A fotografia de um antigo urso pichando muros

O Diego Moraes comentou nesse blog há uns anos atrás. Entrei no link que ele deixou e curti o que ele escrevia também. Depois me mandou o primeiro livro dele, Saltos Ornamentais no Escuro. Tem coisas bacanas, embora eu tenha implicado com alguns excessos e regionalismos.

Enquanto isso, viramos amigos e eu seguia lendo os contos que ele colocava no blog. É impressionante como ele foi melhorando como escritor. Ele melhorou muito em muito pouco tempo, na verdade. Foi desenvolvendo um estilo muito próprio, pegando emprestado elementos de roteiros cinematográficos e enchendo isso com cortes abruptos e imagens surrealistas de arranhar Bob Dylan, e, por sorte minha como leitor, limando todos seus excessos e regionalismos forçados pra deixar só o essencial, sem explicações, o leitor que se vire.

Diego já se vira muito bem.

Escreveu centenas de contos (ou seja lá como se chama o que ele escreve) e os melhores foram parar nesse grande livro chamado A Fotografia do Meu Antigo Amor Dançando Tango – recém lançado pela editora Bartlebee, que mês passado já lançou um livro de poemas de Tadeu Sarmento e, em breve, lançará uma puta novela bacana da Camila Fraga.

Diego Moraes é do Amazonas e se auto-denomina um urso. Ele inventa cidades que já existem mas ele não conhece. E eu fico pensando até que ponto a Manaus de seus contos existe ou foi – assim como Pelotas, Águas de Lindóia e São Petersburgo – boladas estrategicamente dentro do bar Castelinho. Esse é o bar que Diego bebe. O Castelinho. E quando se lê o seu livro e se entra em contato com seus personagens, a impressão que dá é que todos poderiam beber lá também, mas que de repente todos poderiam virar evangélicos ou testemunhas de jeová, que bailarinas poderiam lutar boxe e que qualquer boxista teria seu coração esmagado nas primeiras três notas de Chopin. E que todos eles constroem castelos internos e rezam pra que alguém tenha a manha de derrubá-los de jeito. Diego Moraes percebeu os estragos que a carência e a solidão podem fazer numa pessoa, e as contradições ambulantes que elas se tornam no meio disso tudo. E tá tudo aí. Nesse livro foda que cês devem comprar.

Por enquanto, ele tá a venda nos sites da Livraria Travessa e Cultura.

Aqui a capa e o  prefácio de Tadeu Sarmento:

“A primeira coisa a ser dita é que Diego Moraes não é escritor, mas cineasta. Coloquem uma câmera em suas mãos e ele fará algo entre Cassavetes e Tarantino. A segunda coisa a dizer é que, depois desta primeira afirmação, nada de mais importante será dito sobre Diego Moraes. Ocorre que qualquer fato pode ter várias versões. Vamos apresentar outras. Conheci Moraes em 2003. Sempre o via pelos bares do centro de Manaus, seguido de perto por um séquito de puxas-sacos que o considerava um novo Rimbaud. Na época, Moraes acabara de ser demitido do emprego de maqueiro da UTI de um grande hospital da cidade. Apesar de não exercer mais a função, os cadáveres continuavam a segui-lo. Impressionava-me na época a paixão que Moraes tinha pelas narrativas que escrevia, as quais ele sacava do bolso em papéis escritos à caneta bic azul e amassados como suas esperanças. Eu não entendia como sua vontade de escrever poderia ser tão diametralmente oposta à sua falta de leitura e de conhecimento literário. Porque na época Diego Moraes havia lido pouco e talvez nunca tivesse (até então) lido um único livro inteiro. Só que nele a ignorância se revelava não como defeito, mas qualidade. Pois do pouco que sabe Moraes extrai muito, e este “muito” chega às mãos do leitor sem os filtros teóricos do bom-senso ou do bom-gosto. Esta falta de verniz literário cede às suas narrativas este ritmo abrupto, ingênuo, e conciso, que têm – uma aparente falta de acabamento que Moraes aprendeu das lições que tomou de John Fante. Aliás, “1933 foi um ano ruim” talvez tenha sido o único livro que Moraes leu inteiro. Notem como suas narrativas acabam quase todas subitamente inconclusas, como se ainda sofressem da falta de jeito dos rascunhos. Podemos chamar esta técnica de estética do coito interrompido, que Moraes aprimorou intuindo cortes cinematográficos para seus textos breves e enlouquecidos. Em seus diálogos, por exemplo, Diego Moraes chega a atingir a perfeição entre imagem e ritmo. Só que esta perfeição não foi alcançada no estudo das peças de Beckett, mas assistindo aos filmes da Sessão da Tarde, a partir dos quais Moraes esmerilhou sua esgrima fraseada repleta de interrupções (leiam Anais Nin do Butantã e concordem comigo).
De resto, Moraes escreve para se vingar – de ex-namoradas, de antigos e novos desafetos (dentre os quais se encontram muitos dos que, em 2003, compunham aquele séquito de admiradores). E a vingança é o melhor combustível para a escrita. Sobretudo para Diego Moraes, que é um sujeito deliciosamente paranoico – ótima qualidade para um escritor. Tanto que você não gostaria de tê-lo como vizinho. Mas, obviamente, adorará tê-lo na prateleira de sua biblioteca. O que temos então em Fotografia do meu amor dançando tango é uma colagem híbrida de narrativas que passeiam entre a Sessão da Tarde e a literatura consumida às pressas. São narrativas curtas, nas quais o autor não perde tempo com descrições, preferindo ir direto ao centro do tumulto no qual suas personagens respiram.
Leiam Fotografia do meu amor dançando tango. Mas o melhor seria filmá-lo.”

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4 Respostas to “A fotografia de um antigo urso pichando muros”

  1. Igor de Albuquerque Says:

    Endosso.

    Também acompanho o Urso pela net e gosto muito de sentir, como diria Samuel Rawet (que não gostava de volumes grossos), a garra do monstro lendo seus textos.

    Vou atrás do livro!

  2. | Bartlebee Editora Says:

    […] resenha sobre Fotografia do Meu Antigo Amor Dançando Tango, de Diego Moraes, no blog do Bruno Bandido:   O Diego Moraes comentou nesse blog há uns anos atrás. Entrei no link que ele deixou e […]

  3. O Fingimento do Urso ou “A fotografia do meu antigo amor dançando tango” « trajes lunares Says:

    […] texto sobre o livro do Diego Moraes, aqui, no blog do Bruno […]

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