Says:

    Filhos da puta não hibernam Bruno, isso é certo.

  10. Bruna Says:

    É.. gostei.

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