fechado para balanço

Eu tive essa garota que era a filha da puta mais doce e, ao mesmo tempo, sincera que conheci. Digo ‘ao mesmo tempo’ porque a sinceridade é cruel. Ela falava barbaridades pras pessoas e pra mim – verdades desconcertantes – e ninguém conseguia ficar puto com ela. Quando foi pro hospital, eu brinquei que ela ia ficar bonitinha careca, mas era uma brincadeira séria. Ela sorriu e disse preu lembrar de uma música do Warren Zevonsombras estão caindo e eu estou perdendo o ar, keep me in your heart for awhile.  Rebati com Wild Horses (mas claro que subestimei os cavalos selvagens). Dias depois ela morreu. Tive outra garota que tentou se matar quatro vezes enquanto eu tava com ela. Era feia como o diabo e tinha um beijo horroroso e um hálito seco de anfetaminas e, por suposto, era um fracasso em suicídios. Eu a amava. Ela nunca escondeu que eu era o culpado de tudo. Isso acabava comigo, mas me deixava tristemente satisfeito. E eu pensava naquela frase “Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras; e por tudo isso, ando cada vez mais só” – acho que é do Caio Fernando Abreu, ou sei lá, tudo é dele hoje em dia, afinal. Mas eu não podia reclamar de doçura ou clareza, eu tinha uma sorte danada que essas pessoas me aguentavam e me queriam por perto e mesmo assim eu tava cada vez mais só. Sempre na minha condição de filho da puta bêbado e fechado. As mulheres nunca aguentaram o fato de eu não lhes apresentar um demônio sequer pela boca ou fazer festinha na minha angústia. Mas elas simplesmente nunca mereceram todas essas minhas merdas. Seria injusto. Eu mereci. E sempre me contaram suas histórias tristes e eu sempre tentei ajudar do meu jeito, mas o máximo de conselho que sei dar é foda-se isso tudo, ou foda-se aquele cara ou foda-se o teu pai.  Andei com uma menina que foi estuprada pelo próprio namorado quando achou que não tava pronta pra perder a virgindade. Eu era o primeiro cara desde então. Ela apagou as luzes e me contou na cama, antes de treparmos, e percebi que Lobão tava certo e nem sempre se vêem lágrimas no escuro. E andei com duas que foram abusadas pela empregada na infância. E também comentaram, assim, logo de cara. A empregada de uma delas cortou a cabeça do marido com um machado e foi presa e, daí, pararam os abusos. Pelo menos foi o que a menina contou. A de outra seguiu trabalhando em sua casa por muito tempo. Era uma ótima empregada. E também tive essa garota que me furou a testa com uma caneta bic quando pensou que tava grávida e percebeu que ela não era mais importante pra mim do que um gibi do Justiceiro. Ela era maluca quando ficava irada e ela ficava irada muitas vezes. Quebrava seus abajures, atirava coisas – depois de uma garrafa de conhaque eu encarava como teatro e entrava em cena e a gente destruía a casa e acabava trepando em destroços antes de ir pro bar. Ela era bonita e chamava a atenção da rapaziada e eu perdi a conta de quantos empurrões e socos eu tive que dar enquanto andava com ela. Mas é claro que caras como eu sempre vão ficar pra trás. Uma hora elas não vão aguentar mais ir pro bar. Em outra, não vão querer mais você no bar. Você vai ir porque simplesmente é assim que tem que ser com você. Não é bom e, talvez, seja ruim, mas é assim que tem que ser. Então elas vão cair fora. Mas é claro que eu amei todas elas. Mas é claro que eu sempre me senti absolutamente sozinho mesmo amando cada uma delas. E é claro que eu falo que tive algumas delas, mas isso é apenas uma figura fajuta de linguagem, a gente nunca tem. E que ainda me emociono quando escuto aquela música do Warren Zevon. E ainda tenho um pequeno furo na testa por dar mais valor aos gibis. Meus amigos não acreditam na minha juventude. Eu ter vinte e poucos anos não quer dizer nada pra eles. É como se eu fosse um velho – terrivelmente imaturo – mas velho. E talvez eles estejam certos. E talvez eles ainda subestimem cavalos selvagens. E talvez eles tenham sorte por conseguir. Mas, bem, escrevendo esse texto aqui não tem como eu pensar que seria o contrário. E isso é só uma parcela muito pequena de tudo. É uma análise pela metade e resumida ‘para o seu filho ler’. Sabe quando você fica sozinho e até quer chorar escondido e as lágrimas simplesmente não aparecem? Isso aqui é uma delas, que eu nunca conheci.

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10 Respostas to “fechado para balanço”

  1. Rodrigo Ferreira Says:

    Texto do caralho, Bandido. Um jab certeiro. Escrever é o mais importante. Grande Abraço aí, falou…

  2. revistaclitoris Says:

    mó foda, uma pena que não vai publicar na revista! 😦

  3. Diego Moraes Says:

    Reli agora é achei foda, brunão.

  4. Pedro Pellegrino Says:

    “só um post normal de blog.”, Imagina quando o cara começar a escrever… rs, abração,brother.

    • brunobandido Says:

      que é isso, pedrão. o que eu quis dizer é que não tem muita literatura aí. é mais uma espécie de descontar umas pendências comigo mesmo pra não ter que encher o saco de ninguém. grande abraço.

  5. yasmin Says:

    os seus textos são os melhores, cara. você tem que publicar isso mais cedo ou mais tarde, não to brincando.

    • brunobandido Says:

      valeu, yasmin. esses textos de blog não vejo muita graça em publicar, nem tenho vontade.
      não tem muita literatura e invenção ou essas pretensões
      mas tenho um conto publicado na revista Granta nº8, se quiser ler.
      um beijo.

  6. yasmin Says:

    onde acho?

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