poema bêbado e preconceitos e entrevista bukowski

E ela disse que eu não sei o que quero

Eu quero te dizer que o tempo tá feio e sujeito
a trovoadas, que já abri a janela e fechei
e a gente vai ficar em casa e fuder
até amanhã de manhã.
Eu quero mirar teus meio sorrisos
em cima do colchão
dizer que todos os outros caras eram babacas
e que todas minhas mulheres eram malucas
e que também sou
louco e babaca
mas eu fechei as janelas e você vai demorar
pra se ligar.
Quero te tocar enquanto tu lê Tex
na minha barriga,
enquanto bebo a minha bebida –
eu quero te jogar a minha bebida
e lamber.
Quero gozar e escutar os raios lá fora,
e lembrar que eu sou ainda mais triste lá fora
enquanto entro naquela solidão abrupta
depois de gozar.
Eu quero que os raios me escutem
engolir teus gemidos
e que os vizinhos te escutem
e teus olhos tristes me entristeçam
e me chamem pra luta
e façam de conta
e dissimulem e mintam
porque você tá viva, afinal.
Eu vou colocar Charles Bronson na tv
te ver dormindo entre um tiro e outro
entre uma lata de cerveja
e uma queda de luz.
Eu quero fuder até amanhã de manhã
aliciar tuas pernas
ensinar tua melancolia tiro ao alvo
enquanto você
– maluca e babaca –
acha que tudo vai ficar bem.

_______________________________

Há tempos me bitolei em mim mesmo. Não é porque gosto de mim, muito pelo contrário, é por questão de tranquilidade. Eu não me interesso pela maioria das pessoas, pelo que elas conversam, pelo que elas fazem ou sentem. Quando um amigo me chama de preconceituoso por alguma opinião minha que insisto em não mudar, eu digo Me aponte um homem sem preconceitos e eu componho um samba pra você. Até hoje, nunca compus nenhum samba. Um homem precisa dos seus preconceitos pra ser ele mesmo.
Eu tava lendo esse livrinho que comprei no Uruguai. ‘Lo que más me gusta es rascarme los sobacos’ – é aquela entrevista famosa que Fernando Pivano fez com Bukowski.

Saquem esse pedaço que traduzi mal e porcamente:

“Buk – (…) Eu não amo a humanidade, entendes?

Pivano: Sim, isso se nota claramente nos teus escritos. Mas me pergunto as causas. Onde estão as causas de tudo isso, onde e quando começaram, por que não amas a humanidade?

Buk: Vejamos… Eu não analiso jamais, me limito a raciocinar. Se não gosto de algo, não me meto. Mas nunca procuro descobrir: “Por que não gosto disso?”. Eu ando com todos os meus preconceitos. Jamais procuro melhorar ou aprender algo, sigo sendo exatamente o que sou. Não sou um tipo que aprende, sou um tipo que evita. Não tenho vontade de aprender, me sinto perfeitamente normal dentro do meu comportamento louco.

(…)

Pivano: E pensas que se aprendes algo sobre ti mesmo te convertes em outra pessoa?

Buk: Se eu for ver os psiquiatras e descobrir onde se cruzam todas minhas linhas, endereçar minhas linhas, bem, provavelmente eu começaria a dar palmadinhas na cabeça das crianças, a sorrir aos vizinhos, e subiria lá em cima pra escrever porcarias que ninguém iria querer ler, porque seria o que todos dizem ou fazem ou fingem dizer e fazer. Quando subo pra escrever é o que sou agora, incorruptivel. Eu mesmo.”

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10 Respostas to “poema bêbado e preconceitos e entrevista bukowski”

  1. Camila Fraga Says:

    teu melhor poema, bandidão haha

  2. adriana godoy Says:

    Porra, Bandido. O poema arrebenta, a entrevista do velho alinhava. Dá pra sacar mais ou menos como vc é, mesmo se eu não tivesse lido tanto vc antes, Parabéns, cara. Beijo

  3. Diego Moraes Says:

    Melhor poema, Brunão. Porrada seca.

  4. Sérgio Says:

    Do caralho! A entrevista é o tiro de misericóridia.

  5. Adriana Brunstein Says:

    belíssimo poema.

  6. Mauricio Says:

    louco & babaca

  7. Lucius Says:

    Eu quero, eu quero, eu quero… Isso tá mais pra início de refrão de música sertaneja.

  8. caracoles Says:

    bien ahí, chabón!
    é por aí. talvez nao se trate nem de preconceito, e sim de gosto mesmo. o que nos apetece, o que laça os nossos sentidos, ou não. e gosto é questão do meio. do início e do fim.
    e aprender é loucura pura, a loucura mais absurda em ser um humano, tu mesmo, escrevendo distraidamente umas coisas do caralho, aprendendo a cada piscar de olhos na tela do computador ou no caderninho. não acho que se deva procurar o que aprender, tá tudo aí querendo ser aprendido, aí é questão de gosto pra escolher no que prestar mais atenção. prestar atenção é das grandes aventuras deste mundo. o negócio é aprender anarquicamente. abrazo!

  9. caracoles Says:

    bien ahí, chabón!
    é por aí. talvez nao se trate nem de preconceito, e sim de gosto mesmo, o que nos apetece, o que laça os nossos sentidos. o gosto é resultado do meio, do início e do fim.
    aprender é das maiores aventuras de ser um humano. prestar atenção é das maiores loucuras às quais podemos nos dar o luxo, dedicar percepções e outras lisergias. tu mesmo, aí, aprendendo muito a cada coisa distraidamente do caralho que escreves.
    o lance é aprender anarquicamente.
    abrazo!

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