Ela me liga de uma chamada de longa distância no meio da noite chorando como se tivesse acordado de um sonho ruim – só que ela ainda nem foi pra cama. Os sonhos ruins são seus últimos problemas. Eu tô aqui no interior do mundo bebendo com um pessoal. Os caras falam de discos do Belchior (e o Belchior também anda aqui por perto, por sinal, mas com um motivo totalmente diferente do meu, o Belchior tá procurando paz, se é que ele acredita nisso) e uma mina tenta me falar daquele negócio chato de natal e solstício de inverno. Eu me distancio e converso um pouco no telefone, falo o que a cabeça de um cara que tem seu bunker numa garrafa me permite falar. Depois ela desliga ainda chorando, diz que vai dormir pra sempre, e eu fico coaquela sensação de dever não cumprido, mesmo que eu não tivesse dever algum, que ela só quisesse por algum motivo maluco escutar minha voz fudida – compro outro bunker pra mim. Como eu ia dizendo, diz a mina, a época do natal foi escolhida… Eu a interrompo. Digo que já ouvi isso aí. Ela quer seguir o assunto, dar sua opinião, ouvir a minha, já que eu disse que sei a respeito, enfim, ela quer ter uma conversa normal, eu que sou um caipira fechado e, como dizia o Raul, acho tudo isso um saco. Eu sei de tudo, mas não me interesso por nada. Você se acha alguma grande coisa, né? Ela diz. Sim, eu respondo, me acho uma grande merda. Nessa hora meus amigos tão cantando Roberto. Você vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim. Ela se interessa pelo fato de eu ser uma grande merda. Quer ouvir minhas reclamações a respeito de mim mesmo e eu já tô achando que ela queria ouvir qualquer bosta de qualquer idiota, só um pouco de atenção, carência, carência, carência, como aquele disco da Amy Winehouse ou chamadas de longa distância. Mas eu não sou do tipo que apresenta meus demônios em praça pública (eu tenho um blog pra isso. E não apresento nem a metade deles aqui, não vai ser pruma garota de solstício de inverno…)  Então digo que se ela quer ouvir lamentos que compre um cd que tenha o Renato Russo dentro. Ela começa outro assunto. Fico pensando que já não seria desagradável se ela esgotasse tudo e tivesse que partir pra putaria. Mas não vejo essa hora chegar. Mais agradável ainda é se mandar. Levanto da mesa sem me despedir, como se eu fosse ao banheiro, e caio fora. Meus amigos tão lá, cantando velhas canções, fazendo trilha pra minha fuga silenciosa. Fico pensando que não seria desagradável se Lady Longa Distância tivesse comigo, voltando bêbada pra casa sobre paralelepípedos, e ela poderia chorar, e eu não ia precisar dizer uma palavra sequer.

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4 Respostas to “”

  1. Adriana Brunstein Says:

    malditas incomunicações, né? (desnecessário dizer que gostei pacas)

  2. diegodrocha Says:

    saiu de cena com trilha e com uma Lady Longa Distância… grande bandido

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