só é possível ser feliz fingindo

eu tento acreditar no controle. tem uns meses que não sangro a mão com socos na parede. que não arranjo briga no bar. que não mando aquele cara à merda. eu tento não ligar pra ela e dizer que tá tudo acabado. nem discar às duas da manhã pra falar que sinto saudade, porque, bem, ligações noturnas tão longe demais da sinceridade. e tento evitar qualquer espécie de jogo. sabe, às vezes eu ainda preciso de um nariz pra quebrar, fuder no banco de trás de um velho Kadet e daquele disco do the freewheelers pra ouvir a todo volume. tem aquela garotinha que pediu um gole da minha dose de whisky, eu neguei, e ela voltou a sua mesa pra falar de maiakovski com amigos. belas pernas. eu tento acreditar no controle. então vou ao cinema sozinho assistir o  novo do woody allen na sessão da meia noite. ela tá lotada e um exército de pipocas é brutalmente esmagado. eu sento numa fileira solitária mas não dura muito tempo assim. no meu lado direito entra um casal – o garoto com vinte anos, a mulher com uns quarenta. o garoto ri indiscretamente de todas as piadas do filme. a mulher olha pros lados cheia de vergonha procurando cúmplices pra se desculpar com os olhos. no lado esquerdo tem um gordinho que não para de tirar sanduíches do mc donalds da mochila. não é tão difícil perceber que não há ninguém feliz. caminho de volta pra casa, um bêbado canta aquela música do Erasmo que diz “mãe, não sou mais menino…”, um velho Kadet passa na rua em alta velocidade e eu rio discreto e finjo que eu já tive bons tempos e sigo caminhando com a distração de quem chuta pedrinhas sem pedir sorte ou saúde e precisando de ambas, como no poema de sergio mello. eu tento acreditar no controle. tempos atrás andei com uma garota que tinha namorado. ela dormiu comigo e de manhã foi pra sala atender a ligação do cara e dizer eu te amo, também tô com saudade. e aquilo parecia mesmo sincero. a fidelidade é um elemento subjetivo. tempos atrás eu peguei um ônibus interestadual. um cara sentou ao meu lado. prefiro quando são mulheres que sentam. é óbvio que eu não vou fazer nada nem tomar nenhuma providência de investida, mas apenas prefiro. abri o Cartas Na Rua e fiquei lendo. uma mulher entrou e disse pro cara que aquele assento era dela, ele pediu desculpas e saiu. bukowski? ela perguntou. é, eu disse. acho ele um barato, ela disse. quem ainda fala ‘um barato’? falei um aham com minha habitual antipatia e segui lendo o livro. eu tava numa bruta ressaca naquele dia. no meio da viagem peguei no sono, acordei com ela roçando suas pernas na minha. deixei que continuasse, ela intensificou as roçadas, coloquei o livro por cima das calças numa tentativa fajuta de disfarçar volume e voltei a dormir. quando chegamos na rodoviária, pensei que talvez pudesse falar algo, chamar pra dividir um táxi e trepar com ela, essas coisas. descemos do ônibus e seu namorado lhe esperava. ela o abraçou e falou ‘que saudade!’ e ficaram se beijando por um tempo. a fidelidade é um elemento subjetivo. caminhei até o centro da cidade e sentei num bar. naquela noite encontrei amigos, acabei tomando duas garrafas de whisky sozinho e nem lembro como parei na delegacia.

Anúncios

17 Respostas to “só é possível ser feliz fingindo”

  1. Diego Moraes Says:

    Pauleira.

  2. Edilva Bandeira Says:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…só vc mesmo Bruno Bandido… querendo ter controle? Acho que vc ainda é muito jovem…

  3. adriana godoy Says:

    texto fudido de bom! por sinal,isso não é novidade. mas esse bateu mais forte. beijo

  4. Luciana Says:

    E ele nunca vai mudar…

  5. Pedro Pellegrino Says:

    Tinha gostado mais do outro começo desse texto e o título que você mudou. Alterou outras coisas. Mas ficou legal desse jeito também. Abração.

  6. Pedro Pellegrino Says:

    Valeu,man! Vai ser foda.

  7. Igor de Albuquerque Says:

    A fidelidade é um barato, creio. E o controle vc exerce nos seus textos. sempre melhor, o bandido.

  8. Anônimo Says:

    Pensei em um elogio, mas não veio nenhum. Bom… Volta e meia te leio, mas nunca deixo comentário. Então, taí.

    Escrever é foda, nunca sabemos se somos lidos. Ler é bem melhor…

  9. Lucas Barroso (@lsbarroso) Says:

    Pensei em um elogio, mas não veio nenhum. Bom… Volta e meia te leio, mas nunca deixo comentário. Então, taí.

    Escrever é foda, nunca sabemos se somos lidos. Ler é bem melhor…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: