os babacas que somos

Eu tava lendo essa nova peça do Mário Bortolotto, Quartos de Hotel, que tá em cartaz em São Paulo, agora. É uma espécie de incursão dele pelo lado menos frio da cidade. Claro que dá pra sacar que é tudo triste do mesmo jeito se você tiver a manha de não ser um frequente habitué do lado menos frio da cidade e ter a mente livre das preocupações idiotas e alegrias efusivas que fazem com que essa gente não fique o tempo todo pensando em por que são tão tristes e, talvez, nem se deem conta disso (o que poderíamos chamar de sorte). Tem uma pegada meio Raymond Carver, nesse sentido. E tem toda essa visão sobre as mulheres, essas ótimas filhas da puta com suas indecisões e jogos e interesses e chatices e bundas. Mas é o que eu vi na peça, tu pode ver outra coisa. E se eu for comparar com outras peças dele –  as que focam no lado mais frio da cidade – eu veria menos desolação, menos percepção de ser fudido e menos caráter nos personagens que transitam por ela. A peça mostra várias situações, com personagens diferentes, em um quarto de hotel. Tem essa parte em que é só um cara no telefone com a namorada, ele teve uma briga com ela e foi acertado na cabeça por um Aurélio e faz um drama cínico quanto a isso e reclama dos amigos chatos e cults do garota, e da sogra, e de ela querer comer comida japonesa, essas merdas. Eu tive uma garota exatamente assim. Desde o fato de atirar coisas na cabeça até os amigos que adoram a nova banda de Londres ou comida do Japão. Eu sempre resisti à culinária japonesa, nunca frequentei esses ambientes com ela nem com ninguém – quero dizer, sempre pensei que não há motivos pra comer esse tipo de coisa se já inventaram o Xis Bacon. Mas ela me pagava um Dogão da República na Cidade Baixa quando eu tava bêbado e precisando comer. A gente tinha umas brigas fudidas. Depois delas, era quando eu fazia esse mesmo drama cínico de bêbado e avacalhava seus amigos hypados. Uma coisa muito desnecessária de se fazer. Daí, agora, eu fico pensando nisso e coloco um episódio de Louie pra assistir e é tudo a mesma merda, e as pessoas são tudo a mesma coisa quando vistas de fora – essa combinação filha da puta entre idiotice e melancolia. Toda a graça que desgraça proporciona. Umas mais desoladas, outras menos, mas ainda engraçadas e idiotas e melancólicas. Sei lá, baixem episódios de Louie, assistam Quartos de Hotel se estiverem em São Paulo, ou, no dia que tudo der errado, parem na calçada em frente a um restaurante japonês com uma garrafa de vinho na mão e olhem lá pra dentro durante uns cinco minutos. Cês talvez vão rir de canto de boca e talvez fiquem mais tristes e, depois, vão seguir caminhando como os bons babacas que são.

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7 Respostas to “os babacas que somos”

  1. Camila Fraga Says:

    quando fecharmos uma aposta, ainda te faço comer comida japonesa, só pra te encher.

  2. Edilva Bandeira Says:

    Eu curto seus textos pra caramba, eles me levam a um tempo passado, não sei porque..talvez seja porque seus textos tem ecos de uns caras que eu li na minha adolescência…não sei se isso é um elogio..acho que sim, pois as coisas que lemos na infância ou adolescência carregamos pra vida inteira, pois nessa primavera da vida, a mente tá fresca, intocada, inexplorada, depois, bem, depois… lemos coisas que já não impactam tanto….kkkkkkkkkkkkkkkkk

  3. alex Says:

    “louie”é realmente um seriado do caralho…muito bom…valeu pela dica…assisti 2º temporadas quase que sem parar…

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