sobre aquela voluntariosa pedicure e meu desleixo com explicações

A noite tá quente e úmida. Fico escutando o Closing Time do Tom Waits – lembrando daquela garota que me falou que a palavra umidade pedia por um H. Eu não comentei nada a respeito. Ela olhou meus pés na areia e falou que podia dar um jeito nas cascas de antigas bolhas que estouraram neles. Prefiro gastar dinheiro em coisas mais produtivas, eu disse pensando em outra cerveja.
Não vou te cobrar, seu besta.
Tu quer tirar resquícios de bolhas dos meus pés por vontade própria?
Quero. Isso é estranho?
Talvez não se fôssemos amantes e tu tivesse desenvolvido um tipo bem doente de amor. Mas a gente recém se conheceu.
É, as pessoas dizem que eu sou maluca, ela disse, e eu fiquei ali, em silêncio, olhando as irregularidades embaixo dos meus pés e pensando em que tipo de amor que não é doente, afinal.

É nisso que eu tô pensando agora, nessa noite abafada e úmida em que escuto Closing Time. O Tom Waits cantando “Eu espero não cair de amor por você/ porque me apaixonar só me deixa triste/ bem, a música toca e você me mostra o seu coração/ Eu tomo uma cerveja e agora eu ouço você me chamando/ eu espero não cair de amor por você.”

Aquela garota não era lá muito maluca. Claro que a gente nunca sabe o quão psicopata uma pessoa pode ser até acordar amordaçado e pronto pro abate. Mas eu nunca me preocupei coessas coisas. Ofereci um gole da minha cerveja, ela sorriu e aceitou e a gente ficou conversando o resto da noite, olhando a água com os pés fincados na areia, e eu posso garantir que já conheci malucas bem mais perigosas do que aquela. E eu posso lembrar de algumas agora. E eu poderia escrever sobre elas se não fosse a falta de saco pra escrever nesse blog ultimamente, se eu precisasse dar qualquer tipo de explicação pra mim mesmo. Há tempos deixei de me preocupar com explicações. “Bem, a noite faz coisas engraçadas dentro de um homem/ Esse velho Tom tem sentimentos que você não entende”, ele canta, e tá recém na segunda faixa do disco e eu não preciso de mais nada por hoje.

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8 Respostas to “sobre aquela voluntariosa pedicure e meu desleixo com explicações”

  1. Diego Moraes Says:

    “A gente nunca sabe o quão psicopata uma pessoa pode ser até acordar amordaçado e pronto pro abate. Mas eu nunca me preocupei coessas coisas.” Maravilha de frase, bruno.

  2. adriana godoy Says:

    ” e eu não preciso de mais nada por hoje”

    Bandido, é isso. Beijo

  3. Sérgio Says:

    Tom Waits é foda. O “Closin Time” e o “Heart of Saturday Night” têm vários tesouros escondidos.

  4. Sofia H. Says:

    sempre há coisas/pessoas mais malucas no mundo que a gente imagina. as experiencias passadas só servem pra gente aumentar de level. talvez chegue um tempo em que você pense “ah, cansei de maluquice, quero algo normal, pra variar”. nesse momento você se encontrará num show de sertanejo universitário, procurando pessoas que, naquela hora, estarão em casa escrevendo num blog sobre situações malucas e pessoas de hábitos peculiares.

    (ok, era pra ter sido só um ‘oi’, mas saiu isso tudo.)

    • brunobandido Says:

      pode escrever à vontade, Sofia. mas garanto que não vou em show de sertanejo universitário pra procurar mulher. inclusive sofro muito com isso aqui no interior onde tô agora – pra achar mulher tem que vender a alma ao diabo.

      um beijo, sofia.

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